sábado, 30 de janeiro de 2016

Vénus

O sol ergueu-se descomunal a oeste, lentamente, desabrochando ao contrário. As nuvens amareladas de ácido sulfúrico, pesadas como ovelhas, vão-se juntado em rebanho acima das crateras lisas. O vento não afaga o vale, nem com a ponta do seu manto. De madrugada soltou o freio do silêncio e deixa-o andar sem dono.
Neith nunca morou aqui, apesar do que dizem as más línguas. Não há sinais dela. Faz-me falta a lua, e os óculos de sol.
Agora que voltei, estou sem saber o que fazer e o dia vai durar mais do que um ano. 
Amanhã talvez visite Trotula Corona.



The planet Venus passes in front of the sun as it begins to set behind the Goddess of Liberty atop the Texas State Capitol in Austin, Texas,


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Júpiter

estive a pensar e preciso de uns dias de baixa.
sinto-me bem, mas comecei a pensar e isso não é bom sinal.
não estranhem a ausência, eu eventualmente volto se isto não for vírico. não quero contaminar ninguém. agora imagino o tormento de algumas pessoas.
pensar é realmente aborrecido, ontem até me doeu a cabeça.






Details of Jupiter's atmosphere, the Big Red Spot. Credit: NASA/JPL

domingo, 24 de janeiro de 2016

trovisco

Os condes não votam. Os anarquistas não sei, talvez votem em branco. Um conde anarquista votaria na Marisa, se fosse votar. Mas só porque ela ficaria bem no trono, muito melhor que a duquesa de Bragança. Acho que só temos a perder em não ter uma monarquia. Podíamos plantar umas árvores genealógicas, correr com aquele Duarte e descendência. 
Até soa bem: Sua Majestade Fidelíssima D. Marisa I, por Graça de Deus, Rainha de Portugal, Algarves, e seus Domínios. E ela acenava e sorria à multidão da caleche… O povo ia gostar. Já é tempo de fazer alguma coisa, futebol e Fátima já deram o que tinham a dar.


Da minha parte estaria disposto a casar com a arquiduquesa da Áustria-este e herdeira do trono da Bélgica, a princesa Maria Laura. Ela não seria a minha primeira escolha, mas acho que ficaríamos bem. Anexávamos a Bélgica ao meu pequeno condado, não subiria os impostos, até sorteava uma charrete pelos que declarassem as suas colheitas. Pensei num nome engraçado para a rifa: Feitura da Fortuna! 

count the rabbits!

sábado, 23 de janeiro de 2016

królik

C é jovem e educada, cede sempre o lugar a pessoas idosas ou com crianças nos transportes públicos. C também vai sempre votar, mesmo que esteja a chover torrencialmente. C faz bolos e é portanto boa pessoa, até para o vizinho D que ouve o relato demasiado alto aos domingos. Um dia C descobriu que a mãe estava a pagar um serviço que não usava e sentindo-se enganada, como nos sentimos todos por essas empresas que prometem maravilhas, resolveu ligar e acabou por descarregar o seu descontentamento com o funcionário da empresa que a atendeu. Esse funcionário é o R. Mas também há quem o trate por máquina. Mas R não é uma máquina e nesse dia, ao contrário do que era habitual, R ficou abalado. Foi a última chamada, R pegou na lancheira e ainda com a voz de C a entoar na cabeça saiu do serviço.

R é casado e tem uma filha pequena. R não passa muito tempo com N, a sua filha, porque R trabalha por turnos. Quando R chegou a casa mais cedo nesse dia, a pequena N ficou feliz por ver o pai. Mas R não estava nem um pouco feliz, é que R tornou-se imune aos descontentamentos, e quem se torna imune ao descontentamento, também é imune ao contentamento. R ignorou a alegria de N como normalmente ignora as centenas de pessoas que atende e sentou-se em silêncio em frente do ecrã para assistir ao debate das presidenciais. 

N anda na escola primária, algumas letras fazem-lhe confusão e troca frequentemente o l pelo c quando aparecem juntas com o h. N gosta de truques de magia e quando a professora B está triste, N consegue tirar flores das mangas.

B perdeu o único filho. B ficou muito tempo sem trabalhar. B perdeu tudo e um dia precisou de voltar a dar aulas e foi ai que conheceu N e as flores que lhe saiam das mangas. Mas hoje N está triste, acha que o pai não gosta dela porque ela escreve coenho em vez de coelho. N não quer aprender mais nada, nem tirar flores da manga. B vai triste para casa, mas antes disso tem forçosamente de passar pelo supermercado e a fila é longa porque o funcionário é novo e não consegue despachar as compras. B chama o gerente e mostra-lhe o seu descontentamento. O gerente está habituado a clientes insatisfeitos e pergunta a B com um sorriso amarelo, o que pode fazer por ela. B exige que lhe saiam flores das mangas.

