quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

cauda

Beatriz escolheu outra mesa, mais próxima da janela, seduzindo os poucos raios de sol que por ali passeavam no ócio da manhã. Olha distraída para os pardais que saltitam nos ramos inconstantes, sem reparar que junto ao balcão de guarda aos cafés, a admiro. É quando fica mais bela, naquela espera que o mundo desperte e se entregue a seus pés. (juro que nem tentei rimar cafés com pés!)

Hoje trás o cabelo rendido com ganchos, expondo o seu delicado pescoço, bem como alguns milímetros de ombro que escaparam da blusa, desde a união da clavícula ao esterno. Desejo acariciá-la, deslizar a ponta dos dedos pelas vértebras, pelo tecido permeável da blusa, descobrindo-lhe pigmentos ocultos na superfície vulnerável da pele.

Sento-me como sempre, à sua frente, aspirando o odor que dissemina em partículas impalpáveis, idealizo o gosto aprazível enchendo a língua de saliva, contentando-me com o calor da chávena, beijar o seu rebordo, e no líquido intenso demolhar os sentidos.

Cala os olhos inclinando a cabeça em direcção ao céu, e esboça um sorriso afectuoso, sentindo a carícia morna do sol pelo rosto, tocando-a onde não ousei. O sacana apartou as nuvens para chegar até ela, roubando-me o prazer da sua companhia, os escassos minutos de terna convivência, agora partilhados por dois amantes rivais. Invoco em surdina os ventos de leste, para que colham as nuvens baixas, estratos-cúmulos ondulados e sombrios, e manchem de cinzento o tecto… mas em vão. Uma brisa ligeira remoeu a areia para assentar logo de seguida.

E se mudássemos de mesa!
Tás tolo! Com este tempo, só me apetece ficar aqui o dia inteiro, a fazer amor com o sol…
Acato resignado como um quadrúpede bem comportado, se tivesse uma cauda no prolongamento dos ossos do cóccix, abanaria efusivamente sempre que ela me dirigisse a palavra. Sem festas pelo pêlo, conforto-me com o seu sorriso, e por saber que no final do dia, a noite leva o sol de arrasto pelo poente!

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