domingo, 28 de junho de 2015

lábfej

Finalmente parece que tenho algo em comum com Bernard Rhodenbarr. Ainda não me foi diagnosticado, mas pelos sintomas diria que possuo neuroma de Morton no pé esquerdo. A doença de Morton consiste no espessamento do nervo interdigital dos dedos dos pés, formando-se uma espécie de “massa” dentro do nervo (e pela dor diria que é penne rigate). Manifesta-se tipicamente com dor intensa na parte da frente do pé, por vezes acompanhada de formigueiro ou dormência nos dedos. A dor pode ser constante, mas piora quando se sobe escadas (confirmo).

Acho que foi em dezembro que uma amiga me falou dele, do Bernard, não do Morton. Disse que parecia uma personagem inspirada em mim, um ladrão cheio de charme que gosta de ler, mas Block criou-o antes de eu nascer, o primeiro livro em que aparece foi publicado em 1977, só dois anos depois, no terceiro volume da série é que Bernie compra uma livraria com as economias conseguidas de roubos anteriores. E é nessa altura, segundo a minha amiga, que ficamos mesmo parecidos, apesar de não ter nada em comum com ele, para além da doença de Morton.


Desenhos anatómicos de Leonardo da Vinci




a quem interessar, publicado na terrinha:  “Os ladrões não podem escolher” Livros do Brasil 2005, da colecção Vampiro gigante e “O ladrão que estudava Espinosa” lançado pela Cotovia em 2011, colecção Gato Preto, de Lawrence Block.

lábfej: pé em húngaro (lábe-fei)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

quebranto

Desde que deixei esturricar um promissor arroz de tomate, faz agora umas três semanas, tudo me corre mal… alguém sabe como posso reverter o enguiço?


domingo, 21 de junho de 2015

filodoxia

Ao contrário da maioria das pessoas, opto por fazer a minha lista de resoluções de ano novo em meados de agosto. hoje apercebi-me que estamos quase em julho e ainda não pensei em nada, mas em agosto normalmente é quando tenho mais tempo livre para colocar umas ideias por escrito. antigamente fazia como todas as outras pessoas, antes do ano terminar tomava umas resoluções (com um copo de água, dizem que escorrega melhor) e depois tinha 12 meses para as pôr em prática. mas comigo, ter muito tempo pela frente é meio caminho para o insucesso, e acabava por não fazer nada em janeiro ou fevereiro porque eram meses complicados e ainda tinha tempo, depois maio, junho e ainda tinha mais de meio ano, e quando começava a pensar fazer mesmo alguma coisa, estava em dezembro, a escassos dias do ano terminar. quando optei por começar em agosto, acho que correu muito melhor, até porque são só 4 meses, logo a lista é mais reduzida e as expectativas diminuem bastante. 


sábado, 20 de junho de 2015

terapia

Fenómenos que não compreendo, mas que me arrependo de não ter pensado neles antes:

  Livro de colorir para adultos. 10,90€ na fnac, 100 imagens de “padrões gloriosos com pormenores intrincados (…) Relaxante e inspirador, este livro ajuda-o a expressar a sua criatividade.”








O que falta é terapia…



…ter a pia cheia de loiça para lavar.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

oublié

A nossa roupa ainda pingava quando entramos no elevador, fez-se silêncio, afastei-lhe uma madeixa colada ao rosto e ela sorriu. As portas abriram anunciadas por uma gravação para um átrio forrado a alcatifa, estava quente e tínhamos sob os pés o mapa de Paris, era só seguir os Champs-Élysées até ao quarto.

Vá, podes começar a desembrulhar-me. Disse-lhe, largando a mochila na entrada. Ela sorriu novamente, mordeu o lábio e começou a tirar-me o casaco. É suposto seres a minha prenda? Era essa a ideia, mas se não quiseres… Quero, não é isso, é que já tinha comprado a tua prenda para mim, aliás deves-me cinquenta euros. Cinquenta? Foi uma pechincha, mas gostei muito, és um querido! E aposto que até tu vais gostar. Dito isto, desapertou o cinto da gabardine que deixou cair lentamente deslizando pelos ombros. Por baixo só trazia uma lingerie da cor da pele com flores bordadas em preto.

O hotel não estava nos nossos planos iniciais, mas os pais tinham-lhe feito uma surpresa aparecendo no dia anterior para festejarem o seu aniversário. Entretanto com a confusão, esquecera que ficara de me hospedar no seu apartamento durante o fim-de-semana, também se esqueceu de me ir buscar ao Charles de Gaulle, como não a vi pensei que tinha feito confusão e que estaria em Orly à minha espera. Mas afinal nem num nem noutro, quando lhe liguei estava a jantar, a mãe tinha caprichado e o menu  era lombo assado com batatinhas pequenas, e não se coibiu de dizer que estava delicioso com a boca cheia. O meu estômago reclamou alto, a zona das chegadas tinha pouca gente, mas quem estava ficou a olhar na minha direcção.

