segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

questão

... ou post barra questionário, às pessoas que sorriem pouco, ou a todos aqueles que um dia foram alvo de um sorriso raro!

Dizem os meus espiões que é raro ela sorrir. Também é raro conversar no corredor com alguém, mesmo os cumprimentos são muito contidos e a sua voz é quase um murmúrio. No entanto eu conheço outra pessoa na mesma pessoa, que em condições diferentes falou pelos cotovelos, como se aproveitasse cada segundo em que estava na minha presença para me mostrar o seu lado que sorri. Mas posso estar enganado. Também me engano e não é assim tão raro. Os meus espiões dizem que a viram sorrir também, e que só a mim ela me acena ao longe. E procurou em várias ocasiões o meu olhar. Tenho testemunhas. E eu que normalmente sou efusivo, provocador, sempre a sorrir com ar de idiota, quando estou diante dela fico mudo, intimidado, como que enfeitiçado pela sua voz que não é mais que um estalar de espuma do mar.  

Pessoas que sorriem pouco e que passam a sorrir para uma determinada pessoa, isso é o quê, exactamente? 



Montt

domingo, 26 de fevereiro de 2017

aburrido

ao fim-de-semana aborreço-me de morte...

Alberto Montt
o que será que ela faz ao fim-de-semana?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

trinta

O homem preparou a massa sob o olhar atento dos jovens. Todos queriam ajudar, mas distraiam-se com mensagens no whatsapp, instagram, facebook. Partilhavam fotos, deformavam-se com aplicações, macaqueavam selfies. Outros seleccionavam músicas no youtube, spotify, e iam afinando vozes e passos de dança. Quando a pizza finalmente saiu do forno, correram para a mesa sem ser necessário chamar. O homem pouco comeu, estava cansado, mas agradava-lhe a mesa cheia e barulhenta. Nunca se imaginara a alimentar tantas bocas esfomeadas que elogiavam a sua arte de criar comida a partir de ingredientes simples. Mas comiam tanto, em segundos tudo o que levara horas a preparar, desaparecia em migalhas. Já se tinha esquecido como seria na idade deles. Tentava esse exercício vezes sem conta, lembrar-se como era, o que fazia, do que gostava com pouco mais de vinte anos. Mesmo eles queriam saber como era, que músicas ouvia por exemplo na escola primária. Ele ria dessas perguntas, era tudo tão diferente, não havia mp3, nem sequer cd’s. Não se descarregava música como se fosse tirar água à fonte. Em oitenta e tal podia escolher ouvir rádio, ou os vinis dos pais repetidos vezes sem conta. E foi então que se lembrou do dia em que o Zeca faleceu. Como se fosse um amigo próximo, um familiar que deixava muita saudade. O Zeca que nenhum daqueles jovens conhecia, o mesmo Zeca que lhe ensinara palavras difíceis como liberdade, desterro, vampiros, piranhas. "Eles comem tudo!" pensava. Queria dizer-lhes que aproveitassem cada dia como se fosse único. Também queria dizer-lhes que não "comessem" tudo, que duvidassem de vez em quando, que não se entregassem. Mas em vez disso ficou a admirar as suas brincadeiras, participou delas como se não estivesse tão próximo dos quarenta, como se os olhos já não tivessem visto muito, como se a pele não se encostasse como dunas nos cantos. Não aguentou ficar para além da uma hora do dia seguinte. Mas sabia que a maioria deles ficariam até muito tarde, e antes de se deitarem, haviam de misturar uns ovos com salsichas na sertã. Disso ele lembrava-se, dos ovos e das salsichas que o salvaram várias vezes nas madrugadas frias, e que continuavam a salvar as gerações seguintes. 


não seria nem cigano nem maltês, se o Zeca não o tivesse cantado. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

janota

Há quem me chame de lindinho. mas eu prefiro que me tratem por jeitoso. ou então guapo, lindaço, janota, pedaço. Uma vez gritaram na rua "pão", "casqueiro", "marrucate", "miconde", "oh bom", tudo seguido, por esta ordem. Na altura não dei ouvidos, continuei a assobiar alto, achei que não era comigo. Mas logo se tornou um tormento sair de casa, chegar ao trabalho uma tarefa impossível. As moças caíam-me literalmente aos pés, lançavam-se aos tornozelos, atiravam-se em desespero. Temia pisá-las, dar-lhes desgostos,  não suportava as choradeiras, as olheiras, depressões, resmas de culpa. Então deixei crescer primeiro um bigode, depois uma barba cerrada e durante uns tempos usei um gorro bem feio. Foi remédio santo. 

