terça-feira, 29 de novembro de 2016

wàzi

Lista de tarefas:

cicatrizar meias de lã
escrever sobre olhos de peixe
cozer nuvens em lume brando
desenhar aspergillus no ressoado das janelas



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

álacre

O sol ainda não tinha nascido. Levantei a cabeça em busca do lençol enrodilhado ao fundo da cama, não mexi mais que a cabeça e de repente senti-me engolido por um formigueiro, era como mil milhões de formigas a percorrerem-me entre a pele e a carne, desde a planta dos pés até ao pescoço. Pousei a cabeça no travesseiro e deixei que me consumissem o cérebro. Quando acordei o sol continuava para lá dos montes, num lento desapego pelo rebordo do céu. De um só pulo, abandonei a cama sem arrependimentos, sem dores, sem minutos somados, sem sentir o gelo do soalho.
É raro, muito raro, mas volta e meia acontece. Talvez saturno esteja a transitar sobre qualquer coisa, ou então a lua alinhou numa casa favorável, ou saiu-me finalmente a carta do mago, ou então foram as mãos mágicas dela que me livraram das contraturas nas costas... mas seja o que for, é muito bom.

domingo, 27 de novembro de 2016

Paterson

Antes eu não vivia numa gruta. Numa outra era, numa galáxia distante, eu não perdia uma estreia. Eu sabia o nome dos realizadores do momento, dos actores que recebiam óscares, eu era uma agenda cultural com pernas. Assistia a tudo o que se fazia nas proximidades, desde música clássica, até grupos folclóricos, bandas filarmónicas. Não faltava às exposições temporárias, não perdia um festival de música ou gastronómico, feiras, romarias, encontros. Até a ensaios de um grupo de teatro eu conseguia ir. Assisti a bailados, óperas, números de circo. Visitava todos os museus, viajava para visitar museus. Eu comprava livros novos. Todos os que eu queria, sem olhar para o preço. 
Mas os tempos mudaram, a falta de dinheiro tornou-me esquisito, requintado. Escolho gastar o pouco que consigo desviar para algo realmente muito especial. Tem de ser mesmo muito bom. Tem de valer aquele sacrifício. 
Neste momento não tenho nada em mente. Talvez no próximo mês, ou no próximo ano, dê um salto ao cinema para ver um único filme. O cinema ainda é mais ou menos acessível. Mas um filme que realmente seja visualmente apelativo e que valha o dinheiro de o ver num ecrã grande. Mas enquanto não me decido, deixo aqui algumas das minhas escolhas para os próximos meses. Só cinema. 
Como diria o Lauro Dérmio "let's look at the trailer"!

Paterson, novembro de 2016
categoria: comédia, drama
mais valia: condutor de autocarro poeta. 


Sing, dezembro de 2016
categoria: animação, musical e comédia 
mais valia: banda sonora, porcos e marsupiais sem cauda.

Assassin's Creed, janeiro de 2017
categoria: acção, fantasia
mais valia: Marion Cotillard, Jeremy Irons, inquisição espanhola, filmes baseados em jogos 


Fragmentado, Split, fevereiro de 2017
categoria: thriller
mais valia: M. Night Shyamalan, 24 personalidades, James McAvoy


Valerian and the City of a Thousand Planets, julho de 2017
categoria: ficção científica
mais valia: Luc Besson... e a Rihanna 💘


sábado, 26 de novembro de 2016

Ifrit

ou “O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias”

