segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

segunda

Não me lembro precisamente de onde vim, estava a setecentas e noventa e nove léguas para leste, num banho quente de travertino, quando ela cruzou o átrio e foi bater à porta errada. Ergui-me das águas pouco profundas com cuidado, atoalhado pela cintura, arriscando o resvalo nos depósitos de carbonato de cálcio.
“Posso ajudar? “

Trazia um uniforme escuro com um logotipo qualquer em letras fortes e um envelope grande debaixo do braço, mas isto foi o que consegui ver enquanto permaneceu de costas, quando se voltou, a terra literalmente susteve-se no espaço e a paragem foi tão brusca que me atirou contra a muralha esbranquiçada que descia pela colina.

“Sente-se bem?” Perguntou, oferecendo uma mão para me levantar, não cedendo o embrulho ainda irrelevante, nem o sorriso subjugado aos lábios. Aturdido, segurei o pudor como pude e ajeitei na ilharga o velame, vexado até às costelas, balindo palavras sem nexo.

“Só costuma chegar por volta das dez, mas se quiser posso receber em seu nome… “

A órbita continuava estática na curva que contornava o seu lábio, aquele pequeno movimento de músculos sincronizados, sob uma pele que afundava e se fundia no tom rosado e carnudo, resultando no mais belo sorriso do mundo.

“ou então pode voltar mais tarde… vou estar por aqui… ou amanhã… nem saio daqui se me disser que regressa…”

Em catadupa, abalado por fora e por dentro, não continha a procissão de vocábulos que se abeiravam do precipício, e quando tentava bater em retirada, mais o solo se perdia na voragem colorida, infinita da sua íris.

"também já falta pouco para as dez..." continuava, insano "podemos ir tomar um café..."

Consequência inédita da desesperada súplica, assomavam todos os tons de vermelho ao seu rosto delicado, acentuando a simetria temporal ornada por finos filamentos, claros e arruados, e no centro da fronte divina, um piramidalis nasi mais que perfeito.
Só faltou lançar-me aos seus pés.
Então por fim desviou inusitadamente o olhar, achando o equilíbrio numa guia de transporte dobrada, mas sem nunca privar-me do seu sorriso.

“Basta que assine aqui o seu nome”


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

oblação

Cheira o meu novo perfume…

Pediu com veemência ao lobo mau, rodando a cabeça despida do capucho vermelho que a cobria, oferecendo a cova pálida e suculenta do pescoço. Aproximou a disforme venta da leitosa pele e aspirou intensamente a morna doçura que emanava, rude e efémera juventude, oblação salpicada com a cara fragrância artificial.

Cheiro bem?
Ébrio de prazer deixou escapar um sorriso na sua enorme e escancarada bocarra, com uma miríade de dentes à vista. Concupiscência tola, lume ateado pela escarlate capa que descia na pele nua, e rodopiava na ponta dos dedos. Debilitado pela volúpia das mãos que o corriam, deixava-se vencer, entregava-se sem luta inteiro ao lábios entreabertos, provocantes e húmidos, brilhantes, onde se achava uma língua devoradora que perguntava ao lobo depois de o comer…

porque tens uma boca tão grande?



*oblação
(latim oblatio, -onis)
s. f.
1. Sacrifício a Deus.
2. Oferenda.
3. Oblata.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

assaltante


*um 'A' que salta compulsivamente

Admirei a porta antiga antes de a puxar com cuidado. Já não se vê muitas assim, caixilhos de madeira envidraçados, distorcidos pela diluição imperfeita a quente. O longo puxador em latão rodou, solta a madeira suja, e baixei a cabeça para entrar numa dimensão condensada, um universo paralelo, aquecido pelas lãs empilhadas por gradações, mais escuras no topo. Trapos enrolados enchiam as prateleiras médias, linhas coloridas em novelos para todos os tamanhos, bobinas de fitas e caixinhas com botões sem casas, alinhados da esquerda para a direita. Desde o tecto até ao chão velho, grandes estantes cobriam as paredes, dois balcões emparelhados, corridos em paralelo, delimitavam a arena central onde não coabitariam muitos clientes.
A minha entrada surpreendeu uma senhora que acabara de chegar aos cinquenta, e o dono da loja, atrás do balcão esquerdo, que não teria setenta, mas que lá perto andava. A senhora com um penacho emproado muito loiro, sacou com frieza e desconfiança exagerada a bolsa grande posta no balcão oposto.
Boa tarde, disse, tentando um sorriso de venho em paz, não ando no gamanço, mas não foi suficiente para os tranquilizar, a senhora apressou-se na escolha de dois metros daquele e três do outro.
Passei a mão pela barba e reparei na minha figura espelhada na porta, sobre o contraste negro da noite que já se tinha posto, e ainda não eram sete da tarde… até eu teria medo de mim. Amanhã vou cortar esta guedelha, pensei, já me cobre as orelhas, sabe bem de manhã cedo, mas fico com ar de ministro… e a barba, compro lâminas a caminho de casa, não passa de hoje.
A tesoura tremia no balcão à medida que abria o tecido e os olhares postos de lado deixavam-me incomodado. Para comprar linha e uma agulha podia ter ido ao chinês. Enfiei as mãos nos bolsos do capote marinho e trauteei o fado do ladrão enamorado,
Nunca fui grande ladrão
Nunca dei golpe perfeito…

terça-feira, 27 de novembro de 2012

महिलाओं *

*(aurat) mulher

quando por fim repousou a cabeça sob a almofada ortopédica, já o marido roncava de bruços, tal e qual uma morsa de farto bigode, esparralhado no colchão como se tivesse acabado de dar à costa. nem deu pela sua presença, nem quando aproximou os pés frios e cheios de joanetes, na esperança que ele rodasse para o lado oposto, e quem sabe até tombasse do leito.
estava quase a adormecer, embalada pelo assobio seguido do grunhido que sacudiam as molas com harmonia, imbuída nas vidas alheias, satisfeita com as nomeações lá da casa da dona teresa, quando uma música estranha ecoou por todo o apartamento. tacteou no escuro a cabeceira e atirou num golpe veloz o copo, onde guardava em água a dentadura. levantou-se aflita e confusa, pisando a alcatifa bordô encharcada, maldizendo em surdina o vizinho de cima… é o diabo aquele, a mim não me engana…

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

impressão

Dona Filomena sempre vestira e falara como uma professora de província. Ali debaixo de cristo pendurado na cruz, despedaçava um pedaço de giz na ardósia, e no negro nasciam palavras odiosas. Naquele dia anunciou “expressão escrita”, um murmúrio insatisfeito atravessou a classe, e mesmo depois de revelar o tema com um sorriso irónico, o gaiato continuava a fintar o gesso branco, reduzido a palavras pelo deslizamento contra a superfície escura e brilhante do quadro. Engoliu em seco, e com as mãos unidas, não rogando aquele ou outro cristo por ai dependurado, pensou no doloroso encontro com a régua de madeira.

Se bem me lembro era uma régua maciça, nascida não sei de que árvore, sem marcações, cujo único propósito era o castigo. A mão estendida era segura pela ponta dos dedos, e na palma eram aplicados quantos golpes, em proporção directa com a quantidade de erros.

Ainda estava o gaiato de esferográfica a pairar incerta no ar, driblando sobre a linha vazia, e toda a turma já havia partido, enchendo pelo menos quatro ou cinco rectas, letras perfeitas, outras nem tanto, organizadas, provavelmente sem erros. O moço embirrava com as letras, desprovidas de cheiro, cor ou paladar, trocava-lhes a ordem e o som, abdicava da acentuação, não se entendia com a semântica, muito menos com a pontuação… o medo e a vergonha enchiam-lhe o rosto, no apoio da carteira, cruzava as pernas evitando que estas tremessem, e a mão assente junto ao caderno deixava um contorno ressoado, em tudo parecido a uma outra mão que tinha visto, pintada a vermelho no interior de uma caverna.

Os últimos grãos espremeram-se na âmbula superior e a professora deu por terminado o tempo, recolhendo um a um os cadernos. A classe estava frenética, partilhando com contenção e alguma unanimidade as ambições de serem astronautas e jogadores de futebol, ou bailarinas e professoras, cópias exactas daquela que lia, segurando os óculos no delíquio do nariz. O gaiato mantinha-se reservado, nem tentou explicar, cometera um erro gravíssimo, pior que qualquer erro ortográfico, sabia que seria a chacota de toda a turma, zombariam dele até ao fim da instrução primária… e tu, o que é que queres ser? Não respondeu, desligou os sentidos e viajou pelos sulcos do soalho muito velho.

Organizou simetricamente os pequenos cadernos pautados, e da gaveta superior retirou a régua. O silêncio instalou-se confortavelmente num dos lugares vazios para assistir ao rol de condenações e condecorações, que também as havia em forma de quadradinho de papel com um carimbo, quase sempre representaçõs da fauna e flora. Hesitante a professora levantou-se, e dirigiu-se para o quadro preto, deixando bem no centro a palavra “arqueólogo”. Ninguém sabia dizer o que era, ou o que fazia, nem mesmo o gaiato que escrevera “quando for grande quero ser um cientista que cava buracos e desenterra o passado. Vi num livro que o meu avô tem, cavernas com desenhos e ossos de animais grandes, que já não existem. Foram uns senhores que descobriram, estava tudo coberto de terra. Se calhar quando for grande já não há coisas dessas para descobrir, mas posso sempre desenterrar computadores e coisas que agora usamos.”

Nesse dia a professora não usou a régua, mas também não distribuiu prémios.
O gaiato para além de descobrir a vocação, descobriu que afinal gostava das palavras e as palavras gostavam dele, de tal forma que se tornariam próximos no futuro, como amantes.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

salsa

Desta vez parti para a cozinha com pouca convicção, compelido mais pelo desconforto que um vento de norte vestiu, do que pela ausência de forro no estômago. Precisava de uma sopa, daquelas capazes de aquecer o corpo e erguer o espírito, mas desde manhã que não conseguia enfrentar a pilha de loiça que se amontoava com data incerta, garantindo-me pelo cheiro que os pratos mais abaixo tinham vestígios de organismos recém-formados, pedaços escuros de vida mofada. Respirei fundo, mergulhando na espuma do fairy tudo o que era prato, copo, talheres, até ficar com um amontoado de loiça brilhante e cheirosa, equilibrando-se perigosamente na vertigem da pia vazia.