Como era possível esquecer-se de mim? Azoado procurei um sítio para me sentar, quando o que menos me apetecia era estar sentado, mas o meu cérebro parecia liquefeito, e qualquer movimento mais brusco dava a sensação de se desfaiar pelos ouvidos. O despejo da “low cost” do Charles de Gaulle era em tudo semelhante ao que se podia esperar de um mau aeroporto, alcatifas sujas do início dos anos 80, plantas artificias comidas pelo sol, cadeiras desaparafusadas, pouca informação afixada e, a cereja no topo do bolo, funcionários mal-encarados. Tentei dormitar um bocado enquanto a “minha amiga com Alzheimer” não chegava, mas a ideia de que ela se tinha esquecido de mim parecia um verme alojado que aos poucos se alimentava de pensamentos inúteis e ridículos. Ninguém gosta de ficar esquecido, mas no meu caso nem é não gostar, vai um pouco mais além, é assim um trauma de infância, que se calhar até explica muita coisa. Não costumo falar muito sobre isso porque os meus pais ficam envergonhados, mas a culpa nem foi deles, o que acontece é que adormeci na camioneta e por lá fiquei esquecido. É claro que se o meu pai não tivesse metido na cabeça que eu havia de ir jogar futebol, nunca teria entrado naquela camioneta, nem ficado esquecido até a minha mãe começar a servir o jantar e reparar como tudo estava tão calmo e silencioso. O miúdo? Terá perguntado.


 
Egon Schiele
Mann und Frau (Umarmung) 1917

domingo, 14 de junho de 2015

Kiri

ilustração de Zé Burnay para os Like Swallows
Faz hoje um ano que a conheci e no entanto parece que passou uma eternidade desde que ela partiu, levando consigo a blusa descaída no ombro e as andorinhas.





sábado, 13 de junho de 2015

aquilatar


Quando comprei a viagem só reparei nas taxas extras da bagagem de porão. Como sou muito poupado e irritam-me os extras em letras pequenas, nem notei que havia outras opções que a companhia disponibilizava numa fonte reduzida, dois parágrafos mais abaixo. Bastava um click lá no quadradinho e podia ter embarcado num “voo para maiores de 21, com oferta de duas bebidas” e também “assistentes de bordo saídas do catálogo de lingerie da Victoria’s Secret”. Como não seleccionei nenhuma destas opções, a companhia colocou-me num voo normal de duas horas e vinte minutos com destino a Paris, rodeado de pessoas pequenas com dentição de leite.

Fui dos últimos a entrar no avião, a pista brilhava sob o borriço, havia fila nas escadas e um atraso de dez minutos. Calhou-me o lugar no corredor e ao princípio até fiquei agradado, permitia-me esticar as pernas depois de um dia cansativo. Por cima do meu lugar já não havia espaço para a bagagem, a alternativa era coloca-la sob o assento da frente, mas nem cheguei a tentar, três lugares adiante um passageiro teve a amabilidade de zipar os seus pertences para que eu pudesse arrumar a minha mochila, mesmo ao lado de uma pequena mala verde com um dinossauro sorridente. O seu proprietário dormitava ao colo da mãe, parecia inofensivo.

Rapidamente os assistentes de bordo fecharam os compartimentos da bagagem e sentaram os mais agitados nos respectivos lugares, o atraso arrastava-se para os vinte minutos e enquanto o piloto manobrava o avião até à pista, executaram os procedimentos de segurança e emergência. Ao meu lado viajava um casal espanhol em lua-de-mel, falavam espantosamente baixo e estiveram entretidos a partilhar o guia de Paris, até ela adormecer encostada ao ombro dele. No início achei estranha a disposição dos lugares, ela ia sentada entre os dois e não junto à janela, mas assim que o avião começou a ganhar velocidade, apercebi-me que era medo que a mantinha naquela posição, nem sequer conseguia olhar pela janela à medida que o avião se separava da sua sombra e as casas tornavam-se indistintas na paisagem. Ao atravessar as nuvens um poço de ar abanou as sessenta toneladas de fuselagem, causando a sensação momentânea de ausência de peso, a rapariga quase se agarrou ao meu braço, depois sorriu-me procurando alimentar-se da minha tranquilidade. Nessa altura ainda não tinha reparado na mini-saia que usava com um segundo par de meias até aos joelhos, só quando comecei a escrever este relato, é que as suas pernas entraram no meu campo de visão e quase de lá não saíram, não fosse a gigantesca bunda que a assistente de bordo francesa manteve voltada para mim enquanto distribuía bebidas e comezainas pelos passageiros esfomeados. Sem exagero, parecia um pneu traseiro de um tractor prestes a esmagar-me.


