sábado, 26 de março de 2016

veneno

Acordou com o barulho da cama a bater no quarto ao lado. Eram quase duas da manhã. Tentou abafar o ruído cobrindo a cabeça com as enormes almofadas que não teriam outra utilidade que não fosse insonorizar, mas só voltou a adormecer por volta das duas e meia, muito depois do individuo do quarto ao lado ter anunciado com um grito de Tarzan que tinha ejaculado. Acordou novamente antes das seis, o pequeno-almoço só seria servido depois das sete. Tomou um duche, vestiu-se e às seis e vinte estava no hall de entrada do hotel. Tinha pensado fazer um pequeno passeio pelas imediações, mas a nebulosidade era tal que o hotel parecia um pequeno ilhéu plantado num mar de bruma. Uma mulher fumava do lado de fora, tinha o mesmo tipo de rebeldia capilar da mulher com quem planeara passar aquele fim-de-semana, mas não era ela. Agora tinha uma cama imensa só para si, vizinhos fornicadores, e uma mulher que lhe lembrava aquela que sem qualquer explicação, não aparecera. A mulher apagou o cigarro e apercebeu-se que estava a ser observada do interior. Quando entrou dirigiu-lhe um guten morgen, ele optou por lhe responder em inglês e de seguida, para desanuviar o ambiente, falaram do tempo. Caminharam juntos até à sala onde iria ser servido o pequeno-almoço, e como não tinham mais nada para dizer, ficaram algum tempo em silêncio, observando a permanência da névoa. Quando o empregado abriu as portas, ele cedeu-lhe gentilmente a passagem e ficou a saber que ela estava no quarto dois números depois do seu. Ela serviu-se de ovos mexidos, duas fatias de fiambre, duas torradas simples e um copo de sumo de laranja falso. Ele encheu uma chávena de café fraco e barrou um brioche médio com compota de morango. Sentaram-se nas mesas que estavam junto às janelas, mas em extremos opostos. Lentamente todas as outras mesas foram sendo ocupadas, sobretudo por casais, em nenhum dos casos, o elemento masculino se parecia com o Tarzan que imaginara. A mulher dos ovos mexidos, das duas fatias de fiambre e das torradas simples, já não estava sentada no extremo da sala. Virou-se na cadeira e viu-a novamente no lado de fora, fumando um segundo cigarro. Decidiu que ia voltar a falar com ela, reatar a conversa onde a tinham deixado, com sorte, dariam aos vizinhos a provar o mesmo veneno.   

Artwork by Helmut Newton (born Helmut Neustädter; 31 October 1920 – 23 January 2004) 


quinta-feira, 24 de março de 2016

manquejar

Caminhávamos separados. Ela sempre um pouco à frente, abrindo caminho por entre os turistas de mapas esvoaçantes, contornando com agilidade as esplanadas que invadiam a calçada. Imaginava-a numa selva, calções caqui, desbravando a vereda com a catana.  Uns dias antes tinha torcido o pé à saída dos correios, não caminhava com a mesma segurança e ia ficando para trás. Apanhei-a numa passagem para peões, ficamos lado a lado, ela com as mãos guardando os bolsos em silêncio. A cidade enchia-se de turistas por esta altura, e a confusão aborrecia-nos. Os nossos sítios passavam a ser os sítios de toda a gente, o que nos impelia a procurar outros mais vazios, menos populares, por vezes muito mal frequentados. Não éramos dali, mas também não éramos turistas, portanto não tínhamos para onde ir quando a cidade ficava cheia, só nos restava caminhar na interface. De um lado podíamos observar a volatilidade dos corpos, os seus movimentos aleatórios e as línguas estranhas, do outro, uma superfície mais densa, enformada nos apartamentos mal iluminados, preparando-se para dormir.
-Are we antisocial? Perguntei.
-I hope so. Disse ela.

Naquele dia fiquei com a impressão que só lhe faltava manquejar um pouco para sermos perfeitos.

