terça-feira, 31 de dezembro de 2013

adulterado

A mesma escadaria surgia por volta das três. Degraus curtos e largos, madeira envernizada atapetada a vermelho, com guarda torneada em balaustres. No topo iluminado por uma janela mainelada, estava ela de costas voltadas. As escadas eram infinitas, estendendo-se por andares acima e abaixo num labirinto angustiante. Mas era ela, sem sombra de dúvida.

A temperatura do corpo não fica estabilizada em trinta e sete graus durante todo o dia. Sobe para trinta e sete ponto dois por volta das cinco ou seis da tarde e vai caindo até atingir os trinta e seis durante a madrugada.

O cheiro a mofo do quarto fechado, lembrava as pensões baratas de Coimbra em dias mornos na avenida. As camas eram estreitas apartadas por um metro. Abriu a janela com vista sobre o rio, turbulento castanho carregado das chuvas que não cessavam. Ouvia-se o rugido moendo as margens por entre os seus gemidos.





segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

depósito II

Acordei perdido na espreguiçadeira. O sol já ia alto, torrando o ar estático que feria os pulmões. Em mais de uma década pouco ou quase nada havia mudado em redor da piscina, as espreguiçadeiras eram diferentes ou então os coxins eram outros, listrados em tons de azul triste, mas o jardim e os canteiros de azáleas podadas estavam como naquele tempo. Aproximei-me do rebordo, não havia pedaços de frango nem formas gigantes ondulantes no fundo, como no sonho que me acordara no sofá da João. Mergulhei.

A mescla de aversão e remorso colada ao suor que cobria a pele, não se diluíram na água clorada. Era tarde demais, já não havia como voltar o tempo atrás. Apenas uma questão de minutos ou horas, e ela conseguiria reconhecer-me sem o fato caro de dois botões.

Reconheci-a pelos pés. As sandálias abertas de saltos estreitos tornavam-na mais alta, mas os pés eram iguais, talvez a cor do verniz fosse outra, o alinhamento perfeito das falanges, a estreiteza do escafóide e a singularidade do tornozelo tornavam-nos únicos e imensamente belos. A primeira vez que os vi foi na borda daquela piscina, não tirei os olhos deles enquanto ela gritava comigo, e eu pingava, humilhado pelos insultos. Porco… nojento… tinha caído na sua preciosa piscina de princesa. Caído é como quem diz! Empurrado com roupa, botas sujas de terra, suado, empestando as suas águas cristalinas e refrescantes.
Continuava bonita, mesmo com aquele nariz empinado de menina caprichosa, habituada a ter o mundo a seus pés.

O meu tio perdeu um bom cliente. As azáleas que ele havia plantado sobreviveram a maus jardineiros, invernos rigorosos e diversas pragas. Também sobrevivi a muitas raparigas mimadas, ouvi muitos insultos, mas nunca a esqueci. Gostava dela, naquele dia entendi que habitávamos dimensões paralelas, equidistantes em toda a sua extensão. Doze anos depois, com o cabelo clareado, a cinta delgada e um peito mais farto na borda do decote, não foi instantâneo. O ar fresco que subia do mar arrastou-me até ao jardim, havia um bar plantado na relva, ela dirigiu-se a mim de cigarro moribundo na ponta de dois dedos esguios pedindo que atravessasse a relva por ela e lhe enchesse o copo, salientando que naquelas sandálias se enterraria no percurso, enaltecendo a falta de competência de quem organizara aquele casamento, com um bar no meio do relvado… não vim de chuteiras, rematou, sacudindo o fumo. Foi quando olhei para os seus pés e senti a repetição do momento, incapaz de a olhar nos olhos com receio que me reconhecesse, mas não. Naquele fato azul-marinho de risca leve, barba desfeita com navalha, sapatos resplandecentes, copo de whisky na mão imiscuído num nicho social lá do topo, cheirando a aftershave estrangeiro, nem eu me reconhecia.

Deixei-me ir, apreciando o disfarce, a pele de ovelha que a João comprara para o lobo a acompanhar no casamento dos primos, era tudo tão falso desde o início. E ela encantara-se com as minhas histórias, fiava a conversa numa trama, o álcool toldava-me o juízo e entrava com ela no descapotável de duzentos e vinte e quatro cavalos, estofos em pele bege, gingando pela nacional duzentos e quarenta e sete a grande velocidade, as minhas mãos percorriam-lhe o corpo como se conhecessem o caminho. E quando chegamos ao destino irónico, na ânsia de nos devorarmos ficamos pelas espreguiçadeiras junto à piscina, sob o manto negro de uma lua nova.

Arrependido sai da água, decidido a fugir antes que ela voltasse.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

depósito I

Estranhei as formas que se depositavam no tanque mais profundo, pareciam quadris de frango desproporcionais, despedaçados do resto da ave repousando no azul celeste da pastilha. Quando a sombra negra com mais de cinco metros deslizou sem agitar as águas, afastei-me receoso do rebordo.

Acordei seco no pequeno sofá da João, ainda não havia indícios de sol. Lembro-me que Junho começara muito quente, rico em fenómenos estranhos como uma impressionante queda de granizo acompanhada por uma das piores trovoadas de sempre. Sentei-me no escuro, distinguindo os contornos geométricos da mobília no percurso que tomaria até ao lava-loiça, acumulando vontade para matar a sede. Antes que me decidisse a maçaneta do quarto rodou, e um vulto nu percorreu a sala a direito em direcção ao que era suposto ser uma cozinha, detendo-se em frente do frigorífico. Apesar do cabelo curto e da largura dos ombros, caminhava como uma fêmea, rodando na saliência do osso ilíaco. A luz fria iluminou-lhe a totalidade do corpo, com excepção do rosto. Inclinou-se alcançando uma garrafa de água gasificada, os seios eram pequenos e rijos. Permaneci imóvel na esperança de passar despercebido, imiscuído na penumbra, contive cada músculo enquanto ela bebia encostada à porta escancarada, abrindo ligeiramente as pernas para entre elas sentir a garrafa fria. Inconscientemente engoli em seco, sequioso e açorado, quebrando o silêncio. Voltou a cabeça na direcção do sofá soltando um grito de horror.

Tacteei pela parede à procura do interruptor, desviando-me dos objectos que a moça de cabelo curto encontrava, e com exímia pontaria lançava no escuro. Disparada do quarto saía a João, de raquete em punho, quase levara com um limão na tola, não se lembrando que horas antes me abrira a porta para ir cair no sofá dela durante uma ou duas noites.

A namorada da João já estava a dormir quando cheguei. Não havia quartos livres, a capital estava ao rubro, infernalmente apinhada de turistas de chinelas, precisava dormir pelo menos umas horas, tomar um banho e na manhã seguinte ter-me decentemente apresentável para uma entrevista de emprego. O estreito e exíguo sofá da João era um luxo comparado com o terminal de camionetas.

Não ficamos amigos. Além de vários cacos e diversas mossas nas paredes, recusou-se a partilhar o tecto, mesmo que fosse só por duas ou três noites. Para a João era a oportunidade de ter uns dias de liberdade e respirar fora da relação, como um cetáceo à tona da água, e ao mesmo tempo, a chantagem perfeita para me requisitar como acompanhante no casamento dos primos.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

fluído

Não sei qual terá sido o primeiro, lembro-me de acordar a meio da floresta e voltar noutro sítio com o mesmo enredo, mas não consigo precisar se o episódio com o guarda mexicano foi antes ou depois. por isso começo pelo mexicano, sentado de mãos cruzadas no colo, farto bigode que ocultava o traço delineado onde supostamente existiria uma boca e na cabeça um chapéu de guarda bastante puído. havia uma vedação em arame do lado direito, não olhei para lá da cerca, era demasiada informação para arquitectar. havia também muitas pessoas sentadas, outras deambulavam pelo recinto em terra batida sem abrigos do sol. havia sol, mas não era quente. não me lembro se mais alguém tinha as mãos algemadas como eu, aproximei-me do guarda explicando que precisava de mijar. apesar de estar algemado, e ele ser claramente a autoridade, falei como se lhe desse uma ordem. não se levantou logo, talvez estivesse a ponderar uma resposta, apoiou-se nos joelhos e levantou-se sussurrando qualquer coisa pelo buraco oculto, como um cão rabugento. já não era novo, nem magro. segui-o ao correr da cerca onde havia um edifício térreo com uma primeira porta para um pequeno hall, e mesmo em frente uma segunda porta envidraçada pela metade em fosco, dava acesso a uma sanita e um lavatório com sarro. manteve as duas portas abertas, tanto a do exterior como a envidraçada, encostando-se à parede cansado do percurso de vinte metros. perguntei se não podia fechar uma das portas, ignorou-me, destacando pedaços de lixo debaixo das unhas, mantendo um pé fincado na porta. quem passava na claridade, olhava para a casinha escancarada com curiosidade, na eminência de testemunharem um cigano de calças nas mãos numa necessidade fisiológica. eram todas mulheres e demoravam-se. desapertei os botões soltos dos jeans velhos, as algemas começavam a deixar marcas nos pulsos. num último acto de rebeldia, mijei para cima dos pés do mexicano. saltou irritado, podia ver pelo olhar, mas nem abriu a boca.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Zabela

Zabela prometera dar-lhe a volta em trinta dias.
trinta dias apenas para encontrar um manancial e perfurar um poço de esperança, nem mais nem menos a partir daquele minuto, contados os dias, trinta, pelos dedos do cigano.
em troca, comprometia-se o cigano que empresta mau tempo sem juros, a aguentar-se esses dias sem partir com as malas aviadas, comparecendo em todos os que podia de bidão vazio.

se não aparecesse, avisaria de véspera com um recado no postigo.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

mensurável

Na queda da noite sobre o dia,
Procuras por mim chamando Maltês
Corro pelo monte saltitando
Julgas que sou um cabrito-montês!

Dispo-te então no avesso da cama,
Deleitada de prazer gemes e arfas,
Sei-te em todas as medidas,
Contigo não quero saber das ninfas.