P é o funcionário novo da caixa do supermercado. Foi despedido.


Illustration from I Am a Bunny by Ole Risom, illustrated by Richard Scarry.

Todas as personagens desta crónica são ficcionadas e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência... eu sou um coelho, os coelhos não sabem escrever. 
Snowy, tu não és a C...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

kapusta

Não há sol. Uma névoa leitosa envolve a paisagem e a cambalear encontro o caminho para verter as águas. Os pés aos poucos habituam-se à realidade, dor já não é uma definição. Lavo bem as remelas, depois de sacudidas estendo-as com duas molas. Engulo dois pães pequenos em quatro dentadas, o café fraco a escaldar desce vagaroso, reconfortante. Só sei que é manhã pelo anúncio dos pássaros, encolho as extremidades para o interior e desapareço na bruma, pisando com cautela o gelo. Quando falo, um fumo abandona-me.

Não há sol. Rapidamente deitou-se no outro lado aborrecido com a distância. Deixo a água quente levar a poeira que trouxe escondida nas pregas da pele, o cansaço não me leva por pouco pelo ralo. Jantamos na mesa larga, partilham-se as deformidades do dia a cinco passos do fogão. Depois repartem-se as migalhas pelas ranhuras das tábuas, lavo os pratos e as nuvens que caíram durante o dia. Estou farto das couves que recusei com um sorriso, serviu-me o dobro convencida que quis dizer sim em vez de não. Bocejo. As couves deram-me sono, pareciam algas oscilando num mar tardo e zonzo regresso à cama.


Continua a não haver sol, desconfio que não volta. Contrariando a queda das pálpebras, escrevo à insónia para que não venha, pelo amor da santa. Depois abro a lista das perseguições, como uma caixa de sortido, desfaço-me do celofane, a saliva acumula-se pela hesitação. Há aqueles embrulhados em papel colorido, os baunilhados, os tradicionais, os cobertos de chocolate, quero provar todos, tenho fome de letras, que um homem não vive só de couve. Mas os olhos começam a fumegar, pequenas labaredas nas pestanas. Olho o tecto amaldiçoando os deuses pela inspiração que não chega, deixando um comentário para o dia seguinte, por vezes demasiado tarde. Porque quem escreve não obedece a vontades, e se nem à sua quanto mais às dos outros.

 watercolor by Mariusz Szmerdt

atelocardia

... ou desenvolvimento incompleto de enredo.

Inclinou a cabeça para a frente oferecendo o escalpe sem medo, no chão uma toalha da cor do sangue abria-se sob os seus pés. Já ali tinha estado, talvez noutra vida. Ela pousou o cigarro na beira do lavatório e ligou o interruptor. Ele sentiu a sua mão deslizar sobre a base do pescoço, descendo pelo interior das costas enquanto a frieza da máquina se perdia pela cabeça. Abriu os olhos, ela encostara-se para o cigarro e voltava a devolve-lo, exalando o fumo em anéis que subiam até ao tecto. A frieza roçou-lhe de novo, com a outra mão ela afagava-lhe a face, apartando os dedos em fusão na sua pele. Ele queria sentir, e ela dava-lhe o tronco, um pouco da perna com perna.


domingo, 17 de janeiro de 2016

ubikacja

Quando coloquei o unicórnio a defecar, não imaginava que seria desafiado a revelar o que lia enquanto estava na sanita. Isto é um assunto um pouco privado e sensível, pois revelações sobre a leitura nesse momento de fé, obrigatoriamente implicam desvendar intimidades sobre o funcionamento dos meus intestinos.

Já toda a gente torce o nariz e implora que não o faça, podia simplificar a coisa e dizer Crime e Castigo do Dostoevsky ou Dom Quixote de Cervantes e não se falava mais no assunto, mas quem lê na sanita sabe que estaria a mentir. Livros de 600 páginas são difíceis de manobrar e a leitura de casa de banho pede algo mais ligeiro, lúdico se for possível, sendo que a única vantagem dos calhamaços é ficarem atravessados na descarga. (O meu pai deixou cair o Juíz e o seu carrasco do Friedrich Durrenmatt, um livrinho de 120 páginas que a asa editou com uma encadernação de fraca qualidade. Depois de alguns dias aberto ao sol conseguiu prosseguir com a leitura, mas foi um golpe de sorte.)

