quinta-feira, 25 de outubro de 2012

gelha

Uma acalmia contagiante espalhou-se pelo parque ainda a tarde estava no início. O vento aligeirou para brisa, apaziguando as folhas caídas junto aos degraus gastos esverdeados de musgo, os pássaros resistiram à sua natureza irrequieta e em silêncio procuraram um ramo próximo, quase estáticos agora que o vento acalmara na alameda de plátanos, sempre deserta aquela hora do dia.
Sentei-me no banco mais a norte, usufruindo de meia sombra e da quietude que se instalara, longe de imaginar-me no epicentro, espiado por pardais, pombos, melros e até uma coruja com insónias. Se tivesse erguido o olhar para o céu, estranharia as poucas nuvens à solta, suspensas sem movimento, coladas em rama a um fundo tão azul e vazio. Até mesmo as toupeiras, bichos alienados a maior parte do tempo das cousas que se passam acima da terra, pararam e voltaram as pequenas cabeças cegas no instante em que ela se aproximou do banco mais a norte sem que eu desse por isso, cortando a sua voz o silêncio como chuva aliviada em solo seco.

Essa ruga é excessivamente sensual.
Como disse?
Essa ruga é excessivamente sensual. Repetiu.
Conhecemo-nos de algum lado?
Não, acho que não. Mas eu não me importava. Disse, com o mesmo ar decidido com que caminhara até aquela zona do parque.
Não passas de uma fantasia, devo estar a sonhar acordado… confesso que te imaginei diferente mas…
Isso querias tu, refilou, mas sou real e estou aqui diante de ti, presa a essa ruga que me azucrina.
“Azucrina” não é palavra que eu usasse… talvez importunar ou maçar… não sei o que te diga.
Pára! Gritou mas sem ser irritante, não faça isso, só a tornas ainda mais irresistível…
Alguém te pagou para fazeres pouco de mim… é isso não é?
Não foi pouco, mas se pagares o dobro eu digo-te quem foi…
Agora estou mesmo convencido que te criei e tudo isto só existe na minha cabeça…
Voltamos ao mesmo…
Repara, respondeste tal e qual eu teria respondido, logo fui eu que te imaginei, essa resposta inventei-a para ti… Quedou-se pensativa e apoiando um joelho no banco, alisou suavemente com o indicador a ruga que crescia junto à minha saliência distante do globo ocular.
Inventas respostas?
Diálogos inteiros…
Então sabes o que vou dizer a seguir?
Não vais dizer nada, apenas…

Não tardou a amanhecer e quando a Terra rodou o suficiente para que se desse o milagre de um novo dia, já o cheiro dela tinha tomado conta do meu. Aliás, tomou conta da roupa da cama, de cada canto do quarto, até mesmo de cada divisão do apartamento, e como o cheiro não se detêm, transbordou pelos canos, frinchas das janelas, aberturas das fechaduras, apanhando os vizinhos ainda deitados, corpos quentes que espreguiçavam, tocavam-se e envolvidos no perfume, acariciavam-se, sem pudor, comiam-se!

