quarta-feira, 28 de outubro de 2015

imputar

Exmos. Senhores

Começo por lhes apresentar o meu pedido de desculpas pela justificação tardia, mas afazeres pessoais e profissionais impediram-me de lhes responder em momento oportuno.
Com referência à situação climatérica actual, admito total responsabilidade pelos níveis altos de precipitação que têm assolado o território nacional nos últimos dias. Lamentavelmente a situação descontrolou-se, esperando-se melhoras só a partir do início da próxima semana. Mais informo vossas excelências que foi um acto verdadeiramente irreflectido e de pura obstinação, perante a tenacidade de um céu limpo e aguaceiros fracos.
Ressarcirei todos os lesados por qualquer dano causado, moral ou material, colocando-me desde já à vossa disposição para eventuais esclarecimentos. Cabe-me a mim, culpado em primeiro grau, divulgar que habitualmente os pedidos de precipitação são bem atendidos, mas por omissão do código postal no destinatário, a ordem executória teve lugar em território errado, bastante mais a sul, aqui continua sem nuvens, céu limpo, um autêntico nojo.
Apraz-me ainda informar que as reclamações podem ser dirigidas, caso não esteja assistido por um psiquiatra, ao instituto português do mar e da atmosfera, onde ocorreu o processo de previsão descritiva para 10 dias para uma determinada localidade escolhida aleatoriamente pelo sistema e que por acaso era Lisboa. Caso não haja previsão desfavorável, contrariando as actuais do momento, queiram vossas excelências ignorar parte integral desta minuta.
Em última análise, podem aconselhar-se junto da Autoridade para as Condições Meteorológicas, adoptando os procedimentos que se revelarem mais adequados a ultrapassar este impasse e crescente foco de conflito, até ser definida a sua situação, em termos definitivos, através de um dos dois procedimentos acima assinalados ou por outra via que vossas excelências achem mais conveniente e eficaz.


Com os melhores cumprimentos

Manuel Mau-Tempo






segunda-feira, 26 de outubro de 2015

nudez


Não preciso que o vento apanhe as folhas que cobrem o chão para saber que estiveste aqui.


Juli Jah watercolor and ink


domingo, 25 de outubro de 2015

glaciar

"Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim..."
Florbela Espanca, Charneca em flor (1931)


Finíssimas partículas de gelo assentaram entre nós sem serem visíveis. Quando Alicja e Jochen voltaram para Varsóvia, um glaciar tinha irrompido pela sala de jantar, sulcando a mesa e engolido as cadeiras, apartando-nos para os cantos. Inquirido pelo súbito silêncio e quebras perpétuas nos lábios de Izabela, culpei a partida da irmã sem saber que mais dizer. Ela por sua vez terá inventado uma indisposição feminina para se ausentar ao jantar, fechando-se cedo no quarto.

Durou quase uma semana a indiferença de Izabela. Quase uma semana privado de azul, carente do seu cheiro, da doçura da sua voz, mesmo quando grita “na ziemia” com o gato. Despejado da sua amizade, desviamos os mesmos percursos evitando rotas de colisão fatais, almoços, lanches e jantares. Confinei-me à jangada de quietude sem remos, enfrentei o gelo e atirei-me desalmado ao trabalho, resoluto a partir assim que terminasse as minhas obrigações.

Por mais que ensaiasse, os dias sem o sorriso de Izabela eram intoleravelmente tristes, e tudo por minha culpa, maldita escória líquida que corre nas veias. Na quinta enrolei com parcimónia as t-shirts nos peugos, despedi-me dos proprietários polacos e do gato com duas de tinto e uma lata de ração especial, e procurei a ninfa despromovida sem êxito. Rumaria para sul à boleia logo pela manhã, Marek ergueu a cerveja e sem grande vontade brindou "na zdrowie", foi o único que não quis saber, as bebedeiras criam amarras. Tinha deixado as troxas em cima da mochila, faltava completar na manhã seguinte com o portátil, os livros e a escova de dentes, eram esses os planos, e assim que o sol galgou o planalto, dei inicio à árdua tarefa de "tetrizar" todos os meus pertences. Um cheiro forte subiu da roupa quando peguei no primeiro rolo de t-shirt e peugo, urina de gato, até à mochila. Experimentei primeiro a fúria, um quartilho (473 mL) de penalti, depois a raiva e a culpa em shot (44,36 mL). Sentei-me alcoolizado de ira, lá fora os raios solares descongelavam a manhã pacificamente, reflexos dourados banhavam as copas quase nuas e muito albas, "por elmo, as manhãs de oiro e de cetim" fazia todo o sentido.

