terça-feira, 31 de janeiro de 2017

meditation

pensei talvez fechar os olhos e não ver mais o lado negativo. construir durante a noite uma estufa e plantar às apalpadelas rebentos de vontades. já os vi enlatados, vinham lá do sudeste asiático, banhados pelas cheias do mekong. e cansado, morto pelo trabalho, deitava a cabeça nas mãos e imaginava um sonho em que ela tivesse ido, que ficasse sentada ao meu lado e lhe confessava ao ouvido, porque o barulho era alto, coisas que só se dizem quando estamos perdidos. ou bebados. não será motivo suficiente para morrer, mas desde aquele dia já não sei se vivo, ou se é somente uma lesão.




não consegui escolher qual a versão preferida deste Meditation de Massenet

domingo, 29 de janeiro de 2017

undívago

Afago-lhe a cabeça no sentido do pelo, mas ela recusa abrir os olhos. Cheia de ronha faz-se morta aos pés do moço. Está um dia tão bonito lá fora e este desperdiça a juventude dele a dormitar até tarde, mas não adianta dizer-lhe que um dia as pernas vão-lhe faltar e se amargurara das horas que dedicou à preguiça. A fome salta para cima da cama, pisa o moço com elegância. A preguiça rosna-lhe baixo, mostra-lhe os comilhos brancos. Mas a fome não se deixa intimidar, procura outro ângulo de ataque, e com a língua de lixa, lambe a preguiça da cama. 

roubado daqui



Ela volta a procurar a minha companhia, convida para jantar lá em casa, pede-me receitas, conselhos, e eu recuso tudo, desculpo-me com poucos argumentos. Desola-me ela não perguntar porquê que estou triste, não queira saber o que se passa, o que mudou. Na noite passada voltou aos meus sonhos. Estávamos sentados na cozinha, e a chuva batia com força na janela, era tanta que a rua e as casas em frente se tinham tornado manchas desbotadas. Conversávamos de trivialidades e ela confessou que tinha feito uma tatuagem, no pé. Não quis saber o que era, o meu subconsciente fazia a pergunta e respondia sem articular qualquer som. Fiquei em silêncio, imaginando os caracteres japoneses com o nome dele. E ela que tinha uns pés perfeitos, agora estavam marcados e registados como posse de outro, para sempre. É notório que continuo a gostar dela, a preocupar-me com ela, embora sempre que me aparece com aquele horrível cachecol de lã laranja que o chefe lhe ofereceu e ela desde esse dia nunca mais o tirou, que só tenho vontade de a estrangular. 







首 (kubi) -  pescoço
Laranja seria um título muito mais apropriado, embora a primeira escolha tenha sido esganar.

sábado, 28 de janeiro de 2017

jejuno

... ou o dinheiro do frigorífico, os dedos do meu avô escrevem neste teclado e outras desgraças normais. 

Juntei dinheiro durante quase meio ano para um pequeno frigorífico. O outro velho que entrou lá em casa começou a fazer barulhos estranhos, e foi quando comecei a colocar dinheiro de parte para o substituir. No fim do ano o frigorífico ainda não tinha dado o último suspiro e então paguei ao Peres. Dei-lhe o dinheiro que tinha de parte e outro tanto que pedi emprestado. Quinze dias depois o frigorífico avariou.

Herdei os dedos do meu avô. Quando o sono se aproxima e a cabeça começa a tombar, ele toma conta dos meus dedos e escreve por mim. Entre cada parágrafo leva o cigarro à boca e fecha os olhos quando o fumo o envolve. De manhã tenho várias linhas escritas que não me recordava de ter, e um montinho de cinzas no chão. 

