quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

tosquia

e é isto, descobri como se publicam GIFs... bom feliz ano novo!





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Lapónia


Partimos de Puerto Seco em uma segunda, que eram sete dias do mês de Dezembro da dita era de dois mil e quinze. Mandou a capitã levantar âncora das calmas e quentes águas do Caribe sob os lamentos surdos da tripulação; indo traçar rota para norte, arrochada com o cacete a cabeça do pai natal, pilhariam todos os presentes das crianças do mundo.

À terça pela manhã houvemos vista de terra, o albugíneo farol de Inagua cuidando pelos baixios. Contornamos em leste as Bahamas, navegando a dez léguas[1] ou mais. Seguimos nossa rota, e na tarde faleceu-nos o vento e andamos em calmaria até à sexta-feira seguinte. À revelia da capitã, aproveitou-se para encimar a estrela no mastaréu[2], espalhar presépio em palha pelos cantos e enfeitar a proa com luzes dos chineses.

E em doze do dito mês, indo na volta do mar norte quarta do sudeste, achámos muitas aves, feitas como corvos-marinhos, e, quando veio a noite, a barca amainou nos sargaços “retardam o navio como se fossem arbustos (...) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente”[3]

À Capitã não houve força que levasse o ânimo e à sexta-feira em dezoito dias do mês de Dezembro, daqui andámos tanto pelo mar sem tomarmos porto, que não tínhamos já água que bebêssemos, nem rum que dali fizéssemos grande agasalho do frio, e pela manhã houvemos vista de terra, as derradeiras colinas das ilhas Faroé. E ao outro dia fomos em uns batéis[4] a terra e fomos recebidos com muito contentamento, lhe fizeram muita honra de mantimentos, pelo qual a capitã lhes deu cascavéis[5] e anéis de estanho.

Em este dia, depois de termos jantado muito pescado, em metendo uma moneta[6], achámos o mastro com uma fenda, abaixo da gávea[7] uma braça[8]. Pelo qual o remendamos com brandais[9], até que fossemos tomar porto no Báltico onde o Maltês esperava.
E ao domingo pousámos ao longo da costa, e, quando veio o sol-posto, tornámos a dar nossas velas e seguir o nosso caminho pelo mar do norte; e aqui nos ficou uma âncora, que nos quebrou um calabrete[10], com que estávamos ao mar, junto a verdejantes encostas Vikings.

Segunda-feira que foram vinte e um dias do dito mês, passamos ao largo da ponte de Orësund sobre o túnel, no estreito entre a Dinamarca e a ilha de Saltholm, admirando o seu vão estaiado[11] de sessenta metros suspensos por cabos. E às doze horas do dia, houvemos vista da Polónia, avante nós obra de cinco léguas; e sobre a tarde nos viemos a falar com o Maltês com alegria, onde tiramos muitas bombardas[12] e tangemos trombetas, e tudo com muito prazer por o termos engajado[13] e a vinte tonéis[14] de rum.

Partimos sem perda de dias do porto de Kołobrzeg para a Lapónia, que são mais de trezentas léguas pelo menos. Quarta-feira à noite, vinte e três dias de Dezembro, nos abordou um navio de cruzeiro cheio de velhinhos nórdicos, e andámos abalroados obra de meia hora, que não nos podíamos apartar no estreito de Kvarken.  E quando veio a manhã, véspera de vinte e cinco, fomos de frecha[15] a terra e achámos-nos na gélida e deserta cidade de Kemi. E a capitã saiu com gente armada, onde iam alguns com balesta[16], alfange[17] e mosquetes; e a capitã lhes mandou então que se apartassem e que achassem veiculo, e baixássemos nos olhos as palas e apanhamos um autocarro que cento e trinta e duas paragens depois nos deixou no centro de Rovaniemi, cidade do pai natal.
Yo-ho-yo-ho…



Tudo devidamente plagiado, como se espera de um pirata:
Diários de bordo da pirata Cuca
Relação da primeira viagem de Vasco da Gama (1497), texto modernizado de Luís de Albuquerque.












[1] Uma légua equivale a 5,5km
[2] Pequeno mastro suplementar
[3] Passagem de Ora marítima de Avieno
[4] Pequenas embarcações
[5] Ninharias, bagatelas
[6] Pequena vela suplementar por baixo dos papa-figos
[7] Plataforma do mastro
[8] Medida de duas varas ou 2,20 metros
[9] Cabos que aguentam os mastaréus
[10] Amarra ou cabo de pouca grossura
[11] Seguro por estais, os estais são cabos que servem para aguentar a mastreação do navio no sentido da vante
[12] Morteiro que arremessava grandes pedras
[13] Que ou quem se envolveu politicamente ou ao serviço de uma causa
[14] Vasilha de aduela de grande lotação.
[15] O mesmo que flecha
[16] Arma antiga composta por um arco e por um cabo tenso com que se arremessam setas e pelouros.
[17] Sabre largo e curvo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

... ou a rapariga que não gosta de livros.

Na Hungria os livros eram absurdamente baratos, o problema residia no facto de estarem cheios de palavras em húngaro. Sabem que há quatro maneiras diferentes de ler a letra “o” e outras quatro para a letra “u”? Na Múzeum körút (avenida) havia umas quantas livrarias e alfarrabistas, de vez em quando desviava-me do meu caminho e ia até lá respirar o pó dos livros.
Cresci rodeado de livros, o cheiro leva-me às estantes da infância. Tive sorte. A minha família não era muito abastada, e com excepção de um ou outro membro, não possuem mais que a escolaridade mínima. Um doutor sabe tanto como um pastor, se nunca viajou nas páginas de um livro. É claro que nascer rodeado de livros não chega. Tenho primos que ficaram pelas aventuras da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada. Mas também tenho outros que devoram literatura, mais viciados que eu, não se contentam por snifar o pó amiúde e possuem verdadeiras bibliotecas privadas.
Crescer sem livros é como aquelas plantas que vingam no cimento, que crescem nas frontarias dos prédios, com o mínimo. Tenho uma amiga assim, uma raridade exótica que floresceu na rachadura do betão de uma auto-estrada. Declarou-me, já farta das minhas insistências, que não gostava de livros e que a leitura do jornal era mais do que suficiente. Não encontro explicação para a minha insistência, não sou de pregar aos peixes, nem aprecio o cansaço que este tipo de lutas origina. Talvez goste dela com demasiada determinação, como se gosta de um filho. Ela está ali, nasceu e é minha obrigação zelar que siga pela vida absorvendo o pó dourado, provando a vida em colheres cheias, cuidando que sofra o menos possível. Mas ela não é minha filha, poucos anos nos separam, eu não estava lá quando nasceu. Quando ensaiou os primeiros passos, eu mal corria. Nunca teria conseguido afastá-la dos dias maus, ou das más companhias, alimentar-lhe a alma com histórias de lobos e porcos, e gatos com botas.
Não sei bem porque o faço. Diz com amargura na voz que não gosta de livros, mesmo não tendo lido nenhum. Culpa a escola com a imposição dos textos, ganhou aversão, estimou um ódio muito particular. Aposto que abandonou os livros que lhe emprestei nalgum canto sossegado, ganham uma fina camada de pó enquanto esgrimo até à exaustão. É uma batalha perdida, digo para mim enquanto ato o arnês e coloco a gálea. Ajoelho-me numa última prece a Minerva e parto convicto, sem esmorecer, até à derrota.