Procurei a receita no meio dos papéis promocionais, havia algures uma sopa de castanha num desses do minipreço. Devo ter passado por ele meia dúzia de vezes e não o vi, parece que é algo que está relacionado com uma característica que acompanha os homens desde o paleolítico, não encontrar o que está diante dos nossos olhos e esquecer sempre de lavar aquele tacho que fica em cima do fogão. Pergunto-me se haverá uma explicação desse tipo para aquela atitude comum em muitas mulheres, à porta do supermercado, prometendo o que já sabem ser impossível:
“já volto, vou só buscar um raminho de salsa!”
duas horas depois lá aparecem, empurrando três carros cheios de compras, e quase sempre chegam a casa sem a salsa. Não me interpretem mal, não me incomoda ficar à espera, nem de carregar depois as compras cinco andares sem elevador, nem mesmo ter de voltar ao supermercado para comprar a bendita da salsa... há 160 mil anos, mais coisa menos coisa, teria de dar caça a um mamute, usando nada mais que pedras lascadas e um cérebro acima da média, imaginem o que seria depois carregar o bicho… e sem carrinho de compras, que a roda ainda não tinha sido inventada… Salsa, vou precisar de salsa, castanhas, e cogumelos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

gelha

Uma acalmia contagiante espalhou-se pelo parque ainda a tarde estava no início. O vento aligeirou para brisa, apaziguando as folhas caídas junto aos degraus gastos esverdeados de musgo, os pássaros resistiram à sua natureza irrequieta e em silêncio procuraram um ramo próximo, quase estáticos agora que o vento acalmara na alameda de plátanos, sempre deserta aquela hora do dia.
Sentei-me no banco mais a norte, usufruindo de meia sombra e da quietude que se instalara, longe de imaginar-me no epicentro, espiado por pardais, pombos, melros e até uma coruja com insónias. Se tivesse erguido o olhar para o céu, estranharia as poucas nuvens à solta, suspensas sem movimento, coladas em rama a um fundo tão azul e vazio. Até mesmo as toupeiras, bichos alienados a maior parte do tempo das cousas que se passam acima da terra, pararam e voltaram as pequenas cabeças cegas no instante em que ela se aproximou do banco mais a norte sem que eu desse por isso, cortando a sua voz o silêncio como chuva aliviada em solo seco.

Essa ruga é excessivamente sensual.
Como disse?
Essa ruga é excessivamente sensual. Repetiu.
Conhecemo-nos de algum lado?
Não, acho que não. Mas eu não me importava. Disse, com o mesmo ar decidido com que caminhara até aquela zona do parque.
Não passas de uma fantasia, devo estar a sonhar acordado… confesso que te imaginei diferente mas…
Isso querias tu, refilou, mas sou real e estou aqui diante de ti, presa a essa ruga que me azucrina.
“Azucrina” não é palavra que eu usasse… talvez importunar ou maçar… não sei o que te diga.
Pára! Gritou mas sem ser irritante, não faça isso, só a tornas ainda mais irresistível…
Alguém te pagou para fazeres pouco de mim… é isso não é?
Não foi pouco, mas se pagares o dobro eu digo-te quem foi…
Agora estou mesmo convencido que te criei e tudo isto só existe na minha cabeça…
Voltamos ao mesmo…
Repara, respondeste tal e qual eu teria respondido, logo fui eu que te imaginei, essa resposta inventei-a para ti… Quedou-se pensativa e apoiando um joelho no banco, alisou suavemente com o indicador a ruga que crescia junto à minha saliência distante do globo ocular.
Inventas respostas?
Diálogos inteiros…
Então sabes o que vou dizer a seguir?
Não vais dizer nada, apenas…

Não tardou a amanhecer e quando a Terra rodou o suficiente para que se desse o milagre de um novo dia, já o cheiro dela tinha tomado conta do meu. Aliás, tomou conta da roupa da cama, de cada canto do quarto, até mesmo de cada divisão do apartamento, e como o cheiro não se detêm, transbordou pelos canos, frinchas das janelas, aberturas das fechaduras, apanhando os vizinhos ainda deitados, corpos quentes que espreguiçavam, tocavam-se e envolvidos no perfume, acariciavam-se, sem pudor, comiam-se!

lovers of Valdaro, dating back 6,000 years

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sorriso

Num gesto rápido sem vasculhar a bolsa, retirou o telemóvel e num clique ficou com o rosto iluminado. O conteúdo de uma possível mensagem fez-lhe estalar um grande sorriso, rasgado dos lábios até aos olhos, arrastando consigo as maçãs do rosto, aligeirando a cova funda que desfeava o queixo. Não era um sorriso enigmático, sem sombra para dúvidas, porque era tarde e já nem o sol projectava sombra quanto mais a dúvida, tratava-se claramente de uma provocação, e a receptora tornava-se emissora e teclando com grande rapidez e sem morder o lábio como eu imaginara, respondia no mesmo tom. Voltou à bolsa, apenas a maquineta, porque o sorriso fez questão de o manter pelo menos durante alguns minutos, mais que os suficientes para me irritar, nem sei se pela curiosidade que suscitava ou se pela inveja que sentia.
Desviei o olhar para o ressoar da janela sem reparar que alguém me observava uns lugares mais à frente, sentada contra o destino, mãos na tranquilidade de uma bolsa, não sendo o seu tamanho maior que o necessário para que nela repousassem as mãos, limpas, sem marcas de liame. Estranho reparar nas mãos, mas pareciam ali pousadas à espera que o meu olhar colidisse. Levantou-se na diminuição da velocidade, e voltei às gotículas que agora escorriam sem achar nelas qualquer interesse. Antes que a paragem surgisse, voltei a procura-la junto à saída, cabeça voltada na minha direcção e na boca um sorriso, metade sério, metade devasso, muito diferente do sorriso da rapariga com a cova no queixo.
O comboio por fim parou e tudo pareceu acontecer em câmara lenta, voltou a cabeça para o chão, o cabelo acompanhou o movimento e desapareceu do meu campo de visão. Num acto irreflectido as minhas pernas não esperaram ordens e saltaram em direcção à porta, entalando-me na junção que se abriu, libertando-me duas paragens antes. Agora o comboio seguia viagem, no seu interior claro vários rostos se haviam voltado, atirando olhares reprovadores, um homem daquela idade, havia de ter juízo! Talvez tenha adormecido… nada disso, ele vai é atrás da moça, aquela que lhe sorriu, a depravada!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

imprecação

Ainda ontem estavas tão feliz, disse, enrugando a testa para levar os olhos em direcção aos meus. Estava, parece que não posso ser feliz durante dois dias seguidos, é como uma praga, ou maldição antiga, num dia tudo parece que vai dar certo, no dia seguinte levanto-me com um espírito renovado, mal consigo ficar quieto à espera que o dia acorde, sigo o ponteiro dos minutos bem de perto, e depois algo sucede, pouco passa de ter tomado o pequeno-almoço, as más noticias correm ligeiras, daquelas que sem certezas nos deixam nus de tudo, despojados de coragem, sem vontade… uma volta no estômago, aperto em torno do pescoço, um arreio de tristeza volta ao canto dos lábios.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

estertor

o sol já havia galgado o planalto, invadindo pedante o ladrilho vidrado em todos os cantos, e a aragem matutina, carregada de uma quietude que causava estranheza, esvaziava-se por uma janela entreaberta, sem o fulgor descontrolado da passarada.
dormia sobre o meu braço, olhos cerrados à luz derramada, fina película, miríade de partículas adornando um rosto desconhecido, estendendo-se pela longitude nua da pele. sem rumor aparente, libertava imperceptível e invisível, um perfume quente que a envolvia, manta aconchegante, toldando-me os sentidos num remoinho dúbio. não atrevi toca-la, morreria sem ver a cor da íris na serenidade despida dos corpos, deitados sobre a funda esclerótica da banheira, desconforto acentuado pelo ar silencioso e tíbio que a janela não vedava.
que aconteceu aos pássaros?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

treliça

Fecho os olhos e por momentos consigo abstrair-me do rumor, as esplanadas estão meias vazias mas mesmo assim restolham, suplantam o voo arriscado das andorinhas. Respiro fundo, o Sado carregado do sul, vai alargar-se para norte, trás com ele memórias que se dissipam na brisa. As nuvens achatam-se na base, rasando o horizonte azul, brilhantes cúmulos prateados perturbados pelos guinchos obsessivos dos infantes, arrastam cadeiras pela alameda, a vaidade grosseira dos estrangeiros.
Não puxo da lapiseira para escrevinhar num guardanapo, apetece-me escrever mas não surge e apesar da paisagem inspiradora que me rodeia, sei que posso voltar a ela viajando pela memória, o presente é sempre pouco nítido, uma névoa de sentimentos paralelos tende a ofuscar a simplicidade fulgente das águas e dos aparos negros que vão desenhando o céu.

E pouco inspirado, penso nos tempos em que as palavras brotavam, opinava e replicava sobre isto ou sobre aquilo, num par de horas alinhavava uma ideia e entregava ao editor. Tão fácil e ingénuo, mas as moças gostavam, e as moças… elas sim, são boas fontes de inspiração.
Mas os tempos mudaram, não falta quem opine, e com casamento, contas para pagar, empréstimos ao banco, um chefe… sim senhor director, a submissão fez as malas à rebeldia, a revolução morreu no caderno, folhas amarelecidas de indignação, esquecidas pelos cantos. Escrever sobre a garantia do governo em que haverá redução de custos nas facturas da luz e do gás, ou sobre um polícia que matou um gatuno na estação, ou ainda sobre o desempenho dos atletas portugueses nas olimpíadas...ou sobre a velha e já mais que instalada corrupção, deixou de fazer sentido. Já não opino. Escrevo apenas o que me apetece, não quando me apetece, que hoje tinha tempo e o cenário perfeito, mas as letras não se conjugam, apenas escorrem suadas, querendo permanecer amarradas, enroladas nas pernas dela, envolvidas no lençol.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

cega-rega

Na miragem tórrida, silenciosa do início da tarde, julguei ver um quadro ali imenso, pinceladas reais de um corpo claro num fundo negro. Uma mulher de cabelo apanhado, fumava junto à janela de tronco quase despido. Se estivesse completamente nua não teria causado o mesmo efeito de revelação, os seios armados espartilhados num sutiã, e a oscilação de uma cortina translucida, davam a ilusão de não ser real, talvez uma ninfa, ou estátua divina. A vontade crescia em mim, vontade de a ver mais de perto, de lhe sentir o cheiro no covil, tocar-lhe levemente a pele arrepiada e pálida, passar-lhe os dedos pelos lábios entreabertos, quentes e húmidos, enrolar-me perdido no seu cabelo avelã.