Agora em vez de uma tenho duas para esquecer. E a primeira não está a facilitar as coisas. Não quero escrever mais sobre isto, aliás, não quero escrever sobre mais nada. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

gówno

Um pardal no passeio faz-me perder o passo. Finta-me do chão a menos de um metro dos meus pés, mas depressa retorna ao frenético debicar pelas migalhas que a carrinha do transporte do pão sacudiu. O pardal não me temeu. Olhou-me lá da sua pequenez com tranquilo desdém como se dissesse: sim, és uma merda!

daqui

isquemia

ontem o dia foi de nuvens. "L'amour est un oiseau rebelle" cantarolei no caminho de regresso a casa, saltitando como um melro apaixonado.

 hoje o dia foi de cimento.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

imperial

Gustav Klimt - water snakes I



Descobri que não sonho em tecnicolor. Também não é preto no branco. É algo mais complexo, como as palavras. Nos sonhos as palavras escritas são traços sem sentido, abro livros ou sigo sinais na estrada e só vejo traços, símbolos abstractos. Mas quando preciso de entender o que dizem, as palavras conjugam-se dos traços e surgem tal e qual como agora as escrevo. Descobri isto recentemente e convenci-me que o mesmo acontecia com a cor: ela só aparecia quando era necessária, dependendo do contexto. Mas estava equivocado, agora sei que só existe uma cor com diferentes tons e às vezes a mínima diferença entre desmaiado e palha é suficientes para conferir profundidade aos planos. Ou dar ao mar o sabor de cerveja e a todos os pássaros a voz do canário. Hoje descobri  que sonho em amarelo.

quimera



Metade de mim acordou a meio da noite morto.
A outra metade continuou a sonhar. 


domingo, 22 de janeiro de 2017

pés

Perdi a oportunidade de a pisar, ou de ela me pisar a mim. Bastava ter dado um passo, um simples passo e tudo podia ter sido diferente.
Nunca nos tocamos. Podíamos ter começado pelos pés.

Sir Galahad Fotografia de Keystone no Getty Images

sábado, 21 de janeiro de 2017

vongole



Caríssima Vieira Pecten maximus

Encontrei a sua página de correio sentimental na rede e não hesitei em pedir-lhe ajuda. O meu nome é Gamba, camarão Gamba, e vivo na secção de congelados de uma grande cadeia de supermercados cujo o nome não vem agora ao caso. Estou com um sério problema relacionado com bivalves, e não é intoxicação de mercúrio. Tudo começou em meados de novembro, quando fui abandonado por uma mexilhão de bisso longo. Achei que ela nutria um sentimento especial por mim, mas ela só me quis para mudar de concha, e assim que o fez deu-me com os pés. O problema é que ainda gosto dela e tenho feito de tudo para a esquecer, inclusive inscrevi-me num torneio de patinagem em algas, corridas de chocos eléctricos e lições de faquir com ouriços. O que aconteceu é que numa destas actividades conheci uma amêijoa vongole e estou a começar a gostar dela. Mas eu não sei nada sobre esta amêijoa, não sei se há um amêijo na sua vida, se vai ficar por aqui algum tempo, nem sei mesmo se estará interessada em mim, ou se é apenas uma daquelas amêijoas simpáticas. Tem ainda outro problema, não fosse eu como um íman de problemas, ela, a amêijoa trabalha na mesma secção de congelados e ainda por cima, está umas prateleiras acima da minha embalagem. E o que acontece é que nos estamos sempre a encontrar, e já a olhei bem nos olhos, mas não tenho coragem para a convidar para um chá de fitoplâncton. Entretanto a mexilhão que eu pensava estar apaixonada pelo búzio do seu chefe, voltou a mostrar interesse em estar comigo, e isto tudo porque estou com o poder sedutor em alta, coisa dos astros e afins… Na verdade ainda sinto os bigodes eriçarem quando ela me liga, mas cá dentro sei que me vai dar com os pés outra vez, ou com o pé, que os mexilhões só têm um pé. Agora e se esta atracção pela amêijoa for só uma forma rápida de descartar a mexilhão da minha cabeça? Para esquecer um bivalve, qual é o tempo médio que se deve manter de afastamento? Não seria mais sensato conhecer percebes ou uma ostra? Agradeço desde já a sua atenção e se puder responder-me, era muito importante para mim ter o conselho de uma profissional. 
Atentamente, 

