sábado, 26 de setembro de 2015

tanatose

... ou play dead

O automóvel seguia silencioso numa via de duas faixas em linha recta. Izabela dormia no lugar da frente, conseguia vê-la através do espelho retrovisor, a cabeça abandonada, se eu fosse Romeu, pensaria que Julieta estava morta e emborcava o veneno. Os seus cabelos castanho claros, cortados pelos ombros, eram tocados por ínfimas partículas róseas, da onda mais longa que cruzava a atmosfera. Eu invejava-a, a ela e ao casalinho que dormia ao meu lado no banco de trás.
Marek, o proprietário do pequeno peugeot e do coração de Izabela, tirou o som ao rádio e não trocou uma palavra, nem quando parou na estação para fumar um cigarro e eu aproveitei para esticar as pernas. Achei que era gajo para me abandonar ali, e não me afastei muito.
Enquanto escrevo isto, visto o casaco que emprestei a Izabela quando chegamos ao báltico, está impregnado com o seu cheiro, mas valeu o sacrifício de ter rapado um frio do caraças. Também segurei-lhes as portas e outros hábitos que só os velhos cavalheiros conservam, elas gostaram, eles nem por isso.
Tentei fechar os olhos, nas margens cresciam grandes árvores frondosas que esmagavam a luz, parecia um sonho. Voltei a olhar para ela, aconchegada no meu casaco, imaginando como seria despertar ao seu lado a meio da noite e ficar acordado só para a ver dormir. Nomeei-a musa instantânea, daquelas que basta juntar água e voilà!
Este atributo deve correr nos genes, Izabela é a irmã mais nova de Alicja, a loira que me mostrou Budapeste durante a segunda grande ressaca do milénio, ambas são demasiado novas e comprometidas, ideais para musas. Isto pode não fazer muito sentido, mas acreditem que sou um entendido em musas. Mais do que em mulheres. E nestes anos de aprendizagem, notei que quanto mais jovens e comprometidas, mais distantes as podia (e devia) manter. O relacionamento com musas é catastrófico para a escrita, a alma fica cheia e as palavras tendem a voar.
Izabela consegue ser ainda mais bela que a irmã, o cabelo castanho avoluma os oceanos imensos que lhe saltam das orbitas. Isto não soa nada romântico, mas sinto-me naufragar sempre que me mira, e agarro-me a onde posso. 
No dia seguinte devolveu-me o casaco, foi ter comigo à roulotte e constrangida reparou que ela é pequena demais para mim, talvez porque bati com a cabeça no tecto quando me entusiasmei com a sua presença. Mas não ofereceu metade da sua cama, como eu estava à espera. Nem quis ficar mais um bocado para um chá ou testar a resistência do colchão.
Parece que terei de continuar a fazer-me de morto.


tanatose: [Biologia Estratégia de alguns animais que consiste em simular a mortegeralmente para enganar
 um predador ou uma presa.

6 comentários:

  1. Tás mais para presa de musas, que predador de mares azuis e ondas douradas.
    Play dead, it´s better :=))

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  2. Sei lá! Olha que agora estão na moda os mortos-vivos! :)

    Beijo, Manel. :)

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    1. quando eu estiver na moda, a moda deixa de estar... :D beijo, Maria!

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  3. Estou a pensar em formar uma associação de defesa das musas. Ninguém pensa na perspetiva da pobre musa. É um abuso.

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    1. elas já têm sindicato... é tramado rescindir contratos, eu que o diga...

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