quarta-feira, 3 de outubro de 2012

cigano

Num tempo em que a memória se esqueceu de botar data, instalaram-se na pequena vila, nómadas vindos de muito longe. Traziam empilhados os pais, filhos, a casa e novidades, mais os cães e restantes animais. Foi precisamente a novidade que proporcionou a indulgência, a terra era basta mas agreste, havia muito por onde acampar e pouco sobre o que falar, mas assim que se esgotaram os novos frutos do ano, cresceu o ódio, brotou nos homens a intolerância, e se uma galinha desaparecia, a culpa era dos ciganos. Provavelmente até era, mas não havia como o provar, ao contrário dos cães esganados, os gatunos não deixavam sinais.

Não foi há mais de trinta anos que Maria carregada de esperanças, chamou três vezes pelo filho. O gaiato andava sempre à vara larga pelo silvado atrás da casa, estranhando o silêncio saiu da sombra fresca calcando o portado, acautelou o olhar claro com a palma da mão, segurando com a outra o ventre pesado mas quieto. Era uma criança traquina pela idade, herdara do bisavô um forte temperamento que nunca se diluía no sangue, acompanhando o feitio de acordo com o nome geração após geração. Contudo, também demonstrava uma personalidade sensível e curiosa, dádiva de um amor incondicional que nunca o afastaria muito da mãe, com gestos afáveis e perguntas pouco comuns, entretendo-se horas a fio sozinho no silvado. Naquele dia não foi assim, socorrendo-se dos vizinhos, a vila foi passada a pente fino, mas sem sinal do gaiato.

António voltava ao turno da tarde na fábrica, quando o encarregado o chamou. O desespero arregalava-lhe os olhos, um risco triste na boca nascia, enrugava a testa marcando o rosto com linhas rudes, já por si não muito perfeito. Apoquentado, pegava na mão fria de Maria, enquanto a ambulância gingava estrada fora, ao fim do dia seria pai novamente, muito antes do tempo.

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