Partilhava o cigarro com mais alguém no quarto, não me importava de o partilhar com ela. Subitamente naquele inferno escaldante, o desejo carnal aliava-se a um outro desejo reprimido, morto há tanto tempo, praticamente extinto, e como ligas de metais incandescentes, uniam-se, criando uma nova sensação, agitação, tumulto excessivo, desconhecido, do mesmo modo que as ligas possuíam propriedades diferentes dos elementos que lhe tinham dado origem, sentia a diminuição do ponto de fusão, o aumento da dureza, da resistência mecânica.

Encontrou-me na sombra, a contempla-la sem pudor, um acaso do destino ter-me ali naquele momento, numa rua aparentemente deserta, cortado o ar pelo alívio das cigarras, o som ensurdecedor do calor. Sorriu, expelindo o fumo pelo rebordo rubro. Voltou o rosto para a sombra e de lá surgiu um outro corpo, mais escuro, linhas mais grosseiras, também um cabelo capturado no cimo, mas preto, encaracolado, reluzente em trajes idênticos. Sobe. Disse, pousando um olhar lânguido sobre o penitente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

mira

O tempo era invenção que ali não conhecia espremedura. No pico do sol o silêncio amarrava as sombras soltas como um pequeno rebanho por baixo do chaparro, nas ruas nem vivalma para dar a saudação. Tempo simplesmente não era dinheiro, e era sempre bem-vindo quer fosse bom ou mau tempo, porque era somente tempo, sem matança, correndo sem presa naquele fim do mundo, terra onde um dia o diabo perdera as botas, ao que tudo indica perto de um silvado.

Está Maria como naquele dia, calcando o portado em busca do filho que sumiu do silvado, mas não é a soleira que pisa, e sim uma larga avenida, cabia aqui o Guadiana pensa, ladeada de vidro e betão armado, quando uma multidão avança. Rostos enevoados pela claridade que desce do corredor cruzam-se, mas sem os sentir, passam por ela como espíritos vagos. Anuvia o sol com a palma da mão e avista o filho, homem feito, parado com rosto de máscara. Está a olhar para ela e ela sabe que é ele, apesar de não lhe ver a cor dos olhos, o perfil do queixo tal e qual o pai, o sorriso largo, feliz por a ver. Segura uma garrafa que pende do gargalo um trapo, não chegará a atear o rastilho, dois polícias e depois mais um, vão subjuga-lo ao chão e atá-lo pelas costas. Maria não consegue falar, quer gritar pelo nome mas da boca não lhe vemos um som, quer correr por entre a revolta mas não tem pernas para ultrapassar o portado. Um fio desce pela testa, acorda antes de lhe arrancarem a máscara, sem conseguir ver uma lágrima solta no rosto do filho. Lá fora já precipitou a noite sobre o vale, a luz que desenha sombras pelo quarto rastejou do corredor, na cama em frente uma voz sumida pergunta se está bem, anui com a cabeça, descanse diz-lhe a mesma voz, o seu menino está bem.

Reza a história que ferrava impiedoso o acúleo do sol, e andava o diabo pelos caminhos da terra quando encontrou uma grande figueira, com mais de vinte metros, que rebentava nos ramos altos de frutos pingados de néctar. Faltava o escadote ao diabo onde brincava um gaiato ali junto ao silvado, e sendo o diabo velho chamou o garoto e pediu-lhe escadaria em troca de figos maduros. Reconhecendo o diabo pelas botas, o gaiato aceitou o pacto, emprestando o estreito escadote ao velho que teve de descalçar as botarras por serem demasiado largas. Alcançava a rama alta, o diabo já lambendo o beiço, quando sente a escada perdida dependurando o diabo na figueira, barafustava, estrebuchava enganado por um gaiato de palmo e meio.
Correra estrada fora, esbaforido ouvindo os guinchos do demo, até se perder para lá do limite da vila. Na cabeça um turbilhão de histórias, botas mágicas faziam dançar ditadores, outras davam poderes a gatos astutos. Sem dificuldade saltou para dentro das do diabo, e se pareciam grandes e largas, num ápice ficaram certas, não mudando o tamanho da sola, apenas o tamanho do gaiato. E era um homem, alto como um pinheiro, de braços e pernas largas como um rochedo. Quis então o gaiato ir conhecer o mundo, pois não conhecia mais que o silvado e meia dúzia de sítios no centro. Caminhou ligeiro por um caminho, mas a dúvida assaltou-lhe a mente e sem saber por onde ia, decidiu passar pela vila e perguntar o melhor caminho. Já reinava a confusão nas gentes, perguntou a um moço a razão de tal alvoroço e este contou-lhe então entre dois goles de ar, como o filho do António andava perdido, e a mãe no hospital, não sabiam se o outro já tinha nascido. Os olhos do gaiato que ali estava homem, encheram-se de água, afogando as botas e o diabo, já só pensava na mãe.

Era cega e muito velha, sentada à fresca na pantalha de uma azinheira. Lia o futuro nos covos da mão, olhos nas pontas dos dedos. Chamava-se Mira, mas era conhecida pela velha. Mira estava como sempre, sentada contando o tempo, quando ouviu o choro de um homem. Era um homem alto que chorava como uma cria, e pelo andar, trazia calçado as botas do demo. Porque choras tu gaiato, perguntou a velha cega, para espanto do homem que não era homem mas sim criança. E então contou-lhe a história, como tinha enganado o diabo, e agora era perseguido pelos montes, toda a vila no seu encalce. Quando perguntou o que se passava ao moço, este estranhou as lágrimas do desconhecido e fez correr a sete ventos que tinha encontrado o raptor. Era agora acusado de ter levado o filho do António, mas ele era o filho e só queria voltar para a mãe, escondera-se no acampamento dos ciganos, sem saber que uma velha estava por ali a meditar.
A velha ria a bom rir, desdentada de quase todos os dentes mandava o gaiato descalçar as botas e dentro delas cabiam os seus pés, e ao contrário do que acontecera antes, a velha que era muito velha e cega, via o gaiato à sua frente e voltava a ser criança. De mãos dadas, regressaram à vila, Mira de olhos negros, pequenos berlindes luminosos, contava a toda a gente como tinha encontrado o gaiato e se distraíram a brincar junto à ribeira.
Desde esse dia, Mira nunca mais tirou as botas, nem no dia do seu casamento, e o gaiato... esse foi crescendo até à altura de um pinheiro e passou a ser chamado de cigano.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

cigano

Num tempo em que a memória se esqueceu de botar data, instalaram-se na pequena vila, nómadas vindos de muito longe. Traziam empilhados os pais, filhos, a casa e novidades, mais os cães e restantes animais. Foi precisamente a novidade que proporcionou a indulgência, a terra era basta mas agreste, havia muito por onde acampar e pouco sobre o que falar, mas assim que se esgotaram os novos frutos do ano, cresceu o ódio, brotou nos homens a intolerância, e se uma galinha desaparecia, a culpa era dos ciganos. Provavelmente até era, mas não havia como o provar, ao contrário dos cães esganados, os gatunos não deixavam sinais.

Não foi há mais de trinta anos que Maria carregada de esperanças, chamou três vezes pelo filho. O gaiato andava sempre à vara larga pelo silvado atrás da casa, estranhando o silêncio saiu da sombra fresca calcando o portado, acautelou o olhar claro com a palma da mão, segurando com a outra o ventre pesado mas quieto. Era uma criança traquina pela idade, herdara do bisavô um forte temperamento que nunca se diluía no sangue, acompanhando o feitio de acordo com o nome geração após geração. Contudo, também demonstrava uma personalidade sensível e curiosa, dádiva de um amor incondicional que nunca o afastaria muito da mãe, com gestos afáveis e perguntas pouco comuns, entretendo-se horas a fio sozinho no silvado. Naquele dia não foi assim, socorrendo-se dos vizinhos, a vila foi passada a pente fino, mas sem sinal do gaiato.