O gato já tinha abandonado o edifício, aliviado dormia estendido ao sol nalgum beiral alto. Só me restava o adiamento, um ou dois dias seriam suficientes para lavar e secar a troxa, acastelei tudo na mochila e dissolvido em vergonha procurei a ajuda da proprietária polaca. Do tecto da cozinha pendiam estalactites de gelo, Izabela levantou os olhos azuis surpresa de me ver, do seu café subia uma névoa agradável. A tia rapidamente se encarregou de tratar das roupas, afastando-se por uma das portas da lavandaria, sem me deixar uma cópia do contrato que estávamos a celebrar. O tecto começou a pingar quando Izabela ofereceu uma caneca de café, sentei-me diante dela, mal a conseguia ouvir com o som do degelo, gotejando por cima dos tachos e panelas, na mesa, fogão, mesmo no candeeiro. Acabei por ficar, clarificamos as posições, prometi segredo até à cova e no sábado levei o proprietário polaco a Wolin para descarregar o malte, enquanto Marek levou as damas a Szczecin ao centro comercial.

"Foi o sacana do gato!" respondi entre dois goles sem ele ter perguntado nada. Marek sorriu. "Ele gosta de ti. Deves ser o diabo!".

O diabo não serei, digo eu, mas somos chegados.

by Hula, more here http://byhula.com/#


sábado, 24 de outubro de 2015

enfrear

A nossa conversa começou sem ele saber muito bem em que lado da barricada me ia encontrar. Talvez porque nunca lhe dei muito a saber das minhas coisas, usualmente o tema é trabalho, por vezes conta-me situações engraçadas dos miúdos, ou manipula energicamente o seu novo gadget para me mostrar as fotos das férias. Finjo interesse e esqueço rapidamente o nome dos pequenos.

Reparei como preparou o trecho, pisando cauteloso o assunto como se pretendesse surpreender um urso num bosque repleto de galhos. “É tudo muito bonito”, começou, “mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura”. Sem que ele notasse, tirei do bolso do casaco um blíster de compridos e tomei logo dois. Já estava a prever o que ai vinha, se não era sobre os refugiados, era sobre os sem-abrigo, ou os desempregados. Não fazia outra coisa para além de cavar trincheiras à pressa, estava exausto e então comecei a tomar refreio em pastilhas.

by Gaia, more in http://gaiastreetart.com/

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

símio



cavaco prepara-te!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ravasco


… ou ensaios para dias felizes.

