sábado, 26 de novembro de 2016

Ifrit

ou “O estranho caso de Tagik, o berbere contador de histórias”

e ao virar a primeira página ficou suspenso nas linhas do prólogo, encantado pelo movimento das palavras que ecoavam nos labirínticos corredores da biblioteca. Diz-se que o rei nunca mais viu a luz do sol, nunca mais regressou à sua terra, ou beijou os doces lábios da sua esposa. Enfeitiçado pelo conto, perseguiu as palavras sem descanso, sentado naquele canto esquecido, bebendo a humidade da parede norte, sobreviveu até ao último capítulo com teias de aranha no estômago. Há quem diga que ainda hoje a biblioteca é assombrada pelo espírito deambulante do rei, desaparecido nas páginas de um imenso livro de capa vermelha. E se escutarmos com atenção, para lá do murmúrio do vento, é possível ouvir na voz pausada e grave do rei a seguinte história: 
“Conta-se – mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom – que, num tempo antigo e distante, numa terra abençoada de prados, havia um berbere contador de histórias que nasceu quatro vezes. O seu nome era Tagik. Um dia foi-lhe pedido que montasse uma mesinha nordli seguindo as instruções em polaco, mas sem ferramentas apropriadas, sentou-se para descansar e, metendo a mão no alforje, tirou dali um lanche, bem como tâmaras. Quando terminou de comer as tâmaras, guardou os caroços que dão sorte e atirou pela janela as instruções, as chaves foleiras e depois o móvel em pedaços. E, de repente, surgiu diante dele um ifrit de grande altura, que exclamou, sacudindo um braço cheio de braceletes: “Levanta para que eu te mate, como mataste a minha bicha!” E o berbere, espantadíssimo, disse: “Como pude matar a tua bicha?” Ao que o ifrit respondeu: “Quando comias as tâmaras, atiraste a mesinha do ikea, que feriu a minha bicha no peito, porque passávamos por aqui, pelos ares, eu a carregá-la. Ela foi atingida e morreu na mesma hora.” O berbere compreendeu que para ele não haveria apelação nem socorro; estendeu as palmas das mãos para o génio e disse: “Sabe, ó grande ifrit, que sou um plagiador nato, e que não passo um dia sem roubar as ideias dos outros, principalmente daqueles que já morreram, isto quando não invento histórias. Tenho muitas leitoras no blog, mas também tenho azar ao jogo e nenhuma sorte no amor. Permite-me, pois, algum tempo, para que eu te possa escrever uma história, a tua prodigiosa história, e assim dar a conhecer ao mundo a tua grandeza. Tens a minha palavra e meu juramento de que será a melhor de todas as histórias, com reis e rainhas, bibliotecas, sementes de chia e caroços de tâmara. Poderás, então, fazer o que quiseres. Alá é a garantia destas palavras!” O ifrit coçou a cabeça pensativo, tinha o dobro do tamanho do berbere e baixou-se, aproximando a sua cara negra da cara de Tagik, que escorria em gotas de suor. E ele então quis saber o motivo do berbere não montar o móvel e o atirar pela janela, e o berbere confessou que se sentia usado pela filha do vizir, a qual lhe encomendava a montagem dos móveis e em troca pagava com massagens. O ifrit soltou uma gargalhada que levantou um turbilhão de poeira, e agarrou por um braço o berbere que tinha os olhos fechados da poeira, levando-o consigo para o jardim encantado, onde se deitou com ele por baixo de um sândalo; e lhe perguntou se ele preferia montar móveis ou ser montado por um ifrit, ao que o berbere começou a chorar e a soluçar como uma moça; e então o ifrit concedeu-lhe o castigo de quatro vidas, e nas quatro o berbere nasceria e morreria sempre o mesmo, com o mesmo nome, e em troca de algumas moedas, contaria a quem o quisesse ouvir, a história do seu estranho caso com ifrit, o génio."



Plagiado d' As mil e uma noites, prólogo.

Makhan in an enchanted garden, embraced by an ifrit. Illustration from an illuminated manuscript of Nizami’s Khamsa. Central Asia, dated 1648, by an anonymous artist from Bukhara

11 comentários:

  1. Caramba, cigano! Vales o teu peso em moedas de ouro. Até estou emocionada!

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    1. E vai uma, e vai duas... vendido àquela senhora de pala e cachimbo!
      Foi como sempre, um prazer :)

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  2. :) Fantástico, manda para cá o ifrit, preciso de uma vida extra :)

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    1. tu queres que ele te deite por debaixo de um sândalo?

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  3. Muito bom! Só não sei se a minha rainha merecia não mais ver o seu rei.

    Beijocas, Stormy boy :)

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    1. embrulharam tanto o enredo que só me restou fazer cheque ao rei :)
      beijos Tutu, quem deixa uma rainha para trás, nã merece salvação!

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    2. A tua rainha merece uma estória só para ela.

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  4. ainda bem que és fraco na arte do post anterior. aperfeiçoas a escrita :)

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  5. :)))... Bom demais, Manel!Bom demais.

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