Torturas-me no gume do ciúme,
Mas eu só busco o calor do teu colo.
Atiras-me tudo à cara,
Hoje nem barro nem tijolo!


terça-feira, 12 de novembro de 2013

obsidiana

Expusera-se demasiado. Era aquele atmosfera estranha que lhe enchia os pulmões e o esvaziava de experiência, alimentando como achas a cegueira moral, ignorando os signos na bifurcação, soando vazios e ocos os fonemas estrangeiros.

Não se lembrava de a ter conhecido, era tudo novo, acabara de chegar, mas Alicja jurava a pés juntos que os havia apresentado. Como era possível não se lembrar daquele olhar de vidro vulcânico? Esquecido também do nome, reservou-se na vergonha de um cumprimento simples, ocupando-se das cebolas cortadas grosseiramente. No avesso da medida, ela mostrava interesse no que refogava no tacho, dissimulando o desejo no forasteiro, contentando-se com a lacónica explicação da confecção do molho.
Foi o último a sentar-se à mesa, no extremo oposto onde ela estava. Só os olhares podiam tocar-se, e tocaram-se várias vezes, magnetizado pelas obsidianas reluzentes que enchiam os seus olhos amendoados. Se ao menos estivessem mais próximos, pensava, à distância de estender um braço ou a perna por baixo da mesa. Que tolice, nunca se atreveria mesmo que a distância o permitisse, a cerveja toldara-lhe o discernimento, só podia.

Arrumados os pratos, sacudida a mesa, permaneceram sentados guardando mais ou menos os mesmos sítios, salvo uma ou outra permuta consentida. Os dois continuavam nas orlas mais distantes, orbitando atentos por rotas diferentes. Em inglês! Alguém ordenou, cessando de uma só vez as conversas que decorriam em paralelo. Toda a atenção ficou nela concentrada, corando-lhe a face morena maculada de sinais. Ele mais que ninguém ansiava saber o que teria para dizer, até então permanecera na total ignorância sobre o que discutiam naquele hemisfério remoto, falando sempre em húngaro.
Os homens têm duas vezes mais lugar no cérebro para sentimentos sexuais, afirmou, a mente masculina é menos activa, enquanto as mulheres pensam constantemente, é por isso que os homens estão sempre à procura de sensações excitantes… Depois voltou-se para ele num tom meio irritado e perguntou sem qualquer pudor, usando-o como exemplo. Por acaso lembras-te do meu nome? Ou da cor dos meus olhos? Ou ficaste embeiçado a olhar para o peito da minha amiga Tatiana quando fomos apresentados? Ele engoliu em seco, mas num misto de satisfação e alívio, sorriu. Era realmente grande o peito da Tatiana, respondeu, mas agora entendo como era possível não me lembrar do teu nome, ou da singularidade das tuas íris tão escuras que se unem numa única esfera negra às pupilas… Ela corou ainda mais, alguém disse para arranjarem um quarto.

Na mesa estariam sentados não mais que uma dúzia, roçando braços com braços, em bancos desirmanados, emprestados ou improvisados. A sala era espaçosa, cabendo nela a cozinha e uma mesa pintada de azul. Por cima do frigorífico tocava um rádio, não era um slow, mas dançavam juntos. Quando se inclinou no fogão para espiar o jantar, parecera-lhe mais baixa do que ali diante de si, sentindo o seu corpo mover-se quase líquido nos seus braços, volátil e extremamente inflamável.

Não seria mais que uma armadilha, premeditadamente tecida para o capturar, sem qualquer possibilidade de lhe resistir.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

canhestro

Arredada do sono pela madrugada, deixava-se debruçada sobre o seu corpo despojado de energia e roupas, observando o respirar tão ténue, quase ausente o movimento de subida e descida do tronco.
Tocou-lhe ao de leve no sobrolho, roçando o bordo rosado da sutura de cinco pontos.
Does it hurt, ponto de interrogação. Sussurrou por não o saber acordado, achando amargas e demasiadas as palavras ditas em estrangeiro.
Não. Respondeu-lhe, beijando afeiçoado a polpa dos seus dedos.

Naquela noite temera por ele, no meio da confusão que se instalou no szimpla kert, saíram do bar com destinos opostos. Bálint agarrara-a instintivamente pela mão, e só veio a saber muito mais tarde que o Maltês estava bem, cinco pontos alinhavados acima do supracílio.
Bálint sempre tivera um sentimento de pouca consistência por ela, um fraquinho, não correspondido nas inúmeras tentativas, decidiu que era tempo de partir. Regressara nesse dia a Budapeste depois de uma longa estadia em Zagreb, trazia na bagagem saudades e presentes, tinham tanto para falar que por momentos se esquecera do novo amigo que não falava húngaro, ali sentado ao seu lado.
Mas o Maltês não se sentia intimidado, muito pelo contrário, os ciúmes de Bálint deixavam-no vaidoso, fanfarrão, e contra a sua natureza, acariciava-a em público, tocando-a no fundo das costas, subindo lateralmente pelo tronco rasando a ponta dos dedos no seu peito, acrescentando em várias línguas, indecências ao ouvido.
Stop, ponto de exclamação, disse-lhe tentando um ar sério, não conseguindo reprimir um sorriso. Beijou-a satisfeito no arco de cupido escarlate e decidido em pedir mais uma rodada, caminhou para o balcão à procura de trocos perdidos nos bolsos.

Mais valia que tivesse ficado sossegado, sentado ali ao lado, morrendo à sede mas ancorado pelos seus divinos lábios. Quando chegou ao balcão, encontrou o troco certo, e certos também os problemas. É que nem os dotes de cigano o vão livrar deste destino, e para grande gáudio de Bálint, aquele seria o último beijo da noite.
Na mesa, só Jochen se apercebeu do que estava prestes a acontecer, um matulão com a camisola do Leverkusen bebera demais e impedia o regresso do Maltês à mesa, provocando-o com qualquer coisa na sua língua de cobra manhosa. Vou ser muito pouco útil nesta parte da narrativa, porque o que foi dito entre o boche e o Maltês permanece um mistério. É possível que um deles tenha dito qualquer coisa desdenhosa sobre os polacos, e o outro sem pejo na língua, tenha faltado ao respeito à mãe ou namorada do outro interveniente… O alemão já cuspia as suas declinações e flexões, rot vor Wut parecia um vulcão prestes a libertar a sua fúria, um Krakatoa que se conseguia ouvir a cinco mil quilómetros de distância.
Santinho, ponto de exclamação. Retribuía o Maltês mantendo o seu ar calmo e sereno, de quem não se agita nem pelo vento, segurando firme na mão direita, a fresca, a bela, a mais preciosa cerveja! O boche sem meias medidas, aturdido com o insulto, partia para a violência, expelia saliva descontrolada pela boca, e sem pensar na desgraça, empurrou o Maltês contra o balcão.

Respingado de cerveja perdendo quase um terço, o sangue começava a ferver na guelra, e sem largar o copo, puxava um gancho pela esquerda. Not the left, alguém jurou ouvir na mesa, ou então foi nie w lewo, que é mais ou menos o mesmo em polaco. A esquerda não, ponto de exclamação, implorava Jochen, sabendo que o Maltês não poupava a esquerda, socando em cheio na bochecha do boche obstinado. E lá voava um alemão em câmara lenta, em low cost aterrava pouco depois pelo chão. Mas estava descuidado o Maltês, embriagado de paixão e algum álcool, bebericou vitorioso na cerveja, ou do que dela restava, e sem dar conta do que ai vinha, foi atingido na cabeça, abrindo-se um lanho onde não caberia o juízo, por muito pequeno que fosse!


terça-feira, 1 de outubro de 2013

fundo


hoje não vivi em mim
rasguei a pele
estalei os ossos
comprimido e desfeito
deixei o corpo
mas mesmo assim não fui ao fundo...

não há mais fundo do que isto.




terça-feira, 24 de setembro de 2013

ressaca II

Jochen levantara-se cedo para ir trabalhar como fazia num dia normal, disfarçando o gozo que lhe dava a minha expressão sujeita às leis de uma ressaca. Da noite anterior só restava a dor de cabeça e uma lição para a vida: Nunca, mas nunca beber com Polacos! Inventam tradições que nos levam a despejar o copo pela garganta abaixo e repetidamente o enchem até derramar, brinde após brinde, num decíduo vértice.

No final do jantar ofereceu a companhia da namorada para me levar a ver Budapeste no dia seguinte, a minha folga. Quando a própria insistiu no passeio, não resisti e interroguei-me se haveria alguém que lhe recusasse fosse o que fosse! Nessa altura ainda estava bastante sóbrio, depois saímos e paramos num bar checo de dois andares, lembro-me do sítio, dos seguranças como colunas gémeas ladeando a entrada, dos bancos corridos de madeira, da música ao vivo a meia-luz, do chão bastante sujo e gasto, do sabor da cerveja num grande jarro e dos vários shots de vodka que me atiraram direito para dentro de uma centrífuga.

Não devia ter dito que sim, uma tour pela cidade naquelas condições tinha tudo para correr mal, seria um longo e doloroso desperdício de tempo. Mas era tarde para voltar atrás, e lá estava ela à minha espera no Scirocco perfumado, acenando como uma estrela de Hollywood.
Arrancou a todo gás, com a terra a girar demasiado depressa, cada depressão na estrada assemelhava-se a um Grand Canyon de mil e muitos metros de profundidade, e à medida que voltava a ser cuspido para o assento, conseguia distinguir as diferentes camadas de sedimentos. Agoniado, concentrava-me na próxima cavidade do piso. Guinou sem aviso parando abruptamente em segunda fila em frente a um pequeno mercado dizendo que já voltava, não fosse o cinto teria lambido o porta-luvas. Aproveitei para baixar o som ao rádio, fechei os olhos e por breves instante olvidei o perfume, riscando por cima até deixar de ser legível, mas assim que voltou e num gesto automático de todos os dias, subiu ainda mais o volume, acompanhando a música com um playback teatral, empunhando o microfone a poucos centímetros da minha cara. Apesar de irritante, não deixava de ser extremamente sensual, mexendo os lábios vermelho vivo sem soltar um ruído."Do I wanna know?"

