sexta-feira, 29 de agosto de 2014

babo

E porque ando com preguiça e ela é a mãe de todos os vícios, descobri que se bater 4 claras em castelo e misturar uma lata de leite condensado cozido com as gemas já batidas, mexer tudo muito bem e depois incorporar as claras em castelo e aguentar sem comer tudo naquele minuto e levar ao frigorífico durante umas horas... é de babar! 

gosto pra lá de muito das coisas simples...

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

cesto

Estive sem computador quase uma semana por motivos técnicos alheios ao seu utilizador. Houve logo quem me acusasse de visualizar demasiada pornografia de má qualidade, sorte é que o técnico informático a quem deixei o meu precioso portátil supostamente infectado, era homem e mesmo que não seja verdade, todos os homens são propícios à visualização de conteúdos pornográficos, logo não houve qualquer constrangimento. Lembro-me quando era miúdo a pornografia ser algo muito difícil de obter, mas essencial, não havia internet, as revistas eram caras e só os adultos as compravam, eram raros os filmes a passar na tv, mas misteriosamente ela aparecia, ou em pequenos livros, alguns com desenhos bastante grosseiros e cómicos, e eventualmente páginas de revistas rasgadas rolavam clandestinamente no intervalo das aulas, e um gajo ficava a saber com o que esperar quando tivesse de explorar por debaixo daquela camisola de gola alta justa que a Bela usava. Já não me recordo se foi uma festa de aniversário, o que aconteceu é que toda a turma foi convidada para passar o dia na casa da Guida, se para alguns terá sido a melhor festa de que houve memória porque nunca tinham estado numa casa grande com piscina, para mim o que guardei foi a estranha descoberta na casa de banho do andar de cima, onde junto à sanita existia um cesto cheio de revistas com mulheres nuas. Nunca tinha estado com uma revista inteira nas mãos, e mesmo às vezes as páginas arrancadas eram partilhadas por trinta olhos, quanto mais um cesto cheio delas. Pasmem-se senhoras, não lhes toquei, por ventura nesse dia terá tombado algum santo, mas não me pareceu apropriado bisbilhotar a pornografia de outra pessoa, para mim aquilo era pessoal, bizarro estar ali à mão de semear, algo que eu sempre escondi, mesmo quando vivi sozinho. Curiosamente voltei a cruzar-me com o dono do cesto e a sua esposa vários anos depois, num funeral, e a ideia dele sentado na sanita, calças amarfanhadas junto aos pés com os óculos descaídos no nariz a desfolhar pornografia, assaltou-me o pensamento e desde então nunca mais comprei revistas.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

charola

O povo havia subido em massa ao adro da igreja para acompanhar a saída dos santos. As ruas mantinham-se enfeitadas de serradura colorida e flores, alguns verdes dos quintais carregados de varejas onde se erguiam miragens quentes, esperando desde a aurora a passagem do andor. Os acólitos de opas claras bufavam vermelhos de sufoco ainda a procissão estava na roda da igreja, por ordem os santos eram descidos e precipitavam-se para o exterior. Por momentos os altifalantes suspenderam os anúncios amadores, solicitando a participação de um homem para carregar o andor de nossa senhora de Fátima. Podias ir. Disse a moça entediada na tarde. Nem sequer sou católico. Respondeu o homem que enrolava um cigarro na sombra. Eles não sabem. Insistiu a moça que estava menos enfadada. Porque não vais tu. Sugeriu o homem que agora acendia o cigarro protegendo a chama com a palma. Só podem ir homens fortes, o andor é pesado. Respondeu a moça tentando aliciar o homem pelo elogio. Dos altifalantes voltava a ressoar a mesma voz, voluntários precisam-se. Se fores…, disse a moça e aproximou-se do ouvido do homem para lhe sussurrar a última parte da proposta. O homem sorriu pisando o cigarro e dirigiu-se apressado para o adro.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Stern

Mach es wie die Sonnenuhr, zähl die heitren Stunden nur.* 

*provérbio alemão: Faça como o relógio de sol, conte apenas as horas alegres...

