sábado, 17 de outubro de 2015

słoń

Da última vez que sonhei com ele, estava em frente a uma pia cheia, de mangas arregaçadas até aos cotovelos secos. As pilhas de pratos com restos de almoço ultrapassavam a altura de um homem, e quando vi que era ele, o meu avô, senti pena mas não podia fazer nada. O meu avô nunca foi muito de trabalhar, não tenho ideia de o ter visto alguma vez de mangas arregaçadas, era o que se considerava naqueles tempos um artista, exímio a cortar e cozer, ainda conservo um sobretudo feito por ele.
Esta noite ele voltou, não me recordo o contexto, mas estive com ele. Talvez como estávamos antes, no sofá gasto a ver um daqueles programas sobre a vida selvagem que os dois apreciávamos, ou no café em silêncio, a seguir a trajectória imperfeita de uma bola de bilhar. Nunca foi uma pessoa fácil, ou afável, no fim preferiu a solidão. Talvez por isso o veja como um grande elefante engelhado que se afastou da manada.
Era precisamente sobre isso que eu queria escrever: os elefantes. O cérebro dos elefantes é quatro vezes maior que o nosso, os elefantes pensam, raciocinam e está comprovado que possuem uma memória surpreendente, bem mais sofisticada e capaz que a nossa (melhor que a minha até uma galinha). Outro facto admirável é o sentido de família e morte que os elefantes possuem, sendo os únicos animais para além do homo sapiens, que chora a morte dos seus familiares.

Mas os elefantes também brincam e até sorriem. Diz-se que as crias dos elefantes são as mais felizes à face da terra, rodeadas de carinho, protecção e afecto desde o dia em que nascem, depois de passarem quase dois anos dentro da barriga da mãe. Vi num filme um filhote com cem quilos, ainda trôpego, equilibrado em grandes patas, minúsculo perante a manada que o rodeava gentilmente para o cheirar e tocar, e lembrei-me da minha infância. Eu fui um elefante bebé (mais leve) e até aquele elefante engelhado e solitário, pouco afável para o resto da manada, descongelou o coração quando nasci e era terno e carinhoso comigo.

Photograph by Robert Carr-Hartley
słoń -elefante em polaco... 

11 comentários:

  1. "Quando pensamos, fazêmo-lo com o fim de julgar ou chegar a uma conclusão; quando sentimos, é para atribuir um valor pessoal a qualquer coisa que fazemos.Carl Gustave Jung"

    Grande frase que nos deve servir a todos.

    Agora lembrei daquele filme cujo nome é: Os brutos também amam

    Não sei, é se gostam de trabalhar :)))

    Eu cá, preferia não ter que o fazer

    Sabes afilhado, nunca sonhei com os avós que ainda tive tempo de conhecer, 3, foi os que consegui 2 avós e um avô, tenho boas lembranças de todos. Mas com o meu paizão sim, sonho algumas vezes, e é muito bom. Sempre fico com a impressão que é um recadito que me quer deixar, ou será só a saudade, sei lá....

    Gostei tanto desse teu pensamento, esse, de que foste um elefante pequenino. Eu bem digo que tu não passas de 2m de ternura,
    Abreijo daqui até aí
    E cuida-te paquiderme da madrinha
    :))))

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    1. por ti qualquer dia tenho 5 metros... :D obrigado madrinha

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  2. Tenho muito respeito pelos elefantes. Vivem em grupo e isolam-se para morrer - tal como algumas pessoas. São seres muito inteligentes e capazes de chorar e dar carinho.

    Aprendi hoje uma palavra em polaco Slón, acho que me vai dar jeito na minha próxima viagem....

    Beijocas

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    1. ston* sem acento que o meu teclado não deixa.

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    2. ainda nã vi elefantes por aqui... :D mas se ajudar, sim é tak, não é nie, obrigado é dziękuję (jincoie) bom dia diz-se dzień dobry (djin dobre), gato é kot, cerveja é piwo (pivo), água é woda (voda)... e pronto :)

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  3. belo... muito belo :)

    ___
    Li há uns tempos uma entrevista a uma alemã reformada que largou teres e haveres na terra natal, mudando-se para África, onde criou uma espécie de infantário para crias orfãs (de elefantes mortos pelo negócio do marfim/caçadas ilegais/etc.). Um dia, precisou de regressar à Alemanha, de onde voltou algumas semanas depois. Os crianços viravam-lhe ostensivamente as costas, amuados, incapazes de perdoar o desaforo do abandono, que foi o que ela entendeu, pela primeira vez: era uma figura maternal e abandonou-os.

    Num outro artigo, esse com anos, li que uma aldeia, na Índia, foi devastada por uma manada de elefantes em fúria. Razões, quando isto não é frequente? Ao que parece, boa parte dos aldeões sacrificou, não sei qual a razão/não a recordo parte dessa mesma manada. Alguém seguiu a manada em fuga, após a destruição da aldeia, e deparou-se com uma fêmea adulta embalando na tromba as ossadas de uma cria perdida...

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    1. Li que chegam a enterrar e cobrir com ramos os mortos, mesmo que nã sejam seus conhecidos, e mesmo de outras espécies, inclusive a nossa... são animais fantásticos, pena a inteligência nã nos servir a nós para o mesmo.

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  4. Ainda dizes que nã sabes !!
    Aqui está a resposta.:)
    Beijo Manel

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  5. Nem todos os nascimentos ocorrem quando se corta o cordão umbilical.
    O teu avô nasceu ao mesmo tempo que tu. Faz sentido, até aí era pai ...

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