A segunda paragem foi na outra margem do Danúbio, direcção assistida a músculos, estacionou o desportivo de dezasseis válvulas com destreza num espaço mínimo. Mesmo de estômago vazio, sentia insegurança no vácuo, do rio subia um ar renovado, agradável, e sem querer saber de destino caminhamos por entre prédios de arquitectura harmoniosa. "A unique blend of old and modern..." foi o que ela disse!

“A unique blend of old and modern..." servia para descrever a arquitectura de Budapeste mas também o conteúdo das nossas conversas, bem como a aparência dos interlocutores. De barba por fazer e olhos pesados, assemelhava-me a uma pilha de ruínas romanas decrépitas, na sombra de um belo edifício art nouveau com “curvas violentas e repentinas geradas pelo estalar de um chicote”.

Três mil forints e uns trocos, o equivalente a cerca de onze euros por uma fatia de Csoki Álom, ou sonho de chocolate, e uma água gasificada com dois copos. A aversão pela comida afastava-me o olhar pela decoração rica da sala, suspensos lustres, espelhos embutidos em molduras trabalhadas, mesas espaçadas com turistas que fotografavam os pratos. Mas tinha bom aspecto, Alicja fechava os olhos a cada colher cheia que levava à boca, exuberante nos seus vinte e poucos anos, calções curtos e lingerie berrante. Não fosse a ressaca amarrar-me ao mastro, e esta sereia com lábios de chocolate e corpo de mulher seria irresistível, mesmo sem cantar.

Deixamos a praça József Nádor e acompanhamos o rio de eléctrico, a paisagem como pano de fundo é só um pretexto, trocamos palavras como quem troca presentes entre estranhos numa cidade estranha, muito se vai perdendo na tradução. Como se diz lábios em polaco? Como se diz fode-me em português...
Deixamos o eléctrico e corremos para um autocarro, ligeiramente alheios do resto, a cidade passa por nós e não se incomoda.
Planeou um passeio pela ilha Marguarita, bem no meio do Danúbio, antes do almoço alimentamos os póneis, visitamos as galinhas e os porcos peludos. No saco de lona traz os restos do jantar, kotlet schabowy e mizeria, até o cheiro me dá náuseas, e ela molha o pão nas natas com iogurte onde bóiam pedaços de pepino, em tudo parecido com o que vomitei na noite anterior.

Deito-me na relva, a fraqueza foi tomando conta dos membros, o estômago não pede alimento, as nuvens afastam-se e o sol por momentos ganha protagonismo aquecendo-me. Ouço-a falar, mas cada vez mais longe, mais distante até deixar de a entender e o tempo parar, talvez tenha adormecido, talvez me acorde com um beijo de ninfa e bafo a pepino!

sábado, 21 de setembro de 2013

ressaca

Quando acordei, a noite passada era só um borrão indefinido, na boca o sabor amargo do arrependimento e no estômago, dois copos de água não se vão aguentar por muito tempo. A custo levantei-me, meia hora e ela vai estar à porta, buzinando num Volkswagen Scirocco GTX 16V. A cabeça pesa o dobro sobre os ombros, equilibrada cuidadosamente, cambaleando os pés até ao chuveiro.

Debruço-me pela sanita, uma convulsão seguida por um arrojar de água e espuma, espero pelo resto, mas não há mais nada. O cheiro do desinfectante pendendo no bordo aviva-me a memória, fragmentos da noite vão-se colando. Quando aqui chegamos, Jochen encheu um copo de água e mandou-me para a cama, lembro-me que ajoelhei em frente à sanita, devoto ao deus misericordioso da ressaca, e vomitei pedaços de kotlet schabowy e vestígios da salada de pepino, tudo desregradamente regado com vodka.

A barba vai ficar por fazer, já não sobra tempo, por baixo dos olhos acham-se duas manchas escuras. Podiam ser mais escuras, ainda estava no bar quando me levantei e apercebi-me que tinha transposto o limite, mas já o bar ia deslizando nas ondas de um mar revolto, e agarrado ao balcão lá consegui alcançar o balneário. Recordo-me que em frente ao espelho ofereci a mim mesmo duas bofetadas, na estúpida tentativa de readquirir os sentidos. Com dificuldade, lá consegui acertar no urinol.

Na saída volto atrás pelos óculos de sol, buzina duas vezes, nas próximas horas irá fazê-lo muitas mais vezes, a buzina aqui é tão utilizada quanto os travões ou o espelho retrovisor. O cabelo muito loiro apanhado no topo, cruzado por um lenço colorido, os óculos completam o conjunto, escondendo o azul limpo que faz com que os mais velhos cantem blue eyes quando ela passa. Acena.
É estranho como os sentidos estão mais apurados, parece que tentam recuperar o estado entorpecido a que foram sujeitos, em revolta, aliam-se fazendo com que o resto do dia seja um verdadeiro tormento.

À luz da manhã não me pareceu tão bonita, mas talvez fosse a doçura do perfume que incomodava tangencialmente o sentido da visão, perfurando com ímpeto o bulbo olfactivo. Cada poro da sua pele clara estava impregnado, as fibras dos estofos embebidas, até Jochen emanava o mesmo cheiro. Reparei quando nos conhecemos, dois metros compactos, órbitas salientes, aperto de mão capaz de pulverizar os ossos, femininamente perfumado. Nunca questionei a origem, subtil para a maioria dos narizes, familiarizei-me até o esquecer.

Quando abriu a porta do pequeno apartamento arrendado, reconheci de imediato o cheiro, mais concentrado, Alicja recebe-nos de braços abertos, o jantar quase pronto, é difícil de desviar a atenção dos seus olhos intensamente azuis. Pequenos oceanos quentes e pacíficos.
O prédio recuperado possui um núcleo fechado, onde o acesso se pode fazer por varandas exteriores, pátios secretos, decorados com vasos, forjados a ferro, estáticos no tempo. Os tectos são altos, iluminados, desproporcionadas as áreas, fundida a cozinha com a sala. Um ninho onde Jochen, grande como um condor, pousa em noites de folga.

Antes de encher os copos até meio, mostra-me com algum orgulho o rótulo de Żubrówka, vodka destilada de centeio, 40% de álcool, aromatizada com erva do parque de Bialoieza onde pastam bisontes. Limpa o gelo que se formou para que repare no pedaço de pasto que vem no interior da garrafa, completa o copo até transbordar com sumo de maçã bem frio. Na zdrowie! Brindamos em polaco, não sei quantas vezes.




domingo, 8 de setembro de 2013

pulo

Na primeira cocheira pegada da casa de arreios, prendi as nuvens carregadas pela argola, corda de nylon reforçada, davam-me água pela barba, as malvadas! atão deixei o vento à solta, como um equídeo feliz, galopando pelo prado sem rédea. Volta e meia, passava por ali, fingindo não me ver, sacundido a copa dos freixos. Era densa a mata, a luz dispersava-se sem beijar o solo, os rios levavam pouca água, e o coração dela estava vazio.
Pela noite aproximou-se o frio, cão de pêlo farto, cheirando o ar, procurando um afecto. Pousei-lhe a mão pela cabeça larga, dócil, fiel, deixava-se ficar encostado ao meu corpo até de madrugada, e aos primeiros sinais de sol, voltava como veio... os dias já estão mais curtos, nem todas as andorinhas partiram, daqui ao natal é um pulo...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

salineira

Quando abriu os olhos, a claridade mal entrava pela janela, e na penumbra que asfixiava os belos corpos despidos, pensou tratar-se de um sonho lúcido. Segurou a vontade de urinar e sem mover um músculo, fechou novamente os olhos, tacteando pelas rédeas em seda, convicto que voltaria ao sonho anterior.

Apesar de exímio domador, nem sempre conseguia agarrar a frágil extremidade desfiada, saltando cenas ou entrando de rompão num outro sonho inacabado. Como tinha sucedido há duas noites atrás, um salto quântico entre uma estrada em socalcos, estreita demais para a camioneta que conduzia, e de repente montava um dromedário obediente, atravessando o vale de Bamiyan, sob o olhar atento dos budas gigantes.
É possível que não tivesse usado a dose prescrita de determinação, meio quilo fazia toda a diferença, e por isso afirmei logo no início, que desta vez o homem estava convicto que voltaria ao sonho anterior. Também sei de antemão que não sonhava com camionetas, nem vias em construção, ou budas escavados em penhascos de arenito. Num cenário improvável, o homem convicto salvava a moça do rancho de um lago gelado, e ela despia a sua saia rodada, e de chinelas sem meias, continuava a bailar de canastra à cabeça.

As ninfas entreolharam-se, procurando entender a reacção do homem. Um murmúrio enchia o quarto, como gotas de chuvas que cessam antes da enchente. Não sei o que vai na cabeça das ninfas, não me é permitida a leitura a criaturas mitológicas que descem das paredes, apenas posso especular a confusão por detrás dos seus olhares, sobrancelhas desalinhadas. A mais audaz e destemida de todas, a que tinha há momentos atrás subido o lençol, toma o homem pela boca, dando-lhe a beber os lábios rosados, linha perfeita que o pintor deixou na tela. Contudo, o enlaçar das línguas não será suficiente para resgatar o mortal do mar onírico onde se afunda, a cada sorvo, mais fundo vai ficando. No sonho, beijava a moça salineira, cabelo apanhado no lenço garrido e é então, sem que ninguém previsse, as 34 ninfas suspiram em conjunto.



domingo, 18 de agosto de 2013

ninfas

Desceram das gravuras que cobriam as paredes bolorentas, de tinta parda descascada e cheiro bafiento, estalando com risos cristalinos o silêncio das vozes adormecidas. A janela aberta era mais uma tela na parede, iluminada de anúncios e néon, rica em cheiros das chaminés próximas que despertavam frituras e pão fresco, óleo rançoso e descargas de esgotos. Um bafo quente e pestilento em pleno inverno, a boca escancarada de um dragão sem dentes.