e ao virar a primeira página ficou suspenso nas linhas do prólogo, encantado pelo movimento das palavras que ecoavam nos labirínticos corredores da biblioteca. Diz-se que o rei nunca mais viu a luz do sol, nunca mais regressou à sua terra, ou beijou os doces lábios da sua esposa. Enfeitiçado pelo conto, perseguiu as palavras sem descanso, sentado naquele canto esquecido, bebendo a humidade da parede norte, sobreviveu até ao último capítulo com teias de aranha no estômago. Há quem diga que ainda hoje a biblioteca é assombrada pelo espírito deambulante do rei, desaparecido nas páginas de um imenso livro de capa vermelha. E se escutarmos com atenção, para lá do murmúrio do vento, é possível ouvir na voz pausada e grave do rei a seguinte história: 
“Conta-se – mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom – que, num tempo antigo e distante, numa terra abençoada de prados, havia um berbere contador de histórias que nasceu quatro vezes. O seu nome era Tagik. Um dia foi-lhe pedido que montasse uma mesinha nordli seguindo as instruções em polaco, mas sem ferramentas apropriadas, sentou-se para descansar e, metendo a mão no alforje, tirou dali um lanche, bem como tâmaras. Quando terminou de comer as tâmaras, guardou os caroços que dão sorte e atirou pela janela as instruções, as chaves foleiras e depois o móvel em pedaços. E, de repente, surgiu diante dele um ifrit de grande altura, que exclamou, sacudindo um braço cheio de braceletes: “Levanta para que eu te mate, como mataste a minha bicha!” E o berbere, espantadíssimo, disse: “Como pude matar a tua bicha?” Ao que o ifrit respondeu: “Quando comias as tâmaras, atiraste a mesinha do ikea, que feriu a minha bicha no peito, porque passávamos por aqui, pelos ares, eu a carregá-la. Ela foi atingida e morreu na mesma hora.” O berbere compreendeu que para ele não haveria apelação nem socorro; estendeu as palmas das mãos para o génio e disse: “Sabe, ó grande ifrit, que sou um plagiador nato, e que não passo um dia sem roubar as ideias dos outros, principalmente daqueles que já morreram, isto quando não invento histórias. Tenho muitas leitoras no blog, mas também tenho azar ao jogo e nenhuma sorte no amor. Permite-me, pois, algum tempo, para que eu te possa escrever uma história, a tua prodigiosa história, e assim dar a conhecer ao mundo a tua grandeza. Tens a minha palavra e meu juramento de que será a melhor de todas as histórias, com reis e rainhas, bibliotecas, sementes de chia e caroços de tâmara. Poderás, então, fazer o que quiseres. Alá é a garantia destas palavras!” O ifrit coçou a cabeça pensativo, tinha o dobro do tamanho do berbere e baixou-se, aproximando a sua cara negra da cara de Tagik, que escorria em gotas de suor. E ele então quis saber o motivo do berbere não montar o móvel e o atirar pela janela, e o berbere confessou que se sentia usado pela filha do vizir, a qual lhe encomendava a montagem dos móveis e em troca pagava com massagens. O ifrit soltou uma gargalhada que levantou um turbilhão de poeira, e agarrou por um braço o berbere que tinha os olhos fechados da poeira, levando-o consigo para o jardim encantado, onde se deitou com ele por baixo de um sândalo; e lhe perguntou se ele preferia montar móveis ou ser montado por um ifrit, ao que o berbere começou a chorar e a soluçar como uma moça; e então o ifrit concedeu-lhe o castigo de quatro vidas, e nas quatro o berbere nasceria e morreria sempre o mesmo, com o mesmo nome, e em troca de algumas moedas, contaria a quem o quisesse ouvir, a história do seu estranho caso com ifrit, o génio."



Plagiado d' As mil e uma noites, prólogo.

Makhan in an enchanted garden, embraced by an ifrit. Illustration from an illuminated manuscript of Nizami’s Khamsa. Central Asia, dated 1648, by an anonymous artist from Bukhara

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tutorial

Um destes dias uma amiga reclamou que a tinha induzido em erro com um título que usei. Miette, a migalha em francês, que realmente se assemelha a minete, a prática sexual que consiste em estimular os órgãos sexuais femininos com a boca ou com a língua, que por acaso também vem do francês, minet, gatinho. Gostava de escrever sobre essa sagrada arte do minete, mas depois de dar uma vista de olhos pela bloga, assistir a uns tutoriais feitos por quem sabe, desconfio que a minha experiência é muito limitada... falta-me coordenação e talvez me esteja a concentrar muito num único ponto. Por isso, vou continuar a estudar, e praticar. Dizem que é preciso praticar, e comer iogurtes sem colher. 

