quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

translação



Todos os anos sucede mais ou menos o mesmo, sinto-me perfeitamente desenquadrado, como se alguém me tivesse deixado entrar de pijama numa festa de smoking. E nunca penso nisso até às vésperas, quando os votos começam a cair, vou macaqueando sem grande imaginação, mas juro, é isento de maldade. Era de esperar que surgisse naturalmente, como as conversas sobre o tempo, … dias frios, sinto-me capaz de escrever uma tese sobre eles. Mas esta coisa do novo, do que ainda não aconteceu, isto pode ser contagiante e já vi muita boa gente cometer a loucura de estabelecerem metas olímpicas, depois de emborcarem uma dúzia de passas e quase morrerem entaladas. É mais um dia no paraíso, trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas, até ao fim de uma rotação em torno do sol que não é mais que o início de outra, e lá voltamos, gira o disco e toca o mesmo à mítica e vertiginosa velocidade de cento e oito quilómetros por hora pelo espaço…






uso o bom ou o feliz?


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

indulto

E se te dissesse de uma vez tudo o que tive coragem de calar? Não estavam mortas agora essas palavras, sacudidas em nuvens de poeira, penduradas pelos pés como as árvores. Nem sei se te abracei, estava frio, mas penso que não te abracei, as palavras foram caindo escorregadias, selando a desilusão nos lábios.

E se substituísse todas as palavras que escrevi por outras... ou pelas mesmas, já muito gastas e remendadas, mas dispostas de outra maneira? Aposto que numa noite conseguia recriar todos os meus passos sem que isso me levasse a lado nenhum, ou me desse um pouco mais de conforto. 

Dormir, isso sim, é algo maravilhoso.


sábado, 27 de dezembro de 2014

assonia



Os sonhos nas noites longas são como a roupa de inverno, demasiado volumosos para caberem nas gavetas do costume...


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

gula

Na estreiteza redonda da mesa, os pedidos acumularam-se em pequenas taças com pouca variedade. Uma salada média com três garfos fora colocada ao centro, depois a ladear meia de batatas cortadas em gomos com aparência crocante, uma de falafel de grão e outra taça com um aspecto semelhante, de bolas panadas do tamanho de uma dentada, mas recheadas com carne, ou a saberem a carne. É só isto, perguntaram, mas a empregada de mesa respondeu apressadamente que os pedidos estavam demorados, voltando rapidamente as costas deslizando sem harmonia para o interior da cozinha.
O meu estômago ressoava, tínhamos levado cerca de dez minutos a escolher, Péter encomendou um menu de cada para experimentarmos. Entretanto tinha passado uma hora e o restaurante enchera, e na mesa estava uma salada com três garfos, as batatas e duas taças das tais bolas, tudo acompanhado de molhos diferentes. Comecei pelas batatas, deixando que os outros batalhassem pela salada. São boas, perguntaram, menti torcendo a cara mas como não parava de as comer, assim que puderam precipitaram-se sobre elas, ou do que delas restava. Não provei a salada, as batatas eram realmente boas, ligeiramente picantes, pareciam caramelizadas. O falafel não tinha grande sabor, faltava-lhe sal e como era seco, obrigava-me a beber mais para o conseguir empurrar. Com todas as mesas preenchidas, as empregadas já nem olhavam, passando só por necessidade na proximidade, em que esticávamos os braços para lhes implorar mais um copo de cerveja e o resto da comida.
Na eminencia de desistir do resto do pedido, pousaram na mesa mais uma dose do que parecia ser outra vez falafel, desta vez acompanhado de duas taças com batatas fritas triangulares, umas bem mais picantes que as outras. As batatas compensavam a espera e enquanto estive entretido, esqueci que praticamente só comera batatas e que o copo estava vazio. O bolchevista irritado com a falta de bebida, levantou-se, instigando as tropas a desertarem, mas Péter puxou-o pelo braço persuadindo o russo com a promessa que já faltava pouco, que o melhor estava para vir. E tinha razão, faltava pouco, ainda o bolchevista não se tinha voltado a sentar e a música subia de volume, calando as conversas avulso, encaminhando a atenção para um pequeno palco iluminado. Pelo meio das mesas surgia do ar uma dançarina de rosto tapado, gingando descalça ao ritmo da música. Sem me aperceber, estávamos na primeira fila de mesas diante do palco, muito próximos para poder apreciar todas as formas generosas que a dançarina voluptuosamente não cobrira. Mas eu tinha fome, e enquanto todos olhavam embasbacados, continuava a petiscar as batatas, alheio ao ventre que se contorcia a pouco metros da minha cara.
Não encontro explicação plausível para o que aconteceu de seguida, talvez fosse do fumo que subia de várias mesas onde se fumava shisha, ou das especiarias que condimentavam os pratos, a plateia hipnotizada no perfeito umbigo da dançarina do ventre, pareciam estátuas sentadas em poltronas, esparvoadas, envoltas numa bruma. Continuei a comer, imune ao encantamento geral, e nem dei conta que ela descera do palco, decidida a dar-me uma lição. Foi tudo muito rápido, no meu estado normal nunca teria feito o que fiz, mas tenho a certeza que não estava em mim, foi aquela comida, o pecado errado.
Ela irritada por não lhe estar a prestar atenção, tirou-me da frente a taça com as poucas batatas triangulares que restavam, mantendo os movimentos ondulantes da dança, levantou-a bem alto fora do meu alcance. A plateia ria, mas eu não lhe achei piada nenhuma, estava obcecado com as batatas, levantei-me com rapidez por pouco não lhe pisei os dedos, ainda tentou desviar-se, mas com facilidade esvaziei a taça com a mão, enfiando as batatas de uma só vez na boca. Não imagino a minha figura, mas dizem que estava muito próximo de um babuíno. O público ainda riu mais alto, pensando que tudo fazia parte da actuação, ela desandou pelas outras mesas, olhando ocasionalmente para mim com ar de reprovação. Ainda havia outra taça com alguns restos, não eram tao boas, mas estava disposto a continuar o jogo. Ela voltou, desta vez para puxar Péter para o palco, onde desajeitadamente o húngaro tentava imitar os seus movimentos. As batatas chegavam ao fim, ela devolvia o húngaro ao seu sítio, vermelho como um pimento, de marrafa desalinha e sorriso parvo, levando com ela outro espectador ansioso.
Despediu-se com várias vénias, alguns aplaudiram de pé, Péter era um deles. Consegui mais uma cerveja que bebi em dois tragos, estava farto de ali estar, mas o meu exército queria permanecer entrincheirado, ansiosos por conhecerem o inimigo. Paguei na senhora do sarcófago e sai para o frio onde o ar era respirável. Já havia pouca gente naquela zona da cidade, encostei-me ao carro e esperei pela boleia, vendo sair os grupos aos tropeções. Finalmente o húngaro apareceu com o bolchevista, e com eles vinha a dançarina, mais tapada e de saltos altos, acompanhada por outra rapariga.
Vais ter de ir táxi ou a pé. Disse o húngaro. Só tenho lugar para quatro.
Cabemos os cinco. Resmunguei, acrescentando uma asneira qualquer.
É possível, mas ela diz que só vai se tu não fores…  E eu gosto mais dela!