lovers of Valdaro, dating back 6,000 years

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sorriso

Num gesto rápido sem vasculhar a bolsa, retirou o telemóvel e num clique ficou com o rosto iluminado. O conteúdo de uma possível mensagem fez-lhe estalar um grande sorriso, rasgado dos lábios até aos olhos, arrastando consigo as maçãs do rosto, aligeirando a cova funda que desfeava o queixo. Não era um sorriso enigmático, sem sombra para dúvidas, porque era tarde e já nem o sol projectava sombra quanto mais a dúvida, tratava-se claramente de uma provocação, e a receptora tornava-se emissora e teclando com grande rapidez e sem morder o lábio como eu imaginara, respondia no mesmo tom. Voltou à bolsa, apenas a maquineta, porque o sorriso fez questão de o manter pelo menos durante alguns minutos, mais que os suficientes para me irritar, nem sei se pela curiosidade que suscitava ou se pela inveja que sentia.
Desviei o olhar para o ressoar da janela sem reparar que alguém me observava uns lugares mais à frente, sentada contra o destino, mãos na tranquilidade de uma bolsa, não sendo o seu tamanho maior que o necessário para que nela repousassem as mãos, limpas, sem marcas de liame. Estranho reparar nas mãos, mas pareciam ali pousadas à espera que o meu olhar colidisse. Levantou-se na diminuição da velocidade, e voltei às gotículas que agora escorriam sem achar nelas qualquer interesse. Antes que a paragem surgisse, voltei a procura-la junto à saída, cabeça voltada na minha direcção e na boca um sorriso, metade sério, metade devasso, muito diferente do sorriso da rapariga com a cova no queixo.
O comboio por fim parou e tudo pareceu acontecer em câmara lenta, voltou a cabeça para o chão, o cabelo acompanhou o movimento e desapareceu do meu campo de visão. Num acto irreflectido as minhas pernas não esperaram ordens e saltaram em direcção à porta, entalando-me na junção que se abriu, libertando-me duas paragens antes. Agora o comboio seguia viagem, no seu interior claro vários rostos se haviam voltado, atirando olhares reprovadores, um homem daquela idade, havia de ter juízo! Talvez tenha adormecido… nada disso, ele vai é atrás da moça, aquela que lhe sorriu, a depravada!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

imprecação

Ainda ontem estavas tão feliz, disse, enrugando a testa para levar os olhos em direcção aos meus. Estava, parece que não posso ser feliz durante dois dias seguidos, é como uma praga, ou maldição antiga, num dia tudo parece que vai dar certo, no dia seguinte levanto-me com um espírito renovado, mal consigo ficar quieto à espera que o dia acorde, sigo o ponteiro dos minutos bem de perto, e depois algo sucede, pouco passa de ter tomado o pequeno-almoço, as más noticias correm ligeiras, daquelas que sem certezas nos deixam nus de tudo, despojados de coragem, sem vontade… uma volta no estômago, aperto em torno do pescoço, um arreio de tristeza volta ao canto dos lábios.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

estertor

o sol já havia galgado o planalto, invadindo pedante o ladrilho vidrado em todos os cantos, e a aragem matutina, carregada de uma quietude que causava estranheza, esvaziava-se por uma janela entreaberta, sem o fulgor descontrolado da passarada.
dormia sobre o meu braço, olhos cerrados à luz derramada, fina película, miríade de partículas adornando um rosto desconhecido, estendendo-se pela longitude nua da pele. sem rumor aparente, libertava imperceptível e invisível, um perfume quente que a envolvia, manta aconchegante, toldando-me os sentidos num remoinho dúbio. não atrevi toca-la, morreria sem ver a cor da íris na serenidade despida dos corpos, deitados sobre a funda esclerótica da banheira, desconforto acentuado pelo ar silencioso e tíbio que a janela não vedava.
que aconteceu aos pássaros?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

treliça

Fecho os olhos e por momentos consigo abstrair-me do rumor, as esplanadas estão meias vazias mas mesmo assim restolham, suplantam o voo arriscado das andorinhas. Respiro fundo, o Sado carregado do sul, vai alargar-se para norte, trás com ele memórias que se dissipam na brisa. As nuvens achatam-se na base, rasando o horizonte azul, brilhantes cúmulos prateados perturbados pelos guinchos obsessivos dos infantes, arrastam cadeiras pela alameda, a vaidade grosseira dos estrangeiros.
Não puxo da lapiseira para escrevinhar num guardanapo, apetece-me escrever mas não surge e apesar da paisagem inspiradora que me rodeia, sei que posso voltar a ela viajando pela memória, o presente é sempre pouco nítido, uma névoa de sentimentos paralelos tende a ofuscar a simplicidade fulgente das águas e dos aparos negros que vão desenhando o céu.

