domingo, 2 de novembro de 2014

sepulcro



... ou a sexta e última parte... ou o fim da espera (para quem estava sentado). 

Se era fácil levá-lo aquele estado, o mesmo não se podia dizer do contrário. Valia-lhe o facto de se encontrar de bruços, mas por quanto tempo permaneceria naquela posição? A massagem estaria a chegar ao fim, e provavelmente sairia, dando-lhe alguma privacidade para voltar à sua roupa cinzenta e sem goma. Mas e se ela não saísse, ou pior ainda, e se ela lhe pedisse para se colocar de barriga para cima? Que vergonha! Sentia de novo a pele a corar, precisava concentrar-se em algo desagradável rapidamente. Primeiro pensou nas meias e como teria de as calçar ainda húmidas, depois lembrou-se do seu chefe, um individuo baixo que quando caminhava movia exageradamente os braços ao longo do corpo, parecendo um soldadinho de chumbo com a camisa sempre mal ajambrada e manchada com círculos de suor. Era um ser insuportavelmente controlador e nojento, que mantinha vigilância apertada sobre todos os gastos do escritório, implicando dia sim, dia não, com o número de clips tamanho quatro usados por mês só naquele sector. Mas o que mais o irritava nem eram essas implicações, ele próprio era um pouco implicativo, e compreendia que era necessário algum domínio sobre os gastos. O que o deixava mesmo piurso era o facto do chefe usar o termo “símios” quando se referia aos outros colaboradores. Não teria ele espelho em casa? pensou. 

A táctica adoptada pelo homem que ansiava que a massagem chegasse ao fim, até estava a resultar, não fossem os movimentos de subida e descida, agora na outra perna, atirarem-no de volta ao ponto de rebuçado. Que maldição, pensou e nisto ouviu o que parecia ser o toque ininterrupto do seu telemóvel, a zumbir o Für Elise polifónico. 
Sempre que escuto isto, imagino Mozart a rodar no seu humilde sepulcro. 

E agora, como é que ia atender, esquecera de desligar o som, e ainda por cima estava com o volume no máximo, e sem sinais de que iriam desistir. A massagista loira manteve com toda a calma o sorriso, prontificando-se para lhe chegar o engenho, apesar daquela situação a irritar tanto como a mim, narrador. O homem concordou, naquele momento ainda não era seguro deixar a posição de bruços, e orientou a senhora para o bolso direito, esquecendo a meia húmida que lá enfiara. O Für Elise entretanto calou-se, e a senhora convertia o sorriso por uma expressão enigmática, olhando depois com pouca satisfação para a meia, meia empapada, que acabara de tirar do bolso. E assim se foi o tesão.




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