quinta-feira, 28 de agosto de 2014

cesto

Estive sem computador quase uma semana por motivos técnicos alheios ao seu utilizador. Houve logo quem me acusasse de visualizar demasiada pornografia de má qualidade, sorte é que o técnico informático a quem deixei o meu precioso portátil supostamente infectado, era homem e mesmo que não seja verdade, todos os homens são propícios à visualização de conteúdos pornográficos, logo não houve qualquer constrangimento. Lembro-me quando era miúdo a pornografia ser algo muito difícil de obter, mas essencial, não havia internet, as revistas eram caras e só os adultos as compravam, eram raros os filmes a passar na tv, mas misteriosamente ela aparecia, ou em pequenos livros, alguns com desenhos bastante grosseiros e cómicos, e eventualmente páginas de revistas rasgadas rolavam clandestinamente no intervalo das aulas, e um gajo ficava a saber com o que esperar quando tivesse de explorar por debaixo daquela camisola de gola alta justa que a Bela usava. Já não me recordo se foi uma festa de aniversário, o que aconteceu é que toda a turma foi convidada para passar o dia na casa da Guida, se para alguns terá sido a melhor festa de que houve memória porque nunca tinham estado numa casa grande com piscina, para mim o que guardei foi a estranha descoberta na casa de banho do andar de cima, onde junto à sanita existia um cesto cheio de revistas com mulheres nuas. Nunca tinha estado com uma revista inteira nas mãos, e mesmo às vezes as páginas arrancadas eram partilhadas por trinta olhos, quanto mais um cesto cheio delas. Pasmem-se senhoras, não lhes toquei, por ventura nesse dia terá tombado algum santo, mas não me pareceu apropriado bisbilhotar a pornografia de outra pessoa, para mim aquilo era pessoal, bizarro estar ali à mão de semear, algo que eu sempre escondi, mesmo quando vivi sozinho. Curiosamente voltei a cruzar-me com o dono do cesto e a sua esposa vários anos depois, num funeral, e a ideia dele sentado na sanita, calças amarfanhadas junto aos pés com os óculos descaídos no nariz a desfolhar pornografia, assaltou-me o pensamento e desde então nunca mais comprei revistas.


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