Gustav Klimt, Pallas Athene (1898)


domingo, 27 de dezembro de 2015

脇差

Wakizashi é uma espada curta japonesa, que pode ter entre 30 a 60 centímetros, similar à katana. Os guerreiros samurai usavam as duas, ao conjunto dá-se o nome de daishō, literalmente “a longa e a curta”. Era usada principalmente em combates de curta distância ou em espaços pequenos, possibilitando um ataque mais rápido, geralmente no joelho do oponente. Também se usavam na prática do seppuku.

Durante dias o homem recortou nuvens montado num escadote. A maior parte eram cúmulos de contornos nítidos e bases planas, um ou outro cúmulo-nimbo com os seus longos desenvolvimentos verticais. Com a wakizashi afiada aparou as pontas soltas e rematou-as com fio grosso da cor do céu. 
Naquela manhã levantou-se antes do mundo e ficou a olhar para o tabuleiro onde pensara levar-lhe o café e as torradas, forrado de nuvens. Era um presente mas agora não tinha utilidade para elas, abriu a janela e o vento levou-as.

Vagabond, by  Takehiko Inoue

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

noite

O homem pensou que era estanque. Na noite de natal sentou-se no meio dos amigos na sua melhor fatiota, usando o melhor dos seus sorrisos, mas a tristeza extravasou. E incomodou-o que os outros reparassem em si, e lhe perguntassem o que se passava, insistindo que repetisse um dos doze pratos ou que esvaziasse de uma vez por todas o copo. O homem pensou que era imune. E numa sala que se enchia lentamente de amor até cobrir os candeeiros, sentiu faltar-lhe o ar, o apetite e todas as forças para prosseguir. Juntou os talheres na borda do prato sem voltar a servir-se, o copo à sua frente manteve-se meio. O homem pensou que estava morto. Um espírito encurralado pelos vivos, deambulando pela sala de peito mal costurado, via-se translúcido e levítico, desejando desaparecer de vez. Então o homem descarnado fechou os olhos e esperou o frio, mas em vez disso sentiu dois braços num abraço, e depois mais dois e ainda mais dois, numa sucessão de abraços infinitos.   

noite estrelada, Van Gogh

domingo, 20 de dezembro de 2015

koń

Ando tão mal cotado nestes dias que até ia por um prato de rabanadas. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, cedido aquela senhora de verde alface e cabelo púrpura com o chihuahua ao colo! Mas ser estrangeiro tem algumas vantagens, primeiro toda a gente me oferece comida, segundo estou desobrigado de fazer conversa de circunstância e sou atendido com prioridade no comércio local. No início ainda esperava pela minha vez, mas descobri que toda a gente gosta de ficar a par sobre as minhas preferências alimentícias e higiénicas, então cessam as conversas, fazem-me sinais para passar, a proprietária soma os valores numa máquina forrada a plástico, depois do pagamento volta tudo à normalidade.

Na quinta-feira reparei noutra coisa, mesmo mal cotado e com ar de quem tinha sido atropelado por um comboio e arrastado pelo mesmo durante vários quilómetros, assim que entramos no estabelecimento habitual para a cerveja habitual, provoquei um ataque de risinhos numa mesa só com mulheres que teriam lá ido por engano. Foi agradável. Mas depois fiquei a pensar se teria a braguilha aberta.



koń- cavalo

sábado, 19 de dezembro de 2015

zote

alguma alma caridosa que por favor se disponha a ler e partilhar aqui comigo a previsão da dica da semana para caranguejo?

dizem que depois da tempestade vem a bonança, mas no meu caso acentua-se mais a estupidez...

by Stormie

banho

Promovido e exonerado do distinto cargo de muso, em menos de 24 horas. Bebo uma cerveja. Antes das onze começo a bocejar.

Corto e Pandora em A Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

transbordar

O homem transbordou. Na beira da cama com os pés no frio, cobriu a boca com ambas as mãos na tentativa de suster o destilado. Comprimia com firmeza a própria carne contra os ossos, usava toda a força que lhe restava, mesmo assim derramava por entre os dedos, pelo nariz, ouvidos. Até a visão turvava líquida. 

 Franco Fasoli – JAZ, Minotaur in Berlin

domingo, 13 de dezembro de 2015

nylon

Desejo que acabe.
Que cheguem os dias às noites e na solidão esvaziar.
Amo o torpor do congelamento,
O fremir diminui e em silêncio convoco as nuvens, o céu cheio.
Estimo a neve suja na beira da estrada,
O vento gelado rasgando a pele, pregado nos trilhos que me levam a lado nenhum.
Sorrio de dor.
Afoguem-se os apaixonados no molhe.
Morram com eles as borboletas que nascem no estômago.
Sucumbam as chamas, lampejos,
os lumes eternos na cortina espessa de chuva.
Lançarei daqui suplicas ao bora, preces ao aquilão, ao garroa,
Dispersem essas cinzas malditas na borda do mundo,
Que nelas não renasça nem um pensamento.
Um cabelo, uma letra.
Macerem meus sonhos em boiões de ácido, até ao rebordo da noite.
Espinhas brancas sem carne.
Sem nome.
Que nada sobeje colado à pele,
só o vazio dos dias nas costas e a ridícula costura de nylon no peito.