Snow Flake by Daniel Teixeira

quarta-feira, 23 de março de 2016

talisca

Descosi um bolso para que a tristeza escoasse. Grão a grão foi desaparecendo, misturada com a brita poeirenta do caminho. Não havia na tua voz rastro. Nada se agitava no horizonte. Nem um galho, um agouro, ou vulto negro. Nada. Só a desordem imensurável à vista desarmada, na sequência de linhas e colunas do tabuleiro. Quando alcancei os teus olhos, estavam cheios de dúvidas à minha espera. Então voltei a coser o bolso. 

T-Magazine-New-York-Times-2015-Bruce Weber 

sábado, 19 de março de 2016

humanidade

Se no primeiro dia faltava-me a vida, no segundo foram-se as ganas, ao terceiro o apetite e no quarto, já não me sobravam sequer palavras.

Details of frozen blankets in Grande-Synthe, the camp for migrants in near Dunkirk, France, January 20, 2016, Jerome Sessini

quarta-feira, 16 de março de 2016

cativo

"—Yo vivo con un pie en el estribo."

las muertas, Jorge Ibargüengoitia

Centaur Kiss, cover of “La Vie Parisienne” from 1924 by George Leonnec

domingo, 13 de março de 2016

nictalope

Não sei onde deixei a minha vida. Terá ficado algures, esquecida por entre páginas nunca lidas. Já tentei lembrar-me onde a posso ter deixado, como quando vamos tomar café e inadvertidamente pousamos a chave do carro, e quando chegamos ao estacionamento, automaticamente o nosso cérebro nos recorda do balcão. Já não tenho chave do carro, nem o hábito de tomar café. Terei perdido a vida por não lhe dar uso, ou terá sido porque vivia outra vida, às vezes tende a acontecer, uma suplente. Mas hoje acordei com falta da vida, da original que veio de fábrica. O copo de água que deixei a meio não saiu do sítio, continua meio, garantia de que não terei acordado durante o sono, sequioso. Os bolsos estão cheios de tristeza e nas gavetas já sei que não a vou encontrar. Não a perdi nos últimos dias. Foi coisa de algum tempo. 

algures da net

sábado, 12 de março de 2016

vertebrochondral

Cheguei muito antes para não correr o risco de chegar tarde. Sei que vais odiar os meus atrasos e que terei de os compensar a partir de hoje. Tinha pensado ir a casa e tomava banho, mas depois achei que era apertado, e então banhei-me como os gatos no lavatório. Tenho uma costela inglesa, é curioso que ainda hoje falei dela. Mas uma costela não é suficiente para abranger pontualidade quando todas as outras não o são. Já fui ao médico, mas ele disse que não tinha cura. Fiz uma radiografia e depois ele ampliou, e lá se podia ler na segunda flutuante: made in england. Entrei e pedi meio litro de cerveja.

Wayne Chisnall, octopussy...

gaio

eu vi um gaio.
um estranho gaio.
com azulada pena
ali em Viena!

tu viste um gaio,
um estranho gaio!
tiveste sorte,
ou foste pra norte.

eu vi um gaio,
com um ensaio
estava a papar
o meu jantar!

tu viste um gaio,
com um ensaio.
e o que comia,
e o que fazia.

eu vi um gaio,
foi só de soslaio.
meu pão comeu,
nem ofereceu.

tu viste um gaio,
e ficaste com o paio.
e o bicharoco,
nem te deu troco.

eu vi um gaio,
um estranho gaio.
ficou desfocado,
mas azulado.

tu viste um gaio,
desfocado gaio.
queres que a ana o veja,
mas nã é ave pardaleja!

(cantar ao som da música da Maria Armanda, "eu vi um sapo" ou "ho visto un rospo")
gaio desfocado

gaio desfocado parte dois

gaio depois de comer o meu pão...

quarta-feira, 9 de março de 2016

lagareiro

hoje é dia do polvo...

Martin Kalanda, 2010

...ok, talvez tenha bebido demais ontem na festa de despedida do cavaco!

terça-feira, 8 de março de 2016

nu

… ou triste sina de um ladrão aposentado em jeito de episódio.