Gamba


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

vaga

“Aberto” podia ler-se do lado de fora na tabuleta dupla que ainda oscilava na porta. Uma mulher entrou na loja e foi directa ao balcão onde o funcionário ajeitava as últimas geadas que haviam chegado na entrega das seis. Quando se virou e deu de caras com a cliente, quase morreu de susto. A mulher trazia a cabeça coberta com um gorro de pelo negro e um cachecol de lã rosa tapava-lhe a boca e as bochechas. No interior da loja fez tenção de tirar as luvas, mas arrependeu-se de imediato. Ali fazia tanto ou mais frio como lá fora, só assim se conservavam trovoadas e granizos em frascos e vasilhas. Eram prateleiras cheias desde o chão até ao tecto. Mas a mulher não perdeu tempo a olhar para as âmbulas de borriço, ou para as bomboneiras de vidro fosco cheias de cacimbo. Ela nem sequer olhou para o aquário de nuvens que se estendia pelo fundo da loja, nem tão pouco se interessou pelos sinistros canopos ornamentados com figuras de deuses, onde se armazenavam tornados e ciclones em pó. 
-Olhe, eu queria qualquer coisa para a vaga. Disse a mulher com o cachecol à frente da boca.
-Para a vaga? Perguntou o funcionário, carregando bem na tónica da “vaga”.
- Sim, para a vaga. Insistiu a mulher, afastando o cachecol da boca. Preciso de algo para acabar com esta vaga de frio. Explicou. Não se consegue viver assim, é impossível, tenho vinte camadas de roupa sobrepostas. Disse a mulher, a quem saia pela boca nuvens de vapor quente. O frio não me deixa mexer, nem pensar, nem dormir, isto mais parece um pesadelo. Já viu onde estão as temperaturas? 
-Pois não sei como a posso ajudar. Disse o funcionário olhando para as estantes cheias de perturbações atmosféricas. É que sabe, nós aqui é mais mau-tempo. 


Roald Amundsen

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

sardónico

por tua causa e só por ti, estou a aprender a dizer não em todas as línguas. nie, нет, לא, ingen, no, いいえ, nem, nei, ไม่,  ez, 沒有, ne, لا, nein, nu, නැත, non, όχι, dim, geen, አይ, yox, aihwa, kee, ei, ບໍ່ມີ, ag,  innò, ebda, ਕੋਈ, nej, nē, жок.  no entanto a boca seca-me cada vez que ligas. a língua enrola-se num novelo mudo. um esgar sardónico toma-me conta da face, involuntário, provocado pela contractura espasmódica dos músculos. e desligo sem dizer não. não, tu não me fazes nada bem. hoje mais do que nunca preciso de Bechet. 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ouro

enquanto escrevo reparo que me faltam dois pedaços de carne em cada dedo da mão direita, logo abaixo da unha. quase jurava que ainda ontem estava completo, salvo aquele órgão desconcertado que deixei preso no prego. o frio interrompe as vias de transmissão nervosa e continuo a escrever, apertando com força a esferográfica que teima em desafiar a ordem e sair da linha. não tem fim este caderno, a cada nova folha que preencho com tinta, brotam cinco ou seis viçosas de nervuras alongadas que se seguram à capa pelos agrafos. o que me salva são as linhas, principalmente as descosidas e os buracos nas meias que engolem o universo. mas sei que foi mais um reflexo que um acto pensado, um impulso, ter olhado para as mãos dela à procura na união dos dedos por aros em ouro.


domingo, 15 de janeiro de 2017

uke

Os horóscopos de fim-de-semana são como os trailers dos filmes. Servem para nos dar um pequeno adiantamento do que nos espera, e alguns são bem melhores que os próprios filmes. Ou não.

gentilmente enviado por uma amiga

naïf

Não é certo que fosse ela, a que tem de sair mais cedo porque tem ensaio. Mas parecia, à porta da sala, surgindo no momento em que escorregava no mármore húmido e caia no chão desamparado, e sem olhar a ver se ela tinha visto, me erguia num pulo e tentava a fuga pela porta que dava para o jardim. Foi o riso, o riso num tom baixo. Ela fala baixo, mas fala muito. E quer saber coisas e diz coisas, principalmente sobre ela. Até disse que tinha de ir embora mais cedo porque tinha ensaio. Se calhar queria que perguntasse o que ensaiava, por orgulho, ou simpatia. Mas eu não perguntei. E agora fico aqui a imaginar o que será que ela ensaia. Pode ter ido ao ensaio do seu casamento. No sonho estava sozinha, encostada na ombreira da porta a rir da minha queda. 