António voltava ao turno da tarde na fábrica, quando o encarregado o chamou. O desespero arregalava-lhe os olhos, um risco triste na boca nascia, enrugava a testa marcando o rosto com linhas rudes, já por si não muito perfeito. Apoquentado, pegava na mão fria de Maria, enquanto a ambulância gingava estrada fora, ao fim do dia seria pai novamente, muito antes do tempo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

raiz

Voltei a sonhar com ela, tornou-se um tormento, tantos anos de separação, mais do que aqueles que contamos juntos… e não há noite em que não regresse, tão real que nem suspeito que me encontro num sonho, pura ilusão, criação maligna da minha cabeça em busca da autodestruição.
Lembro-me da mesa, parece um anúncio, toalhas brancas esvoaçantes, pessoas perfeitas num ambiente idealizado, luminoso, diria que radioso, mal consigo ver para além do primeiro plano, mas há erva ou então é tinta verde em contraplacado. Um manjar está preparado no jardim, o meu pai junto ao churrasco que não existe, a minha mãe preocupada com os convidados que já chegaram, com jeitos de etiqueta que nunca lhe conheci.
Vai buscar a tua mulher, diz-me, os pais dela já cá estão.
E eu vou, nem cheguei a pousar a mochila, saio e em seguida estou numa casa que sei minha, mas que não reconheço. Questiono-me sobre o que se passa, o que me terá acontecido para não me lembrar do dia de ontem, terá sido álcool? Nem desconfio dos lapsos de tempo, do caminho que não precisei de percorrer para chegar até aqui, a máquina cose a consciência com um alinhavo.
Lá está ela, em frente ao espelho, vestida com os mesmos tons que a rodeiam, cabeça ligeiramente inclinada apertando uns brincos nas orelhas, não lhe vejo o rosto, não completamente, apenas uma parte, uma ínfima partícula, mas sei que é ela e que me diz sem eu dizer nada, porque não me ocorre dizer nada diante dela.
já estou quase pronta, leva a menina, hoje não sei que tem que não pára de chorar!
Há um berço, um bebé de braços estendidos, e eu pego nela, reconhece-me com um sorriso e eu pergunto-me como é que sei que é minha, aparentemente em voz alta, apesar de estar convencido que não proferi um único som, ao que ela me responde, ainda em frente ao espelho.
claro que é tua, é igualzinha a ti.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

carreiro

Antes de os ir buscar fiz umas compras na mercearia próxima do apeadeiro. A habitual boa disposição da proprietária não estava, parece que tinha empacotado os parcos haveres e rumado para Este. Daqueles lados sempre me avisaram que nem bons ventos nem bons casamentos, na altura não acreditei ou então queria ver pelos meus próprios olhos e fui jurar fidelidade a uma castelhana, até que a morte nos apartasse. A morte só apareceu mais tarde, numa noite sem céu, já nem havia vestígios de uma vida em comum. Entrou na cama, fria como a própria morte, entrelaçando os pés nos meus, abraçando-me pelo peito, sentia a sua respiração cadenciada junto do meu pescoço, e depois adormeci.
Mas adiante, voltemos à boa disposição que não estava, deixara no rosto agreste da proprietária a sua congénere, a tristeza. Um quadro típico deste país, rostos cinzentos em lamoja, atolados pela crise, arrastados pela azia que provocam palavras como austeridade. A mesma lengalenga de sempre, acusa-se indiscriminadamente sem se achar o culpado, uns dias é o governo, o mau tempo ou o bom, as autarquias, os novos e depois os velhos, as promoções, os cartões, os centros comerciais e os supermercados, refrescados artificialmente, onde as maçãs reluzem sob uma camada de cera e holofotes de luz branca.
Não lhe disse, mas em breve também eu deixo de cá vir, será menos um. Podia despedir-me, dar uma explicação para o meu súbito desaparecimento, mas prefiro assim, faço as malas, levo apenas o que posso carregar e não volto. Imagino que daqui a uns tempos comentem pelo café ou até aqui mesmo na mercearia. O que é feito daquele moço bem parecido, alto… (que foi? também tenho direito a divagar!) Qual? Aquele, o da bicicleta com um falar engraçado… Ah! O Cigano?! Esse mesmo… Num sei, deve ter voltado prá terra dele.
A terra, terrinha, pequena demais para as minhas maltesias… a semana em família passa num voar, mas não fico por lá muito tempo, levanto às costas as minhas tralhas novamente e procuro guarida em casa de amigos, assim como este que está prestes a chegar, no comboio das quinze. Lá para meados de Agosto, habituado ao calor e ao zumbido da mosca, arranjo trabalho na apanha da fruta. Dou descanso à cabeça, metido no meio dos ramos, dedos em ferida até ganharem calo, deixo a escrita, adormeço cedo.

domingo, 16 de setembro de 2012

gov*

A mensagem é breve, não ocupa mais que umas três linhas no pergaminho, o primogénito violentamente assassinado, empalado na lança de Taniec, assim como toda a comitiva, nem um só sobrevivente entre homens e mulheres. O imperador emudece, descorado quase perde a postura. Uma legião de guardas imperiais cruza as enormes portas, apontam armas ao Tártaro. Este nem se mexe, tranquilo, feito de humidade fina, fria e penetrante que na estação abafada e com céu puro, cai de noite.

Como pudeste fazer-me isto? Lamenta o Khan, confiei em ti…
Quando os deixei, todos respiravam o leve perfume dos pessegueiros floridos. É uma cilada, sempre lhe fui fiel. Disse o soldado, apelando à sensatez do soberano.
Matem-no! Ordenou.

Mas ninguém obedeceu, as lanças tremeram sem ferir o Tártaro, os rostos dos guardas destilavam o medo, escorrendo pelas goelas, espremido em cada poro. A coragem abandonava os corpos, empestando com maus cheiros o palácio. Matem-no! Tornou a berrar, ninguém obedeceu.
Dai-me uma espada, eu mesmo o mato! E quase que matava, não fosse o clamor sombrio de Nur Jehan, profetizando a negro quem derramassem o sangue daquele pobre diabo. Respirando de alívio, os guardas levam Taniec agrilhoado, mal tratado, amarrado, desacreditado, sangrando sem ferida, preso num quadrado onde só cabe sentado. Em poucos dias torna-se uma sombra, ainda mais assustador, ninguém nas redondezas ousa feri-lo de morte, só resta a Kublai solta-lo no meio do deserto, os deuses que decidam.

Assim pensou, assim fez. Hara Nor não teve melhor destino, não se suicidou porque os mortos não voltam a morrer. Ao quinto dia no deserto, Taniec sentiu planar sobre si o imenso espectro de um Gypaetus barbatus. Há quem não acredite, mas dizem os antigos que o grande abutre dourado pousou mesmo em frente do Tártaro, e este já esgotado de forças, lábios amofinados de areia, lhe sussurrou o seguinte:
Os negros globos que tanta morte viram, alimenta-te primeiro deles, para que lá do alto eu possa seguir sempre a minha amada. Depois, serve-te das minhas entranhas, tendões e carne, dar-te-ão força e resistência contra os ventos que se formam a sul. Por fim, quebra-me os ossos, esvazia-me da massa que os preenche, e o meu espirito viverá em ti e nas asas que te elevam aos céus, para que eu possa amaldiçoar estes e os que hão-de nascer.
E assim foi.

Cerca de um ano mais tarde, a caravana que transportava Hara Nor reaparece em Cambaluc, forçada a regressar por tribos hostis que habitavam a Ásia central. Os emissários foram então conduzidos por mar, incluindo a futura esposa, navegaram para sul ao longo da costa da China, contornando o Vietname, descendo até Samatra, dirigindo-se a Ceilão e India, rumando depois para norte em direcção a Ormuz, sempre sob o olhar atento de um pássaro estranho. Conta-se que a viagem levou dois anos, morrendo metade da tripulação que os acompanhava, mas apesar de todos os perigos que atravessaram, a noiva foi entregue, sã e salva, não a Arghyn Khan que já tinha falecido entretanto, afogado na própria saliva.

*(gobi) deserto em mongol

sábado, 15 de setembro de 2012

salkin*

Na véspera de Hara Nor completar dezassete anos, Taniec partia para sul, escoltando a comitiva do príncipe. Regressaria em menos de quinze dias, dando o tempo necessário para os preparativos da boda. Taniec e Hara Nor flutuavam como nuvens, em tudo idênticas às que ainda hoje cobrem as imensas estepes que vão-se apeando nas encostas montanhosas. Imagino o Tártaro levantando a cabeça em direcção à grande massa ameaçadora, vendo o mesmo que eu vejo agora, cerca de 800 anos depois.

A dois dias de distância do coração de Hara Nor, chegavam à corte emissários de Arghyn Khan, governante do Ilkhanato, com o pedido de uma nova esposa. Quem os recebeu foi a segunda imperatriz, o grande Khan recusava-se a sair da cama da concubina, deixando nas suas mãos a escolha de uma esposa para o sobrinho. Num ápice a notícia espalhou-se pela corte, Arghyn era um velho nojento que concentrava um poço de saliva nos cantos da boca enquanto falava. Era precisamente a parcela que faltava ao plano maquiavélico da imperatriz, de modo a por fim à felicidade dos dois enamorados, simplesmente acrescentaria uns quantos atributos a Hara Nor, e oferecia a criada já prometida.

Ao sétimo dia de distância, todo o império sabia do triste destino da tocadora de morin khuur. Taniec regressava ao palácio em metade do tempo, cavalgando dois dias e duas noites sem parar, esgotando rapidamente as montadas. Encontraram-se os dois amantes em segredo, Hara Nor pressentindo que fosse a última vez que via o noivo com vida, implorou-lhe que este partisse de imediato para norte, e reunisse os clãs vizinhos ao seu. Taniec confiante como um enorme calhau, segurou a mão trémula e fria da amada, beijando-a carinhosamente. Que par estranho este, um enorme fantasma coberto de pó, os olhos negros carregados de cansaço, e ela uma figura sumida, tão frágil que lembrava um cristal de gelo.
Foge por favor, foge que não vejo bom presságio nos sonhos que me atormentam as noites, tu meu amor, sem olhos, cavidades ensanguentadas, segurando na mão esquerda a lança, onde jaz empalado um colossal dragão imperial.

Mas Taniec era imutável como se espera de uma montanha, deixou a amada beijando-lhe a fronte e pediu audiência ao Grande Khan. Este recebeu-o ainda meio ensonando, apertando o robe com gestos ásperos.
Que ousadia a tua, oh Tártaro! Fazes-me abandonar os braços da minha amada a esta hora do dia, refilou o Imperador.
Ousadia a tua, oh Grande Khan, prometer a minha mulher a outro… esqueceste o nosso acordo?
Não sei do que falas soldado, objectou Kublai, mas não me agrada o tom de voz que usas. Quem julgas tu que és para te dirigires a mim nesses modos? rugiu o Imperador.
Tens razão, perdi a lucidez nestes dois dias de viagem sem descanso, mas Hara Nor prometida a Arghyn Khan? Diz-me que foi apenas um pesadelo…
Estás a sonhar Tártaro, a delirar… que ideia a tua. O riso do Grande Khan retumbou pela sala quase vazia, sobrepondo-se ao som da porta que temerosa se abria. Um criado acanhado entrou, mirando Taniec com receio.

