sábado, 29 de outubro de 2016

Fenrir

Respondeu-me cinco meses depois. Começou por me explicar o que a tinha atrasado, como andou ocupada com os preparativos para o casamento, depois foi a lua-de-mel, a casa nova. Finalmente sossegou e sentada com os Tratas diante de si, escreveu-me uma longa missiva contando como se sentia feliz e realizada, e que eu estava errado, o casamento era a melhor coisa que já lhe tinha acontecido. Como prova do que afirmava, juntara uma fotografia dela com o caga-tacos a seu lado, uma amostra de homem num fato que sobrava pelos ombros. 
Fui buscar uma lupa. Por muito que tentasse, não conseguia ver a felicidade que ela descrevia. O brilho que emanava das suas íris escuras, negras como obsidiana, tinha desaparecido e em seu lugar surgia um olhar baço, inexpressivo. Aliás, toda ela parecia baça naquele ramalhete de tule e rendas brancas, pálida de braço entrelaçado numa figura ridícula, que mais parecia uma marioneta adoentada, a quem tinham adicionado uns pequenos óculos de arame dobrado.
Até os seus lábios pintados com o mesmo vermelho que sempre usara, onde tantas vezes vira nascer palavras endiabradas e a língua sair insidiosa, agora assemelhava-se a um vermelho gasto, um tom fraco, muito ligeiro. Só havia uma coisa que se mantinha inalterada: o seu perfume. As folhas estavam impregnadas, desde a primeira até à última. Aspirei longamente o papel, era como se por magia se materializasse à minha frente, dançando na sua tola juventude, nua, a capa escarlate a seus pés. Exactamente o mesmo perfume que ela me havia dado a cheirar na cova muito branca e macia entre o ombro e o pescoço, deixando-me ébrio, quase desmaiado de prazer.
Afastei o perfume, a capa vermelha, a pele leitosa e as íris escuras. Afastei-as o mais que pude regressando às paredes frias da gruta, a gotejar de musgo e escuridão. Dormente, continuei a leitura, saltando descrições aborrecidas sobre a decoração da sala, o tamanho da propriedade, a biblioteca do marido, interessando-me mais a vista de montanha, as madrugadas silenciosas no sopé, os bosques densos que lhe lembravam um outro bosque, noutro tempo, quando os nossos caminhos se cruzaram. No verso da última página, com a mesma caligrafia cuidada, concluía que se sentia muito feliz apesar das saudades, assinando "com amor" e o nome de solteira: Capuchinho Vermelho.





domingo, 23 de outubro de 2016

kot

Todos parecem felizes por me ver, até Kot, o gato malhado. Está mais gordo, pançudo, sempre remeloso, um pouco mais domesticado. Roça-se pelas minhas pernas e cheira as mãos, depois desmaia junto aos pés e espera festas pelo dorso. Quando a chuva e o frio regressam, Kot abriga-se em casa, torna-se mais sociável, mas só nas poucas horas em que permanece acordado. Conversamos um pouco enquanto o almoço não é servido, ele entende-me na minha língua, faço por entender a dele. Izabela pede-me que abra o vinho, também a entendo na língua dela quando complementada de gestos. Às vezes esquece de usar o inglês, respondo-lhe simplesmente “tak” e ela brinca: -o teu polaco está perfeito!




sábado, 22 de outubro de 2016

menisco

Tento tudo para a manter distante mesmo querendo-a sempre por perto. -Sexta à noite tenho jogo. Disse-lhe sem ela perguntar. Sorriu e respondeu: -Fazes bem. E como disse que ia, fui, levado pelas pernas surdas ao que o coração gritava. -Liga-lhe! Vai, convida-a para jantar! Esquece esse estúpido jogo. Mas as pernas, que mais tarde se iriam arrepender, fizeram o que a cabeça pouco ajuizada mandava. E assim que começamos todos a aquecer em círculos rectangulares em redor do campo, foram os pés os primeiros a lamentar. Depois o coração resignou-se, ofegante, calou-se sem se emocionar. A cabeça falhou duas bolas, os pés ainda apanharam algumas perdidas, o desempenho no geral era medíocre, por isso a bola só vinha na minha direcção por azar. Os adversários alegravam-se com os meus falhanços e celebravam cada ponto com grande entusiasmo. Eram jovens, pirralhos com idade para serem meus filhos, cheios de energia, músculos em forma, passes perfeitos, velocidade estonteante. Queria ser jovem outra vez, correr sem sentir que a densidade do ar era como estar submerso em lama, os músculos tensos, os ossos a saltarem das articulações doridas, pulmões gastos, um coração martirizado. Ao lado deles parecia ter uns cinquenta anos a mais, depois fiz um bom passe, e foi o ponto alto da minha noite. Reuni à saida toda a energia possível para voltar a pé para casa, estômago a reclamar ao passar diante de alguns restaurantes, onde casais jantavam à luz das velas. Liguei-lhe, ainda podia ir a tempo de a convidar para jantar, mas já era tarde demais, estava a jantar, algures, não disse com quem. O coração entrou em modo silencioso.