Mas afinal de onde vem esta necessidade de leitura na sanita? Pela quantidade de estantes com livros, cestos de revistas e jornais, portas e azulejos pejados de poesia instantânea que pude observar em wc’s pelo mundo inteiro, diria que ler ajuda. Já me aconteceu estar desprevenido e ler todos os rótulos de cremes e champós que estavam ao alcance da mão. Em última análise lemos porque não queremos pensar em merda.

E então que leio eu quando estou na sanita? A leitura “mais eficaz” são aqueles massivos panfletos de hipermercados. A partir da primeira página, quer sejam electrodomésticos, produtos de higiene, refrigerantes, brinquedos ou chinelos, começo a sentir o seu poder laxante. Aqui infelizmente os panfletos não chegam com tanta regularidade, por isso tenho optado por levar um livro do Stanislaw Lem com o título Pamiętnik znaleziony w wannie, Memórias encontradas numa banheira. Estive um ano a tentar obter este livro, não o consigo ler antes de dormir ou com insónias, também não gostei dele em viagem ou esperas, por isso ficou na secção wc e começo a achar que vou levar um ano até completar a leitura. A culpa é da couve.


Com isto espero que partilhem um pouco também dos vossos hábitos, se não se sentirem à vontade, podem divagar sobre preferências literárias, ou locais mais propícios à leitura. 

Pulp fiction 1994

mais um poste idiota... 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

suficiente

Quando o meu irmão nasceu, não entendi porquê que os meus pais precisavam de outro filho. Cheguei a perguntar à minha mãe se eu não era suficiente. A minha professora primária, sempre me achou suficiente, era o que ela escrevia nos cadernos e depois nos testes, suficiente, por isso eu achava-me suficiente. Mas aparentemente os meus pais não acharam e tiveram outro filho. Para alívio de todos, o meu irmão foi suficiente para os meus pais, mas para a professora primária, outra que não a minha, foi mais que suficiente e chegava a casa com bom e muito bom no caderno. O meu irmão é um desmancha-prazeres, ele tirou-me o prazer de ser suficiente. 


insónias fomentam postes estúpidos...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

hafemetria

Ele observava a órbita conciliada de uma centena de partículas de pó em torno do halo do candeeiro, quando ela pousou no seu ombro. Cheirava a erva e alisso e juntando os lábios ao seu ouvido, perguntou se tinha um cigarro. Quedou-se por ali mais um tempo, ajoelhada e nostálgica junto à poltrona.  Ele fechara os olhos, deixara de seguir a trajectória dos astros para sentir as ínfimas quebras das impressões, em pequenos círculos na flor do ombro. De pergunta a frolir na boca, como se fosse primavera, voltou pacientemente a coser os lábios ao seu ouvido. Desta vez ele respondeu-lhe sim. 

Milt Kobayashi


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

riscas

Das coisas que nos crescem e temos de cortar, o cabelo é o que menos me aborrece. Quando me convenceram a cortar o cabelo na véspera de ano novo como um ritual de passagem, não vi qualquer problema, até mo terem cortado.
A rapariga mandou-me sentar no tampo da sanita e inclinar a cabeça para a frente. Parecia que sabia o que estava a fazer, mesmo assim antes que ligasse a máquina, perguntei-lhe se podia deixar mais longo em cima e usar o pente mais pequeno ao nível das orelhas, tipo Kim Jong-un. Ela acenou que sim, pousou o cigarro na beira do lavatório e tosquiou-me a cabeça a pente um.
Foi muito divertido, mas quando reflecti numa superfície polida, lembrei-me que tinha combinado uma ligação de skype com a família próximo da meia-noite. Conseguia imaginava a minha avó sufocada de choro, a dizer que lhe lembrava o pai quando esteve na guerra, ou o irmão mais novo quando os piolhos atacavam. Obriguei então os meus queridos amigos foliões a saírem para o frio. Estava frio, muito frio, de gorro e luvas, e vodka, e casaco apertado até ao queixo, desejei um bom ano novo à família enregelado, mas sem o estigma da miséria ou da guerra que a minha cabeça carregava. É claro que a minha avó chorou na mesma, quis saber se eu vivia na rua.

No dia seguinte levantei-me a meio da noite para ir à casa de banho (normalmente diria mijar, mas acabei de mencionar a minha avó e não me parece apropriado). Quando me vi no espelho com o pijama às riscas cinzento dois tamanhos acima que me ofereceram no natal, até eu estremeci. 

algures

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

hiato

Albert Montt

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

köszönöm

que bonito fica o Rachmaninoff neste condensado... e tudo graças à Maria!





domingo, 3 de janeiro de 2016

vísceras

Voltemos com Sua licença Senhor, Vossa Majestade, à vaca fria ou sagrada, e ao relato do ataque mui grande que sofremos por ordem da capitã Flor, duquesa de Tűz kés, a qual bem certo creia que disputava o trono com D. Susana, viscondessa de Meinungsfreiheit. Vinham todas rijas em direcção aos homens, traziam alfanges novos e mosquetes nas mãos e suas feições estavam agora descobertas, de bons rostos e bons narizes, bem feitas.

