quinta-feira, 20 de agosto de 2015

carência

"Tenho fama de conseguir dormir em qualquer lado, menos ao lado da insónia."

M. Mau-tempo 



Aqui fica a minha lista de 10 coisas para fazer às 3h da manhã, se gostar da companhia da insónia:

1. Listas sem qualquer utilidade como esta, em vez de escrever sobre coisas de facto interessantes, ou então simplesmente ir dormir...

2. Procurar na net por listas de coisas para fazer às 3h da manhã, quando se sabe perfeitamente o que gostaríamos de estar a fazer às 3h da manhã.

3. Encontrar páginas na net que nos falam da hora morta (dizem os especialistas que fica entre as 3h e as 3h59), hora em que os portais para outro mundo se abrem, e os espíritos ficam com maior acesso à terra e aproveitam para atormentar as pessoas que deviam estar a dormir e não a ler coisas estúpidas.

4. Ainda na net, vaguear pelo lado assustador do youtube e sem saber como, entrar numa dimensão paralela... fica aqui um pequeno exemplo daquilo que só se descobre às 3h da manhã.



6. Para quem tem televisão, assistir às televendas e resistir à tentação de comprar algo como uma manta com braços. Nota pessoal: já fui muito feliz numa sessão de televisionamento tardio deste tipo. Nota pessoal mais pessoal: não ajuda muito recordar momentos assim tão felizes quando se está sozinho e sem sono. Nota pessoal menos pessoal: gostava de ter uma manta com braços.

7. Saltar pontos (o número 5 não existe) porque às 3h da manhã ninguém quer uma lista de 10 coisas para fazer que tenha de facto 10 coisas para fazer. Reparem que saltei também o 7 porque isto não é uma coisa pra se fazer às 3h da manhã...

8. Ser assaltado por pensamentos profundos mas sem sentido, como por exemplo: Pessoas que posam para fotos usadas em molduras, compram essas mesmas molduras e mantêm-nas assim em casa? E se toda a regra tem excepção, e isto é uma regra, qual é a excepção? E porquê que "separado" se escreve tudo junto e "tudo junto" se escreve separado?

9. Tropeçar nas melhores ideias do milénio, mas não aproveitar nenhuma porque se está demasiado cansado para as anotar, mesmo sabendo que amanhã não me vou lembrar delas, e não vou mesmo... ops, lá vai mais uma.

10. Pensar no conforto do colchão, no toque agradável dos lençois, o peso acumulado nas pálpebras, a almofada fofinha pronta pra ser coberta de baba... são 4h da manhã, o portal está fechado, mas se calhar algum espírito ficou esquecido... merda não devia ter lido aquela cena.

domingo, 16 de agosto de 2015

capuz

... ou esquisso de memórias verdes

O meu avô estranhou a demora mas não abriu a boca. Quando cheguei da escola vi-o a olhar o relógio. Ficamos a acabar um trabalho em grupo, inventei. Ele fez que sim com a cabeça, não contendo um sorriso. O caminho pelo centro, e por casa dela, levava quase mais meia hora do que o atalho. Mas ela não ia pelo atalho, e eu também não. O meu avô já sabia do desvio pelo centro, toda a gente sabia do desvio e o motivo do desvio, mesmo que ela me soltasse a mão assim que avistávamos as primeiras casas. 

Little Red Riding Hood and the Big Bad Wolf (pastel, 25×18) by Yael Maimon

terça-feira, 11 de agosto de 2015

prolongamento

O postal que chegou hoje era de um belíssimo pôr-do-sol em Oristano. As putas estão a divertir-se sem mim...


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

barázdabillegető

“Morre menos gente de cancro ou de coração do que de não saber para que vive; e a velhice, no sentido de caducidade, de que tantos se vão, tem por origem exactamente isto: o cansaço de se não saber para que se está a viver.”

Agostinho da Silva


Não sei onde aprendi que as borboletas nocturnas mantêm as asas estendidas horizontalmente para os lados enquanto as diurnas mantêm-nas na vertical. Mas aquela era sem dúvida nocturna, batendo as suas enormes asas escuras contra a vidraça. Peguei num copo e num pedaço de papel para a apanhar sem lhe tocar. Em miúdo lembro-me de ficar com os dedos cheios de pó, apesar de todo o cuidado que punha na captura destes extraordinários insectos. Eventualmente acabavam por morrer no interior de um maço de cigarros vazio que lhes servia de cávea.  Aproximei-me de copo em riste, julgo que ela sentiu a minha inquietação e esvoaçou habilmente para o espaço entre a palma da mão e o copo, pousando sem resistência. A tarefa estava facilitada, pensei, agora só precisava de a aproximar da parte aberta da janela. Hesitei. Uma borboleta nocturna se calhar preferia sair só quando a noite caísse, talvez a colocasse junto dos vasos que estão na varanda, mas era tarde demais, ela por si decidiu que era tempo de partir e aproveitou a frincha aberta. Vi-a voar com o seu poderoso bater de asas rumo à liberdade, era descomunal e o sol reflectia nas asas escuras, até que uma alvéola-branca vinda sei lá de onde, voando rápida como uma flecha a abocanhou num ápice. E ali fiquei eu, descorçoado perante a selvajaria da natureza.


Se deus existisse, seria uma desilusão… 

aguarela de Karl Mårtens, ver mais aqui


barázdabillegető : alvéola-branca, arvela, boieira, gonçalinha, lavabdisca, pastorinha

sábado, 8 de agosto de 2015

bonifacio

Não, eu não fui de férias. Mas as palavras foram, deixaram um bilhete curto na mesinha que dizia: fomos de férias. Pensei que elas tinham ido para sempre, já não as encontro desde o início do verão, mas afinal foram de férias, para o sul, Bonifacio, até me mandaram um postal.