Alberto Montt

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

haste

lembro-me que naquela manhã, as hastes dos pinheiros derretiam ao sol.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

joule

ilmatecuhtli não dormiu. Esteve toda a noite a batalhar com pesadelos. De arco em punho, disparou um milhão das suas setas feitas do pó que sobra das estrelas. Está sentada na espuma da rebentação, alivia as dores das mãos cheias de bolhas na água fria. O seu elmo de escamas prateadas anda à deriva no mar. ilmatecuhtli não acordou pequenina, não passeou pela praia de mão dada, não escolheu beijinhos na areia. Continua sentada no frio, abandonada de forças. Mesmo assim aproximo-me com cuidado. Sinto a orelha queimar, depois o calor desce por toda a cara, goteja do queixo. ilamtecuhtli prometeu queimar-me se lhe faltasse na batalha. Quanto mais me aproximo, mais me queima. Quando estou a menos de um passo, ela ergue os olhos.






sábado, 18 de fevereiro de 2017

ngultrum

A mulher de olhos rasgados que me pegara na mão para a ler, tinha razão. Mas tudo o que nela estava escrito já era do meu conhecimento. Não é comum, mas algumas pessoas nascem mortas e perdidas, disse com um sorriso amistoso. O sinal mudou e atravessei sem correr por entre a chuva. Podia ser segunda-feira todos os dias, nem me importava, mas o efeito durava apenas um momento, e depois tudo voltava ao mesmo. Na terça as nuvens alinharam-se como um comboio rápido, na quarta as artérias ficaram vazias, e depois na quinta-feira beijou-me a testa na despedida. Pedaços de cal caiam-lhe do peito, enquanto a imagem dela oscilava no precipício do esquecimento. Por fim veio sexta e apesar de ter anotado a morada, a tinta entranhara-se e as campas eram todas idênticas. 





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

zaklęcie

Nem um único post sobre mamas... é essa a consideração. A vossa sorte é que ela lançou-me um encantamento. Numa sala pequena e cheia, ela num canto, eu no extremo oposto, de permeio uma mesa grande, e à volta uma multidão de vinte ou duzentos esfomeados. Ela do outro lado evocou um feitiço. Eu no meu canto não me desviei.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

defeito

Prontos! Podem começar a namorar os biquínis, tirar o pó aos sombreros, repor os stocks de protector solar. Ontem mandei retirar o último lote de nuvens que ainda pairavam sobre o território nacional. Afinal estavam com defeito e fugas tremendas nos depósitos. As andorinhas que venham, é seguro.



livrem-se agora de vir praqui falar em s. valentim e cenas tristes... 
sugiro que postem sobre biquínis, ou sobre topless, mamas ao léu, nudismo, coisas assim,. não sou esquisito. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

defunto

o ponto alto da semana foi o sonho que tive numa superfície de venda a retalho de origem alemã que agora não interessa mencionar porque os gajos são uns aldrabões e não me querem pagar a publicidade que lhes fiz. dito assim é assustador mas mais grave é desconfiar que estou morto e não dei conta disso. 



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

lidl

não contava lembrar-me dos sonhos destes dias de fevereiro. há qualquer coisa de estranho num mês que começa numa quarta e termina a uma terça, mas hoje aconteceu lembrar-me. talvez por ser quarta, ou porque foi um sonho longo, desfiado durante toda a noite. era longo e lindo, e lembro-me muito bem da parte do beijo, os seus lábios grudados nos meus como se fosse uma polva gigante, e os braços como tentáculos enrolados em torno do pescoço mantinham as nossas bocas unidas. o beijo parecia não ter fim. não lhe conseguia ver a cara, mas sabia que aquela mulher era mãe dos meus filhos. a menina tinha os olhos grandes que só podiam ser como os da mãe. era manhã cedo e ela cavaqueava com todas as pessoas que encontrava no autocarro. alguém lhe perguntava a idade, e eu não sabia responder. se havia mais filhos eles não apareceram. tinha três empregos. no restaurante a cliente habitual que eu tratava pelo primeiro nome pedia-me um acompanhamento de legumes. depois eu servia-lhe um prato com pequenos cubos de carne que pareciam peças de lego negras. ela comia tudo. ao fim do dia, depois de fechar a loja, repunha prateleiras de supermercado. mas antes tinha de escorraçar as pessoas que se disfarçavam de capas de edredão e dormiam nessas prateleiras. penso que era o lidl pois vendiam roupa em prateleiras. foi no momento em que encontrei um indivíduo no meio das sweats verdes embaladas que ela apareceu e pregou-me o beijo. 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Сталкер