O dia estaria prestes a nascer, e por detrás dos montes o sol descobriria olisipo entorpecida, tal como ela era, cinzenta e em avançado estado de putrefacção, sem a maquilhagem colorida com que saia todas as noites. Uma puta velha! No horizonte já quase não se viam as verdejantes colinas, ofuscadas por edifícios cada vez mais altos, espelhados de tédio, fartos de sacrifícios humanos. Mas elas sabiam-nas lá, ao longe, menos verdes, onde os riachos eram pobres em vida, alimentados das chuvas que lavavam a atmosfera poluída e quando caídas, acidificavam os leitos.

Nasceram muito antes das cidades, exaladas dos troncos dos carvalhos, criadas nas entranhas escuras das cavernas ou por entre os seixos dos rios, quando o tempo era só tempo, e o inverno frio.
Aproximaram-se do homem que sonhava no bailique estreito, rodeando-o nuas no sono profundo e tranquilo. A mais destemida de todas, a que havia capturado o belo companheiro de Hércules na pintura de John William Waterhouse , ergueu o lençol puído que o cobria, e todas riram pela rijeza viril que começava a despontar. Todas excepto a ninfa surpreendida da gravura de Edouard Manet, que cruzando o indicador nos lábios ordenou que se calassem, tapando de novo o homem que acordava.
Sem se moverem, ansiavam arrepiadas que abrisse os olhos, encavalitando-se umas nas outras no pequeno quarto alugado, seios espevitados, ventres trementes, húmidas de desejo pelo mortal que as mantinha em cativeiro.
Nas paredes decadentes, imóveis jaziam os sátiros, centauros, Silenius e Hilas na borda do rio.


domingo, 28 de julho de 2013

voltaren

A claridade exterior reflectia em todas as superfícies envidraçadas, o letreiro pendia em aberto e empurrei a porta, sendo anunciado por uma campainha comedida. A cascata de ar condicionado abençoou-me, cobrindo-me de um manto fresco com cheiro a remédio.
Não havia ninguém, nem à espera de vez, nem por detrás do balcão estéril. Nas prateleiras de vidro e inox acumulava-se uma infinidade de caixas e caixinhas, boiões, poções e cremes milagrosos, elixires e chás, mezinhas e pomadas para a cura de todos os males…
-Pois não? Disse, surgindo do ar sem o bater oco dos passos pelo laminado, interrompendo a pequena incursão estupefacta que fazia pela diversidade exposta nas vitrinas. 

O nome do medicamente até se alojara fácil de pronunciar sob a abóbada palatina, mas não antevi a morena de olhos grandes e sorriso cheio de graça por detrás do balcão. Comecei pelo bom dia às seis da tarde, ela olhou o relógio eriçando as sobrancelhas, imaginado que acabara de sair da cama e que a noite anterior fora de farra até madrugada, mas evitou corrigir-me. Foi o primeiro de vários equívocos. Depois fiquei a admirar a composição invulgar das suas maçãs do rosto, à espera que se fizesse subitamente luz, e o nome surgisse como estava escrito na embalagem.
-Esqueci-me do nome, como era fácil não apontei. Justifiquei-me tropeçando nas palavras.
-Isso está sempre a acontecer, não se preocupe. Se me disser para o que é, ou se são comprimidos, xarope, creme…
Não estava à espera daquele tom de voz límpido e tão feminino mas sem ser frágil ou rachado, como se nela tivessem conseguido fundir a beleza e a voz da Elīna Garanča, vá... uma versão morena da mezzo-soprano.
-Era uma pomada para o joelho, ando a tomar uns comprimidos, mas disseram-me que a pomada era mais indicada.
-Ah! Deve ser voltaren… Num rodopio ligeiro voltou as costas, e lá estava ele mesmo atrás dela, como é que não o vi?
-Temos dois, um tem mais princípio activo…
- Pode ser o que tem mais.
-É só?
-Acho que sim… só uma curiosidade, como é que entrou sem fazer barulho?
Com facilidade elevou o pé quase ao balcão e mostrou-me as sapatilhas.
-São próprias para gatunos,encomendei pela net.
-Para surpreender gatunos ou correr atrás deles?
Ela riu divertida pelo absurdo da conversa naquele cenário sério e ambientado artificialmente.
-Primeiro surpreendo-o, depois é possível que tenha de correr, mas ai não têm hipóteses, principalmente aqueles que procuram voltaren para uma dor no joelho…
-Nã tem de se preocupar comigo, neste momento tou desempregado, mesmo para gatuno tá complicado.
-Pensei que estava de baixa médica. Uma maleita no joelho pode ser considerada doença profissional, no seu caso…
-Como é que sabe que o voltarem é para mim?
-Disse que andava a tomar uns comprimidos.
- Pois disse, mas podia estar a inventar uma história para me considerar mais frágil.
-É só? Voltou a perguntar, agora sem sorriso. Ainda pensei pedir-lhe que cantasse um pouco, 

“Belle nuit, ô nuit d’amour
Souris à nos ivresses
Nuit plus douce que le jour
Ô,belle nuit d’amour!” 

-Gostava de a convidar para um café, mas algo me diz que não tenho qualquer hipótese.
- Pelo menos a sua intuição funciona na perfeição. Quer o recibo em que nome?
- Pode ser em Intuição de gatuno manco!
Ainda começou a teclar mecanicamente, e o sorriso voltava... doce sorriso. Aqueles lábios desarmavam-me.
-Não tomo café com gatunos.
-Mesmo desempregado?
-Pior ainda!
-Que pena! Gastei a última dose de coragem que me sobrava para a convidar, e em vão… até um dia destes. E encaminhei-me para a porta, não sei se arrependido ou envergonhado. E cheirava tão bem!
-Espere! Gritou, e voltei-me já com a mão no puxador da porta, na esperança que a minha confissão a tivesse feito mudar de ideias e afinal abrisse pelo menos uma excepção na vida, de tomar café com um gatuno.
–Esqueceu-se da pomada!


sábado, 27 de julho de 2013

esconjuro

Os sonhos estranhos voltaram, como um bando migratório sem remetente conhecido, surgem quando a lua já vai alta, planando em silêncio antes de pousarem pelo travesseiro.

E descia suavemente sobre o colchão, em câmara lenta levitando, supressão estranha de gravidade, engomado cheirando simplesmente a nada, porque nos sonhos se ausenta o sabor e no ar nada se dispersa, e só me apercebo que a realidade está distante quando da margem contrária do leito ela aparece, igual ao que era naquele tempo, concentrada em alinhar o lençol para que sobre o mesmo cumprimento de ambos os lados. Não sei como será o aspecto dela agora, gostava que desaparecesse em definitivo.
Não fala, nem me olha, como se fosse apenas espírito e há tanta luz que fere a vista… escrever sobre ela não é um bom exorcismo!


sexta-feira, 19 de julho de 2013

refrear

Sinto que estou a pagar por todos os dias de sublime liberdade que respirei, por cada grito, palavra, por cada inimigo declarado que derrotei com um sorriso no vértice do lábio. Nesses tempos partia convicto de que nada tinha a perder, cabeça erguida despenteado, ostentando somente a vontade do vento.

Nem dei pelo arnês, o cabresto em couro, atadas as rédeas no bridão de extremidades em argola, primeiro o joelho cedeu. Seguiu-se a vergastada, sacudindo o silêncio do ar e os dentes afiados do látego cravados. Resfolguei de dor mas ninguém me ouve. Eleva o braço com firmeza, anunciando o regresso doloroso do látego. Os músculos contraem-se no jugo e se eu tentar fugir, estica o freio e de novo ajoelho. A dor dilacerante embacia-me a visão, e cerce curvo-me devoto aos pés dela. Agrada-lhe o falso apreço, regozija-se pela caça e exige reconhecimento pisando-me a cara com o salto, cantando para uma plateia aquela hora deserta: até os homens livres se domam!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

liquidação

É uma pena que tristezas não paguem dívidas… sobejam-me das duas!


domingo, 30 de junho de 2013

matriarcado

A mesa encheu-se rapidamente de odores e variedade, habituada a dias em que só lhe colocavam pela metade uma toalha, naquele dia de festa quase pagã foi aberta no seu esplendor antigo, do fundo da gaveta usaram-se os ricos panos bordados, e acotovelados sentaram-se com água a crescer na boca. A família crescera para lá da mesa, à cabeceira o membro mais velho podia esbracejar à vontade, aqui a tradição mantinha-se e do lado direito acomodavam-se os homens, do esquerdo as mulheres, estrategicamente próximas da cozinha. Fazia-se uma adenda com a mesa de campismo para os mais novos e solteiros. A última a sentar era a avó, ela é que decidia onde cada elemento assentava as nádegas, e também era ela que servia a comida. Quando se divorciou, a matriarca encheu-lhe o prato e disse, tu ficas ali, e lá foi ele despromovido para a segunda mesa. Os machos adultos não gostaram da decisão, entreolharam-se, era o primogénito mas ninguém se atreveu a abrir a boca a não ser para saborear umas deliciosas migas de porco preto.

O divórcio era palavra nova, ouvia-se nas novelas e em filmes estrangeiros, ali não havia dessas modernices, até entrar de rompante pela porta da frente, e sem preparação para lidar com palavras novas, remeteram-se ao silêncio. Ilude-se quem pensa que aqui mandam as calças, o avental tem a palavra final! E nem que seja a custo de muitos sacrifícios, premeia-se o casamento e a prole, a continuidade dos genes, cada um com o seu papel atribuído no grupo, todos participam como uma unidade, a base onde a sociedade assenta as nádegas. Pelo menos assim tem sido até agora, sem família não éramos mais que uma espécie de primatas sem cauda e pouco pêlo.