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

tordos

Temperou os bifes de frango com o que havia por ali, achei arriscado a malagueta cortada fina, quase estive para o interromper quando espremeu meio limão e barrou tudo com pasta de alho. Depois passou por ovo e numa tábua coberta com pão ralado, martelou os bifes usando o punho fechado, até ficarem completamente panados e espalmados. Confesso que até eu estava espantado com a técnica e enquanto a estrangeira controlava a fritura, o Maltês continuava a dar show. Preparou um refogado com azeite de terras lusas, adicionou-lhe uma cenoura e meio chouriço cortados em pequenos cubos, arroz q.b. sem parar de mexer, até o doce aroma translúcido da cebola dispersar e ligar os restantes ingredientes. Até parecia que sabia o que estava a fazer sob o olhar atento da assistente estrangeira, aspirava o sabor provando o cheiro, antes de atestar de água morna e uma pitada de sal. Quando fechou o tacho, admito que já estava rendido e os convidados sentados e famintos.
Gostava de saber de quem foi a ideia, mas até aposto que o Maltês esperto como é, ofereceu uma garrafa de azeite à estrangeira, e daí até se prestar para cozinhar algo típico foi um saltinho. E elas caem que nem tordos, julgam que ele está a ser simpático e cordial, à medida que se torna um especialista em pratos rápidos e mais ou menos tradicionais, também apura a suprema técnica de engate.

Quando meteu à boca a primeira garfada de arroz, a estrangeira da blusa com andorinhas julgou estar apaixonada pela simplicidade e todos sentados à mesa repararam como corou. No entanto a causa permanece um mistério e até ao momento carece de confirmação, mas há quem diga que enrubesceu porque imaginou o Maltês só de avental esforçado em frente ao fogão. Cá para mim foi o tempero, efeitos do calor da malagueta a dançar na língua, a persistir queimar e espalhar por todo o corpo. Alguém se esticou sobre a mesa para lhe encher o copo, mas eu já estava de saída.
Escandalosamente fácil é o que vos digo.     


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

subclávia

Divorciei-me faz este mês oito anos e parece que foi ontem, no entanto não me lembro em que dia foi, só que foi em Agosto. Não planeamos férias nesse ano mas em Julho ela fez-me as malas, só as minhas, e no mês seguinte tratamos de oficializar a coisa. Estranhamente não atirou com a roupa pela janela como se vê nos filmes, nem atolou a mala de vagas tempestuosas enroladas, desocupando numa maré o roupeiro. Quando a ressaca abrandou, descobri contido numa mala um mar pacífico de camisas e calças engomadas, meias casadas e dobradas.
Há momentos que nunca esquecemos, marcamos encontro no parque de estacionamento, estava um calor insuportável, não havia sombras nem pessoas, parecia que de repente éramos só nós a terminar o que já não fazia sentido. Cumprimentou-me com dois beijos na cara em sinal de paz, estava irritantemente feliz e arranjada, levemente bronzeada. Trazia uma blusa clara de alças finas que atavam nos ombros, deixando expostas as covas triangulares do osso da clavícula. Quantas vezes ali passei demorado por serem tão perfeitas.
Naquele momento, lado a lado como no casamento, não podíamos ser mais contrastantes, ou então verdadeiros como nunca havíamos sido. Talvez fosse isso, não havia máscaras, ocultações, o mundo era cru e ela ali estava finalmente transparente. Subterrado na segunda grande ressaca do ano, não aguentava mais aquela transparência que feria os olhos, nem por detrás dos óculos de sol ela diminuía, por isso acelerei a despedida com dois beijos na cara.

Hoje ao fazer a mala lembrei-me dela e sempre que faço a mala para não ir de férias lembro-me dela. Seria errado extinguir toda e qualquer memória, mas no início pareceu-me o melhor e desfiz-me de tudo que a pudesse trazer, e o que não se desfazia mergulhei em águas profundas inacessíveis. Julguei durante anos nunca ter acontecido, era a vida de outro homem que vira num filme ou lera em qualquer lado. Pessoas felizes em trajes felizes. Mas o cheiro dela, aquelas saliências que conhecia tão minuciosamente voltavam em sonhos de tempos a tempos, rasgando as finas camadas de sedimentos de memórias, infiltravam-se perturbando para sempre as madrugadas. 


