sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

amateur

Cada um de nós ainda tinha o copo cheio à sua frente. Łukasz é tímido e calado, a não ser que um grão se lhe entranhe na asa, e ai é moço para abrir as goelas e verter um manancial de factos e acontecimentos. Henri gosta de se manter informado, está a par das noticias e novidades e fala dos assuntos da actualidade, desde política, economia, tudo o que me passa ao lado. A meu cargo ficam as histórias estranhas e vulgares, e quando se esgotam as histórias, treino palavras. Algumas já se sentam e rebolam quando quero. Mas como eu estava a dizer, cada um de nós ainda tinha o copo cheio, por isso foi muito estranho quando Henri começou a contar uma história.
Tratava-se de uma notícia que tinha ouvido na rádio sobre dois amigos que todas as semanas apostavam um certo montante, e como nunca a sorte lhes tinha bafejado, um deles decidiu que a partir do início do ano iria parar de jogar e juntar o dinheiro que gastava nas apostas. Ao mesmo tempo, o seu amigo tinha continuado a apostar o mesmo valor de sempre, e agora que chegavam ao fim do ano podiam comparar os valores arrecadados e ver qual dos dois tinha o saldo mais positivo.
Henri fez uma pausa para beber um longo trago de cerveja, devolvendo o copo à mesa sem acrescentado nada ao enredo. Łukasz estava empolgado, e tentava adivinhar um fim improvável, com um grande prémio da lotaria, repartido pelos dois, porque no fundo eles eram grandes amigos. Mas Henri entretanto tinha desistido da notícia, mudara de canal sem ouvir o fim da história, dizia, era música que gostava de ouvir de manhã cedo.
Bebi o resto da cerveja que tinha à minha frente e antes de lhe dar um sermão, levantei-me e fui buscar outra. Amadores, o mundo está cheio de amadores.

aqui


6 comentários:

  1. Boa ideia, essa de colocar o coração numa garrafa de rum e atirar ao mar. Ainda não encontrei nenhuma por cá.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tem de ser uma com restos, ajuda a manter à tona...

      Eliminar
  2. Discordo da ana, desta vez. O coração deve sempre ficar no peito. É no peito que bate para nos manter vivos e é lá, também, que se descompassa em amores e desamores.

    Beijocas aos dois :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. mas isso nã será uma história que alguém contou? precisamos mesmo de atufalhar o peito?

      Eliminar
  3. Isso é extenuante, Maria. Foi me dito para o trazer fora do peito...

    ResponderEliminar
  4. Olha, eu que fiquei interessada em saber qual foi o saldo positivo, se do amigo que parou de jogar e poupou essa maquia, se do que continuou, fico aqui a magicar...e se o jogador ganhou mais do que perdeu?Ou perdeu tudo o que apostou? Ou umas vezes ganhou, outras perdeu? Há que ver aqui o lado contabilístico da coisa. Esse Henri também me parece um amador na arte de contar histórias. Acho devias tu ter pegado na deixa e terminado a narrativa, Manel.
    Essa garrafa a boiar num mar revolto, levando dentro um coração desfeito,fez-me lembrar o livro do Nicholas Sparks, que me fez chorar baba e ranho, com palavras que nunca te direi...:)

    Beijos, Manel. Tem um bom fim de semana.

    ResponderEliminar