sábado, 20 de dezembro de 2014

mintaka

A noite apressou-se gelada sobre a tarde, varrendo inelutável os últimos resquícios luminosos de dia. Nas sombras das copas nuas, uma aragem de nordeste roçava as folhas caídas, empurrando até à clareira um manto esparso de nuvens. Deixei-me sentado no frio, esperando paciente a chegada das três Marias, alinhadas no centro da constelação de Orion. Aprendera com ela os nomes, deitados numa noite sem lua em cama de erva crescida, mas das que constituíam o cinto do caçador, só Mintaka sobrevivera aos dias. O céu continuava idêntico, imutável sobre nós, correndo o escorpião atrás do caçador e do seu cão pelo firmamento, sem nunca o alcançar. Podíamos ter sido assim, constelações opostas cruzando os céus, mas a vida é lacónica e desesperadamente seguimos o afastamento de dias passados, terras estranhas de permeio, crescendo a distância na medida do que se perde na memória. Ontem um nome de estrela, hoje um beijo mais ardente na reentrância de uma tarde. E lembro-me, ou tento lembrar-me de cada fragmento, encostada a um freixo já velho, de corpo lânguido escorrendo sobre a casca, o cabelo solto por onde meus dedos passearam, galgando a morna e tremente pele coberta e na boca o desejo esperando, sem pressa que a noite tem dono. Lentamente, como o papel que se desfaz na água, a memória do seu riso, do seu cheiro, de cada palavra dita fervendo de amor, desvanecendo num rio de esquecimento.

Se olhasse para oeste, talvez ainda conseguisse um vislumbre de escorpião a desaparecer no horizonte. 

video

sábado, 15 de novembro de 2014

animus

A minha alma tem a forma de um cão de pêlo curto e muito negro. É grande, mas magra, e um destes dias passou por mim à chuva, de olhos postos no chão. O pêlo estava encharcado, e não lhe vi o olhar porque ia amparado na rua, seguindo talvez um caminho no cheiro. A minha alma passou com pressa, mudando à frente de passeio, subindo rápido por um beco. Pensei segui-la, hesitei no semáforo, um carro buzinou e quem estava por perto olhou quebrando a monotonia do tempo. Deixei-a ir.


domingo, 2 de novembro de 2014

sepulcro



... ou a sexta e última parte... ou o fim da espera (para quem estava sentado). 

Se era fácil levá-lo aquele estado, o mesmo não se podia dizer do contrário. Valia-lhe o facto de se encontrar de bruços, mas por quanto tempo permaneceria naquela posição? A massagem estaria a chegar ao fim, e provavelmente sairia, dando-lhe alguma privacidade para voltar à sua roupa cinzenta e sem goma. Mas e se ela não saísse, ou pior ainda, e se ela lhe pedisse para se colocar de barriga para cima? Que vergonha! Sentia de novo a pele a corar, precisava concentrar-se em algo desagradável rapidamente. Primeiro pensou nas meias e como teria de as calçar ainda húmidas, depois lembrou-se do seu chefe, um individuo baixo que quando caminhava movia exageradamente os braços ao longo do corpo, parecendo um soldadinho de chumbo com a camisa sempre mal ajambrada e manchada com círculos de suor. Era um ser insuportavelmente controlador e nojento, que mantinha vigilância apertada sobre todos os gastos do escritório, implicando dia sim, dia não, com o número de clips tamanho quatro usados por mês só naquele sector. Mas o que mais o irritava nem eram essas implicações, ele próprio era um pouco implicativo, e compreendia que era necessário algum domínio sobre os gastos. O que o deixava mesmo piurso era o facto do chefe usar o termo “símios” quando se referia aos outros colaboradores. Não teria ele espelho em casa? pensou. 

A táctica adoptada pelo homem que ansiava que a massagem chegasse ao fim, até estava a resultar, não fossem os movimentos de subida e descida, agora na outra perna, atirarem-no de volta ao ponto de rebuçado. Que maldição, pensou e nisto ouviu o que parecia ser o toque ininterrupto do seu telemóvel, a zumbir o Für Elise polifónico. 
Sempre que escuto isto, imagino Mozart a rodar no seu humilde sepulcro. 

E agora, como é que ia atender, esquecera de desligar o som, e ainda por cima estava com o volume no máximo, e sem sinais de que iriam desistir. A massagista loira manteve com toda a calma o sorriso, prontificando-se para lhe chegar o engenho, apesar daquela situação a irritar tanto como a mim, narrador. O homem concordou, naquele momento ainda não era seguro deixar a posição de bruços, e orientou a senhora para o bolso direito, esquecendo a meia húmida que lá enfiara. O Für Elise entretanto calou-se, e a senhora convertia o sorriso por uma expressão enigmática, olhando depois com pouca satisfação para a meia, meia empapada, que acabara de tirar do bolso. E assim se foi o tesão.




sábado, 1 de novembro de 2014

enrijar



Depressa a noite varreu os restos do dia dispersos pelo céu nublado, havia cada vez menos pessoas na rua, passos rápidos orientavam guarda-chuvas abertos, distorcidos pela iluminação fraca que incidia nos passeios molhados. 