"I'm not human at all; I have no heart" Bruno Nogueirão



sábado, 12 de dezembro de 2015

cachinho

...ou sobre incompletudes humanas.

Julguei que a Grandiosa tinha encontrado um cachimbo, quando aos pulos de contente gritou no meio da erva alta "Cigano, cigano, encontrei um cachinho!" .
Nunca tive a felicidade de me cruzar com um cachinho, esse racimo que a natureza criou para alegria dos mortais. Felizmente, há quem os encontre por mim.

Van Gogh: Grasgrond 1887


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

unhas


hoje sonhei que tinha as unhas cortadas. estava a jantar com alguns membros da "Cosa nostra" e reparei que todas estavam perfeitamente aparadas.


Three hands, two holding forks, Vicent van Gogh, 1884

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

bezoar

… ou a fuga de Kiri

O pontão estende-se alguns metros mar adentro, terminando num pequeno cais quase submerso. Na largura alberga uns quantos quiosques fechados, voltam a abrir no verão quando o areal se enche de toalhas. Dos lados arredondados avultam varandins com bancos onde casais se demoram a olhar o mar, adiante uma rapariga repousa a cabeça num ombro.
Eles caminham à minha frente de mãos dadas, sigo atrás segurando a vela que a chuva em pó ameaça colher. O voo de duas gaivotas perturba a superfície espelhada, levam-me o olhar, arriscando uma rota sobre as águas. Tudo parece existir em duplo, mesmo o céu mesclado.


Kiri deixou-me. Num dia sem chuva voltou para casa levando destroços na mala. Os meus destroços, bezoares preciosos embrulhados nas meias. E mesmo longe, na distância do precipício do mundo, parece que nunca partiu, ou então o mundo gira tão rápido que nos leva ao encontro um do outro, na fila das compras, num autocarro perdido, no cais submerso de céu. 

molo Międzyzdroje by Dagmara

domingo, 6 de dezembro de 2015

naifada

há claramente um conluio na cozinha, na medida em que o que quer que caia no conjunto de pratos e talheres empilhados, as facas gozam do privilegio de se lançarem desalmadas em direcção ao tarso descalço...

Rohini Devasher: Detail from mural Parts Unknown at the Max Planck Institute for the History of Science, Berlin

sábado, 5 de dezembro de 2015

logograma

Na monumental sala dos troféus de falhanços, com as suas paredes de três metros onde se amontoavam em cristaleiras o espólio de fiascos, havia ali um pouco de tudo cuidadosamente exposto, não fosse cair no vácuo do esquecimento. Taças douradas e prateadas, umas asadas outras compridas, “pior defesa central” gravado a azul, “péssimas notas a francês” em letra pequena. No outro extremo medalhas engalanadas com coloridas fitas em requintados estojos de veludo, uma das maiores “mérito por tempo desperdiçado”, numa pastilha barata de alumínio “promissor arroz de tomate queimado”. Na parede mais longa exibiam-se os troféus em acrílico em forma de telhas, bicicletas, motas, escadotes e escadas na categoria de “honras distintas por tralhos”, ou em forma de sanitas, quase uma por ano, destoando em tamanho “pior ressaca 2013”. Por cima da porta de entrada, havia uma sucessão de cabeças em resina montadas em tabuletas envernizadas onde se podia ler o nome do espécime. O detalhe era grande, ligeiros cortes, narizes desviados, derrames oculares, gotas de sangue a aflorar nas narinas, em comum tinham vitórias, na parede conhecida como “as idas ao tapete”.
Em destaque no centro da sala, iluminado por várias tiras de leds, um expositor em plexiglass no topo de uma coluna romana, encerrava uma flecha de ponta afiada em forma de coração. Ela representaria a malograda tentativa de tomar o lugar de Cupido, de arco e aljava cheia ao ombro, o maior falhanço de todos, aquele de que mais se arrependia.

Num banner lateral anunciava 10% de desconto na subscrição online do pacote “Deus greco-romano por vinte dias”, que incluía seguro, kit básico e asas nas modalidades Eros, Tânato ou Hipnos. Quatro semanas depois recebia em casa duas caixas de cartão seladas com várias camadas de fita adesiva e logogramas de aviso em chinês. As asas eram réplicas toscas em papelão, mas o arco e as flechas pareciam genuínos, assinadas junto às rémiges pelo próprio Cupido. O software fornecido era user-friendly, as flechas possuíam um chip bluethooth activado pelo telemóvel, bastava aproximar o suficiente do dispositivo da vítima e acertar com a flecha na sua futura cara-metade.
O plano estava em vias de ser executado, acomodou a aljava e o arco por baixo de uma gabardine comprida, estavam trinta graus e o suor escorria-lhe em bica. Tinha marcado encontro com as duas cobaias nas ruínas do fórum, procurou a sombra de uma coluna de Saturno enquanto distraia as vistas num grupo de turistas eslavas. Sentia-se muito bem no papel de um deus, mesmo que só por vinte dias, se realmente as flechas funcionassem, podia emparelhar uma data de gente. Envolto numa espessa nuvem de pensamentos diuréticos, não se apercebeu da chegada do amigo que o mirava com estranheza, achando que o caso era sério e sujeito a medicação.
-Dá-me o teu telemóvel. Pediu o aspirante a Cupido, vá, rápido antes que ela chegue.
-Que se passa contigo? Está um calor de morrer e tu estás de gabardine até aos pés. Tens manchas de suor do tamanho de bolas de futebol debaixo dos braços.
-Isso agora não interessa, dá-me o teu telemóvel, depois explico-te tudo… vais ver que é desta, tenho cá um feeling…
O amigo que era mesmo muito amigo não discutiu e confiou no pouco juízo do aprendiz de deus a vinte dias. A flecha estava pronta, só faltava a última parte, o “grand finale”.
-Achas mesmo que ela vai aparecer? Não é um sítio um pouco estranho para marcar um encontro? E isto hoje tá apinhado de gente, achas que ela te reconhece? Pareces o inspector Clouseau…
-Cala-te pá, vou ligar-lhe, és capaz de ter razão, não foi o melhor sítio mas precisava de campo aberto, não ia disparar uma flecha no meio de uma esplanada no centro.
-Uma quê? Disparar onde?
-Tou? Se calhar já passaste por nós mas não me reconheceste… junto ao templo de Saturno… esse mesmo, sim estou com uma gabardine… é, ao vivo sou mais distinto, é o que dizem… vá.
Ela já ai vem, passou por nós duas vezes, chega-te pra lá, não quero apanhar-te.
-Tás bem? Se calhar apanhaste muito sol…