Mirei-me no pequeno espelho torto colocado por cima do pio, já não o usava há algum tempo e a primeira reacção foi de ver um estranho. Não era tão ridículo quanto imaginara, parecia que tinha um guaxinim morto com um pompom no topo da cabeça, mas era quente e cobria as orelhas. Passei a mão pela barba para garantir que era mesmo eu que ali se mirava, algumas pontas brancas reflectiram a luz fraca, confirmando a passagem dos anos. Depois experimentei erguer os lados da boca numa aproximação de sorriso, mas o resultado ficou aquém das expectativas.
Andava a ver se deixava crescer a par com a barba um lado optimista, mas não sei se por falta de chuva ou do solo franco-argiloso com pouca profundidade, a coisa não estava a pegar. E foi então que sem contar descobri a Biedronka (joaninha) na Stanisława Dubois, onde comprei duas garrafas de monte da ravasqueira, quinze zlótis cada, na esperança de ficar catorze graus e meio mais próximo de casa.
Mas voltemos ao início, ou à explicação do guaxinim morto. Na sexta-feira depois do jantar, (eram umas seis da tarde, cinco em Lisboa e na Madeira), Jochen e Alicja apareceram de surpresa carregados de presentes e com muitas saudades para matar. A mim calhou-me um gorro, o tal que parece um guaxinim falso e sem vida, mas até me assenta decentemente e as orelhas ficam protegidas do cieiro. E agora onde entra o ravasco? Vamos com calma que ainda estou ébrio.
Esbulhado da amizade de Jochen por largos meses, esqueci de como nos dávamos bem, mas agora parecia mais adulto, ajuizado, excluindo-se das disputas alcoólicas que eu e Marek travávamos. Falava em casar, ter filhos, empréstimo bancário, horário das oito às cinco, mas Alicja parecia a mesma, inconsequente e em busca de um coelho branco com colete.
Então andava a ensaiar para dias felizes e domingo veio com céu carregado, mesmo assim Izabela encheu um cesto com as iguarias da tia e surripiou os copos altos do armário. Com pouca pompa estendemos uma manta junto ao lago e abri o tinto que escoou pelas gargantas como chuva em terra árida.

O ravasco: Juro que não tive culpa. Depois da farta comezaina bem regada a baixo custo, a minha costela veio ao de cima, bateu-me uma profunda moleza, enterrei o gorro até tapar os olhos e adormeci meio fora, meio dentro da manta. Jochen tinha avistado um barco abandonado preso nos ramos e Marek foi com ele saber se tinha fundo. Ora, na manta estava eu (o ravasco) meio dentro meio fora, e as duas irmãs, Alicja inconsequente e Izabela, a musa despromovida. Ressalva, eu não tive culpa, estava a dormitar naquela extremidade de papo para o ar, quando as duas irmãs se aproximaram, pairando como nuvens sobre a minha cabeça. O primeiro beijo foi inconsequente e sabia a taninos e frutos vermelhos, tentei levantar a viseira mas ela segurou-me sem forçar pelos punhos. O segundo beijo sabia quase ao mesmo, um pouco mais doce, mais hesitante, suspenso por um risinho. E continuaram até perder a conta e a língua atravessar o lábio e se encontrarem, ora uma, ora a outra, sem resistir entre meio dentro e meio fora da manta. 




ravasco: Homem devasso; libertino

domingo, 18 de outubro de 2015

reposteiro

Ela não gosta de caminhar, ela não me dá a mão
Ela diz que quer ser minha musa, mas não me passa cartão!
Ela não chora por mim, ela não me guarda afeição.
Ela não acredita no que digo, insiste que sou um aldrabão!


zagaleto, 3 de Maio de 2014
algures da net... sei lá

sábado, 17 de outubro de 2015

słoń

Da última vez que sonhei com ele, estava em frente a uma pia cheia, de mangas arregaçadas até aos cotovelos secos. As pilhas de pratos com restos de almoço ultrapassavam a altura de um homem, e quando vi que era ele, o meu avô, senti pena mas não podia fazer nada. O meu avô nunca foi muito de trabalhar, não tenho ideia de o ter visto alguma vez de mangas arregaçadas, era o que se considerava naqueles tempos um artista, exímio a cortar e cozer, ainda conservo um sobretudo feito por ele.
Esta noite ele voltou, não me recordo o contexto, mas estive com ele. Talvez como estávamos antes, no sofá gasto a ver um daqueles programas sobre a vida selvagem que os dois apreciávamos, ou no café em silêncio, a seguir a trajectória imperfeita de uma bola de bilhar. Nunca foi uma pessoa fácil, ou afável, no fim preferiu a solidão. Talvez por isso o veja como um grande elefante engelhado que se afastou da manada.
Era precisamente sobre isso que eu queria escrever: os elefantes. O cérebro dos elefantes é quatro vezes maior que o nosso, os elefantes pensam, raciocinam e está comprovado que possuem uma memória surpreendente, bem mais sofisticada e capaz que a nossa (melhor que a minha até uma galinha). Outro facto admirável é o sentido de família e morte que os elefantes possuem, sendo os únicos animais para além do homo sapiens, que chora a morte dos seus familiares.