Era nisto que pensava sentado na mesa, quando a senhora loira que ele julgava ser apenas a recepcionista, entrou arregaçando as mangas da bata. Fez-se escarlate mas ela não notou, ou se notou não mencionou. Deitou-se de bruços encaixando a cabeça no orifício da mesa e ela acomodou os diversos turcos por cima, de forma a cobrirem-lhe todo o corpo com excepção da cabeça e início dos ombros. Era confortável como imaginara, mas mais limpo e perfumado do que idealizara. Ouvia-a encher as mãos com o que supostamente seria óleo de massagens e de seguida destapou o turco maior que lhe cobria as omoplatas até ao fim das costas e começou a massajá-lo, primeiro muito suave, mantendo sempre o contacto com uma das mãos, num contínuo vai e vem através dos ossos da coluna. O homem que ansiava tudo e ao mesmo tempo nada, estava hirto como um pau, desabituado ao toque, parecia que a pele estava prestes a estalar de vermelha e tensa. 
“Tente não pensar em nada” sussurrou a mulher loira, unindo as mãos na base do pescoço do homem, partindo dali para os ombros retesados.
Não pensar em nada! Curiosamente era isso que o homem estava a conseguir fazer, não pensar em nada, mas a partir do momento em que ela mencionara, tudo voltava. Pelo menos era o que ele pensava. Voltou a concentrar-se em sentir as extremidades dos dedos da massagista, da proximidade do seu corpo, que por vezes roçava inadvertidamente a sua mão voltada de palma para cima, tapada pelo turco, mas ainda assim, consciente. 

A massagista demorou-se mais do que o normal em volta dos ombros, estavam tensos, carregados de nódulos. É curioso o que o corpo de uma pessoa nos pode dizer sem que abra a boca, pensava a mulher loira, orientando agora a sua atenção para os membros inferiores do homem. Um médico legista poderia dizer muito mais, mas ela só de lhe tocar através da pele, sentindo os nervos, calosidades e nódulos, tendões e ossos, adivinhava os anseios diários daquele homem. 

Com o punho fechado, fazia deslizar com alguma pressão os nós dos dedos contra a superfície plantar do pé, rodando o punho desde a base dos dedos até ao calcanhar, fazendo com que o homem não controlasse a saliva que lhe escorria num fio junto ao lábio, de tão relaxado que estava. Depois puxou cada um dos dedos com alguma força, enrolando-os numa ponta da toalha. Parecia magia, as dores que sentira até aquele momento, extinguiam-se dando lugar a uma sensação de relaxamento. Mas assim que as mãos deslizaram pela perna acima, parando na iminência da virilha, estremeceu sem controlo da convergência do sangue que aflorava para aquela área, originando um enrijar embaraçoso do órgão sexual.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

rubicundo



O homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, sofria de uma estranha condição de fobia social. Assim que se despia na presença de estranhos, um súbito afluxo de sangue corava-lhe não só o rosto, mas também o torso. Um fenómeno raro descrito pela primeira vez por um dermatologista que fez questão de o observar minuciosamente com uma enorme lupa, reparando nessa mobilização do sangue que não atendia a nenhuma necessidade fisiológica. É provável que tenha sido este sinal constrangedor que o safou do serviço militar, mas lembrava-se de pouco, ou esquecera muito. Passou para a sala seguinte, a vista era idêntica, mas agora a meio sobressaia uma mesa de massagens. No canto mais afastado da janela, havia uma cadeira onde deixou a roupa impecavelmente dobrada, ficando apenas de boxers e meias. Sentia o calor aflorar-lhe, o coração batia mais ligeiro e na testa formava-se uma goteira, em segundos ia parecer um camarão demasiado cozido ou um inglês que adormeceu na praia. Tirou as meias e enfiou-as no bolso do casaco, estavam de tal modo húmidas, que desenhara no tatami duas formas estranhas ressoadas, muito parecidas com feijões. Sentou-se na mesa junto ao monte ordenado de turcos negros, uma música suave enchia a sala, talvez fossem cânticos, sentia-se mais calmo, mas podia ser do incenso. 


sábado, 11 de outubro de 2014

meiguices

Atravessou as inúmeras divisórias como fazia num dia qualquer, cumprimentando à medida que passava com o habitual “bom dia” distribuído equitativamente pelos colegas, segurando o sorriso amarelo até ao cubículo onde desaparecia, para só voltar a ser visto à hora do almoço, distribuindo da mesma forma “boa tarde”, segurando o mesmíssimo tom enjoado nos lábios. Não suportava as conversas de circunstância, não tinha paciência nem tempo para esbanjar com o que ele considerava de gentinha, onde incluía, grosso modo, os colegas, vizinhos e grande parte da família, em especial o lado paterno. Eventualmente surgiam excepções, e a mulher que nunca queria que o amanhã chegasse era uma dessas raras pessoas que conseguia extrair um sorriso sincero ao homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois.
Bizarra combinação.
Fora ela que sugerira a massagem como presente de aniversário, e se antes já via nela algo mais que uma “pessoinha”, agora que ali estava deitado de bruços mal segurando a saliva na boca, achava que realmente ela era um ser excepcional, e que tinha de a compensar de algum modo por aquela brilhante ideia.
Nada tinha acontecido como previra, assim que a porta do lado norte do estreito patamar do oitavo andar, se abriu, uma senhora que teria sensivelmente a sua idade convidou-o a entrar, usando mais gestos que palavras, mas de um jeito muito tranquilo e pacífico, até diria hipnotizante. Irradiava de forma estranha uma luz, um calor, mas talvez fosse por ser loira, e simultaneamente a pele ser muito branca, mas um branco bonito, não o tom pálido do homem que ansiava constantemente o futuro.
A porta de entrada abria para um hall estreito mas comprido que servia todas as divisões do apartamento. Estava levemente iluminado com candeeiros espalhados, tornando o ambiente acolhedor e simultaneamente intimo, perfumado com chá e flores que decoravam um dos cantos. Entraram numa sala com vista para a rua, dominada por uma grande secretária com duas cadeiras, e nas paredes posters de corpos ou partes, vistos de frente ou de dorso, legendados numa língua estranha.
Lá fora as pessoas moviam-se como insectos mudos, tinha parado de chover.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

malogrado

... ou a continuação de um mau dia!