Não sei se te contei mas sempre que subo a um escadote, sinto uma pequena dor que parte da virilha e se espalha até ao ego. Quando o francês apontou para as armaduras, sabia que o meu dia estava amaldiçoado, só que desta vez não corria o risco de rasgar pelos fundilhos, pois as calças apesar de velhas, eram largas. A única preocupação é que me caíssem pelas pernas abaixo. E lá estava eu, pendurado num escadote que já tinha conhecido melhores dias, a furar o maldito tecto, coberto de pó, quando o encarregado apareceu, ele e dois polícias fardados, e atrás deles, a directora da escola muito corada. Perdeste um bonito espectáculo. É que estava completamente surdo com o ruído da broca, e não me apercebi que tinha público, e os boxers à mostra. Quando chegaste já tinha sido revistado pelo teu “cão de fila”, a minha mochila revirada, os cotões de estimação desalojados.  
Se calhar cheirava a suor, sei que olhaste para as minhas mãos, estava sujo, sentia o pó entranhado, acumulado no cabelo e nas pregas dos olhos. Tinha uma t-shirt com uma publicidade qualquer a cerveja, a gola esbambeada, ruça de gasta. Que bela impressão terei causado.
Quando já não tinhas mais papéis para me evitar, voltaste a tua atenção para  a mochila vazia com a roupa limpa, o porta-moedas e o caderno, tudo empilhado. Não tocaste na roupa, talvez com receio de apanhares alguma coisa. Abriste o porta-moedas e despejaste os poucos zlotys na secretária, o suficiente para meio litro de cerveja nacional e um bilhete de autocarro.  
8 zlotys – disseste, 8 zlotys e uma coisa estranha! Acrescentaste. E entre o teu polegar e o indicador direito vi que seguravas o meu amuleto da sorte. Um caroço de tâmara!
Já tinha explicado a história do caroço pelo menos umas dez vezes, em várias línguas, em nenhuma delas, julgo, fui considerado normal. Quem é que anda com um caroço de tâmara nos trocos? Há tanta coisa que precisas saber sobre mim. É que dizem que dá sorte, atrai dinheiro, mas não pode ser um caroço qualquer, para receber a distinção de amuleto, é necessário que possua um pequeno círculo. Mostrei-te o umbigo do caroço, as nossas cabeças aproximaram-se, os teus olhos eram mesmo da cor do céu e pela primeira vez sorriste. Deste até uma pequena gargalhada. Fiquei desnorteado. Sofri uma síncope. Sentado, perdi o equilíbrio, como se o mundo tivesse parado de modo abrupto.
Tenho a clara sensação que fomos feitos um para o outro. Enquanto falavas, pensava em mudar-me para tua casa, escrevia durante a manhã que é quando a minha veia está mais inflamada. Sim, para além de acordar com o meu frondoso membro inflamado, também me acontece isso com a veia que escreve, mas pode ser porque tudo é mais nítido, os sentidos mais apurados, sem as contaminações da rotina. Depois acordava-te com o pequeno-almoço na cama e uma amostra do que te esperaria mais tarde, quando voltasses do trabalho. Não quero que vás muito sorridente. Podia então passar o dia a escrever para ti, dormia uma sesta após o almoço e quando chegasses, dava-te banho e de comer. E se não der para viver daquilo que escrevo, o que não será surpresa nenhuma, posso fazer uns part-times em joalharias, farmácias, bombas de gasolina, supermercados, bancos até se ainda tiverem dinheiro, desde que tu me ilibas depois ao fim do dia. Pensa no quão felizes vamos ser, como o Poirot e a condessa Rossakoff nunca conseguiram, mas ao contrário,

A couple lying in a small boat together, looking up at the sky. Photograph by David E. Scherman. United Kingdom, 1942.



domingo, 6 de março de 2016

tâmara

…ou uma improvável história de amor cortada em postas.

