sábado, 15 de outubro de 2016

logro

Já ali estivera. Reconhecia aquele desfiladeiro onde o rio só enchia algumas bacias. Nunca chegara de autocarro, essa era a novidade. Numa paragem estava no centro da cidade, na seguinte estava no estreito das montanhas. Demorei um bocado a decidir, nem sabia porque estava ali, nem qual o destino. Pedi ao motorista para sair. Automaticamente as portas abriram e o autocarro desapareceu, assim como as pessoas que seguiam nele. Subi para a primeira pedra por onde se iniciava o percurso. Até ao outro bloco de granito onde se alcançava o caminho em terra, estava tudo alagado. A água era tão límpida e as pedras tão claras que dava a ilusão de ser pouco profundo. Mas lembrava-me da última vez saltar para a pedra seguinte e a água engoliu-me. Era ainda mais fundo. Chovera bastante naquela semana, estava mais frio também. Reparei que havia uma construção em cimento que ligava as duas pedras, tipo um reservatório. Não sei se ali estava antes, mas consegui pendurar-me na beira e balançando as pernas, atravessei sem me molhar. Do cimo do bloco conseguia ver o trilho em terra seguir junto ao rio, perdendo-se o rasto mais adiante entre as montanhas, mas a sensação de contentamento desvanecia-se rapidamente.  Acordei com um gosto de desilusão na boca e o cheiro longínquo de resina. Ainda não amanhecera, mas os pés com as pernas arrancaram sem piedade o corpo à cama. Só quando o autocarro chegou ao destino e as portas abriram é que voltei a recordar o sonho e o estranho reservatório em cimento. Não sabia que era tão fácil cimentar sonhos. 


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