Diante da porta trocou o guarda-chuva de mão, molhando a ponta dos sapatos, para consultar mais uma vez o relógio rodando o pulso, suspirando por se encontrar em cima da hora. Passou de novo o guarda-chuva para a mão esquerda e preparava-se para tocar novamente à campainha, tinha decidido que só tocaria mais uma vez, duas era suficiente. Se ao fim de tocar duas vezes ninguém surgisse, então era porque se tinha enganado, se calhar tinha confundido a hora, ou o dia, ou estava diante da porta errada, podia também ter trocado o andar, ou mesmo o prédio, a rua podia não ser aquela, porque ali naquela zona da cidade as ruas eram todas muito parecidas com os seus prédios altos, todos muito idênticos, levantados em torno de um pátio amplo ajardinado.
Mas como é que se tinha enganado no dia? Estava marcado no calendário, tinha feito um enorme círculo, e a hora tinha sido confirmada por mensagem. Agora sentia-se um pouco ridículo, a etiqueta da roupa interior nova incomodava-o, tinha-se dado ao trabalho de a comprar uns dias antes, só não planeara a chuva naquela altura do ano, era possível que as meias estivessem ligeiramente suadas por ter de caminhar rápido. Mas naquele momento era indiferente, já não se ia descalçar, tinha gasto vários dias a imaginar como ia ser, para nada. Por um lado sentia-se satisfeito por não ter de lidar com uma situação que o deixava muito constrangido, mas por outro sentia-se desapontado.
Mas que raio de ideia teria passado na cabeça da colega para sugerir darem-lhe de presente de aniversário um voucher de massagem? Nunca se imaginara antes nessa situação, e passou duas semanas a lidar com isso, e depois mais duas a ensaiar as possíveis conversas que teria com o massagista, e consultou o que havia para consultar sobre os diferentes tipos de massagens na internet, embora o voucher só lhe permitisse a massagem de relaxamento, e por fim mais uma semana a programar a compra da roupa interior. Ali diante da porta, o homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, já tinha imaginado antecipadamente o interior do apartamento, e cheirava-lhe a humidade e mofo, comida requentada, e as toalhas de tanto uso eram de um branco cinzento.
Já que ali estava, pelo menos tocaria mais uma vez à campainha, era o que tinha estipulado assim que pisou o tapete, mas no preciso momento em que encostou os dedos sem chegar a pressionar o pequeno interruptor, ouviu a fechadura rodar no interior do apartamento.


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

massagem

O homem pálido que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, ajeitou o cabelo da imagem que pensava não ser sua, desgrenhada pelo vento carregado de chuva. Confirmou estar adiantado olhando pela quarta vez a lentidão do ponteiro no pulso. O elevador parou no oitavo andar e abriu as portas silenciosamente, depositando o homem num patamar estreito e mal iluminado, típico do início dos anos oitenta. Observou a discrepância que havia entre a entrada do edifício e o próprio elevador, e aquele patamar com pouca luz e paredes cinzentas, era como se viajasse através do tempo, retorcendo três décadas na moderna cápsula que ascendia ao oitavo piso, forrada a inox e espelhos.
O elevador desceu vazio, e esse era o único ruído que repercutia no prédio, tornando-se distante à medida que atravessava os andares. Em cada extremo do patamar havia uma porta, ambas idênticas, com uma placa branca noutro material onde se podia ler qualquer coisa que o homem não entendia. Hesitou perante o silêncio, não se ouviam passos, nem vozes, não havia um televisor ligado ou um relato na rádio, como se ambas as casas estivessem vazias, mas ele tinha hora marcada, em qual é que não tinha a certeza. Optou então por tocar à campainha da que tinha uma dúzia de caracteres chineses por duas linhas na placa branca, ao seu lado o guarda-chuva pingava no tapete.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Yùnqì

O empregado recolheu o prato onde metade da comida estava intacta, a deslizar entre o yakisoba mal se distinguia um cabelo demasiado longo para lhe pertencer. Ficou perturbado e sem sobremesa ou reclamação, pediu a conta. O empregado sempre calado voltou com um pratinho onde oscilava um bolinho da sorte com o habitual talão da conta por baixo. Nunca abria o bolinho da sorte, acreditava demasiado na sorte para a receber depois do jantar dentro de um biscoito de farinha. Retirou uma nota da carteira e esperou pelo troco, incomodado pelo olhar que a cozinheira lhe pudesse atirar, lá por detrás do balcão. Ponderava se voltaria, era dos poucos sítios tranquilos para jantar, sem televisão e com toalhas de pano que não picavam os braços. Voltou a levantar a cabeça em direcção à cozinha, precisava de arranjar algo com que se entreter enquanto o empregado calado não voltava com o troco, então sem reflectir abriu a embalagem de plástico inchada e estalou a meio o bolinho da sorte, saltando do seu interior um pequeno papel enrolado. Olhou em volta, o restaurante estava praticamente vazio, para além de duas moscas a circular no centro da sala, havia um casal de jovens junto à janela que entrelaçavam os pés e os dedos ao longo da mesa. Mirou com receio o papel enrolado, pegando-o com estranheza. As letras eram demasiado pequenas para o cansaço dos olhos e pouca iluminação da sala, apareciam-lhe juntas num traço indistinto negro. Procurou os óculos no bolso do casaco, pendurado nas costas da cadeira, primeiro no esquerdo depois no direito. Esticou o papel segurando-o pelas extremidades, mas o empregado voltava, de olhos sempre baixos e um sorriso educado, deixando na mesa o troco e um tímido obrigado. Disfarçou desastradamente o interesse na sorte, amarfanhando o papel na mão e rapidamente  arrumou o troco no bolso sem deixar gorjeta, pegou no casaco e saiu com pressa para lado nenhum.