Para quem acredita em Adão e Eva, e serpentes falantes, isto que vou dizer daqui para a frente não faz qualquer sentido, mas imaginem que as condições atmosféricas do planeta sofreram uma alteração e este primata vê-se obrigado a encontrar outras fontes de alimento, a migrar como vários animais ainda o fazem, provocando transformações físicas que se perpetuaram durante milhões de anos. Mas como é que o homem conseguiu sobreviver sem possuir grandes meios de defesa?
" A união de forças e a acção comum da tribo… A tolerância recíproca entre os machos adultos e a ausência de ciúmes constituiu a primeira condição para que se pudessem formar esses grupos numerosos e estáveis, em cujo seio, unicamente, podia operar-se a transformação do animal em homem.“

Só agora nos estamos a aproximar da resposta à questão que me colocaram recentemente sobre as mudanças que se verificam na sociedade, o suposto “encaixe” do homem no seio familiar versos o afastamento das mulheres das questões maternais. Mas será que estamos a mudar?

Isto começou com o agrupamento de machos adultos e respectivas fêmeas, esqueçam a monogamia, aliás o ser humano experimentou de tudo, inclusive a poliandria (uma mulher possuir mais do que um marido ao mesmo tempo), desconhecida entre os animais.

Curiosamente é o conceito de propriedade que vai alterar todo o percurso da humanidade. Os utensílios, campos de cultivo e animais que um individuo acumulava ao longo da vida, deixava de herança aos seus descendentes, por direito materno, isto é, a descendência só se contava por linha feminina.
“Á medida que as riquezas iam aumentando, davam ao homem uma posição mais importante que a da mulher na família, e, por outro lado, faziam com que nascesse nele a ideia de valer-se desta vantagem para modificar, em proveito de seus filhos, a ordem da herança estabelecida. Mas isso não se poderia fazer enquanto permanecesse vigente a filiação segundo o direito materno. Esse direito teria que ser abolido…”

“O desmoronamento do direito materno é a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direcção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução. Essa baixa condição da mulher, manifestada sobretudo entre os gregos dos tempos heróicos e, ainda mais, entre os dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocada, dissimulada e, em certos lugares, até revestida de formas de maior suavidade, mas de maneira alguma suprimida."

Será que estamos perante o ressurgir do direito materno? Afinal são as mulheres que decidem a continuidade da espécie. No entanto é a propriedade que volta a estar em jogo e não a capacidade de procriação. E a monogamia? Inventada pelas mulheres (pelos homens é que não foi) fartas de serem abusadas e oprimidas pela tribo e depois na idade média pelos senhores da terra, procurando a libertação no matrimónio, tem algum fundamento nos dias de hoje? Se são independentes economicamente, podem alterar a cor do cabelo e o tamanho do peito, também podem decidir com quem copular, ou estou errado? Ou será tudo isto mais um revestimento característico de sociedades supostamente evoluídas?

Uma coisa é certa, na bíblia apenas dois animais falavam, a serpente e o jumento!

Extratos de "A origem da família, da propriedade e do estado" F. Engels

quinta-feira, 20 de junho de 2013

pejo

Antes de abrir os olhos estranhou o perfume dissolvido 
no muco que recobre a membrana pituitária. 
Um ramalhete floral quente, evidenciando-se o 
neroli da Tunísia, destilado das flores da árvore de laranja amarga. Havia ainda outro odor, menos doce, 
transpirado intensamente horas antes, conservado 
na sua essência de feromonas e secreções. 
Não estava sozinho, conseguia sentir o respirar 
cadenciado a menos de dois palmos da sua cara. 

Finalmente sabia o que era sexo descomprometido, 
e sem se atrever a abrir os olhos, tentou recordar-se 
da próxima etapa do guia do cavalheiro por uma noite, 
que tinha lido naquela revista masculina. Até ali tudo correra às mil maravilhas, apresentados numa festa de amigos, perderam a inibição entre copos de vodka tónico onde o gelo mal derretia. Escondeu a ansiedade, fingiu não estar interessado e só teve de esperar ser conduzido para a cama. 
Lembrava-se claramente que não devia ficar para o pequeno-almoço, mas esquecera por completo as 25 linhas que enalteciam o sexo matinal. 

Cautelosamente deslizou pelo lençol até à borda do colchão, tacteando no escuro junto ao chão pelas roupas espalhadas. Só quando se refugiou no banheiro deu conta que não tinha os boxers, mas não podia voltar ao quarto para os procurar, e se ela acordava? Mas também não os podia deixar, e se ela era comprometida? Estariam no fundo da cama, enrolados no próprio lençol? Vestiu-se e enquanto decidia se voltava ou não, pegou na escova do copo e pôs-se a escovar os dentes.

Foi a familiaridade da cerda e o sabor do dentífrico que o baralharam, quando a devolveu molhada ao copo vazio. Aquela era a sua escova, e os azulejos que recobriam as paredes também eram os seus, bem como o roupão em turco escuro pendurado atrás da porta. Despiu-se envergonhado, voltando em silêncio à cama. 


-Onde foste? Perguntou, numa voz rouca mas divertida, provocando-lhe um ligeiro sobressalto. 

-Aliviar a bexiga. Mentiu ele, tentando ser educado.

-E tinhas de te vestir e depois voltar a despir? Reclamou ela, num tom jocoso. 

Sentiu que tinha tropeçado em alguma norma, um iniciante num jogo cheio de regras e comportamentos arriscados que não dominava, como era possível não se lembrar que estavam em sua casa? E se ela ficara, isso queria dizer que era algo mais que uma noite? E então cometeu o segundo erro. 

-queres ir jantar no próximo sábado?


quarta-feira, 19 de junho de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

drope



-Vou no domingo para baixo, queres boleia? Aceitou, não planeara ir tão cedo, mas tinha sido dispensado do serviço, pagou meia renda e aviou a mala. Estranhou irem no domingo, provavelmente voltavam a Lisboa no final do dia, mas os miúdos não tinham escola, se calhar ficavam lá alguns dias, só se lembrou de perguntar se tinham espaço para uma caixa e um saco, nem a hora a que o vinham buscar quis saber. Entregou as chaves do apartamento ao senhor do café, e sem almoçar carregou o que restara daquele ano até à entrada. Ela saiu para lhe abrir a bagageira, no banco de trás os dois sobrinhos esbracejavam ansiosos. Procurou uns trocos e comprou uma mão cheia de caramelos de fruta para os acalmar na viagem. -Desculpa vir tão tarde, mas sair com estes dois é sempre uma aventura. -Vieste sozinha? -É, o teu irmão tem muito trabalho. 
Distribuiu os caramelos, tarefa dificultada pela variedade de sabores em número ímpar, conseguia sempre o efeito contrário, e em vez de se acalmarem, tinha incitado uma guerra porque ambos gostavam mais dos caramelos com sabor a laranja. -Tu e o teu irmão eram assim, com esta idade? -Nã, no nosso tempo não havia caramelos com sabores... lembras-te das bolas de neve? 
Ela sorriu. Conseguia imaginar uma bola de neve imensa, embrulhada em celofane vermelho rodando por baixo dos seus pés até à infância e ao momento mais feliz da sua vida, depois a adolescência chegara inquietando as águas, abalando os sólidos alicerces onde crescera, do dia para a noite os muros que a protegiam caíram, e para lá do éden descobriu um mundo pejado de perigos. O pior deles todos estava ali, a distribuir caramelos de fruta pelos seus dois filhos, e falava-lhe qualquer coisa que ela não conseguia ouvir. -Era na segunda à direita, por aqui não tem saída. 
Encostou, tinha a sensação que viajara pelo tempo e sem saber como estava ali, na terceira saída da rotunda, em que o alcatrão terminava num silvado alto. -Queres que conduza? 
Conheceram-se numa festa do avante, na altura em que os Telectum actuaram com P. Lytton e E. Parker. Ele andava lá a ganhar uns trocos, ela tinha ido com um grupo de amigas que passavam o tempo a rir e a fumar. A mais corajosa pediu-lhe ajuda com a tenda, uma canadiana de lona enferrujada e comida pelo sol. Lembra-se dele em tronco nu, homem feito, cabelo apanhado, transpirado e sujo. Fecha os olhos e consegue vê-lo, a cravar cigarros em troca de uns minutos da sua atenção, o cheiro é quase o mesmo, a voz é ainda mais grave… Respira fundo e admira-o.
-Fica-te bem o cabelo curto. 

Devia ter casado com ela, apesar da diferença de idades. Depois cometeu o erro de a apresentar ao irmão mais novo, talvez tivesse sido a melhor decisão, sabia que por vontade dos pais dela não era um pretendente à altura, mas o irmão sim, ele era tudo o que eles podiam desejar para a filha. Às vezes sonha que o irmão morre num acidente e ele ocupa o seu lugar, acorda feliz com a ideia. Sentem-se estranhos, como se tivessem sido íntimos noutra vida muito antes desta, mas quem os vir dirá que são um belo casal, e que aqueles são os seus filhos, mais parecidos com o tio do que com o pai que ficou em casa a trabalhar. Os genes pregam destas partidas. 