A directora da escola esticava o mais que podia o seu minúsculo pescoço pela porta entreaberta. Em contraste, o encarregado da obra não tirava os olhos dos pés; primeiro os da directora da escola cuja voz estridente lembrava giz a arranhar ardósia, depois para os teus. É lamentável que não me lembre dos teus pés naquele dia. Seguravas a porta de costas para nós, mantendo-nos aos três seguros do resto do mundo naquele minúsculo gabinete: o polícia fardado que não sabia inglês, a quem denominarei  de: o teu "cão de fila"; Henri o electricista francês e tradutor pouco credível; e eu, o presumível culpado. Henri reconheceu-te, mesmo de costas, tinha um sorriso aparvalhado e gaguejava a letra de uma música:
"En oubliant ta cruelle froideur
Les mains pleines d'amour,..."
Fechaste a porta na cara da directora da escola abafando os seus agudos, e do encarregado da obra que terá ficado a olhar para o sítio onde antes estavam os teus pés, e cheia de determinação e o cabelo apanhado no topo da nuca, avançaste para nós. Henri levantou-se da cadeira como se um choque de 220 volts lhe tivesse percorrido o corpo e saudou-te com um mademoiselle, mas antes de conseguir dizer o teu nome, já lhe cortavas a garganta com um único golpe do teu olhar gélido.
Os teus olhos passariam rápidos por mim como pequenos bicos-de-lacre, e cairiam como uma maldição sobre o teu fiel "cão de fila" fardado que se aninhava o mais que podia na cadeira, e sem te encarar saiu da sala levando o tradutor não oficial e electricista de profissão com ele. Respiraste fundo, lembro-me, e ocupaste o lugar à minha frente, com uma pequena secretária de permeio, o teu perfume a dar-me tusa, o teu rosto oval perfeito a blindar-me o juízo. Por pouco não me entreguei. 
Estavas tão séria. Remexeste nos papéis que trazias, suponho que davas tempo para que o feitiço fizesse efeito, imaginava quantos não se teriam declarado culpados, só por estarem ali diante de ti, sem brilhos ou pinturas, um fato simples, cabelo apanhado, olhos imensos e tristes, avassaladores, como duas ondas gigantes prestes a engolirem-me. Mantive a boca fechada, o coração atravessado no esófago espirrava sangue pelas veias esticadas. Se falasse, diria que te amava, ou algo mais precipitado. Sentiste o cheiro, o sangue a encher-me a boca, o sabor adocicado e metálico, engoli e continuaste com a tortura, agora o teu nome, que ficou amarrado à minha língua, contorcida para o tentar no espaço contiguo e seco da boca, queria gritá-lo, repeti-lo até esgotar as forças. Mas calei-me, fiquei quieto, paralisado, seguindo os teus lábios desenharem palavras no ar, interrogações, declinações, pausas, uma pausa mais longa que as restantes e então bramiste, e o teu punho bateu com força sobre a secretária que saltou do sítio por ser ligeiramente manca, e despertei do estado semicomatoso e disse que te entendia, que estava apenas um pouco cansado. E repetiste o que já sabia, não me importava de te ouvir durante todas as horas que me restavam de vida, podias repetir infinitamente que duas malas tinham sido subtraídas de uma sala no edifício contíguo, foram por sua vez encontradas subtraídas de todo o dinheiro numa casa de banho do edifício onde estávamos. Havia quem afirmasse que me tinha visto na passagem que ligava os dois edifícios, a descrição era perfeita: pele com manchas, oito patas e um colete reflector. 
Era verdade, tinha estado no outro edifício, já dera ao teu “cão de fila” a mesma história, tinha ido à casa de banho e ao sair perdi-me e fui dar ao outro lado. Mas a expressão dos teus olhos não se aligeirava, estavas mais que acostumada à mentira, embora ela não fosse inteira. Mas como dizer-te que tinha estado a ver os pássaros, sem que o coração me saltasse da boca? 

ici

sexta-feira, 4 de março de 2016

adorable



porque nestes dias não tenho tempo nem para sonhar contigo...