sábado, 21 de setembro de 2013

ressaca

Quando acordei, a noite passada era só um borrão indefinido, na boca o sabor amargo do arrependimento e no estômago, dois copos de água não se vão aguentar por muito tempo. A custo levantei-me, meia hora e ela vai estar à porta, buzinando num Volkswagen Scirocco GTX 16V. A cabeça pesa o dobro sobre os ombros, equilibrada cuidadosamente, cambaleando os pés até ao chuveiro.

Debruço-me pela sanita, uma convulsão seguida por um arrojar de água e espuma, espero pelo resto, mas não há mais nada. O cheiro do desinfectante pendendo no bordo aviva-me a memória, fragmentos da noite vão-se colando. Quando aqui chegamos, Jochen encheu um copo de água e mandou-me para a cama, lembro-me que ajoelhei em frente à sanita, devoto ao deus misericordioso da ressaca, e vomitei pedaços de kotlet schabowy e vestígios da salada de pepino, tudo desregradamente regado com vodka.

A barba vai ficar por fazer, já não sobra tempo, por baixo dos olhos acham-se duas manchas escuras. Podiam ser mais escuras, ainda estava no bar quando me levantei e apercebi-me que tinha transposto o limite, mas já o bar ia deslizando nas ondas de um mar revolto, e agarrado ao balcão lá consegui alcançar o balneário. Recordo-me que em frente ao espelho ofereci a mim mesmo duas bofetadas, na estúpida tentativa de readquirir os sentidos. Com dificuldade, lá consegui acertar no urinol.

Na saída volto atrás pelos óculos de sol, buzina duas vezes, nas próximas horas irá fazê-lo muitas mais vezes, a buzina aqui é tão utilizada quanto os travões ou o espelho retrovisor. O cabelo muito loiro apanhado no topo, cruzado por um lenço colorido, os óculos completam o conjunto, escondendo o azul limpo que faz com que os mais velhos cantem blue eyes quando ela passa. Acena.
É estranho como os sentidos estão mais apurados, parece que tentam recuperar o estado entorpecido a que foram sujeitos, em revolta, aliam-se fazendo com que o resto do dia seja um verdadeiro tormento.

À luz da manhã não me pareceu tão bonita, mas talvez fosse a doçura do perfume que incomodava tangencialmente o sentido da visão, perfurando com ímpeto o bulbo olfactivo. Cada poro da sua pele clara estava impregnado, as fibras dos estofos embebidas, até Jochen emanava o mesmo cheiro. Reparei quando nos conhecemos, dois metros compactos, órbitas salientes, aperto de mão capaz de pulverizar os ossos, femininamente perfumado. Nunca questionei a origem, subtil para a maioria dos narizes, familiarizei-me até o esquecer.

Quando abriu a porta do pequeno apartamento arrendado, reconheci de imediato o cheiro, mais concentrado, Alicja recebe-nos de braços abertos, o jantar quase pronto, é difícil de desviar a atenção dos seus olhos intensamente azuis. Pequenos oceanos quentes e pacíficos.
O prédio recuperado possui um núcleo fechado, onde o acesso se pode fazer por varandas exteriores, pátios secretos, decorados com vasos, forjados a ferro, estáticos no tempo. Os tectos são altos, iluminados, desproporcionadas as áreas, fundida a cozinha com a sala. Um ninho onde Jochen, grande como um condor, pousa em noites de folga.

Antes de encher os copos até meio, mostra-me com algum orgulho o rótulo de Żubrówka, vodka destilada de centeio, 40% de álcool, aromatizada com erva do parque de Bialoieza onde pastam bisontes. Limpa o gelo que se formou para que repare no pedaço de pasto que vem no interior da garrafa, completa o copo até transbordar com sumo de maçã bem frio. Na zdrowie! Brindamos em polaco, não sei quantas vezes.




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