Os miúdos acalmaram, observam as cegonhas, a paisagem que transmuta em novas cores sob um singular céu cinzento. Também ela foi abandonando a tristeza pelo caminho, não se lhe vê os olhos por detrás dos óculos mas sabemos que esteve a chorar. Discutiu antes de sair de casa. Ninguém leva uma vida perfeita, só aparentemente, para os vizinhos ou diante dos pequenos. Ele disse que afinal não ia, mas ela já se tinha comprometido e era bom para as crianças passarem algum tempo com a família. -Vai com o teu querido cunhado, disse, ou imagino que tenha dito, ele diz coisas assim… e ela magoada, deu o almoço à prole, deixou a loiça na máquina e atirou algumas roupas numa mala, saindo de casa com os olhos a transbordar.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

bocejo



um dia desce sobre o outro, igual em todos os gestos. 
assim que fecha a porta, pisa um calcanhar de cada vez sem deslaçar os atacadores. 
sobre as costas da cadeira deixa cair o casaco, e no balcão da cozinha o saco do supermercado. 
volta depois aliviado, o rosto ainda a pingar para separar calmamente o que pertence ao frio. 
perdeu pelo caminho o apetite, caminhando os olhos pelo pavimento. 
imagina triste a banda sonora que passava se a sua vida fosse um filme. mas não se decide pelo género. 
perde todos os dias alguma coisa, ontem foi a memória de um beijo junto a um riacho. 

e os gestos repetem-se 

num streap tease mal iluminado em frente à máquina de lavar, desabotoa a camisa pelo fim, até chegar ao botão que nunca aperta, repara como é igual aos outros, no entanto não tem qualquer utilidade. 
seguem-se as meias, primazia ao pé esquerdo, atiradas sem dó para o tambor. 
dos bolsos despeja os trocos e todo o lixo que a maré arrastou, antes de pendurar as calças no puxador, pendendo ruidosa a fivela do cinto. 
e então vai bocejando, nu até à cama, na boca o sabor entorpecido. 
não há tapetes neste chão frio, nem retratos de férias nas paredes.




segunda-feira, 3 de junho de 2013

vaguear



olho a imensidão do céu no momento em que o dia esmorece em tons de laranja ali ao longe. 

ainda não escureceu completamente deste lado, do outro o manto é azul nocturno esperando ser bordado por mãos experientes a pequenos pontos cintilantes. 

como é quente o ar que entra pela janela deixada aberta, transborda de vida junto à iluminação da via pública, não tarda pequenas sombras se alimentaram daquela massa instantânea. 

julgo indecifrável o cheiro que vagueia perdido, não é de flores nem da erva que o vizinho teima em cortar, talvez seja poejo e venha de além sul. maldito cão que ladra. 

a tv do andar de cima cacareja e o camião do lixo alimenta-se. não há aqui quintais com laranjeiras esperando a subida oportuna na noite sem lua, nem vizinha estendendo ao vento toalhas amarelas e desejos na corda. foi noutro tempo, há muito tempo, talvez tenha confundido a história de tão amarfalhada guardada na gaveta, algures anda perdida nos restos da memória. 

apetecia-me um cigarro... 







sexta-feira, 31 de maio de 2013

abjurado



A meio da semana disse que afinal não podia vir, teria de ficar para depois, um projecto com prazos curtos tomara a dianteira da sua lista de prioridades. E lá estava a carreira profissional, gloriosa, acenando com a medalha de primeiro lugar no topo do pódio. Preparei-me para ocupar o segundo lugar, mas surgiu logo a família, uma massa de pessoas que falavam umas acima das outras e ninguém se entendia. Vá, tens ali o terceiro, é o mais baixo mas ainda fazes parte do pódio, podia ser pior. Já me tinha inclinado para receber a medalha de bronze das prioridades da sua vida, quando sou atingido com uma cotovelada, chega para lá, temos de caber todos, barafustavam os colegas, os amigos, os cursos de culinária, as viagens… e eram tantos que se encavalitavam uns nos outros, e por fim só me restou um pé em cima do estrado e com o outro pelo chão, percebi que na minha vida a tinha colocado no topo, acima do rebentamento das ondas, e sempre que me acenava com um osso, lá ia eu a correr, bem-mandado… senta, rebola… fode-me e podes voltar para o teu canto! 

Esticando-se pela largura da cama, empurra-me até ao limite do colchão, evitando o calor suado dos corpos, o hálito do estômago vazio pela manhã. 

Já nada é como dantes, sob um céu claro de estrelas, adormecidos no enlace depois de desencaixados os sexos. Era um sono contido num sonho, procurando nas mãos sentir a infinita sensação da pele, o apego ao mundo por permeio. Não nos temos na mesma medida. 

Amanho as amarras invisíveis que lancei, retesadas pela distância, com passadas rápidas tem caminhado o tempo, vão perdendo a força, algumas rasgaram e pendem caídas entre a invicta e a capital, outras aguentam-se na esperança de dias mais pertos. Não fazem sentido na vida dela, adia infinitamente um novo encontro… é tempo de as cortar. 


quarta-feira, 29 de maio de 2013

bolacha

As ruas estavam desertas no domingo de manhã, cobertas por uma fina camada de quietação. Sem pressa o carro rolava lento e silencioso pelas vísceras da cidade. O Ribeiro no lugar da frente, concentrava a atenção nas aplicações que acabara de descarregar, e pelo espelho retrovisor, o Quintas conversava, mantendo um olho na estrada e outro nas palavras. Nunca admitiu que ouve mal, com o tempo adquiriu a capacidade de ler os lábios e usa estratégias típicas, como caminhar sempre do lado direito de quem o acompanha, o ouvido esquerdo deve estar menos danificado.
Perto do parque havia vários espaços livres, intercalados sem ordem por um veículo ou outro. Com a mesma calma que conduzira, o Quintas estacionou sem grandes manobras, absorto nas novidades que tinha para contar, é que o tempo parece não esticar quando temos tanto para dizer.
Já estávamos os três fora do carro, espreguiçava-me como um cão ao sol.

Apanho-vos mais à frente, avisei.

Devias ter vergonha, miúdo! Rosnou o Ribeiro com ironia. Quase com 50 anos, headphones nos ouvidos, iphone atado ao braço e umas meias florescentes até aos joelhos! Mas em grande forma.

Não quero ser visto a correr contigo… Desculpei-me!

Já nos tínhamos distanciado um pouco quando ouvimos uma quarta voz dirigir-se a nós, olhamos na direcção do carro e um homem gesticulando furioso, berrava insultos e afrontas, caminhando com alguma dificuldade para trás e para a frente no passeio. O Quintas aproximou-se, mas nós continuávamos sem entender o que o homem dizia, numa precipitação grosseira de adjectivos, saltava-lhe da boca grandes quantidades de saliva. Entrou no carro, colocou o motor em funcionamento, vimos accionar pelas luzes traseiras a marcha à ré, o carro deslocou-se meio metro, puxou o travão de mão, desligou e voltou a fechar as portas com o comando central, sempre muito calmo, agradecendo por fim ao senhor que serenara, estático no passeio.

Que droga andas a tomar? Perguntei-lhe.

E foi então que me contou a história da bolacha, já o Ribeiro tinha desaparecido do nosso alcance, nem mesmo visível pela fluorescência.
Era uma vez uma moça que estava à espera do voo na sala de embarque do aeroporto. Como tinha muitas horas de espera pela frente, resolveu comprar um livro para matar o tempo. Comprou também um pacote de bolachas. Sentou-se numa zona mais isolada para poder ler em paz e descansar. Ao seu lado sentou-se um homem. Quando ela tirou a primeira bolacha, o homem também tirou uma. Sentiu-se indignada, mas não disse nada. Apenas pensou: "Mas que lata que este gajo tem! A sorte dele é que até estou bem-disposta, se fosse em dia não, levava já uma estalada naquela cara, nunca mais se ia esquecer!"
A cada bolacha que ela tirava, o homem também tirava uma. A certo ponto estava tão indignada que nem conseguia reagir. Quando restava apenas uma bolacha, ela pensou: "Quero ver até onde vai a ousadia deste fulano!"

Então o homem dividiu a última bolacha ao meio, deixando a outra metade para ela. Ah!!! Aquilo era demais! Já bufava de raiva! Nervosa, pegou no livro e nas suas coisas e dirigiu-se ao local de embarque. Quando se sentou confortavelmente no interior do avião, olhou para dentro da bolsa para procurar uma caneta, e, para sua surpresa, o pacote de bolachas estava lá... Ainda intacto, fechadinho!

Quantas vezes na nossa vida comemos as bolachas dos outros, e não temos consciência disso? Antes de avaliar, observa melhor! Talvez as coisas não sejam exactamente como parecem! Não penses o que não sabes sobre as outras pessoas. Disse-me o Quintas, e ele sabe muito!


terça-feira, 21 de maio de 2013

canoro



Havia um canário em casa dos meus avós, numa pequena gaiola junto à janela. Chamava-se Canário e sempre o conheci assim, amarelo e manco. 

Não se sabe se aqui também foi a vontade que atiçou a ave, batendo as asas até a gaiola ficar no ar, suspensa. Só se sabe que não ficou inteira, estatelada no terreiro, e lá dentro a pequena ave em sofrimento. A minha avó que tinha o dom de atender às criaturas, cortou o que já não tinha cura e com paciência e extrema ternura, sem falhar um único dia, tratou a pata ferida até ficar um coto rosado. Cantou o canário ainda muitos anos, mais do que aqueles que alguém previra!


segunda-feira, 20 de maio de 2013

tácito



… ou o silêncio das coisas tristes 

O ferro não aqueceu, já estava ligado há cinco minutos no máximo enquanto torrava duas fatias de pão e o café subia na cafeteira, e não aqueceu. Vesti as calças engelhadas e procurei outra camisa. Quando me sentei para tomar o pequeno-almoço, fui assolado por uma estranha vontade de não ir trabalhar, e já estava pronto, vestido e barbeado, faltava terminar o café e sair. Mas não me apetecia levantar. Era como se a minha vontade tomasse conta de mim, ocupando o razoável, abalando desde os alicerces em que me assentaram e moldaram. 

Nunca saberei como foi, pois antes mesmo de achar que tivera uma ideia, o meu cérebro já havia pensado nela, mas aparentemente fizeram crer à vontade que não tinha adversário à altura, e que diante o dilema, as pernas não se levantariam e atrás delas todo o corpo relaxado, degustando o pequeno-almoço. E então proclamaria em grande alegria naquela sexta-feira a meio do mês, como dia de não ir trabalhar e fazer o que lhe desse na real gana! Foi triste a derrota, a consciência com uma direita rápida aniquilou a vontade por nocaute, e lá me levantei sem pensar mais no assunto.


domingo, 12 de maio de 2013

inane



De tão enfadado, nomeei a primavera como a pior das estações do ano. Já não quero as andorinhas a rasgarem os céus, nem ouvir o cuco nas imediações de pauis, basta do colorido das penas dos abelharucos equilibrados nos cabos telefónicos, tapo os ouvidos ao zumbido eléctrico de milhares de insectos, chega de pétalas e sépalas abertas, estigmas repletos de pólen e apocárpicos pendentes ao rubro. 

