quarta-feira, 28 de setembro de 2016

breve

senti tudo como se não tivesse pele sobre a carne, os órgãos à vista. mais
quebrado, as forças vazadas pelas pernas, parecia areia a escorrer nas âmbulas sem fim.
o frio da madrugada alivia a dor, amolece a espinha. numa maré tudo volta ao sítio. até as nuvens.

setembro tem os dias contados.

Vivi Mac


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

rombo

Naqueles dias andava impossível. Era como uma embarcação com um rombo no casco, que enchia de cansaço e se tornava lenta e prestes a desaparecer. Primeiro tinha sido o velho do último andar que em lugar de oferecer ajuda, advertiu-a para o risco de encravar o elevador caso calcasse o patim junto à porta. Ela estava a carregar as últimas coisas do apartamento, sozinha numa pilha de caixas de papelão e sacos de roupa, e aquele velho só se preocupava com o estúpido elevador. Falava amargurada nos homens que odeiam as mulheres, com certeza aquele velho não teria falado da mesma forma se fosse um homem que estivesse no seu lugar. Sonhara que durante a noite voltara ao prédio e encravara propositadamente os vários elevadores, deixando o velho guardião de elevadores isolado no décimo andar. Depois contou o episódio do autocarro, e do outro velho que escolheu sentar-se ao seu lado tendo tantos lugares vagos. Mas não foi o facto de se ter sentado, explicou, foi novamente aquela prepotência, desta vez sem palavras. Quando ela se sentara, o seu casaco que vinha dobrado tinha ficado com uma das pontas sobre o lugar do lado. Como todos os lugares de trás estavam vazios, nem reparou que o casaco estaria a sair dos seus limites. Vinha a ler, dizia, a devorar Ferrante, quando o velho se sentou ao seu lado e atirou com a ponta do casaco para cima de si. Sentiu-se incomodada, mas não se levantou. Continuou com o livro aberto, sem conseguir que as palavras fizessem sentido, tentando ignorar o velho e as suas intenções senis. Pensou que ignora-lo era melhor que fazer uma cena. Duas paragens adiante levantou-se num pulo energético e saiu, com a boca cheia de palavras odiosas e gestos obscenos ensarilhados nos dedos. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

nesga

Atravessou a rua com os olhos baixos quase a rasar o chão. Nem mesmo uma ruiva alta que levava vários olhares e piropos nas pernas os conseguiu içar das profundezas onde se encontravam. A ruiva por sua vez terá olhado o homem de esguelha com algum interesse, mas achou-o ingrato por não admirar a sua beleza como os restantes.

 Rémi Noël 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

lustre

-puxa-me por um pé antes que bata no candeeiro. Disse o homem sem gravidade.

Study for King Edward by Jeremy Geddes

terça-feira, 6 de setembro de 2016

nono


Afinal enganei-me nas contas, retomo a leitura e compenso pelos dias de preguiça. 
Entro em Setembro com o nono livro aberto nas viagens de autocarro. Não se trata apenas de números, mas do nove. 

The Ninth Gate by ayhi

domingo, 4 de setembro de 2016

grilos

-Estou a ver grilos. Escreveu o homem que ambulava os pensamentos sem trela.
-Ouvir? Perguntou a mulher que albergava duas paixões pequenas.
-Ver. Confirmou o homem alisando a barba que dava pela água. Na sombra das dúvidas, acrescentou na linha seguinte:
-Num catálogo.
-Como é possível? Estranhou a mulher ajeitando com os dedos a franja sem nervos.
-Há catálogos de insectos. Respondeu o homem ignorando o acordo.
-Eu sei, mas gritos? Insistiu a mulher que sonhava com coelhos verdes.