Dora et le Minotaure, Picasso, 1936



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

baobás

A cabeça anseia encostar na janela, há uma luta interna entre a metade de mim que deseja adormecer, e a outra que teme não acordar na paragem de casa. As ruas parecem linhas e nelas julgo ver letras a trotarem como gazelas, ágeis, juntam-se numa manada, enfileiradas e sem entender são palavras, compridas, complexas, bisontes imensos, sempre a passo de corrida a par com o autocarro. Estremece o asfalto, pedaços da linha saltam no impacto, gnus cansados terminam o parágrafo. Uma nuvem imensa de poeira assenta sobre o texto. O céu ganha movimento nas asas de um bando de grous com penachos de sílabas, e da terra brotam como embondeiros, gigantescos pontos de exclamação invertidos. Estou de cabeça para baixo, suspenso, e eis que acordo, mesmo antes de adormecer.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

desfasamento


Acordei meio segundo antes do estrépito despertar, já o sol sacudia as sombras foçando inquieto pelas frinchas da janela. Um sabor acre persiste agarrado à língua nos dias que acordo assim, descompassado, meio segundo adiantado. Talvez seja o sabor do não sabor, ou do antes do sabor. Porque estou antes do presente, no tempo que ainda não aconteceu, desfasado, na luz que ainda não é luz, na hora que ainda não é minuto saído dos ponteiros, no dia que ainda vai ser dia. Desliguei o silêncio para admirar a claridade, analisando pela sua intensidade se o dia será soberbo ou mediano. Quando o dia chegar a mim.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

jardas


Tenho três hábitos (maus hábitos 👿 ) que quero mudar, e vinte e um dias para o fazer. Ou duzentos e cinquenta e quatro. Ou mil quinhentos e trinta e nove.

👿Preguiçar durante horas (perder-me no 9gag, youtube e outros sites que me desligam o computador e que por várias razões não vou mencionar aqui)... trocar por:
😇Escrever diariamente, nem que seja sobre as folhas de coca que parecem de louro, mas que a moça disse que eram de coca, mas eu continuo a achar que é louro. Quero uma manta do Yeti. 

início: 20 de Novembro de 2016   fim:17 de Dezembro de 2016 ou 3 de Agosto de 2022


👿Alimentar as máquinas de vending com todos os trocos que arranjo em troca de chocolates, bolos e refrigerantes... mudar para:
😇Cortar relações com as máquinas de vending, a não ser para consumir café ou água. Comer mais fruta (dobro de nada é nada), beber mais água (pode ser na forma de cerveja).

início: 21 de Novembro de 2016    fim:18 de Dezembro de 2016 ou 14 de Maio de 3109


👿Montar móveis do ikea, ou em móveis do ikea depois de os carregar pelas escadas, dois andares, e montar sem recorrer a aparafusadora eléctrica... trocar por:
😇Não montar... móveis. 

início: 13 de Novembro de 2016   fim:3 de Dezembro de 2016 ... mas nã devo aguentar até ao próximo fim-de.semana.




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

zupa

No sábado acordei às onze mumificado no edredão. Foi a fome que me abriu os olhos, o ecoar do ronco do estômago. As temperaturas desceram até aos três e não ultrapassaram os dez ao longo do dia. Não sai. Troquei o almoço pelo jantar, tinha cogumelos portobello e castanhas congeladas. Num tacho deixei alourar em azeite meia cebola, alho e uma cenoura, tudo picado. Dos cogumelos do tamanho da minha mão, cortei apenas meio em pedaços e juntei ao refogado, com uma pitada de orégãos secos. Em simultâneo cozi um punhado de castanhas golpeadas. O cheiro do cogumelo espalhou-se rapidamente, só de pensar cresce saliva na boca. Descasquei e parti em pedaços pequenos duas batatas médias. Quando as juntei ao tacho, adicionei água morna, uma chávena grande. E por último as castanhas, prontas para entrar em cena, nuas, partidas em metades,  para ficarem bem cozidas. Li uns postes, voltei para acrescentar água, lavei a loiça. Quando as batatas estavam tenras, desfiz tudo com a varinha. Temperei com sal e pimenta, um cisco de azeite. Aguentei a baba, ferveu mais um pouco. Devorei.