notificação de última hora: menisco direito está dado como desaparecido desde ontem. Residente num belo joelho com 38 anos, mede apenas alguns centímetros, fibrocartilaginoso e já teve melhores dias. Foi visto pela última vez ontem por volta das 19 horas. A perna e restante corpo pedem a quem possa ter alguma informação que contacte a polícia, os bombeiros, ou a Rádio Condestável. Obrigado

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

humedecer


Caminhei à chuva sem casaco. Gotas fartas mas espaçadas que atravessaram o céu e se despejaram em mim, morrendo absorvidas pela roupa, escorrendo pela cabeça e braços como canyons em ponto pequeno. Todo o dia andei impregnado do cheiro a chuva, ou do cheiro que a chuva trazia de longe. Tudo misturado agora num único cheiro a mar, floresta, nuvem, poça, terra, tudo concentrado em cada gota. E eu cheirava a tudo pendurado no andaime do primeiro, feliz só por andar à chuva.





reboco

O encarregado nem abriu a boca. Cingiu-se a coçar a cabeça por baixo do capacete e saiu mudo, guardando cautelosamente as palavras no saco de lona onde levava a marmita. O moço aplicava o reboco com a talocha, começando pela parte inferior da parede em direcção ao tecto.  Na outra mão segurava o que parecia ser um coração latejante, ensanguentado, envolvido com cuidado em película aderente. Mantinha-o próximo do corpo, bem seguro, com bater compassado, mas sem o esmagar por entre os dedos. 


sábado, 15 de outubro de 2016

logro

Já ali estivera. Reconhecia aquele desfiladeiro onde o rio só enchia algumas bacias. Nunca chegara de autocarro, essa era a novidade. Numa paragem estava no centro da cidade, na seguinte estava no estreito das montanhas. Demorei um bocado a decidir, nem sabia porque estava ali, nem qual o destino. Pedi ao motorista para sair. Automaticamente as portas abriram e o autocarro desapareceu, assim como as pessoas que seguiam nele. Subi para a primeira pedra por onde se iniciava o percurso. Até ao outro bloco de granito onde se alcançava o caminho em terra, estava tudo alagado. A água era tão límpida e as pedras tão claras que dava a ilusão de ser pouco profundo. Mas lembrava-me da última vez saltar para a pedra seguinte e a água engoliu-me. Era ainda mais fundo. Chovera bastante naquela semana, estava mais frio também. Reparei que havia uma construção em cimento que ligava as duas pedras, tipo um reservatório. Não sei se ali estava antes, mas consegui pendurar-me na beira e balançando as pernas, atravessei sem me molhar. Do cimo do bloco conseguia ver o trilho em terra seguir junto ao rio, perdendo-se o rasto mais adiante entre as montanhas, mas a sensação de contentamento desvanecia-se rapidamente.  Acordei com um gosto de desilusão na boca e o cheiro longínquo de resina. Ainda não amanhecera, mas os pés com as pernas arrancaram sem piedade o corpo à cama. Só quando o autocarro chegou ao destino e as portas abriram é que voltei a recordar o sonho e o estranho reservatório em cimento. Não sabia que era tão fácil cimentar sonhos. 