Mas o incipiente deus já não ouvia, concentrado na imagem felina que desfilava na sua direcção, desfez-se da gabardine e de arco em punho, apontou a flecha. Era agora ou nunca, pensou, uma aberta à sua frente, sem brisa nem correnteza, esticou ao máximo a corda e disparou. Assim que a ponta fria tocou no coração da mulher, ela sentiu o chão sumir-se-lhe dos pés, cambaleou, olhando incrédula para o seu atacante, com a flecha cravada cinco centímetros no peito. Ele também estava incrédulo, hipnotizado, amaldiçoado, e sentia a mesma pontada, a mesma falência, a garganta ressequida, estava apaixonado. O amigo desmaiara aos pés do templo, ao ver tanto sangue, fraquejara nas tensões. Nenhum dos dois lhe valeu, mas continuaram amigos, ainda hoje são. 

John William Godward,Mischief and Repose (detail)1895

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Lucy

... ou pequeno exercício de auto-censura. 

O que têm em comum os achados da avó Lucy há quarenta anos na Etiópia e a observação pertinente do proprietário polaco a respeito de haver mais patos que patas? Eu gostava, mas infelizmente não encontrei nada. Mas o proprietário polaco tocou num excelente ponto, as espécies em que os machos lutam por uma fêmea supostamente têm mais probabilidade de sucesso. Quando a fêmea tem múltiplas opções, ela escolhe o melhor e os seus genes vão passar à geração seguinte. Os genes com defeito ficam excluídos da corrida, pelo caminho (ou no charco) e assim ocorre o contínuo melhoramento da espécie. Isto leva-nos a concluir que o futuro dos patos está nas “mãos” das patas (queria tanto escrever uma parvoíce destas!). No entanto isto pode não ser completamente verdade, há espécies em que os machos são em menor número e possuem os seus haréns. Aqui aplica-se outra teoria que defende que o acasalamento com mais do que uma fêmea aumenta as probabilidades dos machos se reproduzirem com sucesso e gerarem descendência. Logo, havendo mais patas que patos, os “melhores” podiam dispersar mais a sua descendência e isto é capaz de ser mais vantajoso, pelo menos numericamente…

Já que estou nos números, foi com alguma surpresa que constatei que no mundo há aproximadamente 101,8 homens para 100 mulheres. Parece muito equilibrado, mas quando fazemos as contas para 7 mil milhões de habitantes (podemos usar a regra de três simples), são mais coisa menos coisa que 62 milhões de homens a mais que mulheres.

Albert Montt

duelo

Albert Montt

terça-feira, 24 de novembro de 2015

manual

Há dias em que o sono não pega, e quando pega, é como atear uma chama em madeira molhada. Duas horas depois o despertador toca, os sonhos condensam da fumaça que se gerou da humidade da lenha, e acorda exactamente como adormeceu, na mesma posição, a mão dentro das calças de pijama, o sabor amargo da ilusão colado ao céu da boca.

Foi a pensar em fogos que não pegam que decidiu escrever um manual de sobrevivência para catástrofes de grande e média escala...

berserk manga by Miura Kentauro





sábado, 21 de novembro de 2015

zero


cinco graus e chuva fraca… se usasse mais do que uma palavra nos meus títulos.

À sexta escapam da clausura, trocam o cansaço e vestem a melhor coisa por umas cervejas, ou outra espécie. A menos de seis quilómetros vende-se, mas decidem uma rota mais audaz, ambiente melhorado, quase o triplo da distância. Entenda-se ambiente melhorado como sítio ocasionalmente frequentado por mulheres, sendo a noite de sexta o valor máximo da probabilidade. Calha ao maltês na sorte, o azar de trazer o carro, não haverá ressaca e o frio crava-lhe fábulas nos ossos.

Quatro graus e chuva fraca, queima como neve quando toca. É rápido. Nas traseiras dos depósitos, ao fundo depois dos banheiros, não há lençol amarrotado, somente frio e negrura infinita. É tão rápido que os olhos não se habituam, deslizam cegos um no outro agarrados pela cabeça, pouco da pele exposta é quente. Das bocas libertam-se arfados, ais em duas línguas, o ar em nuvens, não há vocábulos, os corpos comprimem-se, atravessam os poros.

Zero graus e chuva fraca. Chega silencioso, mais gelado e vazio, amor ordinário, metade do homem que escapou, sóbrio.


Touch by Sainer, 
acrylics on canvas 70x150 cm, 2012 ... more were

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

reses

Na altura dividiram tudo o que havia sido comum. Quer dizer, ela dividiu tudo o que havia sido comum, sem poupar os livros ou os discos. Alugou por quatro tardes uma guilhotina e abrindo as vinhas da ira na página duzentos e quarenta e cinco, cortou-o ao meio. De cada lado da mesa foi empilhando as reses, de um lado as metades iniciais com os prefácios, agradecimentos, dedicatórias, do outro as metades finais com apêndices, posfácios, glossários.

Puxou pela lombada espessa de fogo pálido, pelos dedos calculou que o centro vacilava entre a página cento e quarenta e sete e a cento e quarenta e oito. Quando se preparava para o golpe, a lâmina a roçar por milímetros a palidez da costura, pularam palavras da superfície tranquila de texto, como pequenas rãs que se lançam ao charco quando pressentem o perigo. casulo vazio de esmeralda.

Hyuro, untitled 3, ink on paper

domingo, 15 de novembro de 2015

hereditário


Antes de adormecer na fatídica noite de treze de novembro, escrevi um parágrafo sarcástico a respeito da triste situação política que se vive no meu país: 
Não fui talhado para isto, lamento. Resolvam da melhor maneira possível, mas não contem comigo, isto é uma coisa que salta gerações na minha família, é suposto saltar comigo.

Ontem fiquei a pensar no que tinha escrito, imóvel perante o vazio que enchia o resto da página. O que fazemos quando o mundo parece regredir e não conseguimos, nem queremos, acompanhar? Depois o meu irmão ligou-me, os miúdos queriam falar comigo, saber se estava bem e antes de desligar a pequena perguntou: tio, como são os maus?

