sexta-feira, 20 de novembro de 2015

reses

Na altura dividiram tudo o que havia sido comum. Quer dizer, ela dividiu tudo o que havia sido comum, sem poupar os livros ou os discos. Alugou por quatro tardes uma guilhotina e abrindo as vinhas da ira na página duzentos e quarenta e cinco, cortou-o ao meio. De cada lado da mesa foi empilhando as reses, de um lado as metades iniciais com os prefácios, agradecimentos, dedicatórias, do outro as metades finais com apêndices, posfácios, glossários.

Puxou pela lombada espessa de fogo pálido, pelos dedos calculou que o centro vacilava entre a página cento e quarenta e sete e a cento e quarenta e oito. Quando se preparava para o golpe, a lâmina a roçar por milímetros a palidez da costura, pularam palavras da superfície tranquila de texto, como pequenas rãs que se lançam ao charco quando pressentem o perigo. casulo vazio de esmeralda.

Hyuro, untitled 3, ink on paper

10 comentários:

  1. Também há casulos de onde saem borboletas...

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    1. até teria dividido tudo, do que havia não queria nada, com excepção dos livros...

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  3. Muito bom este texto.. Muito pouca coisa é passivel de ser dividida. Prefiro de longe a partilha, é tão melhor... Até porque como já dizia a minha avó meias só para os pés.

    Beijoooo Manel tempestade:))

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    1. se a sensatez das avós fosse lei, o mundo era pra lá de tanto melhor... beijo, beijo, beijo AC

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  4. Casulos vazios acumulam menos pó.


    Ó

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    1. versão Ó menina lapalissada :) bom dia, bom dia...

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