* vento em mongol

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

eel*

A tradição ditava que os homens cuidavam de escolher as noivas para os seus filhos, irmãos, sobrinhos e netos. Aos vinte e oito, muito se conjecturava sobre Taniec não ter pelo menos duas ou três esposas, seleccionadas de outro clã ou tribo, geralmente em tenra idade. Mas Taniec sofrera de uma grave doença quando era jovem, febres altíssimas atiraram-no para as portas da morte. Por recomendação do Xamã não foram escolhidas noivas, em transe profundo apenas disse que a seu tempo o auspicioso cavaleiro tomaria o seu destino nas mãos como as rédeas do cavalo. O pai com receio de ofender Tangri, o Deus-céu, assim fez, e Taniec foi prorrogando a escolha até ao dia em que se cruzou com Hara Nor.

Por alturas de uma festa que se estendeu noite adentro, celebrando a chegada de mais uma concubina ao real harém, Taniec aproveitou a ocasião e pediu autorização ao grande Khan para desposar a criada. Este estranhou o pedido, oferecendo-lhe as mais belas concubinas que o tártaro desejasse.
Grande Khan, eu amo Hara Nor desde que os meus olhos pousaram sobre as suas mãos delicadas, seus negros cabelos, seu olhar rasgado e tímido, seus lábios fechados, botão de cerejeira que leva o Inverno.

O imperador era astuto como uma serpente, e viu ali a oportunidade de usar as qualidades de Taniec em troca de Hara Nor.
Não costumo intrometer-me nos assuntos da corte das minhas esposas, Hara Nor terá um preço caro!
O tártaro que não era tão ingénuo quanto aparentava, imediatamente percebeu as intenções do imperador.
Diz o que queres em troca, nada do que me possas pedir é demais comparado com o amor de Hara Nor. Retorquiu o soldado.
Aí é que te enganas, Tártaro! Também eu amo uma mulher, sua beleza é infinita. Troco uma pela outra, que te parece?
Como assim? Perguntou Taniec. Tens todas as mulheres que possas desejar…
Todas as que não são casadas! Completou o Imperador.
Queres então que torne viúva uma mulher. E em troca Hara Nor será minha esposa?
Isso e muito mais! Prometeu o soberano.

E assim foi, Taniec cumpriu com a parte dele. Nur Jehan, que significava "A luz do Palácio" tornou-se viúva e na mais amada das mulheres dentro do harém. Porém o ciúme é um líquido viscoso, mortal como a ricina, que escoa denso por entre os gentios sem ser visto. Rapidamente as noticias se espalharam, contos a que se acrescentavam pontos, e por toda a corte ouvia-se dizer que a imperatriz jurara vingança!

* montanha em mongol

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ool *

Hara Nor não era a mais bela das mulheres, conquistara um sólido estatuto na corte pela agilidade com que tocava o morin khuur, acompanhando a dança, o canto, a récita de contos ou outras cerimónias que alegravam os serões imperiais. Corpo franzino de menina, rosto minúsculo riscado por um olhar tímido, somente desviado das cordas quando encontrava os negros e abissais olhos de Taniec. Admirava-o nos seus trajes tradicionais tártaros, tecidos bordados a ouro e seda, debruados com ricas peles de marta e arminho, em contraste com as vestes do imperador, que gradualmente abandonara os costumes mongóis e usava o dragão imperial chinês. O grande Khan apreciava a rica cultura chinesa, mas também a usava como estratégia para ganhar a simpatia por parte do povo ocupado. Discutam constantemente a respeito dos trajes e costumes, mas Taniec não cedia, e o imperador não querendo ter como inimigo um tártaro tão poderoso, mantinha-o nas suas cortes, convidando-o com frequência para longas estadias nos seus palácios.
Durante séculos, tártaros e mongóis disputaram entre si o domínio das pastagens da Mongólia, por volta de 1200 surgira um poderoso chefe mongol que depois de submeter os tártaros, se tornara soberano com o nome de Genghis Khan, unindo os nómadas e dando início a uma série de conquistas. Kublai Khan era neto, não possuindo metade da bravura do seu antepassado.

Com apenas vinte e oito anos, primogénito do chefe de uma tribo abastada, Taniec tornara-se uns dos principais generais na frente de batalha. Graças aos seus feitos, o império estendia-se desde a Hungria ao litoral da China. Treinado praticamente desde que a mãe o parira em grande sofrimento, dizia-se que os cavaleiros nómadas aprendiam a montar mesmo antes de saberem caminhar, habituados logo à nascença a suportar todo o tipo de privações. Contavam-se histórias terríveis sobre estes soldados, exímios no uso do arco composto, obedecendo a um restrito código de disciplina, punível com a pena de morte. A sua reputação de crueldade e habilidade de movimentos enquanto montavam velozes como o vento, precedia-os de tal modo que alguns povos se entregavam sem dar luta.

A primeira vez que se viram foi em Shangdu, no magnífico palácio de Verão de pedra e mármore, erguido num parque com mais de quarenta quilómetros quadrados, irrigado por numerosos riachos que o atravessavam em todas as direcções, onde árvores trazidas dos quatro cantos do império, serviam de abrigo a veados e outros animais, que o grande Khan caçava com chitas e falcões. Hara Nor fazia parte da comitiva que contava com mais de dez mil pessoas que constituíam a corte da esposa de Kublai, a segunda de quatro legítimas, todas usando o título de imperatriz. Para além destas legitimas, mantinha cerca de uma centena de concubinas, adquirindo todos os anos mais vinte, escolhidas cuidadosamente pela sua beleza, passando por rigorosos critérios de selecção que podiam ir desde o odor corporal até à leveza do respirar nocturno.

A candura de Hara Nor não passou indiferente a Taniec, atrevo-me até dizer que foi amor à primeira vista, destinados os caminhos, bastava os rumos colidirem. E foi isso que aconteceu, a segunda esposa e toda a sua extensa comitiva viajaram até ao palácio de Verão, onde Taniec se encontrava a pedido do grande Khan. Pela primeira vez o rosto sério e vincado do tártaro, ganhava uma expressão de felicidade jamais sentida, devolvendo os sentimentos com um dialecto antigo que Hara Nor mal conhecia.

*(üül) nuvem em mongol

terça-feira, 11 de setembro de 2012

espinho

Deixaste-me mais de um quarto de hora plantado, anelado na esplanada virado para o mar. Do sóleo inserindo-se no calcâneo, brotaram radículas fibrosas emergindo de um único feixe, enoveladas lentamente nas perneiras metálicas da cadeira. Bebi meio litro de água enquanto procurava o teu rosto nos gentios que passeavam, desinibidos pelo sol, apartada a conspiração das nuvens que traziam a chuva. Foi tempo suficiente para desencantar palavras parvas, confusas e difíceis, e depois as atirar ao papel como pedras, almejando corromper a tranquilidade da prosa.

Um desassossego instalou-se no meu ombro, pousou ao de leve, melro escuro sem olhos, bico alaranjado. E se tu afinal não vinhas? Devia-te explicações, mas podias ter decidido não as receber. Já não nos víamos desde Fevereiro, fui ter contigo ao Porto, esperaste-me em Campanhã. Ainda te lembras? Tinhas cortado o cabelo, usavas uma franja que ficava suspensa nos óculos de massa pretos. Levaste-me pela cidade no teu agitado smart, mostraste o que não conhecia, paramos naquele tasco, bebemos “finos” em vez de imperiais, ainda não era meio-dia. Depois descemos pela rua, agarrada pelo meu braço, trocavas os pés e cantavas muito alto. Convidaste-me para voltar e ficar no fim-de-semana seguinte, já tinha Coimbra nos meus planos…

E então tocaste-me, muito ao de leve pelo bordo da orelha já queimada do sol. Trôpego, preso pelas raízes, demorei um pouco a deslaçar-me delas. Tu sorrias, gostas de me ver atrapalhado, mal perco o norte entras em delírio. Adoro o teu sorriso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

suão

Já me tinha esquecido como era longe… nos confins do mundo, prolongava-se por horas a viagem.
Já me tinha esquecido como era o caminho… perdia o fôlego na paisagem, ribeiras correndo vazias.
Já me tinha esquecido como era o silêncio… banhado a ouro, das praças vazias sem sombras no pico do meio-dia.
Já me tinha esquecido do cheiro… e enchia os pulmões… a uva redonda, do vinho tão manso, a planície a perder de vista.
Já me tinha esquecido da luz desta casa… da janela do meu quarto, destes troncos de sobreira despida.
Já me tinha esquecido como era pequeno o abraço de minha mãe… e como cabia nele o meu universo… os seus cabelos de prata, olhos marejados de saudade.
Já me tinha esquecido das mãos de meu pai… pesadas no castigo… aperto duro calejadas de fouçar, desprovidas de afectos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

pernicioso

Pernicioso (nocivo, perigoso)… ou acendalha terceiro lote

Alguém escreveu amo-te no asfalto, conta debruçada na janela, ninfa nua que expele fumo, esgotando libidinosa um cigarro. Por fim, espreme nos dedos o filtro. Também me esgotou a mim, esvaziando-me as forças, deixando-me despido na cama, destapado aos raios solares, desprotegido, mais morto que vivo. Volta sabendo a passas, cheirando a solanáceas… Não sei como resistes, suspira sobre mim, enrola os dedos pelo meu cabelo. A quê? Pergunto, de olhos fechados, fingindo defunto. Fumar… como consegues? Resisto a tudo… Não resistes a mim! Interrompeu, cortando-me a palavra no meio, como quem corta uma laranja e espera que se lhe verta o sumo da verdade, fatalmente irresistível, possuía os direitos sobre a minha vontade. Com o gume sagaz encostado ao pescoço, continuei. O problema reside em ti, não em mim, há algo que te coloca acima… Acima assim? Dizia, sorriso cristalino, passando uma perna por cima de mim, sentando-se no meu tronco. Confortável a menina? Oh, sim… Puxo-a pelas coxas, arrasto-me por baixo dela, solta um grito de surpresa, um outro depois de prazer, derrete-se deliciosa na minha boca, pernicioso o sabor, corpo que estremece no vai e vem da língua… vem-se.