Não fui talhado para isto, a minha mãe não me preparou para a guerra. Posso parecer grande e capaz de desfazer queixos e narizes, mas adormeci com histórias sobre porcos e gatos com botas. As paredes de casa eram forradas com fotos felizes das férias e litografias de Van Gogh e Gauguin. As estantes de livros enchiam o corredor e no gira-discos havia sempre um vinil do Zeca ou do Fausto, a filarmónica de Berlim. Ao domingo a minha mãe fazia um bolo e rapávamos a tigela da massa crua. Havia mantas e tendas de lençol, legos e carros de corrida. Havia a rua, os torneios sem bola, os piões e as faniqueiras, a chuva e a lama, as lanças e os escudos de papelão. Depois veio o grunge, as miúdas, cigarros avulsos e o cabelo na frente dos olhos. Quando me apresentei no quartel, os gajos leram alto o meu nome e passaram-me à reserva. O meu coração é feito de gelatina, de morango, quando a minha sobrinha diz tio, ele desfaz-se.

Apesar de descender de uma família de reaccionários, diz-se que quando chegou ao meu avô, ele estava mais preocupado com as patuscadas e copofonias com os amigos. Do meu bisavô saltou então para o meu pai, que até abril de setenta e quatro manteve uma vida dupla. Depois eu nasci, em liberdade, essa teria sido a condição do meu pai, e por ele só teria nascido alguns anos depois, lá para noventa, mas a minha mãe é que decidiu e em setenta e sete começou a tratar disso. Portanto é suposto saltar e passar para a geração seguinte, foi o que pensei, até a geração seguinte ligar e mostrarem-se interessados em entender o que se passa, como são os maus…

Como se explica a uma criança como são os "maus" sem usar palavrões? Cortei daqui a explicação de vinte e cinco linhas sobre como são os maus... um dia quando não tiver mais nada de interessante para escrever, eu volto aos maus. À minha sobrinha menti, disse que eram verdes raiados por fora, tipo as melancias e cheiravam a brócolos cozidos. Ela sorriu. Aquele sorriso um dia há-de ser a desgraça de muitos.
Mas enquanto ela não cresce e se torna a próxima Petra Herrera ou Constance Markievicz , os genes revolucionários foram-me entregues. Sou de natureza pacificadora, já expliquei que não fui feito para guerras, mas sei que debaixo da avermelhada gelatina há uma fina camada negra de pólvora, ela inflama com facilidade e quando explode, faz estragos.

gas-grenade-turned-flower-pots




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

uppercut

... ou a continuação de enfrear, agora que o efeito dos comprimidos passou.

Afinal não o conhecia assim tão bem, mas até que ponto conhecemos realmente as pessoas? Um individuo abre a boca e projecta uma dúzia de ideias, se estiver a discorrer sobre algo numa língua que não lhe deu de mamar, concedo-lhe o benefício da dúvida. Não era o caso, portanto nada lhe concedi. Quando começou com “É tudo muito bonito mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura” emborquei logo dois comprimidos de refreio.
 Mas ele não tocou nos refugiados nem nos sem-abrigo, deixou de lado os desempregados, não fez sequer referência aos que recebem subsídios. As pastilhas atravessavam sem água o esófago, quando lamentei não ter tomado a embalagem inteira. Duas não seriam suficientes e a vontade de lhe oferecer um espaçamento entre os dentes foi progredindo, enquanto ele abria e fechava a matraca contando como era complicado ter os miúdos em escolas públicas e que uma criança de um centro de acolhimento tinha destabilizado a turma do filho.
Fechei o punho, senti a pele esticar até ao limite nas falanges, os molares quase estalaram de pressão. Na falda da nuca ericei-me como um lobo, se aquilo durasse mais tempo, espuma raivosa escorreria pelos cantos da boca.
Quando caíram no estômago, ele tentava explicar-me como os miúdos eram inocentes, e até tinham achado piada ao rebelde institucionalizado. Mas aquilo não podia continuar, comprometia a aprendizagem dos demais, aquela criança retirada aos pais ou órfã (desamparada) e a viver numa instituição não podia cair assim de repente numa turma de anjos. 
Quando a droga começou a fazer efeito, já não sabia de que lado ficava o fígado. Afastei os pés na largura dos ombros, podia acertar-lhe no queixo, queria vê-lo voar em câmara lenta e desbotado. Conseguia imaginar o som do nariz a partir quando o esmagasse com o calcanhar, a camisa engomada cheia de sangue, só complicava já não me lembrar de que lado ficava o fígado.
Aquilo seria gerido por um ou dois neurónios, um deles mandava que abrisse a boca e ele continuava, não podiam estas entidades que retiram as crianças aos pais, sei lá, dar aulas nesses sítios? Há tantos professores desempregados, podiam ir lá dar as aulas e assim não misturavam essas crianças. Ainda abri a boca no meu estado semi-comatoso e terei dito algo como: Mas como se pode esperar que essas crianças retiradas aos pais voltem um dia a integrar a sociedade se permanecerem enjauladas em instituições? Pois, disse ele, mas um dia se fores pai vais entender, os miúdos não estão preparados para lidarem com crianças problemáticas, são demasiado pequenos.
Infantis (ou imbecis, não me recordo bem), foi o que pensei, iguais aos pais, mas a droga já se tinha espalhado pelo sangue, ultrapassara a barreira hematoencefálica, não permitindo verbalizar a minha opinião, ou arremessar um bonito uppercut com a esquerda.

 There, there. You'll feel better after you take a nap

terça-feira, 10 de novembro de 2015

onírico

Pareciam personagens cuspidas dum filme do Almodóvar, esguias sem ancas, peitos pequenos em blusa justa, narizes tortos e longos a dividir os olhos. Não eram gémeas, mas seriam irmãs e discutiam num dialecto que arranhava o vidro. Estávamos num motel junto à estrada, ouvia-se os motores de combustão interna, o quarto era sombrio e os cortinados velhos. Verde musgo, tudo era em verde musgo, desde o papel de parede mofado até ao estofo da cabeceira da cama. Quando entrei estavam de costas, eram iguais, mesmo na estridência da voz. Nunca as tinha visto e no entanto calei a primeira que se voltou, beijando-a de súpeto contra a parede. De cabeça rija, petrificada de boca em carne escancarada, não se mexia, gemendo baixo enquanto a minha língua se enlaçava no escuro da dela. A outra também se calou, seguindo com os olhos ougada, lábios entreabertos e sequiosos, tocava-me a medo no pescoço, passando os dedos pela saliência venosa seguindo a artéria até ao músculo. Aquietei-lhe a sanha tomando-lhe um peito, cabia inteiro na minha mão, duro, como um fruto verde.