“ce rire naïf que vient du ventre et qui explose en cascade, comme des perles dévalant l’escalier.”
un ressui - Laurence Gaillard

aqui

sábado, 14 de janeiro de 2017

trova

A outra dona por que eu trobava,
a dos sinais que nom 'ntendi,
do fundo do autocarro ela chamava,
Manel, que bom te ver aqui?
e com [tam] bom parecer, como esqueci
seu belo nome de flor brava.

Me pus 'ncarnado e a voz falhava
um tímido olá como 'stás respondi.
Que mui bõa conversa começava
vagando a seu lado um lugar vi,
nom contando que o varão que se ia,
lhe desse dos beijos! que invejava.

Quedei-me logo ali como estava,
à sorte numa página do caderno escrevi;
silêncio rei, nem um nem outro falava,
até ela me seguir onde sai.
Caminhando ao meu lado, a tudo respondi
Nom desconfiando que era mas longo o caminho que tomava.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ensaio

Quando a Brassica oleraceae é infestada pela lagarta da Pieris brassicae, a enzima lítica presente no regurgito da lagarta, provoca a emissão de compostos voláteis por parte da planta, de forma a atrair parasitoides da espécie Cotesia glomerata

Traduzindo: quando a couve é infestada por lagartas de borboleta, antes de desaparecer no estômago da bicha comilona, a planta manda uma mensagem às vespas cujas larvas são predadoras daquela lagarta específica de borboleta. A vespa então insere os ovos dentro da lagarta e depois é tipo cena do Alien, o oitavo passageiro. A planta não tem salvação, mas impede que a borboleta se dissemine para as vizinhas.

Concluindo: é mais fácil a um insecto captar um sinal enviado por uma planta, do que eu entender quais as intenções daquela outra mulher, a que me disse que tinha de sair mais cedo porque tinha ensaio. Desconfio que tenho um problema na captação de sinais. 



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Nesso

Era uma vez uma rapariga de saia e poncho. Havia neve e frio, e a rapariga esperava no passeio do centauro para atravessar. A saia era curta e rodava e o poncho curto também, e rodava de forma a sobrepor-se numa segunda roda, o que originava um efeito interessante. Mas o que realmente concentrava nela a atenção de trinta e dois indivíduos nas imediações, era a porção boa das suas coxas, visíveis a partir de uma certa altura em que as meias vindas dos pés, deixavam de ser opacas e pretas, e passavam a ser transparentes, com pequenos pontos que pareciam flores bordadas na própria pele. Caminhava naquela roda à minha frente e parou no passeio para atravessar. Do outro lado o centauro continuava dominado pelo semideus, mas só as estátuas não voltaram a cabeça na sua direcção. Estava frio e passei por ela, e reparei que nem era bonita, mas as coxas por si garantiam que o trânsito parava antes do sinal mudar. 

Héracles e o centauro Nesso, 1599 | Giambologna | Loggia dei Lanzi, Florença



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Norma

do ponto de vista anatómico não fomos feitos para chorar enquanto deitados, olhando o quarto de lua e o firmamento estrelado, pois que as lágrimas escorrem pelos cantos delgados dos olhos e deslizam por acção da gravidade para o interior do canal auditivo. 
quem diz observação das estrelas, diz observação do tecto. 
no entanto esta minha descoberta pode não ter qualquer sentido, e na realidade seremos tão anatomicamente perfeitos que quando deitados a olhar o céu, as nossas lágrimas vazam encaminhadas para os ouvidos num propósito especifico, sendo que o ouvido é protegido por uma camada de cera repelente da água e por isso a sensação é muito idêntica à que sentimos quando estamos imersos. talvez seja isso,  a submersão, essa tranquilidade estranha e opaca de sons. embora os peixes não chorem, o mesmo não se pode dizer das lagostas e dos homens que olham o tecto. sim, é verdade que os homens choram, se assim não fosse a natureza não os tinha dotado com cera nos ouvidos. 



