quarta-feira, 21 de setembro de 2016

rombo

Naqueles dias andava impossível. Era como uma embarcação com um rombo no casco, que enchia de cansaço e se tornava lenta e prestes a desaparecer. Primeiro tinha sido o velho do último andar que em lugar de oferecer ajuda, advertiu-a para o risco de encravar o elevador caso calcasse o patim junto à porta. Ela estava a carregar as últimas coisas do apartamento, sozinha numa pilha de caixas de papelão e sacos de roupa, e aquele velho só se preocupava com o estúpido elevador. Falava amargurada nos homens que odeiam as mulheres, com certeza aquele velho não teria falado da mesma forma se fosse um homem que estivesse no seu lugar. Sonhara que durante a noite voltara ao prédio e encravara propositadamente os vários elevadores, deixando o velho guardião de elevadores isolado no décimo andar. Depois contou o episódio do autocarro, e do outro velho que escolheu sentar-se ao seu lado tendo tantos lugares vagos. Mas não foi o facto de se ter sentado, explicou, foi novamente aquela prepotência, desta vez sem palavras. Quando ela se sentara, o seu casaco que vinha dobrado tinha ficado com uma das pontas sobre o lugar do lado. Como todos os lugares de trás estavam vazios, nem reparou que o casaco estaria a sair dos seus limites. Vinha a ler, dizia, a devorar Ferrante, quando o velho se sentou ao seu lado e atirou com a ponta do casaco para cima de si. Sentiu-se incomodada, mas não se levantou. Continuou com o livro aberto, sem conseguir que as palavras fizessem sentido, tentando ignorar o velho e as suas intenções senis. Pensou que ignora-lo era melhor que fazer uma cena. Duas paragens adiante levantou-se num pulo energético e saiu, com a boca cheia de palavras odiosas e gestos obscenos ensarilhados nos dedos. 

15 comentários:

  1. Quando, o que quer que seja, sai dos seus limites ... é uma chatice, sr Manel! :)

    Cumprimentos lá em casa!

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    1. será mesmo uma chatice?
      beijinhos pra família :)

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  2. Ah! as doces pessoas que gostam de espalhar a sua bílis nos que consideram inferiores!
    São uns fofos.

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  3. que mau feitio! bolas! :(
    anonima

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  4. Aqueles dias em que tudo nos incomoda. O que vale é que depois passa. Mas nem sempre :))

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    1. as sensibilidades aumentadas certamente interferem no modo de receber o mundo... são observações muito interessantes :)

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  5. Coitada, terá de arranjar maneira de extravasar essa energia negativa que lhe deixaram os velhos tontos. Sugiro um passeio à beira mar...

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    1. excelente sugestão :) o mar apesar de velho, consegue apaziguar mesmo os corações mais revoltos :)

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  6. ah os gestos... muito mais eficazes do que as palavras...

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    1. principalmente quando as palavras são de cristal :) demasiado brilhantes para olhos vulgares

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    2. demasiado frágeis para caírem no vazio...

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