Otto Muller, Duas irmãs, óleo sobre tela (1919)

domingo, 8 de novembro de 2015

calavera

Ele não acreditava. Ela achava que éramos imortais, retomando diferentes formas vida após vida. Ele continuava sem acreditar, preferindo não discutir o assunto. Ela achava que estava morta, só que não sabia. Ele também não sabia o que lhe dizer.


tirado daqui http://favim.com/image/2922/

sábado, 7 de novembro de 2015

montante

Levantou o aro e ficou por momentos a observar o líquido azul que oscilava no fundo da sanita. Atrás de si ela lavava os dentes, curvada sobre o lavatório, apartando os cabelos ondulados e fartos da espuma da pasta. Não conseguia ter a certeza sobre aquele fragmento de memória, parecia irreal, como se alguém o tivesse cortado pelo caule e propagado por estaca nas suas recordações. Havia um imenso bloco de granito que teria rolado pela encosta até ao fundo onde um riacho levava pouca água. Era mesmo grande, mas não era a imponência da pedra que o baralhava, mas sim a foda rápida e desprovida de pejo ali contra a rocha, completamente expostos e surdos pela queda de água. Ela estaria de costas, assim curvada como estava no lavatório, ele não se lembrava do seu rosto. Usava um biquíni florido que apartou, ignívora, desfazendo-se no seu interior num turbilhão de múltiplas amnésias.
-Tens ideia de uma encosta coberta de fetos e sombra, que terminava num rio com pouca água, e a montante uma queda, onda havia um enorme bloco de granito? 
Ela abriu a torneira e encheu a boca de água umas vezes, cuspindo de seguida antes de responder.
-Pitões. 
-Sim , sim, Pitões das Júnias, foi contigo então.
-Como assim?

desconheço o autor, tirei daqui http://www.ufunk.net/en/artistes/djerbahood-street-art/




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

fortuna

Um zíngaro com pouco uso mas mal cotado, andava certa vez sem rumo junto às margens de um rio largo. Foi o nómada o primeiro a ouvir os suspiros das ninfas aborrecidas, deitadas no lodo entre os destroços de um barco. Eram mais de cinco, seriam umas seis, pernas de peixe e belos corpos de mulheres. Eram todas tão formosas, tão belas mas enfadadas, que o zíngaro achou estranho e quis saber o que se passava. Afinal era mais do mesmo, trabalho precário, horas extras sem remuneração, aumento de impostos, só restava manter a esperança na aposta de sexta-feira, cem milhões de euros dizia na montra.

“E vós, Tágides minhas, de fúteis invocações fartas
Já não tendes mais ouvidos e pachorra pra esta fauna
Dos poetas, pintores, escultores, escriturários, banqueiros, talhantes, mecânicos, doutores, enfermeiros, professores, técnicos, engenheiros, carpinteiros, coveiros, prostitutos, policias, gatunos, ministros, palhaços, marretas, bando de moscas-mortas.
Dai-me a saber vossos planos, caso a fortuna
Bater certa e com fúria nas vossas portas.”


A primeira das Tágides não levou muito a responder:

“Sai-me na sexta fortuna choruda,
e alugo-te a ti zíngaro de estima, como cicerone ou tradutor, 
vamos por países quentes, dás-me uma ajuda
que o meu estrangeiro é um pouco saloio.”

(...)

O Camões que me perdoe se isto leva continuação...
Camões e as Tágides (estudo), óleo sobre tela, 1893-1894. 
Obra de Columbano Bordalo Pinheiro



quarta-feira, 4 de novembro de 2015

vulpino

Tenho levado avanço ao sol, levanto-me na penumbra quando ele ainda não trepou o planalto. Os chapins vizinhos ensaiam um tom acima, duas e três notas, aproveitando o reinado do silêncio. Inspiro o frio, aqui já foi outono. Algumas poucas nuvens varreram o céu e lá vem ele. 

http://www.mikeluribetxeberria.com/

domingo, 1 de novembro de 2015

ważka

Querida ex-Musa

Como tens passado? A princesa vai bem na escola? Estará crescida, linda como a mãe, provavelmente não a reconheço. E os teus pais, os teus irmãos?  
Escrevo para agradecer, embora tardiamente, a tua última mensagem. Naquele dia faltaram-me todas as palavras, os meus dedos congelaram dois centímetros acima do teclado, só te peço que esqueças o que não disse, olvida em absoluto o meu silêncio. 
Não sei até que ponto ficaras satisfeita por saber que procuro quem te substitua, coloquei anúncio no jornal, mas até ao momento não recebi qualquer resposta. Talvez tenha elevado um pouco a fasquia, ou temo ter assustado as mais sensíveis com as minhas obscenidades. Lembro-me do quanto gostavas das palavras que usava, mesmo as que os outros escutavam como estranhas ou sujas. 
Não devia reler o passado. Quanto mais distante me colocar, ao contrário das leis da física, menor é a queda. Mas sinto-me agrilhoado no presente, encarando por horas e até dias as linhas deixadas em branco, arredado do doce odor de um parágrafo novo, desfiando lentamente um abismo mortal entre mim e a caneta. É um suplício, atormentado sem assunto, alui-me o ânimo. Tu sabes como fico, conheces as minhas crises, de forma impossível conseguias sempre arrancar-me do marasmo das águas paradas. Agora só me resta ficar aqui estagnado, compondo o vulgar à espera de uma musa que me inspire, nem que seja em part-time ou a recibos verdes.
Da minha parte posso garantir que nunca te esquecerei, nem diluirei da memória os teus sonhos nos quais me permitiste entrar todas as noites e perseguir-te rio acima, seguindo as pegadas frias que deixavas nas rochas, até à nascente de tudo que é belo. 

Espero sinceramente que sejas feliz.


