quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Lucy

... ou pequeno exercício de auto-censura. 

O que têm em comum os achados da avó Lucy há quarenta anos na Etiópia e a observação pertinente do proprietário polaco a respeito de haver mais patos que patas? Eu gostava, mas infelizmente não encontrei nada. Mas o proprietário polaco tocou num excelente ponto, as espécies em que os machos lutam por uma fêmea supostamente têm mais probabilidade de sucesso. Quando a fêmea tem múltiplas opções, ela escolhe o melhor e os seus genes vão passar à geração seguinte. Os genes com defeito ficam excluídos da corrida, pelo caminho (ou no charco) e assim ocorre o contínuo melhoramento da espécie. Isto leva-nos a concluir que o futuro dos patos está nas “mãos” das patas (queria tanto escrever uma parvoíce destas!). No entanto isto pode não ser completamente verdade, há espécies em que os machos são em menor número e possuem os seus haréns. Aqui aplica-se outra teoria que defende que o acasalamento com mais do que uma fêmea aumenta as probabilidades dos machos se reproduzirem com sucesso e gerarem descendência. Logo, havendo mais patas que patos, os “melhores” podiam dispersar mais a sua descendência e isto é capaz de ser mais vantajoso, pelo menos numericamente…

Já que estou nos números, foi com alguma surpresa que constatei que no mundo há aproximadamente 101,8 homens para 100 mulheres. Parece muito equilibrado, mas quando fazemos as contas para 7 mil milhões de habitantes (podemos usar a regra de três simples), são mais coisa menos coisa que 62 milhões de homens a mais que mulheres.

Albert Montt

duelo

Albert Montt

terça-feira, 24 de novembro de 2015

manual

Há dias em que o sono não pega, e quando pega, é como atear uma chama em madeira molhada. Duas horas depois o despertador toca, os sonhos condensam da fumaça que se gerou da humidade da lenha, e acorda exactamente como adormeceu, na mesma posição, a mão dentro das calças de pijama, o sabor amargo da ilusão colado ao céu da boca.

Foi a pensar em fogos que não pegam que decidiu escrever um manual de sobrevivência para catástrofes de grande e média escala...

berserk manga by Miura Kentauro





sábado, 21 de novembro de 2015

zero


cinco graus e chuva fraca… se usasse mais do que uma palavra nos meus títulos.

À sexta escapam da clausura, trocam o cansaço e vestem a melhor coisa por umas cervejas, ou outra espécie. A menos de seis quilómetros vende-se, mas decidem uma rota mais audaz, ambiente melhorado, quase o triplo da distância. Entenda-se ambiente melhorado como sítio ocasionalmente frequentado por mulheres, sendo a noite de sexta o valor máximo da probabilidade. Calha ao maltês na sorte, o azar de trazer o carro, não haverá ressaca e o frio crava-lhe fábulas nos ossos.

Quatro graus e chuva fraca, queima como neve quando toca. É rápido. Nas traseiras dos depósitos, ao fundo depois dos banheiros, não há lençol amarrotado, somente frio e negrura infinita. É tão rápido que os olhos não se habituam, deslizam cegos um no outro agarrados pela cabeça, pouco da pele exposta é quente. Das bocas libertam-se arfados, ais em duas línguas, o ar em nuvens, não há vocábulos, os corpos comprimem-se, atravessam os poros.

Zero graus e chuva fraca. Chega silencioso, mais gelado e vazio, amor ordinário, metade do homem que escapou, sóbrio.


Touch by Sainer, 
acrylics on canvas 70x150 cm, 2012 ... more were

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

reses

Na altura dividiram tudo o que havia sido comum. Quer dizer, ela dividiu tudo o que havia sido comum, sem poupar os livros ou os discos. Alugou por quatro tardes uma guilhotina e abrindo as vinhas da ira na página duzentos e quarenta e cinco, cortou-o ao meio. De cada lado da mesa foi empilhando as reses, de um lado as metades iniciais com os prefácios, agradecimentos, dedicatórias, do outro as metades finais com apêndices, posfácios, glossários.

Puxou pela lombada espessa de fogo pálido, pelos dedos calculou que o centro vacilava entre a página cento e quarenta e sete e a cento e quarenta e oito. Quando se preparava para o golpe, a lâmina a roçar por milímetros a palidez da costura, pularam palavras da superfície tranquila de texto, como pequenas rãs que se lançam ao charco quando pressentem o perigo. casulo vazio de esmeralda.