domingo, 8 de janeiro de 2017

tombée

«La vie c'est comme une patinoire, il y a beaucoup de gens qui tombent»

Le tout nouveau testament, ou em português, Deus existe e vive em Bruxelas.





sábado, 7 de janeiro de 2017

hygge



Esta manhã o céu fechou-se escuro e o cinzento da cidade acordou coberto de um manto branco cristalino. Sento-me na cama com uma chávena de chá à espera que a inspiração me dê um soco. Sobe ao ringue, mas não faz mais que saltitar e esquivar-se, para depois voar até ao tecto onde se deixa ficar pendurada com a língua de fora. E lá fora, pela cidade, flocos da cor do leite caiem e então escrevo um anúncio na janela com letras grandes para que toda a gente veja: Felicidade, procura-se!


Chien blue

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

amateur

Cada um de nós ainda tinha o copo cheio à sua frente. Łukasz é tímido e calado, a não ser que um grão se lhe entranhe na asa, e ai é moço para abrir as goelas e verter um manancial de factos e acontecimentos. Henri gosta de se manter informado, está a par das noticias e novidades e fala dos assuntos da actualidade, desde política, economia, tudo o que me passa ao lado. A meu cargo ficam as histórias estranhas e vulgares, e quando se esgotam as histórias, treino palavras. Algumas já se sentam e rebolam quando quero. Mas como eu estava a dizer, cada um de nós ainda tinha o copo cheio, por isso foi muito estranho quando Henri começou a contar uma história.
Tratava-se de uma notícia que tinha ouvido na rádio sobre dois amigos que todas as semanas apostavam um certo montante, e como nunca a sorte lhes tinha bafejado, um deles decidiu que a partir do início do ano iria parar de jogar e juntar o dinheiro que gastava nas apostas. Ao mesmo tempo, o seu amigo tinha continuado a apostar o mesmo valor de sempre, e agora que chegavam ao fim do ano podiam comparar os valores arrecadados e ver qual dos dois tinha o saldo mais positivo.
Henri fez uma pausa para beber um longo trago de cerveja, devolvendo o copo à mesa sem acrescentado nada ao enredo. Łukasz estava empolgado, e tentava adivinhar um fim improvável, com um grande prémio da lotaria, repartido pelos dois, porque no fundo eles eram grandes amigos. Mas Henri entretanto tinha desistido da notícia, mudara de canal sem ouvir o fim da história, dizia, era música que gostava de ouvir de manhã cedo.
Bebi o resto da cerveja que tinha à minha frente e antes de lhe dar um sermão, levantei-me e fui buscar outra. Amadores, o mundo está cheio de amadores.

aqui


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

mālūlū

Uma família de três entra no autocarro. Escolhem não se sentarem todos juntos. Os que ficam lado a lado não trocam palavras. Às vezes sinto falta da conversa, mas não hoje. Hoje fartei-me de pessoas e bastaram poucas. Foi o frio que as avivou, estranhamente.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

blåhval

Ilmatecuhtli não dorme. Sentada na cama de madrepérola, coberta com um manto de algas pardas, espera que lhe conte o fim do universo. Estou cansado, passei o dia a coser nuvens em fio brando, deixando pequenos orifícios para que a água escorra num dilúvio. Mas se Ilmatecuhtli não dormir, amanhã será ainda adulta e passará o dia birrenta, e em vez de polvos, vai criar enguias eléctricas no meu pescoço. Sento-me num banco de sargaço e entrego-lhe os meus dedos para que neles enlace coloridas lesmas marinhas. Fala-me da matéria negra mais uma vez, pede a criadora de estrelas. É uma forma postulada de matéria que só interage gravitacionalmente e a sua presença pode ser inferida a partir de efeitos gravitacionais sobre a matéria visível, como estrelas e galáxias. Dou como exemplo o nosso sistema solar em que os corpos mais afastados do sol possuem uma rotação mais lenta que os que se encontram mais perto, e que isto não sucede por exemplo com a velocidade de rotação de galáxias. Elas por assim dizer rodam todas à mesma velocidade, quer estejam no centro ou na extremidade do universo, e esse fenómeno é explicado pela existência de uma massa extra não visível - a matéria negra. E então o que é isso da bolha? Pergunta a deusa que boceja. O universo está em constante e rápida expansão, e o que acontece é que basta uma flutuação quântica que cria uma bolha de vácuo, suficiente para engolir todo o universo. Ilmatecuhtli deixa-se cair nas almofadas e pergunta se posso continuar amanhã, mas antes de fechar os olhos quer saber se as estrelas vão sofrer quando chegar o fim. Asseguro-lhe que não. Sofre o krill ao ser engolido pela imensa goela de uma baleia-azul? A deusa sorri e adormece.