Teu, para sempre 

Acrylic painting 'wAżka' by Justyna Jabłońska


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

imputar

Exmos. Senhores

Começo por lhes apresentar o meu pedido de desculpas pela justificação tardia, mas afazeres pessoais e profissionais impediram-me de lhes responder em momento oportuno.
Com referência à situação climatérica actual, admito total responsabilidade pelos níveis altos de precipitação que têm assolado o território nacional nos últimos dias. Lamentavelmente a situação descontrolou-se, esperando-se melhoras só a partir do início da próxima semana. Mais informo vossas excelências que foi um acto verdadeiramente irreflectido e de pura obstinação, perante a tenacidade de um céu limpo e aguaceiros fracos.
Ressarcirei todos os lesados por qualquer dano causado, moral ou material, colocando-me desde já à vossa disposição para eventuais esclarecimentos. Cabe-me a mim, culpado em primeiro grau, divulgar que habitualmente os pedidos de precipitação são bem atendidos, mas por omissão do código postal no destinatário, a ordem executória teve lugar em território errado, bastante mais a sul, aqui continua sem nuvens, céu limpo, um autêntico nojo.
Apraz-me ainda informar que as reclamações podem ser dirigidas, caso não esteja assistido por um psiquiatra, ao instituto português do mar e da atmosfera, onde ocorreu o processo de previsão descritiva para 10 dias para uma determinada localidade escolhida aleatoriamente pelo sistema e que por acaso era Lisboa. Caso não haja previsão desfavorável, contrariando as actuais do momento, queiram vossas excelências ignorar parte integral desta minuta.
Em última análise, podem aconselhar-se junto da Autoridade para as Condições Meteorológicas, adoptando os procedimentos que se revelarem mais adequados a ultrapassar este impasse e crescente foco de conflito, até ser definida a sua situação, em termos definitivos, através de um dos dois procedimentos acima assinalados ou por outra via que vossas excelências achem mais conveniente e eficaz.


Com os melhores cumprimentos

Manuel Mau-Tempo






segunda-feira, 26 de outubro de 2015

nudez


Não preciso que o vento apanhe as folhas que cobrem o chão para saber que estiveste aqui.


Juli Jah watercolor and ink


domingo, 25 de outubro de 2015

glaciar

"Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim..."
Florbela Espanca, Charneca em flor (1931)


Finíssimas partículas de gelo assentaram entre nós sem serem visíveis. Quando Alicja e Jochen voltaram para Varsóvia, um glaciar tinha irrompido pela sala de jantar, sulcando a mesa e engolido as cadeiras, apartando-nos para os cantos. Inquirido pelo súbito silêncio e quebras perpétuas nos lábios de Izabela, culpei a partida da irmã sem saber que mais dizer. Ela por sua vez terá inventado uma indisposição feminina para se ausentar ao jantar, fechando-se cedo no quarto.

Durou quase uma semana a indiferença de Izabela. Quase uma semana privado de azul, carente do seu cheiro, da doçura da sua voz, mesmo quando grita “na ziemia” com o gato. Despejado da sua amizade, desviamos os mesmos percursos evitando rotas de colisão fatais, almoços, lanches e jantares. Confinei-me à jangada de quietude sem remos, enfrentei o gelo e atirei-me desalmado ao trabalho, resoluto a partir assim que terminasse as minhas obrigações.

Por mais que ensaiasse, os dias sem o sorriso de Izabela eram intoleravelmente tristes, e tudo por minha culpa, maldita escória líquida que corre nas veias. Na quinta enrolei com parcimónia as t-shirts nos peugos, despedi-me dos proprietários polacos e do gato com duas de tinto e uma lata de ração especial, e procurei a ninfa despromovida sem êxito. Rumaria para sul à boleia logo pela manhã, Marek ergueu a cerveja e sem grande vontade brindou "na zdrowie", foi o único que não quis saber, as bebedeiras criam amarras. Tinha deixado as troxas em cima da mochila, faltava completar na manhã seguinte com o portátil, os livros e a escova de dentes, eram esses os planos, e assim que o sol galgou o planalto, dei inicio à árdua tarefa de "tetrizar" todos os meus pertences. Um cheiro forte subiu da roupa quando peguei no primeiro rolo de t-shirt e peugo, urina de gato, até à mochila. Experimentei primeiro a fúria, um quartilho (473 mL) de penalti, depois a raiva e a culpa em shot (44,36 mL). Sentei-me alcoolizado de ira, lá fora os raios solares descongelavam a manhã pacificamente, reflexos dourados banhavam as copas quase nuas e muito albas, "por elmo, as manhãs de oiro e de cetim" fazia todo o sentido.

O gato já tinha abandonado o edifício, aliviado dormia estendido ao sol nalgum beiral alto. Só me restava o adiamento, um ou dois dias seriam suficientes para lavar e secar a troxa, acastelei tudo na mochila e dissolvido em vergonha procurei a ajuda da proprietária polaca. Do tecto da cozinha pendiam estalactites de gelo, Izabela levantou os olhos azuis surpresa de me ver, do seu café subia uma névoa agradável. A tia rapidamente se encarregou de tratar das roupas, afastando-se por uma das portas da lavandaria, sem me deixar uma cópia do contrato que estávamos a celebrar. O tecto começou a pingar quando Izabela ofereceu uma caneca de café, sentei-me diante dela, mal a conseguia ouvir com o som do degelo, gotejando por cima dos tachos e panelas, na mesa, fogão, mesmo no candeeiro. Acabei por ficar, clarificamos as posições, prometi segredo até à cova e no sábado levei o proprietário polaco a Wolin para descarregar o malte, enquanto Marek levou as damas a Szczecin ao centro comercial.

"Foi o sacana do gato!" respondi entre dois goles sem ele ter perguntado nada. Marek sorriu. "Ele gosta de ti. Deves ser o diabo!".

O diabo não serei, digo eu, mas somos chegados.

by Hula, more here http://byhula.com/#


sábado, 24 de outubro de 2015

enfrear

A nossa conversa começou sem ele saber muito bem em que lado da barricada me ia encontrar. Talvez porque nunca lhe dei muito a saber das minhas coisas, usualmente o tema é trabalho, por vezes conta-me situações engraçadas dos miúdos, ou manipula energicamente o seu novo gadget para me mostrar as fotos das férias. Finjo interesse e esqueço rapidamente o nome dos pequenos.

