quinta-feira, 18 de junho de 2015

oublié

A nossa roupa ainda pingava quando entramos no elevador, fez-se silêncio, afastei-lhe uma madeixa colada ao rosto e ela sorriu. As portas abriram anunciadas por uma gravação para um átrio forrado a alcatifa, estava quente e tínhamos sob os pés o mapa de Paris, era só seguir os Champs-Élysées até ao quarto.

Vá, podes começar a desembrulhar-me. Disse-lhe, largando a mochila na entrada. Ela sorriu novamente, mordeu o lábio e começou a tirar-me o casaco. É suposto seres a minha prenda? Era essa a ideia, mas se não quiseres… Quero, não é isso, é que já tinha comprado a tua prenda para mim, aliás deves-me cinquenta euros. Cinquenta? Foi uma pechincha, mas gostei muito, és um querido! E aposto que até tu vais gostar. Dito isto, desapertou o cinto da gabardine que deixou cair lentamente deslizando pelos ombros. Por baixo só trazia uma lingerie da cor da pele com flores bordadas em preto.

O hotel não estava nos nossos planos iniciais, mas os pais tinham-lhe feito uma surpresa aparecendo no dia anterior para festejarem o seu aniversário. Entretanto com a confusão, esquecera que ficara de me hospedar no seu apartamento durante o fim-de-semana, também se esqueceu de me ir buscar ao Charles de Gaulle, como não a vi pensei que tinha feito confusão e que estaria em Orly à minha espera. Mas afinal nem num nem noutro, quando lhe liguei estava a jantar, a mãe tinha caprichado e o menu  era lombo assado com batatinhas pequenas, e não se coibiu de dizer que estava delicioso com a boca cheia. O meu estômago reclamou alto, a zona das chegadas tinha pouca gente, mas quem estava ficou a olhar na minha direcção.

Como era possível esquecer-se de mim? Azoado procurei um sítio para me sentar, quando o que menos me apetecia era estar sentado, mas o meu cérebro parecia liquefeito, e qualquer movimento mais brusco dava a sensação de se desfaiar pelos ouvidos. O despejo da “low cost” do Charles de Gaulle era em tudo semelhante ao que se podia esperar de um mau aeroporto, alcatifas sujas do início dos anos 80, plantas artificias comidas pelo sol, cadeiras desaparafusadas, pouca informação afixada e, a cereja no topo do bolo, funcionários mal-encarados. Tentei dormitar um bocado enquanto a “minha amiga com Alzheimer” não chegava, mas a ideia de que ela se tinha esquecido de mim parecia um verme alojado que aos poucos se alimentava de pensamentos inúteis e ridículos. Ninguém gosta de ficar esquecido, mas no meu caso nem é não gostar, vai um pouco mais além, é assim um trauma de infância, que se calhar até explica muita coisa. Não costumo falar muito sobre isso porque os meus pais ficam envergonhados, mas a culpa nem foi deles, o que acontece é que adormeci na camioneta e por lá fiquei esquecido. É claro que se o meu pai não tivesse metido na cabeça que eu havia de ir jogar futebol, nunca teria entrado naquela camioneta, nem ficado esquecido até a minha mãe começar a servir o jantar e reparar como tudo estava tão calmo e silencioso. O miúdo? Terá perguntado.


 
Egon Schiele
Mann und Frau (Umarmung) 1917

2 comentários:

  1. Esquecido não é abandonado. Bem... em alguém com Alzheimer, não sei... eheheheheh

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