daqui

domingo, 20 de novembro de 2016

Ilmatecuhtli

Ilmatecuhtli, a criadora das estrelas, anda pela praia de mãos dadas com Iemanjá. Escolhem beijinhos na maré baixa para terminar um colar. Quando me avista, Ilmatecuhtli corre. De manhã é uma criança traquina que me chama Hurican e cria polvos no meu pescoço. Desfaço a bruma em migalhas e alimentamos as anémonas até ao meio dia. Ilmatecuhtlin tem um riso cristalino e tece com ele uma rede de apanhar memórias.  Quando a noite chega, já se fez mulher e trocamos sonhos de abóbora por chuva. Muita chuva, pede a deusa com ternura antes de adormecer. 


daqui

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

miette

Henri estranha-me a cara e pergunta o que tenho. Respondo que é a mesma que usei ontem e de antes de ontem. Não é das mais bonitas, tento dizer-lhe que ainda tenho remelas, mas não sei como se diz. Deixa o que está a fazer e aproxima-se, observa-me de perto, com curiosidade e volta a perguntar o que tenho. Insisto na mesma resposta, passo a mão pela barba. Talvez migalhas de pão. Abana a cabeça em não, e insatisfeito, acrescenta vários nãos ao gesto.




terça-feira, 15 de novembro de 2016

Cthulhu

A viagem é longa e cansativa, mas assim que avisto a imensa mancha de tolina na forma de uma baleia, sinto-me invadido por uma estranha tranquilidade. É como se regressasse ao momento antes de acordar de todos os sonhos, numa súmula espessa e morna, quase opaca. Talvez ainda esteja dentro do sonho, no limite vazio da fronteira, onde a nuvem de Oort se anuncia.
Noto que são poucos os que voltam. Ao meio dia o sol é um ponto no firmamento e a sua luz não é mais forte que a de uma madrugada de inverno. Não há ninguém à minha espera quando saio da estação, nenhuma alminha a segurar o meu nome com erros numa cartolina. A praça de táxis está às moscas. Antes havia aqui um quiosque que vendia jornais para uma semana, mas com a crise fechou.
Apesar da desolação de edifícios vazios, ruas desertas, a vista continua a ser de cortar a respiração. Num céu quase sem cor, Caronte e as outras luas dançam muito próximas, suspensas no espaço. Enquanto que mais a sul, o horizonte é preenchido por uma cordilheira de vales estreitos e picos montanhosos brilhantes, cobertos por neve de metano. 
Dar-te lume aqui era uma tolice.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

undécimo

Quando vinha no autocarro senti uma pontada no ouvido. Uma otite! pensei, afinal também apanho disso, e essa ideia deixou-me com um sorriso verdadeiramente estúpido, mas não durou muito. Fui ver e afinal era só uma borbulha. 
Depois lembrei-me que amanhã é feriado e vou dormir até mais tarde. E o sorriso voltou, seguia a meu lado, pelo caminho, espelhado na janela. O dia da independência da Polónia, recuperado em 1918, no final da primeira guerra mundial. O Dia do Armistício. Na "undécima hora do undécimo dia do undécimo mês".

Gavrilo Princip, o estudante sérvio que assassinou Franz Ferdinand




Já passaram dez dias desde a última vez que a vi. Amanhã é o undécimo.


domingo, 6 de novembro de 2016

Valparaíso

As Helvéticas - Hugo Pratt

sábado, 5 de novembro de 2016

Drivelswigger


ousa é esta que se conta neste relato para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos, trazendo o temor de Deus diante dos olhos, para não quebrar seus Mandamentos. Porque Dona Cuca fidalga mui nobre e boa pirata, crida de toda a tripulação, e nas Caraíbas andou gastando seu tempo e mais de cinquenta mil cruzados em dar de beber a muita gente. Foi em boas comemorações sob o pretexto de um dito congresso, que fez a muitos homens infelizes; por derradeiro todos que a bordo ficaram. Que entre os mais foi um Maltês, guardião da gávea, que me contou isto muito particularmente, que por acerto achei aqui em S. Bartolomeu dos Galelos no ano de dois mil e dezasseis.