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

rociar

O homem que ansiava fechar os olhos e acordar uma semana depois, aparava as unhas rente à carne, empilhando num montículo simétrico as pontas córneas encurvadas. Sentia o suor aflorar-lhe em cada círculo da impressão digital, pressionando com extremo cuidado para os dedos não fugirem. Quando terminou o mindinho da mão direita, tinha a testa coberta de pequenas gotículas suspensas que limpou à manga curta esbambeada da camisa, unindo por aderência os noventa por cento de algodão e outra fibra qualquer, ensopando o tecido. Olhou-se ao espelho e pareceu mais pálido do que o habitual, efeito da ausência da barba escura atapetando o rosto esbranquiçado, onde sobressaia o ponto de sangue seco no canto da boca, e as olheiras caídas dos olhos, assombrando ainda mais a sua figura.
Precisava comprar lâminas novas, ou acabaria por cortar não só o canto da boca, mas todo o rosto da próxima vez que resolvesse revogar a barba. Também precisava de dormir, mas isso não podia incluir na lista de compras, se fosse assim tão simples já teria feito um desvio pelo supermercado.


"Man in a boat" de Ron Mueck

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

rescisório

-Bom dia, eu queria um impresso para rescindir…
-Rescindir como assim?
-Não quero continuar, não está a funcionar em condições por isso é melhor rescindir…
-Mas tem contractos?
-Sim, mas não sai nada desde o mês passado, por isso acho que posso rescindir…
-Mas não é assim que funciona, tem de se esforçar, não depende só …
-Ouça... Não vale a pena, já tentei mas só dá para aumentar a azia… dê-me um impresso se não se importa!
-Sabe que tem de fazer a devolução do equipamento…
-Trouxe as penas comigo, está aqui tudo direitinho, na embalagem original e tudo!
-… e também é preciso preencher os anexos, quantas musas vai despedir?




sexta-feira, 5 de setembro de 2014

treso

Avezada a ressolanas, secava-se-me a veia por mode de alguma aflição no peito, findos estavam os dias de estio. Nem S. Barão em romaria pelos campos, nem de arreatas certas no lombo havia ela agora de se escoar, deixando-me desmorcido sem funda que pudesse pela mansa tarde contemplar. Continuemos... irra.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

babo

E porque ando com preguiça e ela é a mãe de todos os vícios, descobri que se bater 4 claras em castelo e misturar uma lata de leite condensado cozido com as gemas já batidas, mexer tudo muito bem e depois incorporar as claras em castelo e aguentar sem comer tudo naquele minuto e levar ao frigorífico durante umas horas... é de babar! 

gosto pra lá de muito das coisas simples...

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

cesto

Estive sem computador quase uma semana por motivos técnicos alheios ao seu utilizador. Houve logo quem me acusasse de visualizar demasiada pornografia de má qualidade, sorte é que o técnico informático a quem deixei o meu precioso portátil supostamente infectado, era homem e mesmo que não seja verdade, todos os homens são propícios à visualização de conteúdos pornográficos, logo não houve qualquer constrangimento. Lembro-me quando era miúdo a pornografia ser algo muito difícil de obter, mas essencial, não havia internet, as revistas eram caras e só os adultos as compravam, eram raros os filmes a passar na tv, mas misteriosamente ela aparecia, ou em pequenos livros, alguns com desenhos bastante grosseiros e cómicos, e eventualmente páginas de revistas rasgadas rolavam clandestinamente no intervalo das aulas, e um gajo ficava a saber com o que esperar quando tivesse de explorar por debaixo daquela camisola de gola alta justa que a Bela usava. Já não me recordo se foi uma festa de aniversário, o que aconteceu é que toda a turma foi convidada para passar o dia na casa da Guida, se para alguns terá sido a melhor festa de que houve memória porque nunca tinham estado numa casa grande com piscina, para mim o que guardei foi a estranha descoberta na casa de banho do andar de cima, onde junto à sanita existia um cesto cheio de revistas com mulheres nuas. Nunca tinha estado com uma revista inteira nas mãos, e mesmo às vezes as páginas arrancadas eram partilhadas por trinta olhos, quanto mais um cesto cheio delas. Pasmem-se senhoras, não lhes toquei, por ventura nesse dia terá tombado algum santo, mas não me pareceu apropriado bisbilhotar a pornografia de outra pessoa, para mim aquilo era pessoal, bizarro estar ali à mão de semear, algo que eu sempre escondi, mesmo quando vivi sozinho. Curiosamente voltei a cruzar-me com o dono do cesto e a sua esposa vários anos depois, num funeral, e a ideia dele sentado na sanita, calças amarfanhadas junto aos pés com os óculos descaídos no nariz a desfolhar pornografia, assaltou-me o pensamento e desde então nunca mais comprei revistas.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

charola

O povo havia subido em massa ao adro da igreja para acompanhar a saída dos santos. As ruas mantinham-se enfeitadas de serradura colorida e flores, alguns verdes dos quintais carregados de varejas onde se erguiam miragens quentes, esperando desde a aurora a passagem do andor. Os acólitos de opas claras bufavam vermelhos de sufoco ainda a procissão estava na roda da igreja, por ordem os santos eram descidos e precipitavam-se para o exterior. Por momentos os altifalantes suspenderam os anúncios amadores, solicitando a participação de um homem para carregar o andor de nossa senhora de Fátima. Podias ir. Disse a moça entediada na tarde. Nem sequer sou católico. Respondeu o homem que enrolava um cigarro na sombra. Eles não sabem. Insistiu a moça que estava menos enfadada. Porque não vais tu. Sugeriu o homem que agora acendia o cigarro protegendo a chama com a palma. Só podem ir homens fortes, o andor é pesado. Respondeu a moça tentando aliciar o homem pelo elogio. Dos altifalantes voltava a ressoar a mesma voz, voluntários precisam-se. Se fores…, disse a moça e aproximou-se do ouvido do homem para lhe sussurrar a última parte da proposta. O homem sorriu pisando o cigarro e dirigiu-se apressado para o adro.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Stern

Mach es wie die Sonnenuhr, zähl die heitren Stunden nur.* 

*provérbio alemão: Faça como o relógio de sol, conte apenas as horas alegres...