Limpo a cara besuntada na ponta solta do lençol. Inclino-me na janela, amo-te escrito no asfalto, imperceptível a quem passa, versal desgastado, mas visível a quem aterra na lua. Há momentos na vida de um gajo, em que uma subida de quatro lanços de escada, dariam a altura necessária para uma visão mais clara, amplificada. Em situações mais complicadas, aconselharia o aluguer de uma grua… olhe, por favor, quanto leva à hora? Preciso de pelo menos duas para perspectivar a minha vida!

Acende-me um cigarro, pede esticando o braço preguiçoso. Tenho algo muito mais interessante para abraçares com os teus lábios…

terça-feira, 4 de setembro de 2012

fundear

fundear (ir ao fundo)... ou acendalha segundo lote

A atenção violentamente desviada pelo desejo carnal, ou pela blusa que expunha uma copa perfeita, esmigalhava pedaços de pormenores cruciais pelo chão da estação, debicados em segundos pelos pombos. Quando o ponteiro mais longo atingiu a hora de partida, o comboio saiu lento sob o jugo do relógio que pendia lá no alto, e não era mais que um ponto que desaparecia no infinito em que duas linhas paralelas se tocam. Para trás ficamos nós e as ripas do banco, num beijo abstracto de línguas enraizadas, trocando fracções de humor aquoso e um tanto viscoso. Sem partida restava a chegada, e ela deixava-se levar escada abaixo sem dúvidas ou reclamações, segura pelo pulso onde mandou tatuar um dia o ás de espadas.

O calor mordia a urgência dos passos, atiçava o desejo de quem procura um recato para satisfazer o apetite, ânsia que crescia na boca ressequida... bebia uma parede, e o Mondego ali ao lado, arrastando-se pastoso pelas margens sem pressa.
Entramos na primeira hospedaria da avenida, despojados de vergonha, enrubescidos de desejo, despejei do bolso o pagamento adiantado e conduzi-a até ao quarto, um quase antro onde se deitam meretrizes. Atravessou a porta estendida ao tecto, olhou em volta apreciando o vulgar, desabotoou a blusa e de lábio mordido atirou-se contra o meu peito, constringindo-me com as pernas pela cintura.
A porta deu sinal que talvez não aguentasse as arrebatadas investidas, e antes que a cedência da fechadura nos levasse de rompam ao corredor, meios despidos, fundeado nela, experimentamos a resistência das molas do colchão, cabeceira que chocalhava contra a parede. O resto das roupas ficou pelo chão, semelhante a fragmentos de pele arrancada, e na nudez contrastante, pálida a dela, trigueira a minha, um corpo começa onde o outro termina.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

acendalha

Meia hora de espera em Coimbra, um dia quente atípico da estação, não alimente os pombos dizia numa parede… e eles rondavam abutres cinzentos, em volta do banco em ripas já velho. Lavrava suado as cruzadas do jornal de ontem, dobrado a meio sobre o joelho, e ela em blusa diáfana distraindo as massas, agitava um caderno de folhas já gastas.
Tenho fome, reclamou amuada, beiço de menina mal-educada.
Come uma parede, gaguejei distraído… nove letras, treze horizontal, o que serve para acender o lume…
Pousou a mão sobre a cruzada dobrada, sólida na junta que serve o joelho, aproximou-se do auditivo e num sussurro arrepiado disse ao meu ouvido.
Come um homem, é o que se responde, cigano malcriado.
E sem aviso prévio ou brisa que a refreie, da boca escancarada lançou-se a língua húmida, corre a saliva o pescoço, lambendo do lóbulo suspenso até ao vértice provocatório da clavícula. Prendem botões a camisa, perco eu a letra no sinónimo, sentindo a garra afiada fincando a perna, subindo a esquina… e de tão duro que o encontrava, descarado ali no banco, voltava a dizer agora baixinho.
Tenho fome ciganito.

Dentro de momentos vai dar entrada na linha número dois, o comboio com destino…

sábado, 1 de setembro de 2012

sepulto

na noite que já caiu, sepulto a cabeça na almofada, sem remorsos ou honra, sem penas que sumaúma é mais barata... atirado pelo cansaço, batido pelo tapete, fecho os olhos às imagens, e no vagar, sinto o corpo assentar poemas de amor pelo colchão...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

imortal

Sete letras, dois vertical, que não morre, eterno, inextinguível, perdurável, pessoa cuja memória ficará para sempre…

Com o olhar a divagar no horizonte, a boca articulava cuidadosamente cada vocábulo, ela têm destas coisas, num minuto cospe pelo ar, noutro move os lábios como um ventrículo não conseguiria mover, e fala como se não fossem dela as palavras. No bar ia pedir-te um cigarro, nunca tínhamos falado e no entanto algo me disse que nem valia a pena... já não fumas, tenho a certeza que não és um policia, o teu nome enrola-se na minha boca como bolo… Como posso saber que vais gaguejar, como é que me cheiras a laranjas e que vontade é esta de sentir as tuas mãos pelo meu corpo e ao mesmo tempo te odiar?

Demorei algum tempo a responder, e no entanto não saíram belas palavras, derraparam pela calçada, gaguejadas como ela previra. Comecei pela parede Norte. Esta era a nossa casa antes de eu ir preso, nas paredes havia quadros e fotos das férias, casamos num dia cinzento de Maio. O olhar desviou-se da chuva e numa trajectória sem pensar passou por mim como um pássaro grande que plana, pousando num fenda invisível na parede. Não conseguia decifrar se era um olhar incrédulo ou piedoso, e continuei para Este. As laranjas eu roubava para ti nas traseiras no jardim do vizinho, saltava o muro de bolsos cheios, néctar dos deuses espremido que se colava aos meus dedos… e que tu lambias.

A língua passeou pelo lábio, lenta, diabólica, dolorosamente tortuosa… maltes… sussurrou, como se dissesse para ela mesma, para ver como soava na sua memória. Prendi o maxilar, aguentei o nó que me ia apertando a garganta.
Tu não te lembras porque te apagaram a memória de mim…
Como assim?

Eu sou o que chamam de um resistente… tenho todos os nomes, era isso que eles queriam, e como não falei, acharam que conseguiam extrair da minha memória. Mas não podiam ficar por ai, tinham de limpar a minha existência… quando acordei estava num hospital, não me lembrava de nada, disseram que tinha tido um acidente. Aos poucos a memória foi voltando em sonhos, todas as noites eu sonhava cada dia que tínhamos vivido juntos, eram belos pesadelos, torturado pela tua ausência não tenho tido descanso… lembras-te do choque? Ia-mos na camioneta, ficaste ao meu lado o tempo todo, pulmão colapsado, no dia seguinte foste visitar-me ao hospital, trazias um vestido azul…

Como é que a memória voltou em sonhos? Não entendo, parece que nem falamos a mesma língua…

Repara na parede Sul, consegues ver o emaranhado estrangulador das raízes?
Levantou-se em direcção à parede, com receio tocou ao de leve na aspereza do troço forte, a pele do braço arrepiou, era como se tocasse em mim.
Continua.

Foi um velho muito velho que me ensinou a construir sonhos, a entrar e sair deles deixando todas as recordações salvaguardadas, por isso mesmo sem memória, quando Morfeu chegava pela noite, eu voltava aos teus cabelos, aos teus braços… ao centro do teu corpo. Levei algum tempo a entender que o que sonhava eram de facto momentos que tinha vivido… nem imaginas quantas vezes te procurei e te encontrei… e nunca sequer olhaste para mim.
E ela contemplou placidamente, caminhando da parede Sul à Norte cautelosa, segurando a bússola dentro do peito na minha direcção. Debruçou-se para me cheirar, confiando no nariz mais do que em qualquer outro sentido. Fechei os olhos baixando a guarda da alma, sentia o calor da aproximação do seu corpo, as pontas do cabelo roçando, o ar quente que expirava junto à minha cara e o bater do coração, agitado pelo perigo.

Quando a chuva parar…disse, mas ela não me deixou continuar, juntando os meus lábios no seu dedo indicador, abri de novo os olhos, a cara dela tão junta, os lábios tocaram-se primeiro só comprimidos, tímidos, lábio superior com inferior abraçados, uma dança húmida que terminava com o enrolar de línguas ávidas, ferozes caçadores de bocas, animais insaciáveis. Passeiam trémulas inseguras, recuperando a sensibilidade, as minhas mãos pelas costas nuas dela, dedilhando pelas concavidades.E ela continuou com a profecia... quando a chuva parar vais estar dentro de mim, vivo, pulsante como um enorme peixe que se agita fora de água.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

lodo

Quatro letras, dois horizontal, sedimento terroso no fundo das águas, [figurado] vergonha, ignomínia, aviltamento, degradação...

Não tinha completado cinco anos quando me apercebi que ao contrário da maioria das pessoas, eu não era capaz de sonhar. Os relatos aterradores de fantasmas, monstros, quedas em espiral, camas mijadas, luzes sempre acesas… eu não sabia o que isso era. Para me reconfortar a minha mãe dizia que toda a gente sonhava, mas que algumas pessoas simplesmente não se lembravam de nada na manhã seguinte. Seria esse o meu caso e ficou por ali. Uns anos mais tarde, o tio de Alcácer ficou lá a dormir em casa por ocasião de uma celebração qualquer, dizia-se que tinha noites violentas, um trauma de guerra, e eu na curiosidade dos onze fique acordado, como um soldado raso de sentinela. Quase que perdia a paciência nessa noite, mas compensou, próximo da madrugada um leve agitar teve início nos pés, subindo pelas mãos que retesavam o lençol, o luar iluminava-lhe o rosto de perfil e a uma expressão agonizante juntava algumas palavras imperceptíveis de aflição. Fiquei maravilhado, não conseguia sequer imaginar o que ele estaria a sentir, como era possível que ele estivesse ali e ao mesmo tempo num outro mundo. Acordou agitado mergulhado em suor. O que fazes aqui rapaz? Volta para a cama… Disse com pouca autoridade. Como era? Perguntei, desperto pela curiosidade. Era horrível, respondeu, com duas quebras em cada canto da boca. Mas é como um filme? Voltava eu à carga… Não, é como o Inferno… Mas sentias dores? Perguntei mais uma vez, não dando sinais de que fosse desistir. É pior que isso… é como ter vermes a comer-te a mioleira… agora vai dormir, se tiveres pesadelos ainda vão dizer que foi culpa minha… Eu não sonho! Disse com muita convicção. Sorte a tua! Terminou o meu tio. Mas para mim não era sorte nenhuma, eu queria sonhar…