Tão enfadado ando que me aborreço, na ausência que antecede a partida, as letras não se condensam, as palavras suspendem-se como frutos verdes e largo a caneta, descaído o corpo na cadeira, fecho os olhos com círculos luminosos gravados na retina… invejo os jovens sentados nos degraus do coreto, bebendo sem pressa da boca um do outro em doses pequenas, levitantes como sacos plásticos cheios de esperanças largados à vontade do vento. 

Venha o outro vento, o que trás a chuva e os dias cinzentos.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

tédio



Estou há dois dias encolhido em casa, sai apenas para despejar o lixo e separar a reciclagem, também percorri uns duzentos metros e comprei pão, mas tirando isso estive aqui enfiado, a ver o bom tempo passar lá fora. Perco o apetite, fico deitado até doerem as cruzes e depois levanto-me, penso fazer algo útil, limpar a cozinha ou aspirar. Sento-me só por uns instantes a ponderar, espero que a vontade passe, cinco minutos e afinal decido que vou escrever, ponho o portátil na mesa longe das distracções e das más posições na cama, volto a confirmar que a vizinha não está. Não se vê ninguém, os melros depenicam os quintais à vontade, ontem ainda ouvi a discussão dos vizinhos atravessar as paredes, mas hoje um silêncio alastrou desde cedo, absorvido pelo tijolo manteve-se durante o dia quente, em sossego. Mas não era sobre esse silêncio que eu ia escrever, era sobre perguntas que nunca são feitas, teclas de interrogação que não chegam a ser comprimidas. A curiosidade vai esganando-me lentamente, tem um travo a mel mas arde pela garganta. 
Depois surgem-me dúvidas, o mal é um gajo começar a pensar. Por exemplo, porquê que dizemos pessoas cheias de nove horas? Porque não dez ou oito, e sendo nove, são da manhã ou da noite? 
Juntei os três cadernos pretos em cima da mesa, pautados de histórias, memórias, ou só repositório de palavras sem peias. Folheio o mais antigo, começando pelas últimas páginas, é uma mania, e vou voltando as folhas até ao início, fechando a capa negra com algum delíquio. Quem escreveu sobre estás linhas? Quem substituiu o meu dialecto? É a minha letra, reconheço-a, consigo entender cada letra na sua solidão, mas no conjunto da palavra, numa ordem desconhecida, forma frases sem sentido estranhas ao meu ouvido. Folheio novamente, mas ao contrário, começando pela origem. Já nem é a minha letra, são hieróglifos, e cada vez que passo as páginas de trás para a frente ou da frente para trás, desenham-se por eles, redefinem-se em formas estranhas mantendo as camadas de tinta. 


segunda-feira, 29 de abril de 2013

clandestina



"Uma longa viagem começa com um único passo." Lao-Tsé




Há uma paisagem em movimento, rasgada por tracejados de precipitação, blocos de prédios cinzentos estéreis, ordenados por maiúsculas letras negras que se repetem alternadamente do M para o N, e em vez de continuarem pelo alfabeto, retornam ao M, e mais uma vez segue-se o N. 
“Estamos perdidos.” 
Há uma rotunda mais adiante, mas todas as placas estão escritas numa língua que não experimento, movimento os lábios tentando soletrar as silabas, só sinto sede, um deserto abafado agarrado ao céu-da-boca. 
“Em que hemisfério a chuva pode cair com esta orientação?” 
Estamos sentados no banco de trás, seguindo calmamente por uma larga avenida dividida a meio por uma parede de betão sem grafites. Ela não tira os olhos da bússola que segura na palma da mão, e gira sem parar, apontando descontrolada para os quatro cardeais, e em todos eles há um norte. Volta a perguntar se sei onde estamos, em que hemisfério... não encontro um ponto de referência, tudo parece deslocado de sítio, apenas o silêncio é familiar. 

Ela tem razão, estamos perdidos, mas é como se estivéssemos invertidos e a chuva subisse desde o asfalto brilhante, rastejando pelos vidros sujos, libertando-se em direcção ao céu carregado de nuvens. 
Um semáforo amarelo corta na distância as inumeráveis tonalidades de cinzento, aproxima-se transversa uma rua, não tão larga, nem separada dos sentidos por uma parede de betão. O fulgor pálido desaparece, encarnando um rubor mais intenso, mas ninguém ocupa o lugar do condutor, parece seguir por vontade própria. O impacto é eminente. 

Acordo na roupa enrolada, perdida no fundo onde terminou no abismo o colchão. Não passou de um sonho, o mesmo sonho que se repete como as letras nos blocos urbanos, M, depois N, de novo M... O que fazias tu no meu sonho?


sexta-feira, 19 de abril de 2013

lenho

D. Justina depositava a confiança no banco de quatro pernas, como se nos próprios braços de Deus fosse elevada às alturas da imagem do cristo em agonia. Era um banco robusto, da mais rara e valiosa madeira vermelha trazida do outro continente, ainda no tempo das naus largadas ao vento. Resistira ao caruncho, às invasões francesas e ao aumento de peso da devota viúva que nunca descurara a limpeza da igreja. 
Com a estopa húmida, lavava com extremo cuidado o corpo crivado, fendido, falso sangue e pus escurecidos sob o verniz de protecção, infeccionado até ao cerne. Contornou-lhe o tronco magro de costelas salientes, e enrolando a ponta do pano no dedo indicador, esfregou o umbigo do redentor, recanto onde se acumula o pó dos santos. 
Ninguém poderá testemunhar efectivamente o que aconteceu de seguida, há quem diga que a beata espirrou e o cristo lhe disse “santinho”, ou “o pai lhe salve!”. Outros juram a pés juntos que o coroado de espinhos de rosto ensanguentado parecia sorrir lá do alto da cruz, com cócegas no umbigo, mas era apenas uma ilusão criada pela fenda na zona de assemblagem. 

A minha teoria é um pouco rebuscada, mas certamente a mais credível, sem cristos palradores ou sorridentes. Retomemos então à limpeza profunda do crucifixo em tamanho real, colocado acima do altar-mor. Lá está também o inabalável banco de Caesalpinia echinata, encomendado da mesma madeira dos genuflexórios, e D. Justina que sacode os restos mortais, consigo vê-los a pairar no espectro de luz que trespassa os vitrais, movem-se pela aragem sem darem pistas donde se vão depositar na vez seguinte. Sim, que isto do pó não desvanece por magia, não deixa este mundo para assentar na lua ou numa terceira dimensão, apenas o fazemos andar de um lado para o outro. Mas ainda não é do pó que falamos, ainda falta uns largos anos para que tanto o banco como a viúva assentem em camadas na litosfera. 
Voltamos ao fiável banco, cuja altura deixava a beata mais ou menos de cara pelo tronco nu do senhor e apenas necessitava de se esticar um pouco para alcançar a coroa de espinhos. Nunca acontecera antes aquele vacilar que quase a derrubou lá do alto, podem ter sido as tensões que andavam um pouco altas, aquele pezunho ao jantar sabia-lhe pela vida. O que é certo, é que teria caído desamparada na pedra gasta não fosse segurar-se ao trapo mal enrolado do salvador, e sendo este feito de sólido pau apenas oscilou sem se desviar dos suportes ou do propósito que o sustinham. Olhou o senhor em penitência e benzeu-se sobre o rosto três vezes com a mão direita, sem da esquerda largar a ilharga, mas de nada lhe valia a remição, o pecaminoso pensamento revelava-se num intenso rubor que subia desde o pescoço até à raiz dos cabelos eriçados, inflamada no âmago, açoitada por um calor que já nem conhecia, o coração batia animado por um cocktail químico que lhe invadia os sentidos, gotejando pelas pernas ali diante de cristo. 

Aquela visão de rosto coberto de pêlo lembrara-lhe um outro homem, não o falecido que esse já antes de morrer estava frio. O saudoso era um santo homem, jogava a dinheiro na cave húmida do café local, pequenas quantias, ela nem sonhava. Quando o dinheiro não sobejava retirava algum do pé-de-meia, mas em apostas mais sérias nem a caixa da associação recreativa escapava. Esse, pensava ela, seria o seu vício: a associação, organizando passeios com os compinchas aos quatro cantos da terrinha, amantes das excursões pelos tascos e tavernas, entornando o licoroso, maduro ou verde, branco ou tinto, havia para todos os gostos. E quando regressava a casa, parava na confeitaria junto à estação de camionetas e comprava uma pequena caixa de doce sortido. 

