quinta-feira, 24 de março de 2016

manquejar

Caminhávamos separados. Ela sempre um pouco à frente, abrindo caminho por entre os turistas de mapas esvoaçantes, contornando com agilidade as esplanadas que invadiam a calçada. Imaginava-a numa selva, calções caqui, desbravando a vereda com a catana.  Uns dias antes tinha torcido o pé à saída dos correios, não caminhava com a mesma segurança e ia ficando para trás. Apanhei-a numa passagem para peões, ficamos lado a lado, ela com as mãos guardando os bolsos em silêncio. A cidade enchia-se de turistas por esta altura, e a confusão aborrecia-nos. Os nossos sítios passavam a ser os sítios de toda a gente, o que nos impelia a procurar outros mais vazios, menos populares, por vezes muito mal frequentados. Não éramos dali, mas também não éramos turistas, portanto não tínhamos para onde ir quando a cidade ficava cheia, só nos restava caminhar na interface. De um lado podíamos observar a volatilidade dos corpos, os seus movimentos aleatórios e as línguas estranhas, do outro, uma superfície mais densa, enformada nos apartamentos mal iluminados, preparando-se para dormir.
-Are we antisocial? Perguntei.
-I hope so. Disse ela.

Naquele dia fiquei com a impressão que só lhe faltava manquejar um pouco para sermos perfeitos.

Snow Flake by Daniel Teixeira

24 comentários:

  1. Coloquei os "aviator" e senti-me no cais da estiva na Ribeira do Porto. Agora vou para o Cais de Gaia. Adeus.

    Um Abraço.

    ResponderEliminar
  2. Mulher que dá uma resposta dessas já manqueja de forma mui correcta.
    É segurá-la :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tenho de adoptar as etiquetas... Kiri já não mora aqui.

      Eliminar
  3. Na, na!
    Essa não te serve. Segue à tua frente, não deveria ser a teu lado?
    Coxeias mas nem por isso abranda o passo, um dia destes pede-te para latir.
    Pronts já disse, na a quero para afilhada

    :))

    ResponderEliminar
  4. como me agrada o anti-social. de hábito passa a doença e creio que não tem cura.

    à moça, é passar-lhe à frente, dar-lhe um leve encontrão e dizer: desculpe, nem a vi.

    ResponderEliminar
  5. Acho que dizer apenas bonito não chega :)

    Certamente são perfeitos :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. são águas passadas... se calhar tenho mesmo de usar etiquetas.

      Eliminar
  6. Manelito, estás à espera de quê, que a moça va antisocializar para outra estação meteorológica?
    Gostei muito, moço bonito :)
    Beijoca

    ResponderEliminar
  7. É lindo, o texto, mas tu não tens nada de anti-social. Ela não sei. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tenho pois, basta gostar de pessoas anti-sociais :)

      Eliminar
  8. Muito bonito Manel, mas um caso a pensar. Ainda que sejam dois anti-sociais não deviam manquejar mais juntinhos? :))

    ResponderEliminar
  9. Manel, costumo dizer que gosto do mais-que-perfeito por causa das imperfeições.
    E repito-o agora a propósito da tua história, deliciosamente bem contada.
    Lindo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado. Só tenho pena que nem as imperfeições ficarem...

      Eliminar
  10. Eu manquejo um bocadinho mas, quando vou aos correios não costumo cair...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. também nã costumo, só quando nã tenho mais nada pra fazer.

      Eliminar
  11. Não precisam ter as mesmas maleitas para serem perfeitos juntos. Precisam sim de sentir que as maleitas do outro é que fazem a sua perfeição nessa vossa união.

    ;)

    (Mam'Zelle, versão anónima)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tu nã leves muito à letra o que escrevo :) só queria que ela manquejasse um pouco para nã me deixar para trás :)

      Eliminar