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

tordos

Temperou os bifes de frango com o que havia por ali, achei arriscado a malagueta cortada fina, quase estive para o interromper quando espremeu meio limão e barrou tudo com pasta de alho. Depois passou por ovo e numa tábua coberta com pão ralado, martelou os bifes usando o punho fechado, até ficarem completamente panados e espalmados. Confesso que até eu estava espantado com a técnica e enquanto a estrangeira controlava a fritura, o Maltês continuava a dar show. Preparou um refogado com azeite de terras lusas, adicionou-lhe uma cenoura e meio chouriço cortados em pequenos cubos, arroz q.b. sem parar de mexer, até o doce aroma translúcido da cebola dispersar e ligar os restantes ingredientes. Até parecia que sabia o que estava a fazer sob o olhar atento da assistente estrangeira, aspirava o sabor provando o cheiro, antes de atestar de água morna e uma pitada de sal. Quando fechou o tacho, admito que já estava rendido e os convidados sentados e famintos.
Gostava de saber de quem foi a ideia, mas até aposto que o Maltês esperto como é, ofereceu uma garrafa de azeite à estrangeira, e daí até se prestar para cozinhar algo típico foi um saltinho. E elas caem que nem tordos, julgam que ele está a ser simpático e cordial, à medida que se torna um especialista em pratos rápidos e mais ou menos tradicionais, também apura a suprema técnica de engate.

Quando meteu à boca a primeira garfada de arroz, a estrangeira da blusa com andorinhas julgou estar apaixonada pela simplicidade e todos sentados à mesa repararam como corou. No entanto a causa permanece um mistério e até ao momento carece de confirmação, mas há quem diga que enrubesceu porque imaginou o Maltês só de avental esforçado em frente ao fogão. Cá para mim foi o tempero, efeitos do calor da malagueta a dançar na língua, a persistir queimar e espalhar por todo o corpo. Alguém se esticou sobre a mesa para lhe encher o copo, mas eu já estava de saída.
Escandalosamente fácil é o que vos digo.     


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

subclávia

Divorciei-me faz este mês oito anos e parece que foi ontem, no entanto não me lembro em que dia foi, só que foi em Agosto. Não planeamos férias nesse ano mas em Julho ela fez-me as malas, só as minhas, e no mês seguinte tratamos de oficializar a coisa. Estranhamente não atirou com a roupa pela janela como se vê nos filmes, nem atolou a mala de vagas tempestuosas enroladas, desocupando numa maré o roupeiro. Quando a ressaca abrandou, descobri contido numa mala um mar pacífico de camisas e calças engomadas, meias casadas e dobradas.
Há momentos que nunca esquecemos, marcamos encontro no parque de estacionamento, estava um calor insuportável, não havia sombras nem pessoas, parecia que de repente éramos só nós a terminar o que já não fazia sentido. Cumprimentou-me com dois beijos na cara em sinal de paz, estava irritantemente feliz e arranjada, levemente bronzeada. Trazia uma blusa clara de alças finas que atavam nos ombros, deixando expostas as covas triangulares do osso da clavícula. Quantas vezes ali passei demorado por serem tão perfeitas.
Naquele momento, lado a lado como no casamento, não podíamos ser mais contrastantes, ou então verdadeiros como nunca havíamos sido. Talvez fosse isso, não havia máscaras, ocultações, o mundo era cru e ela ali estava finalmente transparente. Subterrado na segunda grande ressaca do ano, não aguentava mais aquela transparência que feria os olhos, nem por detrás dos óculos de sol ela diminuía, por isso acelerei a despedida com dois beijos na cara.

Hoje ao fazer a mala lembrei-me dela e sempre que faço a mala para não ir de férias lembro-me dela. Seria errado extinguir toda e qualquer memória, mas no início pareceu-me o melhor e desfiz-me de tudo que a pudesse trazer, e o que não se desfazia mergulhei em águas profundas inacessíveis. Julguei durante anos nunca ter acontecido, era a vida de outro homem que vira num filme ou lera em qualquer lado. Pessoas felizes em trajes felizes. Mas o cheiro dela, aquelas saliências que conhecia tão minuciosamente voltavam em sonhos de tempos a tempos, rasgando as finas camadas de sedimentos de memórias, infiltravam-se perturbando para sempre as madrugadas. 


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

coagular

Folhas em branco são como trituradores de pensamentos, ficas especado a admirar o cursor no topo, aquela barra intermitente no fundo agreste e as tuas ideias vão sendo reduzidas a estreitas tiras de entulho. É que nem as podes enviar para a reciclagem, ficam tão reduzidas que um simples sopro é capaz de as dispersar. Normalmente é assim que começa. Depois decido fazer café, espreito os restos que possam ter ficado esquecidos pelo frigorífico ou pelas latas no armário, há bolachas que aguentam meses até ficarem impróprias para consumo.
Esta deslocação da cadeira à cozinha pode ser altamente produtiva, mas em noventa por cento dos casos só acumula migalhas entre as teclas. É claro que um estômago reconfortado permite que o cérebro se dedique à elaboração de ideias, em vez do constante pensamento de insatisfação e de imaginar bifes suculentos mal passados pela grelha, com ovos e batatas fritas.
Agora fiquei com fome.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