Mas os elefantes também brincam e até sorriem. Diz-se que as crias dos elefantes são as mais felizes à face da terra, rodeadas de carinho, protecção e afecto desde o dia em que nascem, depois de passarem quase dois anos dentro da barriga da mãe. Vi num filme um filhote com cem quilos, ainda trôpego, equilibrado em grandes patas, minúsculo perante a manada que o rodeava gentilmente para o cheirar e tocar, e lembrei-me da minha infância. Eu fui um elefante bebé (mais leve) e até aquele elefante engelhado e solitário, pouco afável para o resto da manada, descongelou o coração quando nasci e era terno e carinhoso comigo.

Photograph by Robert Carr-Hartley
słoń -elefante em polaco... 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

trouxa


gracejo

"ninguém é perfeito, ninguém faz tudo bem" 

Passos Coelho, 2015



terça-feira, 13 de outubro de 2015

anúncio

Musa procura-se, com ou sem experiência, para admissão imediata. Perfil pretendido: Gosto pelo contacto com a entidade empregadora (um cigano mal encarado), empatia e boa capacidade de inspiração. Oferecemos (eu e o cigano) formação, excelente ambiente de trabalho (são dois metros quadrados), oportunidade de progressão na carreira e plano comissional muito atractivo. Horário de 2ª a 6ª feira das 11h às 19h.

jana sterbak, Acteon at Home, 2005-2011 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

woda

Quando saímos ainda me segurava. Marek parecia apenas levemente alterado, mas concordamos sem discussão deixar o carro para voltar a pé. As rodadas alternadas tinham formado um grupo animado em redor do balcão, expulsos do bar, prosseguiram as conversas triviais amassadas em diversas línguas no frio desértico da rua. Alguém se queixou de uma das janelas de cima, cortando as vozes em fatias e depois migalhas que se dispersaram no silêncio pelas vielas. Seguimos só os dois pela artéria principal sem iluminação de trânsito, o passeio rodava como um lp de 45 rotações, e a dada altura desequilibrei-me, Marek riu exalando uma curta baforada de vapor. 
Do resto, talvez me lembre.


woda: água em polaco... sim, teria sido uma excelente ideia.

domingo, 4 de outubro de 2015

castanhada


e fico por aqui, vou dormir que preciso do meu sono de beleza... ou amanhã ainda acordo mais feio.

tumefacção

Pode parecer insensível da minha parte discorrer sobre bebedeiras e banalidades enquanto o mundo se espreme em conflitos, mas sinto que pouco posso fazer, o seu estado de meteorização é avançado.

Damaged goods lie in a damaged kitchen in downtown Donetsk, Ukraine, Aug. 26, 2014. Sergei Ilnitsky

sábado, 3 de outubro de 2015

repost

"Uma acalmia contagiante espalhou-se pelo parque ainda a tarde estava no início. O vento aligeirou para brisa, apaziguando as folhas caídas junto aos degraus gastos esverdeados de musgo, os pássaros resistiram à sua natureza irrequieta e em silêncio procuraram um ramo próximo, quase estáticos agora que o vento acalmara na alameda de plátanos, sempre deserta aquela hora do dia. 
Sentei-me no banco mais a norte, usufruindo de meia sombra e da quietude que se instalara, longe de imaginar-me no epicentro, espiado por pardais, pombos, melros e até uma coruja com insónias. Se tivesse erguido o olhar para o céu, estranharia as poucas nuvens à solta, suspensas sem movimento, coladas em rama a um fundo tão azul e vazio.(...)"    

 gelha, 25 de outubro de 2012

Chûte de feuillus de Vicent van Gogh, 1888.