Reparei como preparou o trecho, pisando cauteloso o assunto como se pretendesse surpreender um urso num bosque repleto de galhos. “É tudo muito bonito”, começou, “mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura”. Sem que ele notasse, tirei do bolso do casaco um blíster de compridos e tomei logo dois. Já estava a prever o que ai vinha, se não era sobre os refugiados, era sobre os sem-abrigo, ou os desempregados. Não fazia outra coisa para além de cavar trincheiras à pressa, estava exausto e então comecei a tomar refreio em pastilhas.

by Gaia, more in http://gaiastreetart.com/

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

símio



cavaco prepara-te!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ravasco


… ou ensaios para dias felizes.

Mirei-me no pequeno espelho torto colocado por cima do pio, já não o usava há algum tempo e a primeira reacção foi de ver um estranho. Não era tão ridículo quanto imaginara, parecia que tinha um guaxinim morto com um pompom no topo da cabeça, mas era quente e cobria as orelhas. Passei a mão pela barba para garantir que era mesmo eu que ali se mirava, algumas pontas brancas reflectiram a luz fraca, confirmando a passagem dos anos. Depois experimentei erguer os lados da boca numa aproximação de sorriso, mas o resultado ficou aquém das expectativas.
Andava a ver se deixava crescer a par com a barba um lado optimista, mas não sei se por falta de chuva ou do solo franco-argiloso com pouca profundidade, a coisa não estava a pegar. E foi então que sem contar descobri a Biedronka (joaninha) na Stanisława Dubois, onde comprei duas garrafas de monte da ravasqueira, quinze zlótis cada, na esperança de ficar catorze graus e meio mais próximo de casa.
Mas voltemos ao início, ou à explicação do guaxinim morto. Na sexta-feira depois do jantar, (eram umas seis da tarde, cinco em Lisboa e na Madeira), Jochen e Alicja apareceram de surpresa carregados de presentes e com muitas saudades para matar. A mim calhou-me um gorro, o tal que parece um guaxinim falso e sem vida, mas até me assenta decentemente e as orelhas ficam protegidas do cieiro. E agora onde entra o ravasco? Vamos com calma que ainda estou ébrio.
Esbulhado da amizade de Jochen por largos meses, esqueci de como nos dávamos bem, mas agora parecia mais adulto, ajuizado, excluindo-se das disputas alcoólicas que eu e Marek travávamos. Falava em casar, ter filhos, empréstimo bancário, horário das oito às cinco, mas Alicja parecia a mesma, inconsequente e em busca de um coelho branco com colete.
Então andava a ensaiar para dias felizes e domingo veio com céu carregado, mesmo assim Izabela encheu um cesto com as iguarias da tia e surripiou os copos altos do armário. Com pouca pompa estendemos uma manta junto ao lago e abri o tinto que escoou pelas gargantas como chuva em terra árida.

O ravasco: Juro que não tive culpa. Depois da farta comezaina bem regada a baixo custo, a minha costela veio ao de cima, bateu-me uma profunda moleza, enterrei o gorro até tapar os olhos e adormeci meio fora, meio dentro da manta. Jochen tinha avistado um barco abandonado preso nos ramos e Marek foi com ele saber se tinha fundo. Ora, na manta estava eu (o ravasco) meio dentro meio fora, e as duas irmãs, Alicja inconsequente e Izabela, a musa despromovida. Ressalva, eu não tive culpa, estava a dormitar naquela extremidade de papo para o ar, quando as duas irmãs se aproximaram, pairando como nuvens sobre a minha cabeça. O primeiro beijo foi inconsequente e sabia a taninos e frutos vermelhos, tentei levantar a viseira mas ela segurou-me sem forçar pelos punhos. O segundo beijo sabia quase ao mesmo, um pouco mais doce, mais hesitante, suspenso por um risinho. E continuaram até perder a conta e a língua atravessar o lábio e se encontrarem, ora uma, ora a outra, sem resistir entre meio dentro e meio fora da manta. 




ravasco: Homem devasso; libertino

domingo, 18 de outubro de 2015

reposteiro

Ela não gosta de caminhar, ela não me dá a mão
Ela diz que quer ser minha musa, mas não me passa cartão!
Ela não chora por mim, ela não me guarda afeição.
Ela não acredita no que digo, insiste que sou um aldrabão!


zagaleto, 3 de Maio de 2014
algures da net... sei lá

sábado, 17 de outubro de 2015

słoń

Da última vez que sonhei com ele, estava em frente a uma pia cheia, de mangas arregaçadas até aos cotovelos secos. As pilhas de pratos com restos de almoço ultrapassavam a altura de um homem, e quando vi que era ele, o meu avô, senti pena mas não podia fazer nada. O meu avô nunca foi muito de trabalhar, não tenho ideia de o ter visto alguma vez de mangas arregaçadas, era o que se considerava naqueles tempos um artista, exímio a cortar e cozer, ainda conservo um sobretudo feito por ele.
Esta noite ele voltou, não me recordo o contexto, mas estive com ele. Talvez como estávamos antes, no sofá gasto a ver um daqueles programas sobre a vida selvagem que os dois apreciávamos, ou no café em silêncio, a seguir a trajectória imperfeita de uma bola de bilhar. Nunca foi uma pessoa fácil, ou afável, no fim preferiu a solidão. Talvez por isso o veja como um grande elefante engelhado que se afastou da manada.
Era precisamente sobre isso que eu queria escrever: os elefantes. O cérebro dos elefantes é quatro vezes maior que o nosso, os elefantes pensam, raciocinam e está comprovado que possuem uma memória surpreendente, bem mais sofisticada e capaz que a nossa (melhor que a minha até uma galinha). Outro facto admirável é o sentido de família e morte que os elefantes possuem, sendo os únicos animais para além do homo sapiens, que chora a morte dos seus familiares.

Mas os elefantes também brincam e até sorriem. Diz-se que as crias dos elefantes são as mais felizes à face da terra, rodeadas de carinho, protecção e afecto desde o dia em que nascem, depois de passarem quase dois anos dentro da barriga da mãe. Vi num filme um filhote com cem quilos, ainda trôpego, equilibrado em grandes patas, minúsculo perante a manada que o rodeava gentilmente para o cheirar e tocar, e lembrei-me da minha infância. Eu fui um elefante bebé (mais leve) e até aquele elefante engelhado e solitário, pouco afável para o resto da manada, descongelou o coração quando nasci e era terno e carinhoso comigo.

Photograph by Robert Carr-Hartley
słoń -elefante em polaco...