E pouco inspirado, penso nos tempos em que as palavras brotavam, opinava e replicava sobre isto ou sobre aquilo, num par de horas alinhavava uma ideia e entregava ao editor. Tão fácil e ingénuo, mas as moças gostavam, e as moças… elas sim, são boas fontes de inspiração.
Mas os tempos mudaram, não falta quem opine, e com casamento, contas para pagar, empréstimos ao banco, um chefe… sim senhor director, a submissão fez as malas à rebeldia, a revolução morreu no caderno, folhas amarelecidas de indignação, esquecidas pelos cantos. Escrever sobre a garantia do governo em que haverá redução de custos nas facturas da luz e do gás, ou sobre um polícia que matou um gatuno na estação, ou ainda sobre o desempenho dos atletas portugueses nas olimpíadas...ou sobre a velha e já mais que instalada corrupção, deixou de fazer sentido. Já não opino. Escrevo apenas o que me apetece, não quando me apetece, que hoje tinha tempo e o cenário perfeito, mas as letras não se conjugam, apenas escorrem suadas, querendo permanecer amarradas, enroladas nas pernas dela, envolvidas no lençol.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

cega-rega

Na miragem tórrida, silenciosa do início da tarde, julguei ver um quadro ali imenso, pinceladas reais de um corpo claro num fundo negro. Uma mulher de cabelo apanhado, fumava junto à janela de tronco quase despido. Se estivesse completamente nua não teria causado o mesmo efeito de revelação, os seios armados espartilhados num sutiã, e a oscilação de uma cortina translucida, davam a ilusão de não ser real, talvez uma ninfa, ou estátua divina. A vontade crescia em mim, vontade de a ver mais de perto, de lhe sentir o cheiro no covil, tocar-lhe levemente a pele arrepiada e pálida, passar-lhe os dedos pelos lábios entreabertos, quentes e húmidos, enrolar-me perdido no seu cabelo avelã.

Partilhava o cigarro com mais alguém no quarto, não me importava de o partilhar com ela. Subitamente naquele inferno escaldante, o desejo carnal aliava-se a um outro desejo reprimido, morto há tanto tempo, praticamente extinto, e como ligas de metais incandescentes, uniam-se, criando uma nova sensação, agitação, tumulto excessivo, desconhecido, do mesmo modo que as ligas possuíam propriedades diferentes dos elementos que lhe tinham dado origem, sentia a diminuição do ponto de fusão, o aumento da dureza, da resistência mecânica.

Encontrou-me na sombra, a contempla-la sem pudor, um acaso do destino ter-me ali naquele momento, numa rua aparentemente deserta, cortado o ar pelo alívio das cigarras, o som ensurdecedor do calor. Sorriu, expelindo o fumo pelo rebordo rubro. Voltou o rosto para a sombra e de lá surgiu um outro corpo, mais escuro, linhas mais grosseiras, também um cabelo capturado no cimo, mas preto, encaracolado, reluzente em trajes idênticos. Sobe. Disse, pousando um olhar lânguido sobre o penitente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

mira

O tempo era invenção que ali não conhecia espremedura. No pico do sol o silêncio amarrava as sombras soltas como um pequeno rebanho por baixo do chaparro, nas ruas nem vivalma para dar a saudação. Tempo simplesmente não era dinheiro, e era sempre bem-vindo quer fosse bom ou mau tempo, porque era somente tempo, sem matança, correndo sem presa naquele fim do mundo, terra onde um dia o diabo perdera as botas, ao que tudo indica perto de um silvado.

Está Maria como naquele dia, calcando o portado em busca do filho que sumiu do silvado, mas não é a soleira que pisa, e sim uma larga avenida, cabia aqui o Guadiana pensa, ladeada de vidro e betão armado, quando uma multidão avança. Rostos enevoados pela claridade que desce do corredor cruzam-se, mas sem os sentir, passam por ela como espíritos vagos. Anuvia o sol com a palma da mão e avista o filho, homem feito, parado com rosto de máscara. Está a olhar para ela e ela sabe que é ele, apesar de não lhe ver a cor dos olhos, o perfil do queixo tal e qual o pai, o sorriso largo, feliz por a ver. Segura uma garrafa que pende do gargalo um trapo, não chegará a atear o rastilho, dois polícias e depois mais um, vão subjuga-lo ao chão e atá-lo pelas costas. Maria não consegue falar, quer gritar pelo nome mas da boca não lhe vemos um som, quer correr por entre a revolta mas não tem pernas para ultrapassar o portado. Um fio desce pela testa, acorda antes de lhe arrancarem a máscara, sem conseguir ver uma lágrima solta no rosto do filho. Lá fora já precipitou a noite sobre o vale, a luz que desenha sombras pelo quarto rastejou do corredor, na cama em frente uma voz sumida pergunta se está bem, anui com a cabeça, descanse diz-lhe a mesma voz, o seu menino está bem.

