quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

rasgo

Quando entrei em casa, a mala com rodas que tínhamos comprado para a viagem de lua-de-mel estava à porta, ao lado das caixas empilhadas com os meus sapatos. Em frente ao fogão, serena depois da discussão do dia anterior, mexia o vazio que havia entre os dois.
podes vir buscar o resto no fim-de-semana ou quando te der mais jeito.
Sai sem abrir a boca, arrastando a mala e o orgulho até à garagem onde minutos antes estacionara. Atirei com tudo para a bagageira e esvaziei duas garrafas antes de adormecer num quarto frio de hotel com três estrelas. Foram precisos vários dias para entender que não havia como voltar atrás.

Sem prever que Urano atravessava a casa dez impelindo a mudança, saí para a manhã de geada abotoado até ao queixo, mas com a atitude de forcado enfrentando o dia de mão na ilharga. Ilharga, gosto desta palavra, da dificuldade com que a pronuncio, enrolada a língua no tecto da boca… adiante. A cara enregelada embrutecida pelo clima, sacudiu o gelo num sorriso assim que avistou no caminho a bela, mas antes sonsa Inês, atrasada de pastas espalhadas pelo passeio, maldizendo para o mundo o dia que começava azedo!
oh só me faltavas tu… Mau-tempo!
bom dia para ti também!
não te esforces, o dia não começou da melhor maneira… e estou atrasada!
o que tu queres sei eu… atiraste com as pastas de propósito só para meteres conversa comigo…
Ela sorriu, e agachados junto ao chão beijou-me o rosto acrescentando um doce bom dia Manuel! Mas depressa a felicidade me abandonou, a música de fundo abafada pelo som da ganga rasgada, oh desgraça lá se vai o meu único par de calças lavadas!
boxers azuis… gosto!
não tem piada! pára de olhar…
provocas uma situação ainda mais constrangedora para que eu esqueça a minha… és um querido!
a culpa é tua…
ninguém te ordenou cavaleiro, podias ter atravessado para o outro passeio e fazias de conta que não me conhecias, deixando-me a resmungar sozinha…
e perdia a oportunidade de mostrar como sou gentil e prestável…
a única coisa que posso fazer é mais logo levar-te ao centro para comprares umas calças… já só te restam dois pares e provavelmente estão para lavar.
tenho mais calças… nã preciso de comprar mais calças, que mania!
tens umas beges que te apertam, ficam-te bem mas raramente andas com elas… tens outro par de ganga… e as de sarja verde tropa, as que menos gosto.
como é que sabes que calças é que tenho?
consegues estar aqui às sete?

Estranhamente não atirou com a roupa pela janela como se vê nos filmes, nem atolou a mala de vagas tempestuosas enroladas, desocupando numa maré o roupeiro. Quando o efeito da bebida passou, descobri contido numa mala um mar pacífico de camisas e calças engomadas, meias casadas e dobradas.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

tremor

É fodido
Primeiro deixa-se de sentir as extremidades,
Começa pelos dedos dos pés, nem sequer é um formigueiro…
Depois as noites tornam-se claras,
Acorda-se com o maxilar cerrado, e quando amanhece finalmente se adormece…
Meia hora na borda da cama, fintando os pés que não se sentem
Tanto faz que esteja sol
Pode ser que hoje chova
Deixei a caneta na corda da vizinha, esvoaçando as letras nas toalhas amarelas…
Aumentam os dias que fico sem escrever, esperando que sequem as linhas,
E os dedos tremem. Um ressacado…
Depois sem dar por isso, perde-se o apetite,
Tudo sabe a mofo
Como se uma hifa se estendesse desde as entranhas, instalando-se no rebordo húmido da língua.
Sim, minha musa que adora o sol, a falta de apetite é geral.
Nem por ti tenho fome…

sábado, 9 de fevereiro de 2013

corda

Quatro toalhas amarelas a secar na corda, todas presas por molas iguais dispostas por ordem decrescente da esquerda para a direita. Sempre me questionei porquê que as mulheres usam o dobro das tolhas dos homens, quatro toalhas na corda dela, duas apenas na minha… já confirmei que vive sozinha, que ninguém dorme ocasionalmente na metade da cama, disse-me o dono do café, que por sua vez soube pela mulher, que lá vai alimentar o gato quando a dona se ausenta em viagem. É só ela e o malhado de pêlo curto, que persegue os melros no alvor do dia.
Se chovesse, ela regressaria à varanda com pressa, assim como estava, quase sem roupa, segurando as molas nos lábios, tornando-os ainda mais vermelhos e estranhos, abraçada ao que parecia um limão gigante. Nem olharia para uma janela mais abaixo, no ângulo morto do prédio, onde a observo julgando que fumo um cigarro. É hoje que me vou encher de coragem, injectando-a em grandes doses, vou subir um lance de escadas e dizer que a acho deliciosa quando estende a roupa, sempre com molas vermelhas, por ordem de tamanho.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

cauda

Beatriz escolheu outra mesa, mais próxima da janela, seduzindo os poucos raios de sol que por ali passeavam no ócio da manhã. Olha distraída para os pardais que saltitam nos ramos inconstantes, sem reparar que junto ao balcão de guarda aos cafés, a admiro. É quando fica mais bela, naquela espera que o mundo desperte e se entregue a seus pés. (juro que nem tentei rimar cafés com pés!)

Hoje trás o cabelo rendido com ganchos, expondo o seu delicado pescoço, bem como alguns milímetros de ombro que escaparam da blusa, desde a união da clavícula ao esterno. Desejo acariciá-la, deslizar a ponta dos dedos pelas vértebras, pelo tecido permeável da blusa, descobrindo-lhe pigmentos ocultos na superfície vulnerável da pele.

Sento-me como sempre, à sua frente, aspirando o odor que dissemina em partículas impalpáveis, idealizo o gosto aprazível enchendo a língua de saliva, contentando-me com o calor da chávena, beijar o seu rebordo, e no líquido intenso demolhar os sentidos.

Cala os olhos inclinando a cabeça em direcção ao céu, e esboça um sorriso afectuoso, sentindo a carícia morna do sol pelo rosto, tocando-a onde não ousei. O sacana apartou as nuvens para chegar até ela, roubando-me o prazer da sua companhia, os escassos minutos de terna convivência, agora partilhados por dois amantes rivais. Invoco em surdina os ventos de leste, para que colham as nuvens baixas, estratos-cúmulos ondulados e sombrios, e manchem de cinzento o tecto… mas em vão. Uma brisa ligeira remoeu a areia para assentar logo de seguida.

E se mudássemos de mesa!
Tás tolo! Com este tempo, só me apetece ficar aqui o dia inteiro, a fazer amor com o sol…
Acato resignado como um quadrúpede bem comportado, se tivesse uma cauda no prolongamento dos ossos do cóccix, abanaria efusivamente sempre que ela me dirigisse a palavra. Sem festas pelo pêlo, conforto-me com o seu sorriso, e por saber que no final do dia, a noite leva o sol de arrasto pelo poente!