Hyuro, untitled 3, ink on paper

domingo, 15 de novembro de 2015

hereditário


Antes de adormecer na fatídica noite de treze de novembro, escrevi um parágrafo sarcástico a respeito da triste situação política que se vive no meu país: 
Não fui talhado para isto, lamento. Resolvam da melhor maneira possível, mas não contem comigo, isto é uma coisa que salta gerações na minha família, é suposto saltar comigo.

Ontem fiquei a pensar no que tinha escrito, imóvel perante o vazio que enchia o resto da página. O que fazemos quando o mundo parece regredir e não conseguimos, nem queremos, acompanhar? Depois o meu irmão ligou-me, os miúdos queriam falar comigo, saber se estava bem e antes de desligar a pequena perguntou: tio, como são os maus?

Não fui talhado para isto, a minha mãe não me preparou para a guerra. Posso parecer grande e capaz de desfazer queixos e narizes, mas adormeci com histórias sobre porcos e gatos com botas. As paredes de casa eram forradas com fotos felizes das férias e litografias de Van Gogh e Gauguin. As estantes de livros enchiam o corredor e no gira-discos havia sempre um vinil do Zeca ou do Fausto, a filarmónica de Berlim. Ao domingo a minha mãe fazia um bolo e rapávamos a tigela da massa crua. Havia mantas e tendas de lençol, legos e carros de corrida. Havia a rua, os torneios sem bola, os piões e as faniqueiras, a chuva e a lama, as lanças e os escudos de papelão. Depois veio o grunge, as miúdas, cigarros avulsos e o cabelo na frente dos olhos. Quando me apresentei no quartel, os gajos leram alto o meu nome e passaram-me à reserva. O meu coração é feito de gelatina, de morango, quando a minha sobrinha diz tio, ele desfaz-se.

Apesar de descender de uma família de reaccionários, diz-se que quando chegou ao meu avô, ele estava mais preocupado com as patuscadas e copofonias com os amigos. Do meu bisavô saltou então para o meu pai, que até abril de setenta e quatro manteve uma vida dupla. Depois eu nasci, em liberdade, essa teria sido a condição do meu pai, e por ele só teria nascido alguns anos depois, lá para noventa, mas a minha mãe é que decidiu e em setenta e sete começou a tratar disso. Portanto é suposto saltar e passar para a geração seguinte, foi o que pensei, até a geração seguinte ligar e mostrarem-se interessados em entender o que se passa, como são os maus…

Como se explica a uma criança como são os "maus" sem usar palavrões? Cortei daqui a explicação de vinte e cinco linhas sobre como são os maus... um dia quando não tiver mais nada de interessante para escrever, eu volto aos maus. À minha sobrinha menti, disse que eram verdes raiados por fora, tipo as melancias e cheiravam a brócolos cozidos. Ela sorriu. Aquele sorriso um dia há-de ser a desgraça de muitos.
Mas enquanto ela não cresce e se torna a próxima Petra Herrera ou Constance Markievicz , os genes revolucionários foram-me entregues. Sou de natureza pacificadora, já expliquei que não fui feito para guerras, mas sei que debaixo da avermelhada gelatina há uma fina camada negra de pólvora, ela inflama com facilidade e quando explode, faz estragos.

gas-grenade-turned-flower-pots




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

uppercut

... ou a continuação de enfrear, agora que o efeito dos comprimidos passou.