Enfiei os headphones e tentei dormir um pouco, os meus ouvidos estalavam e doíam com a variação de pressão, tinha esquecido de comprar chicletes para aliviar o zumbido. Fechei os olhos e ajustei a música no volume máximo que o meu mp3 permitia, faltavam quase duas horas de voo quando o tabuleiro acoplado ao meu assento começou a descer e subir como se o tentassem arrancar do sítio. Depois parou durante uns minutos. Mantive os olhos fechados, os dentes cerrados e os punhos preparados para os espetar em qualquer direcção. O tabuleiro voltou a descer, bateu três vezes contra o encosto e um assistente de bordo apareceu antes que eu arrancasse a cabeça a alguém. Por essa altura apercebi-me que estava rodeado de pequenas criaturas mal cheirosas que guinchavam, surgindo de todos os lados para me atormentarem agora que o avião já estava no ar e era impossível despejá-los.

Tenho sérias dúvidas sobre a identidade destas coisas, em tempos vi um filme em que algo idêntico acontecia com uns seres que se transformavam quando eram alimentados depois da meia noite. Da esquerda voavam toalhetes e talheres de plástico, mais à frente a criatura adormecida tinha por fim acordado e berrava em plenos pulmões, o pai exasperado, limpava o jantar líquido da cria que vertera da mala com o dinossauro, a qual ficara estrategicamente colocada ao lado da minha. Nem me mexi. Já só pensava no cheiro a leite azedo que me acompanharia pelas ruas de Paris, quando senti uma pequena pressão na lombar. Primeiro optei por ignorar, abri "A dança da morte” junto ao marcador e comecei a ler. Depois uma segunda pressão um pouco mais forte, alguém sentado no banco de trás tentava irritar-me. Respirei fundo, a pressão agora era constante, enterrando o banco nos meus rins sem misericórdia. Em desespero virei-me para trás e dei de caras com uma pirralha com cara de anjo, menos de meio metro, pernas esticadas até à saliência do assento, muito satisfeita com o resultado. 





quarta-feira, 3 de junho de 2015

escalmorrado

Nunca escrevo muito sobre o que faço pelo simples facto de ser aborrecido. O meu trabalho é entediante, até já pensei sugerir a palavra tédio como sinónimo para a minha ocupação, sem exagero, só de pensar dá sono. Por isso se chegaram até aqui sem bocejar, não garanto que continuem a sentir o mesmo.
Aviso feito, vamos à explicação concreta: Sou um espantalho! É isso, o meu ofício é espantar, por isso chego ao fim do dia cheio de dores nos pés, são horas seguidas parado no mesmo sítio, quase estático, quer faça chuva, quer faça sol. Mas o pior nem é isso, consigo lidar bem com a imobilidade, aliás descobri que até tinha muito talento para essa tarefa, não fosse eu nascido e criado no Alentejo. Mas como eu estava a dizer, o pior não é passar o dia em pé sem me mexer, não, o pior é a passarada, esses seres insurrectos que me atormentam, escoando em segundos a pouca paciência que me resta. É sem dúvida uma ocupação que exige extrema perseverança, paletes de constância, muita firmeza e acima de tudo, excesso de tolerância. Também ajuda ter pouco amor a pássaros, no entanto isso acaba por ser ultrapassado a partir do momento em que se é constantemente acirrado pelas criaturas. Tá um gajo plantado ali ao alto, esticado pelas orelhas e chega um bando de gralhas-de-nuca-cinzenta, bicho maldito, sem medo de nada, vão-se aproximando atrevidas, carregadas de compras, piscam os olhos sem pudor, grasnar metálico, algumas ousam pousar as garras e eu aguento, sem me mexer. Mas há pior, muito pior, o voo pausado, rente ao solo nas planícies e nos planaltos do Tartaranhão-caçador pode ser uma verdadeira dor de cabeça, tenho de estar sempre atento, mas imóvel, o que não ajuda muito. Passam a rapinar dissimulados na paisagem, exímios caçadores bem armados, não há espantalho que não os tema. Há ainda os Peneiros com as suas penas sarapintadas, “peneiram” o ar em busca de problemas, mas com esses posso eu bem, é mais bazófia que outra coisa.
Claro que o meu ofício não é somente acinético, para espantar é preciso possuir qualidades assustadoras, algum músculo, mas sobretudo altura e uma carantonha. Não sou excepcionalmente feio, o que tem dificultado bastante o meu desempenho. Quando chega o tempo das andorinhas-das-chaminés, com as suas longas pe(r)nas caudais, as criaturas não se sentem nem um pouco afectadas com a minha altura, ou o meu porte sério e indiferente, esvoaçam rápidas à minha volta, sedutoras e joviais, desleixo-me e retribuo um sorriso, fico manso como um pinheiro e lá vem a minha dona, afasta-as da horta, dá-me uma reprimenda.

E é basicamente isto, muitas dores nos pés, porcaria de pássaro e um tédio de morte.