quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ool *

Hara Nor não era a mais bela das mulheres, conquistara um sólido estatuto na corte pela agilidade com que tocava o morin khuur, acompanhando a dança, o canto, a récita de contos ou outras cerimónias que alegravam os serões imperiais. Corpo franzino de menina, rosto minúsculo riscado por um olhar tímido, somente desviado das cordas quando encontrava os negros e abissais olhos de Taniec. Admirava-o nos seus trajes tradicionais tártaros, tecidos bordados a ouro e seda, debruados com ricas peles de marta e arminho, em contraste com as vestes do imperador, que gradualmente abandonara os costumes mongóis e usava o dragão imperial chinês. O grande Khan apreciava a rica cultura chinesa, mas também a usava como estratégia para ganhar a simpatia por parte do povo ocupado. Discutam constantemente a respeito dos trajes e costumes, mas Taniec não cedia, e o imperador não querendo ter como inimigo um tártaro tão poderoso, mantinha-o nas suas cortes, convidando-o com frequência para longas estadias nos seus palácios.
Durante séculos, tártaros e mongóis disputaram entre si o domínio das pastagens da Mongólia, por volta de 1200 surgira um poderoso chefe mongol que depois de submeter os tártaros, se tornara soberano com o nome de Genghis Khan, unindo os nómadas e dando início a uma série de conquistas. Kublai Khan era neto, não possuindo metade da bravura do seu antepassado.

Com apenas vinte e oito anos, primogénito do chefe de uma tribo abastada, Taniec tornara-se uns dos principais generais na frente de batalha. Graças aos seus feitos, o império estendia-se desde a Hungria ao litoral da China. Treinado praticamente desde que a mãe o parira em grande sofrimento, dizia-se que os cavaleiros nómadas aprendiam a montar mesmo antes de saberem caminhar, habituados logo à nascença a suportar todo o tipo de privações. Contavam-se histórias terríveis sobre estes soldados, exímios no uso do arco composto, obedecendo a um restrito código de disciplina, punível com a pena de morte. A sua reputação de crueldade e habilidade de movimentos enquanto montavam velozes como o vento, precedia-os de tal modo que alguns povos se entregavam sem dar luta.

A primeira vez que se viram foi em Shangdu, no magnífico palácio de Verão de pedra e mármore, erguido num parque com mais de quarenta quilómetros quadrados, irrigado por numerosos riachos que o atravessavam em todas as direcções, onde árvores trazidas dos quatro cantos do império, serviam de abrigo a veados e outros animais, que o grande Khan caçava com chitas e falcões. Hara Nor fazia parte da comitiva que contava com mais de dez mil pessoas que constituíam a corte da esposa de Kublai, a segunda de quatro legítimas, todas usando o título de imperatriz. Para além destas legitimas, mantinha cerca de uma centena de concubinas, adquirindo todos os anos mais vinte, escolhidas cuidadosamente pela sua beleza, passando por rigorosos critérios de selecção que podiam ir desde o odor corporal até à leveza do respirar nocturno.

A candura de Hara Nor não passou indiferente a Taniec, atrevo-me até dizer que foi amor à primeira vista, destinados os caminhos, bastava os rumos colidirem. E foi isso que aconteceu, a segunda esposa e toda a sua extensa comitiva viajaram até ao palácio de Verão, onde Taniec se encontrava a pedido do grande Khan. Pela primeira vez o rosto sério e vincado do tártaro, ganhava uma expressão de felicidade jamais sentida, devolvendo os sentimentos com um dialecto antigo que Hara Nor mal conhecia.

*(üül) nuvem em mongol

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