Muitos anos depois em Lhasa, conheci um homem velho enquanto fumávamos ópio, contou-me o sonho que acabara de ter, com um sorriso sem dentes que trespassava todo o rosto. Uma mulher, chinesa da província de Gansu, nascida das gotas de orvalho, perfeita flor de lótus, sabor a mel que lhe permanecia na boca. Por cima das nossas cabeças, o fumo desenhava o contorno de corpos despidos, um homem e uma mulher. Eu não sonho, confessei-lhe. Ficou sério, levou demoradamente o narguilé à boca cerrando ligeiramente os olhos, exalou uma outra nuvem de fumo e depois disse. Os sonhos trazem à tona os nossos desejos mais íntimos, e mascaram com trajes festivos os nossos medos. Um homem que nada deseja e nada teme, não é um homem.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

proa

quatro letras, treze horizontal, a parte dianteira do navio no terço do seu comprimento, [figurado] soberba, vaidade…

A fome voltou, mais fraca que o cansaço, mas ainda assim capaz de me arrastar das profundezas de um sonho, onde a parede sul era o sustento das raízes de um carvalho, e pelo chão da sala rolavam à deriva bolotas do tamanho de laranjas. Passei revista ao frigorífico e depois ao armário de cima. Restos de um doce avermelhado, bolachas numa lata azul de metal, meio saco moído de café. Enchi ao nível com água, atestei de pó castanho aromático, alisando a superfície com o verso da colher, e acendi o fogão, agitando o fósforo que se extinguia num fio de fumo, imprimindo a primeira pausa num ritual antigo repetido vezes sem conta, executado em adagio affettuoso, entre 66 a 76 batidas por minuto.

O café quente empurrou pelo esófago duas bolachas partidas sem doce, moles pelo tempo esquecido numa caixa descorada. O sol cavava rasgos na densidade cinzenta das nuvens, iluminava os terraços vizinhos e lá ao fundo a copa redonda de uma imensa tília, estranho camaleão que viradas as folhas pelo vento, mudava de tons escuros a claros.

Ela acordou, está sentada na cama, olhar sujo de tinta, cabelo encrespado, lençol enrolado pela barriga das pernas. Vai seguir o cheiro do café que entretanto verti numa segunda chávena, a chávena que eu nunca uso, que se destaca das restantes pelo tamanho, delicadeza, a que ocupa o primeiro espaço da fila de loiças no único armário envidraçado. Esperou este dia pacientemente, cheia de café, já falta pouco para que ela lhe pegue com ambas as mãos.

Já contei como se queima, como é bela a sua nudez, já mencionei pelo menos duas vezes que ela vai dizer que me odeia, sem saber porquê... e depois a chuva voltara a cair e então vai perguntar como sei…

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

padieira

Oito letras, três horizontal, verga superior de porta ou janela, sobretudo quando é de madeira; face lateral do lagar…

Anda, gatinho maltês, salta cá para a minha cama… dizia ela à janela rompendo o silêncio da madrugada, reino dos melros que pilham os jardins. Carregados os bolsos com laranjas, calças a cair pelos fundilhos, atravessava o muro do vizinho e voltava vencedor ao meio das suas pernas.

Agora sobram laranjas na árvore, espera o fruto maduro cair por terra, sobracem a mim forças e treparia mais uma vez o muro por ela. Olho o dia que nasce pela janela, enquanto dorme profundamente, ninfa nua aterrada no colchão. Sentei-me na poltrona da sala para abrir o quarto dos sonhos e esconder as memórias daquela noite. Era difícil de acreditar que tudo não passava disso mesmo, um sonho ou uma cena de um filme que se viu faz muito tempo no cinema. O carro a voar pela estrada, a chuva que se dissipava à sua passagem corrida por um limpa-vidros gigante, a perseguição e depois o embate, o carro a rodopiar no ar centrifugando os ocupantes. O segundo sujeito cuspido, o primeiro saindo cambaleante em direcção à fuga, fiz tenções de o perseguir, fazê-lo pagar a divida que abrira na minha testa, mas Guinevere gritava, não me deixes…

O barulho da rua entrou nas casas, acordam uma a uma, correm persianas, acendem luzes. Então o céu manda que seja tecido um manto de nevoeiro com que nos cobre a saída, pego nela e desaparecemos pelos empedrados, bairros cinzentos, esquinas vazias. Ao quinto lanço de escadas, esgoto as últimas forças, ela dorme nos meus braços, encosto-me à parede fria. Desde fevereiro que o elevador não funciona, a esta hora também não queria acordar o prédio inteiro. Respiro fundo, já falta pouco, sem o ar frio da noite o cheiro dela rascunha-me o passado na mente, o mesmo perfume aspergido apenas do lado esquerdo.

domingo, 12 de agosto de 2012

borrifo

Sete letras, quatro vertical, líquido que se expele da boca apertando os beiços ou que cai em gotas miudinhas...

Não sei se alguma vez sentiram a chuva berrar-lhes ao ouvido, talvez ela já o tenha feito e estavam tão distraídos com o mundo, que nem se deram conta disso… é uma sensação única, é quase como ter um oficial da guarda, vermelho de gritar, que pergunta sem respirar pelos nomes dos teus companheiros, e está tão próximo que sentimos a saliva salpicar-nos a cara, o bafo do tinto que regou o almoço, as aliterações numa pronuncia que nasceu bem a sul … eu corri, além das minhas capacidades, das dores e do peso que se tornavam quase insuportáveis. Quando os alcancei, já o semáforo tingia tudo de verde e o resto já foi dito, rolamos numa luta pelo chão, um bolego na mão errada, um respingo de sangue quente no sobrolho.

Gosto da palavra bolego, para quem só se sentou agora, é nada mais nada menos que uma pedra, um seixo.

Adiante… o certo é que não desmaiei, talvez até quisesse, era o caminho mais fácil, deixar-me por ali caído sob um aguaceiro, desistir de vez dela, já que nem sabe quem sou, para quê esta persistência. E é então que reparo nas gotas, de rosto contra o chão, são elas que me vão levantar da inércia, é que parecendo frágeis, fragmentadas em outras tantas quando embatem no pavimento, vão perfurando com extrema paciência o asfalto. Pois é, o provérbio é antigo, mas nem sempre temos a oportunidade de ver mesmo de olhos abertos…

Conjugo então as minhas forças, vindas sabe-se lá de onde, congelo o sangue à saída do lanho, não há fome, nem saliva ou dor que aflija, tudo em mim é areia que vitrifica. O carro dela já vai lá ao fundo, braceja, esperneia, não vai sem dar luta, fera sem espécie! Entro no outro carro deixado pelos dois homens, na ignição oscila um macaco de expressão suja preso à chave. Pedal ao fundo, deslizo ruidoso pela cidade, pista brilhante à luz amarela dos faróis.

sábado, 11 de agosto de 2012

istmo

Cinco letras, dois vertical, terra que liga uma península ao continente…

No desconforto do encosto do corpo à roupa molhada, veio unir-se num cerco o frio. As mãos aninham-se nos bolsos, procuram um consolo que ande escondido. E então surge a fome, rainha e senhora das necessidades, à sua frente encabeçando o desfile caminha um grande lobo, rosna um vazio dentro do estômago.

Aqui te pilho, além te ganfo… murmurava para a companhia de botões sentinelas apertados nas guaritas de fazenda. Cortei por uma viela de arcadas escuras e cantos de mijo, aberta para uma outra rua mais ampla de margens arborizadas, entre edifícios compactos de casas vazias, lojas abandonadas. Na leve inclinação da estrada, alcandorada de um semáforo preguiçoso, o carro dela não se movia. Iluminada a rubro distinguia a porta ligeiramente aberta, cabeça de fora, cabelo caindo a direito, espectador da boca que vomita. Acelero o passo, quase em corrida, uma dor antiga regressa ao joelho esquerdo, o ar frio fere os pulmões, respira pelo nariz, digo para mim.
Um carro de faróis amarelos cruza a mesma rua parando um pouco mais abaixo, dois vultos apressados deixam o seu interior, caminham para ela.

Respira devagar, dizia, acalma-te… já chamaram a ambulância. O ar falhava-me, entrava a miúde, queria parecer forte, mas as dores condensavam-se em volta do peito, os olhos enchiam-se de névoa. As palavras não se formavam, não conseguia perguntar se ela estava bem, o céu da boca deslocava-se, um bolo de sangue crescia sobre a língua. Naquela espera que pareceu interminável, o rosto doce melancólico, em que eu mal reparara, apoderou-se do meu destino, entreguei-lhe sem palavras todos os meus dias. Na manhã seguinte faltou às aulas e visitou-me, trazia uma caixa de raivas e um vestido azul. Uma semana depois casamos.

Um descompasso agita o bater que nasce no peito, a chuva brade-me ao ouvido, corre, corre o mais que puderes…

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

érebo

Cinco letras, catorze horizontal, inferno em linguagem poética…

Dois homens lutam pelo chão no reflexo metálico de um carro. Um deles sou eu. A chuva declarou guerra, lançando uma carga de água que cai com prumo. No interior ela resistia ao segundo sujeito, o primeiro vai atingir-me na cabeça com algo, talvez um bolego, não vou cair inconsciente, apenas de rosto no chão ao nível das gotas que pulverizam o asfalto. Volta trôpego ao interior, arrancam com velocidade.

Não tens cara de Fernando Cassola de Miranda, disse brincando com a minha falsa identidade, a poucos metros da entrada do bar.
Deixa-me levar-te a casa, pedi sabendo de antemão que a súplica nunca resultava com ela.

