quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

kapusta

Não há sol. Uma névoa leitosa envolve a paisagem e a cambalear encontro o caminho para verter as águas. Os pés aos poucos habituam-se à realidade, dor já não é uma definição. Lavo bem as remelas, depois de sacudidas estendo-as com duas molas. Engulo dois pães pequenos em quatro dentadas, o café fraco a escaldar desce vagaroso, reconfortante. Só sei que é manhã pelo anúncio dos pássaros, encolho as extremidades para o interior e desapareço na bruma, pisando com cautela o gelo. Quando falo, um fumo abandona-me.

Não há sol. Rapidamente deitou-se no outro lado aborrecido com a distância. Deixo a água quente levar a poeira que trouxe escondida nas pregas da pele, o cansaço não me leva por pouco pelo ralo. Jantamos na mesa larga, partilham-se as deformidades do dia a cinco passos do fogão. Depois repartem-se as migalhas pelas ranhuras das tábuas, lavo os pratos e as nuvens que caíram durante o dia. Estou farto das couves que recusei com um sorriso, serviu-me o dobro convencida que quis dizer sim em vez de não. Bocejo. As couves deram-me sono, pareciam algas oscilando num mar tardo e zonzo regresso à cama.


Continua a não haver sol, desconfio que não volta. Contrariando a queda das pálpebras, escrevo à insónia para que não venha, pelo amor da santa. Depois abro a lista das perseguições, como uma caixa de sortido, desfaço-me do celofane, a saliva acumula-se pela hesitação. Há aqueles embrulhados em papel colorido, os baunilhados, os tradicionais, os cobertos de chocolate, quero provar todos, tenho fome de letras, que um homem não vive só de couve. Mas os olhos começam a fumegar, pequenas labaredas nas pestanas. Olho o tecto amaldiçoando os deuses pela inspiração que não chega, deixando um comentário para o dia seguinte, por vezes demasiado tarde. Porque quem escreve não obedece a vontades, e se nem à sua quanto mais às dos outros.

 watercolor by Mariusz Szmerdt

20 comentários:

  1. Manel, escreve também à insónia para ela se demorar mais e te deixar escrever belos textos como este. ;
    Que bom!

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    1. Isabel, a insónia nunca será bem recebida, ela pode vir mas preferia mesmo que não o fizesse! Obrigado, vou tentar escrever mais como este, mas sem promessas :)

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  2. um dia ainda serás premiado pela originalidade dos títulos (e a generosidade de partilhares textos tão bonitos)

    :)

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    1. os títulos obedecem a muitas regras e pouca lógica :) obrigado, generosa és tu com os comentários :)

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  3. Um texto muito bonito. Prendeste-me em cada palavra. :)

    Um beijo, Manel Mau. :))

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    1. Obrigado Castiel, nã sou merecedor de tanta bondade! :)
      beijos

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  4. para quem não tem inspiração Trovisco... olha, diria a minha mãe, 'consolaste-me' :)
    até te mando um beijo, repenicadinho :)

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    1. com direito a beijo e tudo :)
      nã mereço, obrigado. Beijos de volta, embalados por causa da chuva!

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  5. A inspiração chegou sim, Manel. Abre mais vezes a lista das perseguições e escreve à bendita, a dita cuja da insónia. :))

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    1. :)
      a lista das perseguições é a minha lista de leituras de blogs...
      é neles que por vezes me falta a inspiração para comentar, com pena minha...

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  6. A tua insónia parece-me muito melhor do que a minha!

    Beijos, Stormy boy. :)

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    1. a minha insónia tem andado desaparecida, nã a viste por esses lados?
      beijos Tutu, :) e vê lá se dormes.

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  7. voto no programa eleitoral da Nashi e do da Tutu, o que não invalida nada do que ficou escrito :)

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    1. já sabes em quem vais votar no domingo? :)

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    2. no branco, mas não admito graçolas contendo acusações de discriminação :)

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    3. ah, andaste metido nas declarações da Charlotte Rampling...

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    4. eheheheh, fui ver quem era... afinal são nomeados pelo talento ou pela cor da pele?

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