Nunca estranhou D. Justina os doces serem sempre idênticos, independentemente do destino. Foi precisamente por ocasião duma ausência do marido em passeio, que o tal do destino resolveu-se a ajustar contas com a vida e proporcionar à fiel esposa uma divina tentação, e foi tal que mesmo passados tantos anos recalcados, ainda despertava nela os mais recônditos e prazerosos sentimentos. Não seria por sinal a única lembrada daqueles dias, mas o assunto tornara-se tabu, interdito às conversas de salão, nem mesmo as bocas mais chocalheiras da aldeia se atreviam a mencionar o acontecimento que marcara aquele inicio de Primavera tão quente…

domingo, 14 de abril de 2013

furto



Espreitei sobre o muro sem me aproximar demasiado. As portadas do andar superior estavam cerradas par a par, as debaixo ficavam cobertas pelo arvoredo agitado pela azáfama dos chapins. 
Que estás a fazer? 
Aproximei-me da copa da árvore junto ao portão, ali nem precisava trepar pelo granito, deitei a mão por entre as folhas lacrimosas até a sentir enchendo-me a mão e rodei o fruto que se soltou sem grande reboliço, para sossego dos cães da vizinhança. 
Que mania essa, qualquer dia enchem-te de chumbo por causa de uma laranja! 
Não lhe respondi. 
Da última vez deixou-me para trás num terreno arado, acolá para os lados de Mirando do Douro, aliviando do peso um pé de macieira com pouco mais de um metro de altura. Os pequenos frutos rosados seriam descendentes directos da árvore da vida, mas não havia ali serpente, e Eva já descia a colina amuada. Tivesse eu provado a doçura do pecado e não tinha nos ramos sobrado repasto para os pássaros. 
Desta só roubei uma laranja, e retomamos o caminho em silêncio por entre as casas dispersas, Adão e Eva banidos, escondendo o fruto do pecado até ao limiar do casario. Quando a estrada terminou num caminho enlameado, abri um rasgo na superfície não tratada do fruto. 
Podia ter trazido duas… 
Parece seca. 
A raposa disse algo parecido sobre “maduros cachos pendentes de alta latada”… queres um gomo? 
E de um gomo de cada vez, comeu metade do número certo de gomos, nem muito doce nem muito ácida, sumarenta apesar da sua aparência seca, de fruto careca desprovido da casca.


domingo, 7 de abril de 2013

fosso



Há um fosso de sentimentos entre nós, abissal quanto possa ser entre duas pessoas que nunca se conheceram, que nunca partilharam o ar arrumado de uma sala, nem repartiram um simples olhar por detrás de uma janela, duas pessoas que nunca estiveram dentro das mesmas fronteiras em simultâneo, nem nunca se falaram em dialectos distintos fazendo uso de gestos. 


Há um fosso de palavras, arquitectado na sua profundidade de silabas soltas, vogais esquecidas de tão usadas que deixam as consoantes amarelecidas. Ontem uma carta atravessou-o, um sobrescrito sem remetente, trazendo mais que palavras, desejei enquanto o rodava nos dedos que fosse um postal de algum sítio distante, com notícias de dias azuis e águas plácidas, corpos dourados deitados sobre sedimentos quartzíticos. 


Há um fosso de desalento cada vez mais fundo, cavado de esmorecimento por um mar encapelado de desânimo. Cada letra que imprimiste apressada no pedaço de papel sem forma de carta, soam estranhas aos meus ouvidos, nem imagino o som da tua voz em cada palavra porque me irritaria de certeza, nem sonho com o teu caminhar descalço junto à espuma das ondas gigantes, se sonho é porque não és tu. 


Havia um fosso de tempo e na vertigem das suas orlas empurrei o passado, ainda fiquei para o ver rolar, sacudido pela gravidade. Quem diria que mo podias reaver com um formato normalizado, trinta e seis cêntimos. Podia ter-se extraviado, arrastado pela corrente, perder-se para sempre no interior da estação dos correios ou pela conduta de esgotos sem nunca chegar às minhas mãos. 


Há um fosso. Não foi escavado por máquinas, nem pela motivação lenta das placas. Não foi minha a criação, apesar de dizeres que o uso para me fortificar, repara que apenas nos separa, a ti e a mim.



terça-feira, 2 de abril de 2013

periélio

A distância entre a Terra e o Sol no periélio é de aproximadamente 147,1 milhões de quilómetros. Isto ocorre uma vez por ano, catorze dias após o solstício de dezembro.

Tocavam um réquiem aguacento por março e aconteceu que jantasse cedo e me deixasse depois caído na cama atento ao silêncio, expectante pelo regresso precoce das nuvens, não pensando para além das paredes. Faço-o com alguma frequência, e quando digo que não ia além das paredes, é porque não pensava de todo, apenas existia ali, longe de imaginar ser engolido pelo improvável, tragado pelo número de causas favoráveis à produção de um certo acontecimento.

A primeira causa favorável terá sido o súbito regresso das chuvas, e era tão intenso o afago desta sobre as vidraças que ela não teve como resistir e saiu, assegurando que a roupa não ficaria de novo encharcada estendida mais um dia na varanda. Não vi, não testemunhei o que estou a contar, nesta altura continuava deitado, orbitando dentro da rota calculada, o meu cérebro já estava de partida: atenção senhores passageiros, o tempo de voo previsto é de 20 ou 10 minutos, ninguém pode saber ao certo, por favor apertem os cintos. Até que algo mais buliçoso que um pingo acertou na minha janela.
Foram necessários vários lançamentos para que dois mais certeiros se tornassem causas favoráveis. Se ao primeiro não dei a relevância que merecia, o segundo inquietou-me o espírito, pôs-me de pé num salto, analisando como tinham batido descompassadas e fortes aquelas duas gotas, tão díspares de todas as outras. Olhei sem olhar, não distinguindo na noite lôbrega formas ou gente, e um terceiro objecto rasgou a chuva, embatendo com o mesmo som no vidro.

Uma mola da roupa, vermelha!

Abri a janela sem mais demoras, estaria o céu a cair em pedaços, soltando-se primeiro as molas que o sustinham? Oh desculpe! Sou eu, aqui em cima… gritou lá da varanda a vizinha, presa do lado de fora, vítima da janela que fechara com demasiada força. Pode chamar os bombeiros por favor, a janela não abre. Tem a porta trancada? Perguntei. Nunca me tinha acontecido… dizia, e mais qualquer coisa que se diluía na chuva ou era arrastada pelo vento. Dê-me um minuto… pedi-lhe, sem certeza que me tivesse ouvido. Calcei-me, e demorando mais que os sessenta segundos que tinha prometido aparecia-lhe do lado de dentro, no calor morno e de velas perfumadas, confortáveis tapetes e pequenos candeeiros.

Encontrava-me no ponto mais próximo da minha órbita, o periélio, apenas um passo ou um estender do braço e podia alcança-la, mas nem ousei tocá-la, a expressão não era bem de alívio, ou seria mas o medo sobrepunha-se. Um estranho entrara em sua casa, com aparente facilidade forçara a fechadura usando um cartão do minipreço e ali estava, assustador, mas perplexo, sem abrir a boca, não sabendo o que fazer às mãos. Vá lá não gaguejei, mantive a conversa muito técnica, como se fosse um ladrão licenciado. Agradeceu, esclarecendo mais uma vez que nunca lhe tinha acontecido. Mantenha a porta da entrada sempre fechada, é muito fácil abrir uma fechadura destas, disse-lhe, encaminhando-me por onde tinha vindo, sem que fosse preciso ela pedir, retomando o meu caminho.



Periélio - O ponto da órbita em que um planeta, planetóide, asteróide ou cometa se acha mais próximo do Sol.

quinta-feira, 28 de março de 2013

ímpio

Tinha vertido o último pacote de leite no fervedor e agora metade escorrera espumoso e fervido, empoçando no fogão. Perdido pela metade o pequeno-almoço, perdida por inteira a vontade de deixar a cama para uma corrida pela aurora. Talvez se me deitasse mais cedo não fosse necessário ser arrancado do fundo dos lençois, talvez se as noites fossem mais lentas o acordar não fosse tão sério e atarantado e o leite tinha aguentado nos limites do ponto de ebulição. Saí com pressa, atrasado, sem um último relance pelo estendal da vizinha. Ontem não esteve todo o dia, a roupa pendurada à sua espera foi secando à mercê do vento, sacudida até nova chuva lhe aliviar as fibras.
Quando cheguei à porta do prédio, duas mulheres estavam voltadas para as campainhas, jeovás diria, pela opacidade e sobriedade das saias pelos joelhos. A mais nova usava uma boina sobre o entrançado, olhos de medo, provavelmente filha da que me fintou de frente, entrepondo-se entre mim e a cria.
Dei-lhes os bons dias mas não segurei a porta, elas responderam e juntando forças num acto de aparente loucura, a mais velha resolveu iniciar o processo de conversão, preparando-se para debitar toda a cassete da pregação. Lamentei não ter tempo, desculpando-me que estava atrasado, com pressa. Normalmente são homens e deixo que a fita chegue ao fim, e depois de abrir a boca enfadado três ou quatro vezes digo-lhes que não foram suficientemente convincentes, voltem mais tarde com argumentos mais apelativos, a concorrência ofereceu-me 72 virgens e nem assim me converti...
Só mais adiante me lembrei que as campainhas do prédio estão sem funcionar já lá vão uns dois meses, podem carregar em todas que ninguém vai atender, nem mesmo a beata do rés-do-chão... e isso podem agradecer a deus!

segunda-feira, 25 de março de 2013

anacrónico

Oficialmente passei de moda, velho, antiquado, um dinossauro desorientado a vasculhar os restos do passado, desajustado nos modos e costumes, dos cumprimentos e convivências informais em que toda a gente se trata por tu. Determinantemente recuso-me a estas modernices.

Recebi ontem à noite o memorando oficial, e nele protocolado que já não se seguram as portas às senhoras! Acabaram com isso e com a cedência de lugares, os isqueiros estendidos aos seus cigarros, suster os casacos também já não se faz, muito menos puxar a cadeira para se sentarem. É também o término para o auxílio mecânico ou troca de pneus, mesmo que a noite seja escura como breu ou as condições atmosféricas desfavoráveis. As despesas pagam-se a meias ou à vez, incluindo nesse item despesas de combustível, optando os envolvidos na maioria dos casos por chegarem e partirem do destino, cada qual no seu veículo.
Já não se oferecem flores, nem oblongas tulipas ou perfumadas gardénias...

O fim do cavalheirismo, extinto, morto e enterrado, para dar lugar ao individualismo vestido de hodierno social, nem sei se mascarado de igualdade ou outra treta qualquer! Mas dizem que é bem aproveitado na pior das suas vertentes por oportunistas atentos, parasitas que espezinham o romantismo com soberba habilidade. Será que o sexo se tornou tão acessível que nem perdem tempo a disfarçar o que realmente são? Ou andarão tão vazios os corações que se enchem de ar e vento?