domingo, 1 de janeiro de 2017

ondinas

Não possuindo o engenho indispensável para empreender uma obra original, persuadido porém de que a astúcia e o frequente crime de plágio me habilitam para verter por minhas palavras os acontecimentos ocorridos após a operação "Roubo do Ano". Por contente me dou com o prazer bebido na saga da mitologia alemã, o Anel do Nibelungo do caríssimo Richard Wagner, de onde sem escrúpulos roubei o prólogo, Das Rheingold. Este prazer, em verdade, foi o que me sustentou em tão árdua e longa tarefa, ainda mais que o desejo de louvores; os quais todavia agradam ao nosso amor próprio e folgarei de os merecer.


PRELÚDIO

PRIMEIRA CENA-Visão fantasmagórica do fundo do rio Alviela. Uma débil luz azul-esverdeada causada pela descarga de efluentes de uma industria da região, permite distinguir enormes rochas depositadas no leito do rio. Bastante difusas, quatro figuras são vistas a nadar caprichosamente, divertindo-se em perseguições mútuas e evoluções graciosas. Geralmente, uma delas está lendo o livro “A Aranha”, outra tem ares de Capitã exótica, uma mexe uma panela de coxas boas, e a quarta a quem chamam Generala, bebe moet da garrafa. São as donzelas do Alviela, cuja incumbência é zelar pela guarda de um precioso tesouro que acabaram de roubar: o Ano Novo! 
Em outro plano, no alto de uma rocha, vê-se uma repulsiva figura humana de anão da raça Pernilungo, de cabelos emaranhados e revoltos, usando vestes antiquadas por cima do pijama. Acaveira, desajeitado, cambaio, deslizando no lodo, faz todos os esforços para se aproximar das donzelas, embargando-lhes os passos e tentando abraçá-las. Ágeis e divertidas, elas conseguem sempre escapar do audacioso Acaveira, rindo-se impiedosamente dele. Uma luz rósea começa a se fazer notar nas águas profundas. Ela simboliza a refulgência do misterioso Ano Novo de 2017. Acaveira, maravilhado, e sabendo que aquele efeito luminoso decorre do incalculável tesouro, indaga das donzelas qual o segredo daquela luz com efeito de purpurinas. Sem perceber a extensão do mal que poderão causar com a revelação dos mistérios do Alviela, as donzelas contam a Acaveira que aquele que tiver o novo ano civil se tornará senhor de um poder sem limites. Será ainda mais poderoso do que os próprios gestores da caixa geral de depósitos. Uma condição há, porém, para que esse alguém se possa investir desses extraordinários poderes. E essa condição é a renúncia para sempre ao amor. A ambição desmedida de Acaveira faz com que seus olhos se incendeiem, mesmo se para tal fortuna seja necessária a tão terrível renúncia. Elevando-se ao cimo de uma rocha, proclama essa renúncia, em uma dramática exaltação no seu blog. Corre, depois, ao local onde está guardado o Ano Novo, arrebata-o, com ele desaparecendo com um gargalhar zombeteiro e triunfante. Novamente a escuridão domina a cena. O Ano Novo foi roubado por Acaveira, e nas trevas as donzelas do Alviela lamentam-se profundamente, com desesperados gritos.

(Deixo um excerto da extensa obra, espero que seja do vosso agrado)


ACAVEIRA
Ei, ei! Vós ondinas! Como sois formosas, gente apetecível!
Da noite de Alcanena vim e me aproximo com prazer, se forem generosas comigo.