Reza a história que ferrava impiedoso o acúleo do sol, e andava o diabo pelos caminhos da terra quando encontrou uma grande figueira, com mais de vinte metros, que rebentava nos ramos altos de frutos pingados de néctar. Faltava o escadote ao diabo onde brincava um gaiato ali junto ao silvado, e sendo o diabo velho chamou o garoto e pediu-lhe escadaria em troca de figos maduros. Reconhecendo o diabo pelas botas, o gaiato aceitou o pacto, emprestando o estreito escadote ao velho que teve de descalçar as botarras por serem demasiado largas. Alcançava a rama alta, o diabo já lambendo o beiço, quando sente a escada perdida dependurando o diabo na figueira, barafustava, estrebuchava enganado por um gaiato de palmo e meio.
Correra estrada fora, esbaforido ouvindo os guinchos do demo, até se perder para lá do limite da vila. Na cabeça um turbilhão de histórias, botas mágicas faziam dançar ditadores, outras davam poderes a gatos astutos. Sem dificuldade saltou para dentro das do diabo, e se pareciam grandes e largas, num ápice ficaram certas, não mudando o tamanho da sola, apenas o tamanho do gaiato. E era um homem, alto como um pinheiro, de braços e pernas largas como um rochedo. Quis então o gaiato ir conhecer o mundo, pois não conhecia mais que o silvado e meia dúzia de sítios no centro. Caminhou ligeiro por um caminho, mas a dúvida assaltou-lhe a mente e sem saber por onde ia, decidiu passar pela vila e perguntar o melhor caminho. Já reinava a confusão nas gentes, perguntou a um moço a razão de tal alvoroço e este contou-lhe então entre dois goles de ar, como o filho do António andava perdido, e a mãe no hospital, não sabiam se o outro já tinha nascido. Os olhos do gaiato que ali estava homem, encheram-se de água, afogando as botas e o diabo, já só pensava na mãe.

Era cega e muito velha, sentada à fresca na pantalha de uma azinheira. Lia o futuro nos covos da mão, olhos nas pontas dos dedos. Chamava-se Mira, mas era conhecida pela velha. Mira estava como sempre, sentada contando o tempo, quando ouviu o choro de um homem. Era um homem alto que chorava como uma cria, e pelo andar, trazia calçado as botas do demo. Porque choras tu gaiato, perguntou a velha cega, para espanto do homem que não era homem mas sim criança. E então contou-lhe a história, como tinha enganado o diabo, e agora era perseguido pelos montes, toda a vila no seu encalce. Quando perguntou o que se passava ao moço, este estranhou as lágrimas do desconhecido e fez correr a sete ventos que tinha encontrado o raptor. Era agora acusado de ter levado o filho do António, mas ele era o filho e só queria voltar para a mãe, escondera-se no acampamento dos ciganos, sem saber que uma velha estava por ali a meditar.
A velha ria a bom rir, desdentada de quase todos os dentes mandava o gaiato descalçar as botas e dentro delas cabiam os seus pés, e ao contrário do que acontecera antes, a velha que era muito velha e cega, via o gaiato à sua frente e voltava a ser criança. De mãos dadas, regressaram à vila, Mira de olhos negros, pequenos berlindes luminosos, contava a toda a gente como tinha encontrado o gaiato e se distraíram a brincar junto à ribeira.
Desde esse dia, Mira nunca mais tirou as botas, nem no dia do seu casamento, e o gaiato... esse foi crescendo até à altura de um pinheiro e passou a ser chamado de cigano.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