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Extinto

Ela fez-me feliz na segunda e em mais nenhum dia.

níquel náusea de Fernando Gonsales

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

gripe

Ninguém imagina o que é estar na minha pele, viver dentro de mim, respirar por este nariz, alimentar-me por esta boca. É muito triste, e quando chega esta altura do ano, ainda me sinto mais frustrado. Toda a gente acha que tenho imensa sorte, mas na verdade é muito aborrecido. Sou sempre o único que não falta ao trabalho, sou sempre o gajo que tem de ir visitar os que estão de cama, fazer canja, levar um postal de melhoras. Nunca posso dar-me ao luxo de passar o dia a verter secreções para um lenço, ou a tossir como se quisesse realojar os pulmões. Chego mesmo a invejar as pessoas que ficam com o nariz em ferida e os lábios gretados. Já não sei o que é sentir um termómetro na cova do braço, já não me lembro do sabor dos xaropes, ou de um analgésico efervescente. E os arrepios de frio... quem me dera ter isso. E não é por falta de tentativas. Eu tento ficar doente, eu quero sentir a cabeça pesada, o nariz apertado, a voz roufenha. Queria ir à farmácia e comprar aspirina, ter de falar pelo nariz, dormir de boca aberta, amontoar uma porção astronómica de lenços de papel na mesinha de cabeceira. Era bom uma vez por outra sentir a garganta inflamada, a comida saber a papel, perder a voz durante uns dias. Ou uma otite, já me contentava com uma otite. Mas simplesmente não acontece, nem quando o ar esfria. Por todo o lado já andam a espirrar, a tossir, até pigarrear... e eu nada.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

treze

Esta semana o livro de reclamações atingiu um novo máximo. Pelo menos duas leitoras queixaram-se do nível elevado de lamechice registado nos últimos meses, e com razão. É lamentável e desde já apresento as mais sinceras desculpas, podendo no entanto garantir que estou a trabalhar arduamente no sentido de melhorar o conteúdo deste espaço. Ainda assim, julgo que a participação de todos é absolutamente indispensável, e conto principalmente com o apoio da ala feminina na próxima quinta-feira, 13 de Outubro, em que se comemora mais um dia sem soutien. Caras leitoras e mulheres por esse mundo fora, em particular as que vivem nas imediações, façam-me feliz, pelo menos durante um dia. Obrigado.




domingo, 9 de outubro de 2016

falha

Falta-me o ar. É uma falta sem faltar. Respiro fundo e os pulmões enchem até quase rebentarem, sem muco espesso a entupir o nariz ou tecidos inflamados obstruídos. Mas o ar escapa, vaza por furos invisíveis, minúsculos orifícios laterais e falta-me. 
Foge-me o chão. Foge sem fugir. Como nos sonhos em que o precipício abre as suas goelas negras e caímos numa espiral contínua de olhos fechados. Mas de pouco adianta abrir os olhos. Continuo em queda, enjoado na espiral, muito distante do sonho. 
Falham-me as palavras. Não uma quebra ou uma lasca, mas uma omissão. Uma falha em acertar na palavra certa. Um tempo perdido, uma quebra desnecessária na linha, um espaço deixado em branco. E não me canso de mergulhar vezes sem conta nos livros cheios, emergir com palavras coladas à pele, como uma segunda pele. Sou página em cada mergulho, pedaços de mim são letras, palavras. Mesmo assim elas falham-me, faltam-me, fogem como os pássaros que deixam os céus no inverno. 


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

domingo, 2 de outubro de 2016

um


Passou uma semana inteira entre nós. Quando voltou perguntei se podíamos tomar pequeno-almoço no café onde param os velhos. Mostrou-me as fotos que tirou com o telemóvel, só algumas. Paris é imensa, diz, acho que isto é o sagrado coração, não sei bem. Aquele rectângulo negro imiscui-se na nossa conversa, atravessa-se entre os nossos olhares como um blindado. Desvio pela sala pelos velhos solitários que viram páginas cheias da decadência humana. Um vislumbre do que me espera. A solidão das mesas de canto, o café fraco a ficar frio. Os olhos dela ainda estão algures nas ruas de paris. Espero que retornem aos meus por magia, ou que a bateria se acabe. Ultimamente faltam-me as palavras para os fisgar, nada me ocorre para dizer para além do óbvio. Em breve vai partir numa nova viagem e não terei encontrado a coragem para lhe mostrar a falta que me faz. Ela não parece sentir a minha falta. Quando voltas, pergunto, ansiando que ela desta fique longe todo o mês, ou o tempo necessário para que consiga aprender a viver nos cantos.  

aguarela de Angus McEwan