sábado, 15 de novembro de 2014

animus

A minha alma tem a forma de um cão de pêlo curto e muito negro. É grande, mas magra, e um destes dias passou por mim à chuva, de olhos postos no chão. O pêlo estava encharcado, e não lhe vi o olhar porque ia amparado na rua, seguindo talvez um caminho no cheiro. A minha alma passou com pressa, mudando à frente de passeio, subindo rápido por um beco. Pensei segui-la, hesitei no semáforo, um carro buzinou e quem estava por perto olhou quebrando a monotonia do tempo. Deixei-a ir.


domingo, 2 de novembro de 2014

sepulcro



... ou a sexta e última parte... ou o fim da espera (para quem estava sentado). 

Se era fácil levá-lo aquele estado, o mesmo não se podia dizer do contrário. Valia-lhe o facto de se encontrar de bruços, mas por quanto tempo permaneceria naquela posição? A massagem estaria a chegar ao fim, e provavelmente sairia, dando-lhe alguma privacidade para voltar à sua roupa cinzenta e sem goma. Mas e se ela não saísse, ou pior ainda, e se ela lhe pedisse para se colocar de barriga para cima? Que vergonha! Sentia de novo a pele a corar, precisava concentrar-se em algo desagradável rapidamente. Primeiro pensou nas meias e como teria de as calçar ainda húmidas, depois lembrou-se do seu chefe, um individuo baixo que quando caminhava movia exageradamente os braços ao longo do corpo, parecendo um soldadinho de chumbo com a camisa sempre mal ajambrada e manchada com círculos de suor. Era um ser insuportavelmente controlador e nojento, que mantinha vigilância apertada sobre todos os gastos do escritório, implicando dia sim, dia não, com o número de clips tamanho quatro usados por mês só naquele sector. Mas o que mais o irritava nem eram essas implicações, ele próprio era um pouco implicativo, e compreendia que era necessário algum domínio sobre os gastos. O que o deixava mesmo piurso era o facto do chefe usar o termo “símios” quando se referia aos outros colaboradores. Não teria ele espelho em casa? pensou. 

A táctica adoptada pelo homem que ansiava que a massagem chegasse ao fim, até estava a resultar, não fossem os movimentos de subida e descida, agora na outra perna, atirarem-no de volta ao ponto de rebuçado. Que maldição, pensou e nisto ouviu o que parecia ser o toque ininterrupto do seu telemóvel, a zumbir o Für Elise polifónico. 
Sempre que escuto isto, imagino Mozart a rodar no seu humilde sepulcro. 

E agora, como é que ia atender, esquecera de desligar o som, e ainda por cima estava com o volume no máximo, e sem sinais de que iriam desistir. A massagista loira manteve com toda a calma o sorriso, prontificando-se para lhe chegar o engenho, apesar daquela situação a irritar tanto como a mim, narrador. O homem concordou, naquele momento ainda não era seguro deixar a posição de bruços, e orientou a senhora para o bolso direito, esquecendo a meia húmida que lá enfiara. O Für Elise entretanto calou-se, e a senhora convertia o sorriso por uma expressão enigmática, olhando depois com pouca satisfação para a meia, meia empapada, que acabara de tirar do bolso. E assim se foi o tesão.




sábado, 1 de novembro de 2014

enrijar



Depressa a noite varreu os restos do dia dispersos pelo céu nublado, havia cada vez menos pessoas na rua, passos rápidos orientavam guarda-chuvas abertos, distorcidos pela iluminação fraca que incidia nos passeios molhados. 


Era nisto que pensava sentado na mesa, quando a senhora loira que ele julgava ser apenas a recepcionista, entrou arregaçando as mangas da bata. Fez-se escarlate mas ela não notou, ou se notou não mencionou. Deitou-se de bruços encaixando a cabeça no orifício da mesa e ela acomodou os diversos turcos por cima, de forma a cobrirem-lhe todo o corpo com excepção da cabeça e início dos ombros. Era confortável como imaginara, mas mais limpo e perfumado do que idealizara. Ouvia-a encher as mãos com o que supostamente seria óleo de massagens e de seguida destapou o turco maior que lhe cobria as omoplatas até ao fim das costas e começou a massajá-lo, primeiro muito suave, mantendo sempre o contacto com uma das mãos, num contínuo vai e vem através dos ossos da coluna. O homem que ansiava tudo e ao mesmo tempo nada, estava hirto como um pau, desabituado ao toque, parecia que a pele estava prestes a estalar de vermelha e tensa. 
“Tente não pensar em nada” sussurrou a mulher loira, unindo as mãos na base do pescoço do homem, partindo dali para os ombros retesados.
Não pensar em nada! Curiosamente era isso que o homem estava a conseguir fazer, não pensar em nada, mas a partir do momento em que ela mencionara, tudo voltava. Pelo menos era o que ele pensava. Voltou a concentrar-se em sentir as extremidades dos dedos da massagista, da proximidade do seu corpo, que por vezes roçava inadvertidamente a sua mão voltada de palma para cima, tapada pelo turco, mas ainda assim, consciente. 

A massagista demorou-se mais do que o normal em volta dos ombros, estavam tensos, carregados de nódulos. É curioso o que o corpo de uma pessoa nos pode dizer sem que abra a boca, pensava a mulher loira, orientando agora a sua atenção para os membros inferiores do homem. Um médico legista poderia dizer muito mais, mas ela só de lhe tocar através da pele, sentindo os nervos, calosidades e nódulos, tendões e ossos, adivinhava os anseios diários daquele homem. 

Com o punho fechado, fazia deslizar com alguma pressão os nós dos dedos contra a superfície plantar do pé, rodando o punho desde a base dos dedos até ao calcanhar, fazendo com que o homem não controlasse a saliva que lhe escorria num fio junto ao lábio, de tão relaxado que estava. Depois puxou cada um dos dedos com alguma força, enrolando-os numa ponta da toalha. Parecia magia, as dores que sentira até aquele momento, extinguiam-se dando lugar a uma sensação de relaxamento. Mas assim que as mãos deslizaram pela perna acima, parando na iminência da virilha, estremeceu sem controlo da convergência do sangue que aflorava para aquela área, originando um enrijar embaraçoso do órgão sexual.