E por me parecer história que daria aviso e bom exemplo a todos, escrevi os trabalhos e males desta fidalga e, de toda a sua companhia, para que os homens que andam pelo mar se encomendem continuamente a Deus e a Nossa Senhora, que roga por todos. Ámen.

Partiu deste galeão Cuca Melissa Pamela, que Deus perdoe, para fazer esta desventurada viagem às Caraíbas, a dois de novembro do ano de dezasseis. E partiu tão tarde por ir carregar a mala até ao aeroporto, onde carregou obra de quatro mil e quinhentos quilos, praticamente todo o espólio de bom rum que havia a bordo. E com esta carga se partiu para o dito congresso, deixando a tripulação engalanada no convés, lavada em lágrimas, "esgrimindo com lenços intermináveis acenos". E ainda que a nau dali não se mexia, acostados a menos de uma milha da foz do Arelho, nem por isso deixou de ir sem a deixar entregue ao comando de um saco de pulgas rafeiro, no que se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas de pulguedo.

A três de novembro veio a Capitã haver vista da costa das Caraíbas e dos trinta e dous graus que lá fazia, não sonhando que toda a sua mui crida tripulação lhe encomendara uma surpresa no regresso. Vieram então a bordo sem demora os “cridos mudei o galeão” e seus carpinteiros, serralheiros, electricistas, pedreiros, ladrilhadores, canalizadores, pintores, estucadores e um decorador de interiores. Ter tanto dentro porque havia poucos dias que era partida, e não tardaram muito em ver de novo o chão do convés, a claridade das vigias, a bujarrona cheirando a alfazema, o tombadilho resplandecente. 

Quando os homens terminaram a carranca de uma sereia de belos e redondos seios, e a pregaram na proa com mil cuidados, acharam por bem correr o sabão da quilha para cima, achando por debaixo da pintura negra uma outra encarnada, que fazia pandã com o lenço da Capitã. Mas por causa desta ruim ideia, que foi uma das causas, e a principal, de seu perdimento, porque chegaram do vante à popa sem haver achado por toda a embarcação, o nome de baptismo do galeão...

daqui


Plagiado d' História Trágico-Marítima, prólogo, do caríssimo falecido Bernardo Gomes de Brito.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

moinha

Ao início da tarde Łukasz começou a tossir. Ao primeiro pensei que estava a gozar com Henri e a sua batata corada que exibe com orgulho no lugar do nariz. Desde segunda que está insuportável, dei com ele numa espécie de transe, olhos fechados, dedos enfiados nos ouvidos, a respirar pela boca como um robalo. Solidário, Łukasz começou a perder a voz, camaradagem levada ao extremo, agarrado à cabeça, foi para casa mais cedo. O mês passado foi ao contrário, quem começou a espirrar e gotejar pelo nariz foi o polaco, dois dias depois o francês estava afónico, dores no corpo e muita febre imaginária. Aborreço-me. São dois mariquinhas pé-de-salsa, basta que um apanhe nem que seja uma amostrinha de vírus, três dias depois estão os dois infectados. São tão resistentes como uma folha de alface num cruzeiro em classe económica, repleto de caracóis esfomeados. Fico chateado, como dizia o outro, e sobrecarregado, e como se não bastasse, sem parceiros de copos. E tudo isto para dizer que apesar de hoje ser sexta, continuo de mau humor, sóbrio e saudável.

daqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

klucz


segunda pediu-me as chaves.
fui asno em não ter pedido as minhas de volta também.





terça-feira, 1 de novembro de 2016

usta

A chuva parou a meio da manhã. O homem que tinha perdido as vontades olhava o passeio desde o quinto andar. O asfalto brilhava, repelindo o céu sobre ele mesmo. Era magnífico. Na vertigem cinzenta, o ar gelado trazia-lhe a essência das folhas caídas, os riachos sem margens, a terra adormecida para lá dos limites da cidade. Com o rosto frio, os olhos cheios da claridade, sentiu germinar uma minúscula vontade, pouco perceptível, um rebento insignificante, mas suficiente para regurgitar num grito um desgosto.

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