WOGLINDACOXA
Ei! Quem está aí?

FLORSHILDE
Amanhece e alguém chama...

WELLPALMIER
Espia, quem nos espreita!

CUCAWISPER
Pfui! O feio antipático!

FLORSHILDE
Vigiai o Ano! O tio pipoco advertiu sobre semelhante inimigo.

AS QUATRO FILHAS DO ALVIELA
Que queres tu aí em baixo? 

ACAVEIRA
Estorvo a vossa representação, se permanecer pacificamente aqui parado? Mergulhai para cá embaixo, que o Pernilungo vos acompanhará na brincadeira...

WOGLINDACOXA
Ele quer brincar connosco?

WELLPALMIER
É uma troça dele?

ACAVEIRA
Como no brilho das purpurinas pareceis claras e belas! Como tomaria em meus braços, com prazer, a delgada, se ela se enfiasse graciosamente até aqui.

FLORSHILDE
Agora eu rio de medo: O inimigo está apaixonado!

CUCAWISPER
O cobiçoso tipo esquisito!

WOGLINDACOXA
Vamos conhecê-lo! Quero oferecer-lhe bolachas!

ACAVEIRA
Elas inclinam-se para baixo. Como eu adoro bolachas!

WOGLINDACOXA
Agora, aproxima-te de mim!

ACAVEIRA
Xisto antipático, escorregadio, escorregadiço! Poluição suína. Como eu escorrego!
Nem apoiando-me nas mãos e nos pés eu deixo de escorregar nesta pedra. O elemento molhado e úmido enche-me o nariz. Maldito espirro!

WOGLINDACOXA
Espirrando, aproxima-se meu pomposo pretendente!

ACAVEIRA
Sejas minha namorada.Tu, juvenil donzela com uma panela cheia de boas coxas!

WOGLINDACOXA
Queres me fazer a corte? Então, faze-o aqui! 

ACAVERNA
Ó dor; tu me escapas? Ora, vem de novo! Para mim é difícil o que tu tão facilmente consegues fazer...

WOGLINDACOXA
Passa para o fundo: Lá tu me pegarás em segurança!

ACAVEIRA
Como posso pegar num salto um peixe que foge rápido? Espera, tu, falsa criatura!

FLORSHILDE
Raiá! Tu, amigo! Tu não me ouves? Tás surdo, ou quê?

ACAVEIRA
Estás me chamando?

FLORSHILDE
Eu te dou um bom conselho: dirige-te para mim, evita WOGLINDACOXA!

ACAVEIRA
Tu és muito mais bela do que aquela medrosa, que é menos brilhante, e, na verdade, escorregadia. Somente mergulhando fundo queres me servir?

FLORSHILDE
Estou agora perto de ti.

ACAVEIRA
Ainda não o suficiente! Os elegantes braços me entrelaçam, a tua cabecinha eu toco e a provoco com carinhoso ardor. Em teu intumescido seio eu me aconchego!

FLORSHILDE
Estás enamorado e ávido de volúpia. Deixa-me ver, belo amigo: qual é o teu aspecto?
Pfui! Tu és peludo, janota corcundo! Escuro, caloso, anão de enxofre. Busca um amigo ao qual tu dês prazer!

ACAVEIRA
Falsa criança! Fria, peixe frio cheio de espinha! Se eu não te pareço belo, engraçado e provocador, escorregadio e brilhante, ei, então vai fazer a corte às enguias, se para ti minha pele for repugnante.

CUCAWISPER
Por que te zangas, pesadelo? Já tão desanimado? Tu fizeste a corte a duas dentre nós, se tu perguntares à terceira, a bem-amada te dará doce consolação.

ACAVEIRA
Ela me dirige doce canção. Como é bom que de vocês uma não seja igual.
Pelo menos a uma eu agrado, e até agora ninguém me deu um beijo. Devo crer em ti, desliza então para cá!

CUCAWISPER
Como sois bobas, estúpidas irmãs! Este não vos parece belo?

WELLPALMIER
Já sei quem esvaziou todo o provisionamento de moet!