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

coagular

Folhas em branco são como trituradores de pensamentos, ficas especado a admirar o cursor no topo, aquela barra intermitente no fundo agreste e as tuas ideias vão sendo reduzidas a estreitas tiras de entulho. É que nem as podes enviar para a reciclagem, ficam tão reduzidas que um simples sopro é capaz de as dispersar. Normalmente é assim que começa. Depois decido fazer café, espreito os restos que possam ter ficado esquecidos pelo frigorífico ou pelas latas no armário, há bolachas que aguentam meses até ficarem impróprias para consumo.
Esta deslocação da cadeira à cozinha pode ser altamente produtiva, mas em noventa por cento dos casos só acumula migalhas entre as teclas. É claro que um estômago reconfortado permite que o cérebro se dedique à elaboração de ideias, em vez do constante pensamento de insatisfação e de imaginar bifes suculentos mal passados pela grelha, com ovos e batatas fritas.
Agora fiquei com fome.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

bisonho

"Bom dia Sílvia!" Disse-lhe com um aceno. Ela torceu o nariz e compreendi que lhe tinha trocado o nome. Não voltou a falar-me durante o resto do dia, evitando ouvir a justificação para o estranho escambo de prenomes. Toda a gente sabia que era um lapso meu chamar Sílvia à Rosário e fazia um esforço sempre que a via para não fazer cagada, mas estava distraído, a pensar na morte da bezerra quando ela passou e disse "olá jeitoso!"
Era uma coisa sem explicação, a Rosário e a Sílvia não tinham nada em comum, nenhuma característica que levasse a confundir uma com a outra e a troca era apenas num sentido, nunca chamava Rosário à Sílvia, aliás, não chamava Sílvia a mais ninguém até porque não havia outra, a não ser à Rosário e é claro à própria Sílvia. Elas até eram amigas, mas pela cara dava para perceber que tinha ficado eriçada. Ninguém gosta que lhe troquem o nome, mas não era caso para tanto. Uma pessoa até se habitua a ser chamada de outras coisas, posso dizer que já ouvi de tudo e até tenho um nome bastante vulgar.
Às tantas desconfiava que eu estava a pensar na Sílvia, se calhar até pensava, ficava sem fôlego cada vez que ela esvoaçava sem passar cartão, de saltos entoando pelo pavimento e o nome ressoava na minha cabeça… Sílvia! Podia repeti-lo vezes sem conta sem enjoar. Era natural que a Rosário ficasse aborrecida, mas não era motivo para me dar aquele nariz torcido antes de virar a cara com asco, porque foi-se a ver e até gostava dela sem saber e por isso lhe trocava o nome.


bisonho: carrancudo... entre outras coisas

sábado, 2 de agosto de 2014

mala

Sou péssimo com números, sempre fui, é como se não encaixassem em lado nenhum, insípidos e frios, desprovidos de colorido, e o problema não se resume a decorar números de telefone, é mais abrangente que isso. Lembro-me da dificuldade que foi aprender as horas, a tabuada, as medidas, mas quando substituía os números por letras, como na numeração romana, tudo fazia mais sentido.

O idiota do meu primo era muito melhor com os números, todas as manhãs decorava o valor que existia na “mala” e a minha avó ficava à espera que o António Sala ligasse e era uma emoção ganhar cinquenta contos ou o valor que lá estivesse. Só conseguia imaginar uma mala gasta, com os fechos avariados, cheia de notas de quinhentos, e punha-me a tentar calcular quantos gelados de gelo poderia comprar com tanto dinheiro, e por isso nunca conseguia estar atento ao valor, ainda menos decorá-lo, e assim a minha avó tinha uma predilecção pelo idiota que decorava números. Aquilo aborrecia-me porque ele não sabia ler MCMLXXXVI, mas decorava o valor que estava na “mala”.

Cinquenta contos parecia uma pequena fortuna, mas eram só 100 notas de 500 escudos, 250 euros… vá, se fosse agora dava para passar cinco noites em Benidorm, um quarto para duas pessoas num apart-hotel ranhoso com piscina a 700 metros da praia. Odeio números.