O porteiro que nos viu entrar juntos uma vez, diz que a probabilidade de ser divorciada é grande. Sem filhos, acrescenta, ou não ficaria a trabalhar até tarde. Sabe ainda pela senhora que tira os lixos e limpa o chão, que gosta de chocolates da máquina e chá. 

Сталкер ou Stalker,  filme de 1979,  Andrei Tarkovsky

domingo, 5 de fevereiro de 2017

olfacto

Abri três páginas de word, com esta quatro, mas não ponho muita confiança em nenhuma. Tenho três narrativas em avanço, em qualquer das frentes emperrei, ou por falta de pesquisa, ou por falta de cabos que liguem as ideias. Balestra é uma palavra nova. Digo-a em voz alta enquanto separo a roupa branca na máquina. Acumula-se loiça na pia, o cesto da roupa transbordou, há um rasto de migalhas em todas as divisões, e eu aqui a tentar o impossível. Ontem nem tirei o pijama, perdi o olfacto, passei horas a olhar para o tecto, imaginando seios macios, dedos a deslizar pelo pescoço, pés descalços e frios. Às vezes esqueço-me do c em olfacto, mas nunca no tecto. 



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dulcineia

Todos os dias tenho perdido o autocarro da manhã. Independentemente da hora a que saio de casa, o autocarro passa por mim a todo o gás e fico a vê-lo ir, sem hipóteses de correr para o tentar apanhar. Já nem sei porquê que fiquei surpreendido, foi assim durante toda a semana, hoje sucedeu o mesmo. A consequência desta perda é que tenho de esperar pelo próximo, e não sou muito de esperar. Depois também acontece que chego tarde e abro a loja depois da hora, mas também não há clientes à espera desejosos de entrar, e os que por vezes aparecem, é por engano. Fico então toda a manhã a olhar para o aquário de nuvens, vendo-as flutuarem umas contra as outras numa atmosfera de azoto, enquanto bebo cinco ou seis chávenas de chá. Quando alguma coalha e fica espalmada contra a superfície, vou lá com o coador do leite e pesco-a. Depois do almoço costumo descer à cave e ligo o gerador de baixas pressões. Gosto de manter o stock cheio para alguma eventualidade. Em seguida verifico a carga das trovoadas das últimas prateleiras, agito os tornados e tufões, meço os níveis plúvios, confirmo os boletins meteorológicos e noticiários, ou acerto as comissões com a indústria de guarda-chuvas. A tarde passa num correr. Mas hoje não fiz nada disto, deixei-me ficar todo o dia a olhar para as nuvens, a bebericar chávenas de chá que gradualmente iam perdendo o sabor. Sinto-me cansado. Mas toda a gente diz que é normal, foi do trabalho, que realmente a tempestade é de categoria. Há quem pense que carrego num botão e sai da máquina uma ventania já empacotada, pronta a enviar. Mas não é assim, e quando são ventos ciclónicos, é de suar as estopinhas. Mas fiz tudo com muito gosto, esperando que seja do seu agrado, que lhe levante o animo e lhe arranque todo o mal para longe. Porque já lhe sinto a falta do sorriso e ela ainda aqui está. Mas também porque não quero que outros façam o mesmo. Quero que se sintam avisados. Tentem-me, e mando cair o céu. 

Prairie Rain Storm, by Min Ma





Dulcineia foi o nome que criei originalmente para a tempestade em questão, mas alguns entendidos acharam que Doris ficava mais no ouvido... divindade aquática... coisas de marketing.