Afinal não o conhecia assim tão bem, mas até que ponto conhecemos realmente as pessoas? Um individuo abre a boca e projecta uma dúzia de ideias, se estiver a discorrer sobre algo numa língua que não lhe deu de mamar, concedo-lhe o benefício da dúvida. Não era o caso, portanto nada lhe concedi. Quando começou com “É tudo muito bonito mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura” emborquei logo dois comprimidos de refreio.
 Mas ele não tocou nos refugiados nem nos sem-abrigo, deixou de lado os desempregados, não fez sequer referência aos que recebem subsídios. As pastilhas atravessavam sem água o esófago, quando lamentei não ter tomado a embalagem inteira. Duas não seriam suficientes e a vontade de lhe oferecer um espaçamento entre os dentes foi progredindo, enquanto ele abria e fechava a matraca contando como era complicado ter os miúdos em escolas públicas e que uma criança de um centro de acolhimento tinha destabilizado a turma do filho.
Fechei o punho, senti a pele esticar até ao limite nas falanges, os molares quase estalaram de pressão. Na falda da nuca ericei-me como um lobo, se aquilo durasse mais tempo, espuma raivosa escorreria pelos cantos da boca.
Quando caíram no estômago, ele tentava explicar-me como os miúdos eram inocentes, e até tinham achado piada ao rebelde institucionalizado. Mas aquilo não podia continuar, comprometia a aprendizagem dos demais, aquela criança retirada aos pais ou órfã (desamparada) e a viver numa instituição não podia cair assim de repente numa turma de anjos. 
Quando a droga começou a fazer efeito, já não sabia de que lado ficava o fígado. Afastei os pés na largura dos ombros, podia acertar-lhe no queixo, queria vê-lo voar em câmara lenta e desbotado. Conseguia imaginar o som do nariz a partir quando o esmagasse com o calcanhar, a camisa engomada cheia de sangue, só complicava já não me lembrar de que lado ficava o fígado.
Aquilo seria gerido por um ou dois neurónios, um deles mandava que abrisse a boca e ele continuava, não podiam estas entidades que retiram as crianças aos pais, sei lá, dar aulas nesses sítios? Há tantos professores desempregados, podiam ir lá dar as aulas e assim não misturavam essas crianças. Ainda abri a boca no meu estado semi-comatoso e terei dito algo como: Mas como se pode esperar que essas crianças retiradas aos pais voltem um dia a integrar a sociedade se permanecerem enjauladas em instituições? Pois, disse ele, mas um dia se fores pai vais entender, os miúdos não estão preparados para lidarem com crianças problemáticas, são demasiado pequenos.
Infantis (ou imbecis, não me recordo bem), foi o que pensei, iguais aos pais, mas a droga já se tinha espalhado pelo sangue, ultrapassara a barreira hematoencefálica, não permitindo verbalizar a minha opinião, ou arremessar um bonito uppercut com a esquerda.

 There, there. You'll feel better after you take a nap

terça-feira, 10 de novembro de 2015

onírico

Pareciam personagens cuspidas dum filme do Almodóvar, esguias sem ancas, peitos pequenos em blusa justa, narizes tortos e longos a dividir os olhos. Não eram gémeas, mas seriam irmãs e discutiam num dialecto que arranhava o vidro. Estávamos num motel junto à estrada, ouvia-se os motores de combustão interna, o quarto era sombrio e os cortinados velhos. Verde musgo, tudo era em verde musgo, desde o papel de parede mofado até ao estofo da cabeceira da cama. Quando entrei estavam de costas, eram iguais, mesmo na estridência da voz. Nunca as tinha visto e no entanto calei a primeira que se voltou, beijando-a de súpeto contra a parede. De cabeça rija, petrificada de boca em carne escancarada, não se mexia, gemendo baixo enquanto a minha língua se enlaçava no escuro da dela. A outra também se calou, seguindo com os olhos ougada, lábios entreabertos e sequiosos, tocava-me a medo no pescoço, passando os dedos pela saliência venosa seguindo a artéria até ao músculo. Aquietei-lhe a sanha tomando-lhe um peito, cabia inteiro na minha mão, duro, como um fruto verde.

Otto Muller, Duas irmãs, óleo sobre tela (1919)

domingo, 8 de novembro de 2015

calavera

Ele não acreditava. Ela achava que éramos imortais, retomando diferentes formas vida após vida. Ele continuava sem acreditar, preferindo não discutir o assunto. Ela achava que estava morta, só que não sabia. Ele também não sabia o que lhe dizer.


tirado daqui http://favim.com/image/2922/

sábado, 7 de novembro de 2015

montante

Levantou o aro e ficou por momentos a observar o líquido azul que oscilava no fundo da sanita. Atrás de si ela lavava os dentes, curvada sobre o lavatório, apartando os cabelos ondulados e fartos da espuma da pasta. Não conseguia ter a certeza sobre aquele fragmento de memória, parecia irreal, como se alguém o tivesse cortado pelo caule e propagado por estaca nas suas recordações. Havia um imenso bloco de granito que teria rolado pela encosta até ao fundo onde um riacho levava pouca água. Era mesmo grande, mas não era a imponência da pedra que o baralhava, mas sim a foda rápida e desprovida de pejo ali contra a rocha, completamente expostos e surdos pela queda de água. Ela estaria de costas, assim curvada como estava no lavatório, ele não se lembrava do seu rosto. Usava um biquíni florido que apartou, ignívora, desfazendo-se no seu interior num turbilhão de múltiplas amnésias.
-Tens ideia de uma encosta coberta de fetos e sombra, que terminava num rio com pouca água, e a montante uma queda, onda havia um enorme bloco de granito? 
Ela abriu a torneira e encheu a boca de água umas vezes, cuspindo de seguida antes de responder.
-Pitões. 
-Sim , sim, Pitões das Júnias, foi contigo então.
-Como assim?

