domingo, 15 de novembro de 2015

hereditário


Antes de adormecer na fatídica noite de treze de novembro, escrevi um parágrafo sarcástico a respeito da triste situação política que se vive no meu país: 
Não fui talhado para isto, lamento. Resolvam da melhor maneira possível, mas não contem comigo, isto é uma coisa que salta gerações na minha família, é suposto saltar comigo.

Ontem fiquei a pensar no que tinha escrito, imóvel perante o vazio que enchia o resto da página. O que fazemos quando o mundo parece regredir e não conseguimos, nem queremos, acompanhar? Depois o meu irmão ligou-me, os miúdos queriam falar comigo, saber se estava bem e antes de desligar a pequena perguntou: tio, como são os maus?

Não fui talhado para isto, a minha mãe não me preparou para a guerra. Posso parecer grande e capaz de desfazer queixos e narizes, mas adormeci com histórias sobre porcos e gatos com botas. As paredes de casa eram forradas com fotos felizes das férias e litografias de Van Gogh e Gauguin. As estantes de livros enchiam o corredor e no gira-discos havia sempre um vinil do Zeca ou do Fausto, a filarmónica de Berlim. Ao domingo a minha mãe fazia um bolo e rapávamos a tigela da massa crua. Havia mantas e tendas de lençol, legos e carros de corrida. Havia a rua, os torneios sem bola, os piões e as faniqueiras, a chuva e a lama, as lanças e os escudos de papelão. Depois veio o grunge, as miúdas, cigarros avulsos e o cabelo na frente dos olhos. Quando me apresentei no quartel, os gajos leram alto o meu nome e passaram-me à reserva. O meu coração é feito de gelatina, de morango, quando a minha sobrinha diz tio, ele desfaz-se.

Apesar de descender de uma família de reaccionários, diz-se que quando chegou ao meu avô, ele estava mais preocupado com as patuscadas e copofonias com os amigos. Do meu bisavô saltou então para o meu pai, que até abril de setenta e quatro manteve uma vida dupla. Depois eu nasci, em liberdade, essa teria sido a condição do meu pai, e por ele só teria nascido alguns anos depois, lá para noventa, mas a minha mãe é que decidiu e em setenta e sete começou a tratar disso. Portanto é suposto saltar e passar para a geração seguinte, foi o que pensei, até a geração seguinte ligar e mostrarem-se interessados em entender o que se passa, como são os maus…

Como se explica a uma criança como são os "maus" sem usar palavrões? Cortei daqui a explicação de vinte e cinco linhas sobre como são os maus... um dia quando não tiver mais nada de interessante para escrever, eu volto aos maus. À minha sobrinha menti, disse que eram verdes raiados por fora, tipo as melancias e cheiravam a brócolos cozidos. Ela sorriu. Aquele sorriso um dia há-de ser a desgraça de muitos.
Mas enquanto ela não cresce e se torna a próxima Petra Herrera ou Constance Markievicz , os genes revolucionários foram-me entregues. Sou de natureza pacificadora, já expliquei que não fui feito para guerras, mas sei que debaixo da avermelhada gelatina há uma fina camada negra de pólvora, ela inflama com facilidade e quando explode, faz estragos.

gas-grenade-turned-flower-pots




20 comentários:

  1. Tão bonito o teu texto. Fez-me sorrir. Vivemos tempos de tanta volência gratuita, tudo vale...

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    1. bolo de laranja continua a ser o meu preferido... :)

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  3. Maravilha de ciganice.
    A minha solução para essa incapacidade continua a ser viver dentro dos versos. O problema, claro, é se me explodem os livros.

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    1. Muito.
      Penso que a pergunta certa é se é eticamente aceitável.

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    2. se nã for, atão é isso que quero :D

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  4. Manelito, que dizer!
    Gostei para lá de muito da tua reflexão. E gosto muito de ti :)
    Bem hajas, Manelito.

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  5. Eu sempre soube, que para lá da aparência (pintada por ti) tu, meu afilhado, eras algo entre o arroz doce e a mousse de chocolate, afinal és gelatina, tanto faz, és mais um a quem chamo de (o meu herói) O que fazer com este mundo a cada dia mais estranho... Não sei, eu que pouco sabia, agora, vou sabendo cada vez menos, e abrindo os olhos perplexa, sem entender.

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    1. também nã te sei dizer, mas eu vivo e deixo viver... e salivo também, a pensar em arroz doce e mousse de chocolate... :)

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  6. Boa reflexão, Manel.
    Apesar de tudo não consigo dividir o mundo em maus e em bons. Há uma panóplia de gradações.
    Bonita foto.
    Boa semana!

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    1. bicho estranho, com bom e mau nas veias... boa semana Isabel.

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  7. Vale sempre a pena vir aqui ler o que escreves. Parabéns :)

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    1. Obrigado Imprópria, ando meio perdido lá pela tua imprensa, mas eu atino... :)

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  8. Nem todos culpados, nem todos inocentes !!
    :)))

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    1. cuidado com os que cheiram a brócolos cozidos... :)

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