bisonho

"Bom dia Sílvia!" Disse-lhe com um aceno. Ela torceu o nariz e compreendi que lhe tinha trocado o nome. Não voltou a falar-me durante o resto do dia, evitando ouvir a justificação para o estranho escambo de prenomes. Toda a gente sabia que era um lapso meu chamar Sílvia à Rosário e fazia um esforço sempre que a via para não fazer cagada, mas estava distraído, a pensar na morte da bezerra quando ela passou e disse "olá jeitoso!"
Era uma coisa sem explicação, a Rosário e a Sílvia não tinham nada em comum, nenhuma característica que levasse a confundir uma com a outra e a troca era apenas num sentido, nunca chamava Rosário à Sílvia, aliás, não chamava Sílvia a mais ninguém até porque não havia outra, a não ser à Rosário e é claro à própria Sílvia. Elas até eram amigas, mas pela cara dava para perceber que tinha ficado eriçada. Ninguém gosta que lhe troquem o nome, mas não era caso para tanto. Uma pessoa até se habitua a ser chamada de outras coisas, posso dizer que já ouvi de tudo e até tenho um nome bastante vulgar.
Às tantas desconfiava que eu estava a pensar na Sílvia, se calhar até pensava, ficava sem fôlego cada vez que ela esvoaçava sem passar cartão, de saltos entoando pelo pavimento e o nome ressoava na minha cabeça… Sílvia! Podia repeti-lo vezes sem conta sem enjoar. Era natural que a Rosário ficasse aborrecida, mas não era motivo para me dar aquele nariz torcido antes de virar a cara com asco, porque foi-se a ver e até gostava dela sem saber e por isso lhe trocava o nome.


bisonho: carrancudo... entre outras coisas

sábado, 2 de agosto de 2014

mala

Sou péssimo com números, sempre fui, é como se não encaixassem em lado nenhum, insípidos e frios, desprovidos de colorido, e o problema não se resume a decorar números de telefone, é mais abrangente que isso. Lembro-me da dificuldade que foi aprender as horas, a tabuada, as medidas, mas quando substituía os números por letras, como na numeração romana, tudo fazia mais sentido.

O idiota do meu primo era muito melhor com os números, todas as manhãs decorava o valor que existia na “mala” e a minha avó ficava à espera que o António Sala ligasse e era uma emoção ganhar cinquenta contos ou o valor que lá estivesse. Só conseguia imaginar uma mala gasta, com os fechos avariados, cheia de notas de quinhentos, e punha-me a tentar calcular quantos gelados de gelo poderia comprar com tanto dinheiro, e por isso nunca conseguia estar atento ao valor, ainda menos decorá-lo, e assim a minha avó tinha uma predilecção pelo idiota que decorava números. Aquilo aborrecia-me porque ele não sabia ler MCMLXXXVI, mas decorava o valor que estava na “mala”.

Cinquenta contos parecia uma pequena fortuna, mas eram só 100 notas de 500 escudos, 250 euros… vá, se fosse agora dava para passar cinco noites em Benidorm, um quarto para duas pessoas num apart-hotel ranhoso com piscina a 700 metros da praia. Odeio números.  


terça-feira, 29 de julho de 2014

idiota

Irrita-me ter uma ideia, uma daquelas mesmo boas que começava como todas as boas ideias supostamente haviam de começar. Mas esta coisa da preguiça, esta pouca vontade de pegar na caneta e assentar e porque afinal parecia tão boa, que dificilmente a esqueceria, repetindo para mim três vezes exactas as palavras como começava... e agora é só uma folha em branco.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

brava

Entrou na gruta com os pés enlameados e o javali ao ombro de língua pendurada a pingar sangue. Estava exausta, primeiro da caçada e depois o caminho carregando o bicho, debaixo de uma chuva que parecia não ter fim. As peles que a cobriam estavam pesadas, encharcadas e o trilho de volta à caverna transformara-se numa massa de lama e pedras soltas. Pousou a lança antes de se desembaraçar da pesada carga que os alimentaria nas próximas semanas, aproximando-se da fogueira no centro da gruta para se aquecer.
Onde é que ele anda? Terá grunhido para si. Despiu as peles de auroque enfeitadas com conchas e sentou-se perto do lume reconfortante. Quando ele regressou com uma bolsa meia cheia de bagas, já o sol pairava na linha do horizonte e ela dormia seminua, o corpo musculado marcado por cicatrizes das caçadas e batalhas.
Não acredito! Grunhiu o macho na entrada da gruta, não viste que tinha acabado de limpar? Encheste tudo de lama e sangue. Sangue, sabes o quão difícil é tirar nódoas de sangue?
Ela acordou estremunhada, mas não se levantou ou se importunou pelos grunhidos dele.
Onde é que andaste? Quis saber num dialecto primitivo com poucas silabas, no seu tom sempre altivo de dominância feminina.
Achei bagas. Disse o macho, engolindo em seco e aproximou-se a medo dela, oferendo a bolsa com os frutos. Comeu tudo sem partilhar, lambendo os dedos e a boca satisfeita. Ele ainda estava ali especado a olhar, aterrorizado, sem saber o que dizer. Mesmo sem os adornos e pinturas com que se enfeitava, era dona de uma beleza assustadora. O cabelo escuro brilhante, entrançado com contas de ocre, a pele levemente dourada do sol e aquele olhar de lanças frias que lhe acertavam sem desviar.
O javali não se cozinha por ele. Disse-lhe a guerreira, com os lábios sensualmente vermelhos dos frutos. Anda, vai tratar disso, despacha-te que tenho fome!
Arrastou o javali para o exterior onde lhe retirou a pele e depois cortou a zona das costelas com uma lâmina em sílex, colocando sobre as brasas da fogueira suspensa a carne pelos ossos até ficar cozinhada. Ela não tirava os olhos dele, seguindo os movimentos, fazendo comentários sobre o tempo que ele demorava, não gostava de o ver com o cabelo em desalinho preso no topo com um pedaço de tendão de musaranho, e aquelas peles largas de urso que usava faziam-no gordo. Começava a ficar irritada e excitada, talvez fosse das bagas, ou o cheiro que ele emanava enquanto suava para se livrar das manchas de sangue.
Acariciou-se debaixo do pedaço de pele que lhe cobria o sexo, estava húmida mas os dedos não seriam suficientes para apagar o fogo que sentia. Levantou-se e caminhou decidida na direcção do macho que estava de cócoras distraído, raspando como podia o sangue salpicado. Aplacou-o pelos cabelos como um coelho agarrado por uma águia, arrastando-o para junto da fogueira sem oferecer resistência, deslizando pelo chão imaculado, arrancou-lhe as roupas e com uma mão no pescoço, quase asfixiando, montou-o até a carne estar assada.
Dorido, sacudiu as areias e pequenos galhos da fogueira que se tinham cravado nas costas e nádegas. Ela agarrou o naco maior e despedaçou a carne junto ao osso, engolindo grandes pedaços ainda quente e sem tempero. Sentou-se junto dela, mas não muito junto, aguardando que ficasse satisfeita e lhe atirasse os restos, como um cão obediente à espera do osso. Arrotou alto, sinal que estaria cheia, toda besuntada de carne e sangue, recostada sobre as peles. A saliva crescia-lhe na boca, estava esfomeado depois de tanta actividade, ainda lhe doíam as costas e o pescoço, marcado pelos dedos dela. Atirou-lhe um pedaço de carne preso ao osso que rolou pelo chão, esticou-se para o apanhar, mas quando o alcançou na extremidade, ela puxou-o por uma perna, arrastando-o até junto de si com a mesma facilidade com que esquartejava um alce.
Não tinha como escapar, ela voltava-o para cima e o chão fugia dele, e ela prendia-o enquanto deslizava a sua mão desde o tornozelo até o agarrar no membro flácido, presa fácil.
Ainda não estou satisfeita, disse rouca de libido, mergulhando os dedos dentro de si e depois colocando-os na boca do macho que os lambia obediente. Era bom, uma mistura temperada de carne de javali salgada, faltava talvez um pouco de piripiri, mas o Brasil só seria descoberto onze mil e quinhentos anos depois.