Estava na prancha nesse tempo que me pareceu infinito, prostrado aos pés da Condessa de Maresia, o frio do aço pegado ao pescoço. Abaixo de nós os círculos de tubarões não se perturbavam, seguros que o almoço estaria para breve. As hostes rebeldes não davam tréguas e incitavam a Condessa a furar-me de um lado ao outro, gritavam “corta-lhe uma orelha”, “uma perna” ou “corta-lhe logo a cabeça!” como se eu fosse um leitão assado. Farta da tirania, embainhou a espada e estendeu-me a mão enluvada, sob ameaças e apupos.

Nossa capitã-mor estava a salvo da confusão, adormecera na gávea forrada de céus, e quando despertou com os gritos das moças, fez suas diligências para achar Andrhimnir e lhe comandar que fizesse da vaca vianda. Apareceu-lhes então no convés a capitã, aplaudindo com folgança, nem notaram que já não havia mu-mu presa ao mastro. Basta que até aqui como quer que elas se amansassem em alguma parte, baixaram as armas às palavras da capitã Cuca, quando ela mencionou almoço e muita gabança, logo de uma mão para outra.

Sentaram-se então os convidas, e trouxe-lhes o cozinheiro a viande e demais restos que sobejara do saque. Eu não vi nem provei o suculento bife, mas imagino. Aos que pedem clemência e aos que mudam de lado, a capitã-mor não perdoa, e por sua ordem, atado e vendado, caminhei na prancha acompanhado da Condessa de Maresia, prima directa do deposto Príncipe da Noruega. No deque ouvi Palmier Encoberto Mafiya e Carla la Chica Sencilla a despedirem-se antes de embater-mos na água, e juntamente com gaiteiro nosso, dançavam e cantavam, e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita.


E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta embarcação vi e, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe. Cá o desejo que tinha de tudo vos dizer mo fez assim pôr em palavras, com alguma dificuldade, pois as vísceras do tubarão são pequenas e apertadas, mas a Condessa Maresia tinha um isqueiro, e eu trazia comigo papel e aparo, e uma garrafa de rum pela metade…




sábado, 2 de janeiro de 2016

vaca

Exmo SECRETARIA DO TRIBUNAL EUROPEU DOS DIREITOS DO HOMEM

F-67075 Strasbourg Cedex

FRANCE

Posto que a capitã-mor dessa Nossa Frota escreveu a Vossa Alteza a notícia do achamento dessa Vaca Sagrada pendurada na noite de natal, vinte e cinco dias do mês de Dezembro da dita era de dois mil e quinze, no mastro principal de nossa embarcação, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, sem pôr mais do que aquilo que vi, assim seja eu Cigano Maltês, conde de Trovisco, primo directo do deposto Príncipe da Roménia.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Majestade, porque não tenho qualquer memória desses dias- e portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo. Quinta-feira, 31 do dito mês, mandou a capitã lançar o prumo e acharam 25 braças e ao sol posto, a cerca de 6 léguas da terra, lançamos âncora. Ali ficamos ancorados toda aquela noite, nos achamos entre iates de luxo numa marina anónima, engalanados com fitas, bordados, plumas, preparando a chegada do novo ano. E ali andamos em festa calma, sem pilhagens ou desacatos, aliviando as reservas de rum, cantando “la bohème, la bohème et nous vivions de l'air du temps”.

A saber, primeiramente,  foi Polly, a nossa ave de estimação, que deu o alarme gritando “cheira-me a esturro, cheira-me a esturro”, madrugada de sexta-feira que foi o primeiro da dita era de dois mil e dezasseis.  Mas era tarde demais, já estávamos a ser barbaramente atacados por estranhas criaturas pintadas de negro, armadas até aos dentes, em sapatos de treze centímetros. O navio foi tomado por breves horas, a mais temível das criaturas, a que as outras chamaram de Ana, fez-nos a todos caminhar na prancha diante da sua lâmina. Na minha astúcia, lancei-me aos seus pés implorando clemência, já tinha tomado banho no dia anterior, não via necessidade de voltar a molhar a cabeça.



Vexta-street-art-mural-Bushwick-Collective-NYC
aviso à navegação: é preciso seguir os links e mesmo assim... boa sorte!

kac

Depois de ter passado o dia à procura, encontrei o meu fígado aos pés da cama enrolado no lençol, parecia uma botija de água quente castanha. 

The Absinthe Drinker, 1901 - Pablo Picasso