desconheço o autor, tirei daqui http://www.ufunk.net/en/artistes/djerbahood-street-art/




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

fortuna

Um zíngaro com pouco uso mas mal cotado, andava certa vez sem rumo junto às margens de um rio largo. Foi o nómada o primeiro a ouvir os suspiros das ninfas aborrecidas, deitadas no lodo entre os destroços de um barco. Eram mais de cinco, seriam umas seis, pernas de peixe e belos corpos de mulheres. Eram todas tão formosas, tão belas mas enfadadas, que o zíngaro achou estranho e quis saber o que se passava. Afinal era mais do mesmo, trabalho precário, horas extras sem remuneração, aumento de impostos, só restava manter a esperança na aposta de sexta-feira, cem milhões de euros dizia na montra.

“E vós, Tágides minhas, de fúteis invocações fartas
Já não tendes mais ouvidos e pachorra pra esta fauna
Dos poetas, pintores, escultores, escriturários, banqueiros, talhantes, mecânicos, doutores, enfermeiros, professores, técnicos, engenheiros, carpinteiros, coveiros, prostitutos, policias, gatunos, ministros, palhaços, marretas, bando de moscas-mortas.
Dai-me a saber vossos planos, caso a fortuna
Bater certa e com fúria nas vossas portas.”


A primeira das Tágides não levou muito a responder:

“Sai-me na sexta fortuna choruda,
e alugo-te a ti zíngaro de estima, como cicerone ou tradutor, 
vamos por países quentes, dás-me uma ajuda
que o meu estrangeiro é um pouco saloio.”

(...)

O Camões que me perdoe se isto leva continuação...
Camões e as Tágides (estudo), óleo sobre tela, 1893-1894. 
Obra de Columbano Bordalo Pinheiro



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

vulpino

Tenho levado avanço ao sol, levanto-me na penumbra quando ele ainda não trepou o planalto. Os chapins vizinhos ensaiam um tom acima, duas e três notas, aproveitando o reinado do silêncio. Inspiro o frio, aqui já foi outono. Algumas poucas nuvens varreram o céu e lá vem ele. 

http://www.mikeluribetxeberria.com/

domingo, 1 de novembro de 2015

ważka

Querida ex-Musa

Como tens passado? A princesa vai bem na escola? Estará crescida, linda como a mãe, provavelmente não a reconheço. E os teus pais, os teus irmãos?  
Escrevo para agradecer, embora tardiamente, a tua última mensagem. Naquele dia faltaram-me todas as palavras, os meus dedos congelaram dois centímetros acima do teclado, só te peço que esqueças o que não disse, olvida em absoluto o meu silêncio. 
Não sei até que ponto ficaras satisfeita por saber que procuro quem te substitua, coloquei anúncio no jornal, mas até ao momento não recebi qualquer resposta. Talvez tenha elevado um pouco a fasquia, ou temo ter assustado as mais sensíveis com as minhas obscenidades. Lembro-me do quanto gostavas das palavras que usava, mesmo as que os outros escutavam como estranhas ou sujas. 
Não devia reler o passado. Quanto mais distante me colocar, ao contrário das leis da física, menor é a queda. Mas sinto-me agrilhoado no presente, encarando por horas e até dias as linhas deixadas em branco, arredado do doce odor de um parágrafo novo, desfiando lentamente um abismo mortal entre mim e a caneta. É um suplício, atormentado sem assunto, alui-me o ânimo. Tu sabes como fico, conheces as minhas crises, de forma impossível conseguias sempre arrancar-me do marasmo das águas paradas. Agora só me resta ficar aqui estagnado, compondo o vulgar à espera de uma musa que me inspire, nem que seja em part-time ou a recibos verdes.
Da minha parte posso garantir que nunca te esquecerei, nem diluirei da memória os teus sonhos nos quais me permitiste entrar todas as noites e perseguir-te rio acima, seguindo as pegadas frias que deixavas nas rochas, até à nascente de tudo que é belo. 

Espero sinceramente que sejas feliz.


Teu, para sempre 

Acrylic painting 'wAżka' by Justyna Jabłońska