domingo, 19 de fevereiro de 2017

joule

ilmatecuhtli não dormiu. Esteve toda a noite a batalhar com pesadelos. De arco em punho, disparou um milhão das suas setas feitas do pó que sobra das estrelas. Está sentada na espuma da rebentação, alivia as dores das mãos cheias de bolhas na água fria. O seu elmo de escamas prateadas anda à deriva no mar. ilmatecuhtli não acordou pequenina, não passeou pela praia de mão dada, não escolheu beijinhos na areia. Continua sentada no frio, abandonada de forças. Mesmo assim aproximo-me com cuidado. Sinto a orelha queimar, depois o calor desce por toda a cara, goteja do queixo. ilamtecuhtli prometeu queimar-me se lhe faltasse na batalha. Quanto mais me aproximo, mais me queima. Quando estou a menos de um passo, ela ergue os olhos.






16 comentários:

  1. e dormiu? e conseguiu sonhar?

    bom domingo, M M-T

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  2. E aposto que desta vez não acordaste,
    esse sonho é baseado em palavras que foram realmente escritas...
    ...eu li-as! ;)
    Ah, Manel, com esse coração de sol e mel, como queres que te tratem por Mau-Tempo?...

    :)

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    1. nã foi sonho, tenho os bolsos cheios de conchas :)
      o coração pode ser de sol e mel, mas o pior é a alma de secura e morte...
      beijo, Janita Maria Antonieta :)

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  3. Espero que o elmo de escamas dê à costa por estes lados e que eu possa encontrá-lo nos despojos da maré

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    1. devolve-o a ilmatecuhtli, ou ela manda queimar-te :)

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  4. E fica com frio na barriga. Não era a primeira vez que ele a deixava só na noite povoada por monstros e demónios que a queriam levar, não era a primeira vez que ele a deixava naquele pedaço de praia onde a maré enchia por cima, e quando ela se distraía com os ouriços do mar, já as ondas a cobriam de espuma, porque ninguém consegue escapar a marés ao contrário.
    Agora, vendo que ele se aproxima, com a dor que desatina sem doer a verter-lhe do olhar, e o fogo que arde sem se ver no rosto, ilmatecuhtli esquece a promessa não cumprida e cobre-o com o pó das estrelas que traz no saco dos milagres para iluminar a noite das almas perdidas dos pescadores naufragados, e ele, também naufragado de si mesmo, descansa por fim no seu regaço.
    Ilmatecuhtli enfeita-se com o colar de búzios, a mão de Fátima, o olho de boi e o cordão de Gandhi e uma saia rodada, e só voltará a ser pequenina quando ele desnaufragar a alma.

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  5. Ah, amores de água e fogo, só viáveis na magia das palavras.

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  6. Manel, andas a fazer um diário dos teus sonhos?

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    1. nã foi sonho Isabel, tinha os bolsos cheios de conchas :)

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  7. Sempre balsâmicas as tuas palavras. Mistérios certamente te conduzem e tornam a tua escrita num labirinto perigosamente bom. Abraço Manel!

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    1. muito agradecido, as tuas palavras dão-me força pra continuar :)
      abraço

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  8. ela ergue os olhos... e tu ficas cego. (gostei mto)
    anonima

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