cigano

Num tempo em que a memória se esqueceu de botar data, instalaram-se na pequena vila, nómadas vindos de muito longe. Traziam empilhados os pais, filhos, a casa e novidades, mais os cães e restantes animais. Foi precisamente a novidade que proporcionou a indulgência, a terra era basta mas agreste, havia muito por onde acampar e pouco sobre o que falar, mas assim que se esgotaram os novos frutos do ano, cresceu o ódio, brotou nos homens a intolerância, e se uma galinha desaparecia, a culpa era dos ciganos. Provavelmente até era, mas não havia como o provar, ao contrário dos cães esganados, os gatunos não deixavam sinais.

Não foi há mais de trinta anos que Maria carregada de esperanças, chamou três vezes pelo filho. O gaiato andava sempre à vara larga pelo silvado atrás da casa, estranhando o silêncio saiu da sombra fresca calcando o portado, acautelou o olhar claro com a palma da mão, segurando com a outra o ventre pesado mas quieto. Era uma criança traquina pela idade, herdara do bisavô um forte temperamento que nunca se diluía no sangue, acompanhando o feitio de acordo com o nome geração após geração. Contudo, também demonstrava uma personalidade sensível e curiosa, dádiva de um amor incondicional que nunca o afastaria muito da mãe, com gestos afáveis e perguntas pouco comuns, entretendo-se horas a fio sozinho no silvado. Naquele dia não foi assim, socorrendo-se dos vizinhos, a vila foi passada a pente fino, mas sem sinal do gaiato.

António voltava ao turno da tarde na fábrica, quando o encarregado o chamou. O desespero arregalava-lhe os olhos, um risco triste na boca nascia, enrugava a testa marcando o rosto com linhas rudes, já por si não muito perfeito. Apoquentado, pegava na mão fria de Maria, enquanto a ambulância gingava estrada fora, ao fim do dia seria pai novamente, muito antes do tempo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

raiz

Voltei a sonhar com ela, tornou-se um tormento, tantos anos de separação, mais do que aqueles que contamos juntos… e não há noite em que não regresse, tão real que nem suspeito que me encontro num sonho, pura ilusão, criação maligna da minha cabeça em busca da autodestruição.
Lembro-me da mesa, parece um anúncio, toalhas brancas esvoaçantes, pessoas perfeitas num ambiente idealizado, luminoso, diria que radioso, mal consigo ver para além do primeiro plano, mas há erva ou então é tinta verde em contraplacado. Um manjar está preparado no jardim, o meu pai junto ao churrasco que não existe, a minha mãe preocupada com os convidados que já chegaram, com jeitos de etiqueta que nunca lhe conheci.
Vai buscar a tua mulher, diz-me, os pais dela já cá estão.
E eu vou, nem cheguei a pousar a mochila, saio e em seguida estou numa casa que sei minha, mas que não reconheço. Questiono-me sobre o que se passa, o que me terá acontecido para não me lembrar do dia de ontem, terá sido álcool? Nem desconfio dos lapsos de tempo, do caminho que não precisei de percorrer para chegar até aqui, a máquina cose a consciência com um alinhavo.
Lá está ela, em frente ao espelho, vestida com os mesmos tons que a rodeiam, cabeça ligeiramente inclinada apertando uns brincos nas orelhas, não lhe vejo o rosto, não completamente, apenas uma parte, uma ínfima partícula, mas sei que é ela e que me diz sem eu dizer nada, porque não me ocorre dizer nada diante dela.
já estou quase pronta, leva a menina, hoje não sei que tem que não pára de chorar!
Há um berço, um bebé de braços estendidos, e eu pego nela, reconhece-me com um sorriso e eu pergunto-me como é que sei que é minha, aparentemente em voz alta, apesar de estar convencido que não proferi um único som, ao que ela me responde, ainda em frente ao espelho.
claro que é tua, é igualzinha a ti.