Eu sei cuidar de mim, não preciso nem admiro cavalheirismos, mais depressa necessito de um cigarro… e de repente perdeu a graça, atirou o olhar ao chão na mesma direcção onde a beata tinha morrido e afastou-se apressada pela chuva, martelando o passeio, interrompendo o precipitar. Segui-a até à porta do carro, a mesma que dai a instantes vai reflectir uma luta corpo a corpo, quase equilibrada, até que uma pedra que rolou da calçada virá para corromper a essência humana.
Atirou com a gabardine encharcada, bateu a porta com estrondo e sem olhar de novo para mim, subiu uma roda pelo passeio e desceu pela avenida retardada pela chuva e pelo etílico, ainda não diluído.
Recebo até aos ossos a minha aliada, ali parado sem rumo no meio da cidade. Já é tarde para táxis, a rua vai deserta, adormecida nua num lençol líquido que se escoa pelas entranhas. Decido-me pelo norte, tomo a mesma direcção que ela escolheu sem saber que a vou encontrar de novo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

medo

Quatro letras, sete vertical, ausência de coragem, apreensão ou receio…

Pagou a despesa e antes de descer, remexeu o conteúdo da bolsa, depositando a totalidade dos bens no cimo do balcão. Visivelmente irritada, arrumou tudo à pressa e ao passar por mim hesitou, mas não me abordou. Encontrei-a novamente na rua, um pouco acima da entrada do bar, abrigada da chuva na escuridão de uma noite sem lua, mortificava um cigarro que se acendia mais intenso cada vez que parava nos seus lábios viciosos. Um sujeito aproximou-se, segurou-a pelo braço, o tom de voz elevara-se mas a chuva a esquartejar o paralelo não me deixava entender o que diziam. Aproximei-me.

Só cá faltava Sir Lancelote no seu corcel branco.

Sempre teve o dom da palavra, é um talento natural. A boca abria-se e jorrava coisas assim, apanhando-me desprevenido. Respirei fundo para não gaguejar e perguntei se ela queria que a levasse a casa. O sujeito baixinho, careca brilhante sob o guarda-chuva, já não a segurava pelo braço, no entanto continuava a insistir que ela o devia acompanhar à esquadra, não pode fumar assim aqui, dizia o individuo, é uma irregularidade.
Sou inspector-adjunto, pode ir à sua vidinha que de irregularidades trato eu. O cão pequeno vacilou, pouco persuadido pela mentira débil, quebradiça, sem cabouco que a segure. Oh homem, ainda ai está? Vá-se antes que o leve a si por desrespeito à autoridade. Mas o abelhudo não arredava pé, já o cigarro chegava ao fim e a criatura mastigava-me os calcanhares. Tirei do bolso um cartão que apresentei perante os seus olhos gordos inquisidores, podia ler-se em letras garrafais, polícia internacional e de defesa do estado. O suficiente para escorar a mentira que agora crescia, imenso arranha-céus por cima de nós.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

clarabóia

Nove letras, treze horizontal, parte envidraçada de um telhado para entrar claridade…

Não me perguntem como é a parede sul. A mobília sóbria monocromática espalha-se apenas pelas paredes norte e este. A oeste uma janela ladeada de carregados reposteiros, deixa entrar a luz cinzenta da tarde. O único rasto de objectos decorativos são formas geométricas descoradas nas paredes, onde em tempos telas e quadros conviveram com retratos de férias, livros sem ordem, álbuns de vinil, candeeiros e mantas. Estou sentado na poltrona a norte, na mesma roupa que entretanto secou nos ossos. Disse-me, já não me lembro bem quando, mas foi no início dos tempos.

não és nada do que se diz por ai.

Sorri prudentemente, continuando a rabiscar o toalhete de papel salpicado de gordura, estava desde domingo sem fumar, os dedos pediam ocupação.

Devias experimentar sorrir mais, as pessoas tendem a ficar com uma ideia errada de ti.
Quando nasci, a varinha de condão da fada madrinha da simpatia, estava avariada, tinha sido enviada para a grundig de Nuremberg, uma reparação que lhe iria custar, literalmente, os olhos da cara.
O que me ficou mais marcado na memória, foi precisamente a expressão que lhe ficou no rosto, então acendeu um cigarro, aborrecida com o comentário, bafejando o fumo tentador na minha cara. E continuei. Que mania essa de classificarem as pessoas em dois grupos, se não são simpáticas, é porque são más… não sou de sorrisos, como aquele fulano que se cruza no elevador com o vizinho de cima, o mesmo que andou a arrastar móveis pela noite adentro, e em vez de o chamar a atenção, espevita o zigomático e sob a iluminação fluorescente, rasga-se-lhe a cara num belo sorriso, formalmente acompanhado de um cumprimento qualquer matutino, estado do tempo, blá, blá, blá…

Deixa-me adivinhar, tu és o vizinho de cima!

smoke

terça-feira, 7 de agosto de 2012

uade

quatro letras, nove vertical, curso de água temporário num deserto.

Um aguaceiro atirou-se contra a grande vidraça da sala sem que nada o previsse. Cortava o silêncio como uma lâmina que rasga a carne, e no cenário mudo a preto e branco, um fio liquido, vermelho vivo, descontinuava a cena.

Como sabias que é assim que gosto do café?

É um corpo belo despido de memória, habitado por um vazio inexpressivo de sentimentos. Um vaso, recipiente de ar, mente assaltada pela constante sensação de déjà-vu. E por isso pergunta como sei que ela gosta do café amargo, simples, escuro e brilhante sem espuma, a escaldar numa chávena larga de rebordo fino.

As partidas da mente, lembra-se do café mas não se lembra que fomos íntimos, trinta e sete vezes casados no mesmo dia, adormecida mais de duas mil e quinhentas noites ao meu lado até perdermos o rumo.
É assim que o corpo entranha-se no café, e não o café no corpo e ordena que a boca pergunte. Não te lembras de mim, boca? Claro que não, a boca tem fraca memória, apenas cospe o que lhe mandam, sejam perguntas, saliva, escarro e por vezes até sangue, mas isso é mais lá para a frente. O sabor dela tão buliçoso permanece na minha boca.

E a chuva regressa, ainda mais forte, numa desigual disputa pela sua atenção, diverge-lhe o olhar mantendo-o cativo no horizonte sombrio. Olha mas não vê.

Central Park Statue in the Rain

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

arnês

Cinco letras, quatro horizontal, armadura completa…

Entre dois goles de café diz que me odeia mantendo a expressão com que saíra da cama, o ar altivo de baronesa bebericando pela fina loiça, massa de caulino, feldspato e quartzo. Um estranho à língua que presenciasse este comedido monólogo, decerto julgaria tratar-se de uma declaração apaixonada, e por suas palavras diria satisfeito que era amor e nada mais que amor o que ela sentia.

A palavra desprendia-se da sua boca sem esforço, deslizando num tapete acetinado. “Odeio-te” era declamado através do espaço, a manifestação terna soava a “amo-te”, mas quem diz “amo-te” nos nossos dias? Caiu em desuso, a conjugação verbal enrola-se na língua, travado no palato… boca escancarada para libertar o “a” aberto, qual peixe esperneando fora de água.
Uma vez sonhei que me tinha desabado a abóbada palatina, e no seu interior descobri que vivia um caranguejo de armadura mole, mergulhado num charco de águas salgadas. No topo da carapaça tinha gravado o rosto de uma bela gorgóna.

A pele branca, arrepiada pela aragem que sobe a rua e entra à sua procura, ilumina-se na proximidade dos raios solares. É magnetizante e isenta de marcas, apenas cortada obliquamente por esverdeadas veias. As mãos juntas seguram a chávena, tapa candidamente os seios nus com o interior dos antebraços. Nas costas direitas, os ombros relaxam, pernas que se cruzam ligeiramente, sexo que daqui onde estou só se adivinha.

Perseus with the head of Medusa by Theodor Charles Gruyere (1814-55). Ujazdów Park, Warsaw. (detail 1/9) by Adam Gut.

sábado, 4 de agosto de 2012

khanjarli

nove letras, oito vertical, tipo de adaga Hindu, com uma forte lâmina de duplo gume e largo pomo de formato semi-circular...

No dia seguinte já os ponteiros marcavam a tarde, e ela levantou-se sem certezas e sem roupas, seguindo o rasto quente do café que a esperava, ansioso por se esvaziar nela em sinal de veneração e a preencher de conforto. O olhar ainda mais tenso parou em mim, analisou-me por fora, não me encontrado por dentro.

Sentou-se na beira mais distante de mim, parece estranho, mas é exactamente a mesma distância a que se sentou na noite passada, nem mais nem menos um milímetro. Eu sei que é a mesma distância, ela também. Um afastamento propositado, medido, planeado sem erros, que errar só é permitido a humanos, e nós não somos bem isso.

Bebe da chávena sem marcas de bâton. Parece uma imperatriz, empanturrada de vaidade a quem um trago mais súbito vai queimar o céu da boca, escaldar a abóbada palatina e pintar a castanho a língua bifurcada, que toca os lábios sibilante para me dizer. Odeio-te!


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

diabo

Cinco letras, um horizontal, pessoa astuta ou habilidosa...

Pousou o copo com demasiada força, atraindo as atenções dispersas pelo bar. O fundo mais espesso, porventura concebido para resistir a movimentos desmedidos como este, esperava ser enchido no meio do balcão, e tornar rapidamente aos lábios que o marcavam no rebordo de vermelho.

Leva o etílico as memórias, copo atrás de copo. Vai cheio levado aos lábios, volta vazio com força ao balcão. O empregado por detrás na sua vida, nem ousa levantar os olhos, mira o copo vazio, miraculosamente inteiro, pronto a ser atestado até ao rebordo tatuado.

Reparei nela assim que se sentou cinco lugares para a esquerda. Sem desviar o olhar da maquineta tecnológica, pediu um whisky, e depois outro, e outro mais, todos sem gelo até eu perder a conta, esvaziando-se em cada gole o meu interesse. O cabelo liso escuro, caindo calmo pela cabeça, sem remoinhos ou ondas distintas, pouco se agitava apesar dos movimentos irritados. O olhar intenso, delineado a carvão, estava preso como eu já disse, passeando livre uma ou outra vez pelo espaço em redor, uma vez em direcção a mim. Mordeu o lábio, carne viva pintada a sangue, onde mergulhava doce o álcool, amargo o céu do dia seguinte.