Acariciou-lhe o membro antes de deslizar os lábios por ele, sentindo-o endurecer na boca à medida que o sangue enchia os corpos cavernosos. Fechou os olhos, entregando-se sem oferecer resistência, era como se a lança já o tivesse atingido e só esperava a morte. Sorriu satisfeita, vitoriosa, mostrando pequenas pevides pretas das amoras entre os dentes. Sentou-se sobre ele, montando-o mais uma vez como se fosse um animal manso ou moribundo, domesticado, cravando-lhe as unhas no peito para se segurar enquanto o galopava com força, amazona de seios duros.


sábado, 26 de julho de 2014

solecismo


A paciência tem limites e escoa-se como areia em ampulheta, enquanto o gajo se diverte, deixa-me a obrigação de relatar os factos, mesmo que isso acabe comigo. No início achei que era sorte, agora começo a pensar que é um desperdício de talento, podia estar a escrever sobre algo mais interessante e com conteúdo, em vez de estar praqui a relatar as aventuras e desventuras deste Don Juan de trazer por casa. Mas já pagou adiantado, é esperto o Cigano, tem olho para o negócio, que sirva de lição a mim e a vós que caís na tentação de lhe achar graça, abram esses olhos. 
Mas adiante, já falta pouco para despachar a encomenda, agora que o leite está derramado, de nada vale chorar sobre o branco. Da última vez ficamos no mesmo sítio mas por pouco tempo, não vou entrar em pormenores a respeito da loira e do Maltês, só acrescentar que foram interrompidos pela estrangeira da blusa das andorinhas que não se estava a sentir bem e quando voltou da casa de banho, numa segunda volta, encontrou a mesa ocupada por outro grupo de gente. Não estava habituada a beber tanto, acontecia a quase todos os estrangeiros que aqui chegavam com muita garganta, muito paleio e pouco estômago! Eu isto… eu aquilo… e depois era o “ai deus me ajude!” neste caso sobrava para o Maltês, que não era deus mas sentia-se imortal agarrado pela loira, logo ia dar tudo ao mesmo. Ainda lhe passou pela ideia chamar um táxi, mas nem sabia pronunciar o nome da rua, não era longe, pelo seu pé o mais certo era cair numa valeta e só ser encontrada um mês depois. A cena até foi divertida, pelo menos para mim que já estava com o copo vazio e cheio de sono, não tenho pedalada para isto. O Maltês coberto pela loira e chegou-lhe a outra ao lado muito lívida a bater-lhe no braço, olha, preciso que me leves a casa! A dos calções curtos até pulou assustada com a assombração, mas pior foi quando um jacto de vómito saltou pela boca pálida, aljofrando tudo num raio de, vá lá, três metros. Compreendem agora a vantagem da distância. 
Aljofrar! Andava mesmo desejoso de usar esta palavra, talvez não se adeqúe ao contexto, salpicar de vómito não é bem o mesmo que “aljofrou de pranto a lápide sob a qual jazia o morto…” ou “as pétalas aljofravam-se de orvalho na manhã fria…” mas uma das poucas vantagens de narrador é ter o poder de escolher e por assim dizer, vomitar a torto e a direito palavras, mesmo que não sejam as mais usadas. Retomemos ao que nos trouxe aqui. Lá foi o Maltês levar a estrangeira a casa, a pé para dispersar o cheiro, por um caminho que já tinha feito imensas vezes. À estrangeira pareceu-lhe mais distante do que nunca, uma viagem lenta e interminável quase em silêncio, tomando o ar fresco. O que nos deixa no início da história, a chaleira e o tokaj quente e o Maltês equilibrado a tirar os sapatos. 
Agora fiquei a pensar que talvez seja possível começar por aqui e ir ao contrário, e mesmo assim o enredo fazer algum sentido. Compreendo como estes apartes possam ser irritantes, prometo solenemente que foi o último, e que logo logo termino. 
O Maltês só bebeu o tokaj por educação, era doce e normalmente servia-se frio. Não é um dos meus favoritos apesar da fama e este que o proprietário húngaro ofereceu nem era mau. Ao contrário da maioria dos vinhos, este alcançava o fim da fermentação por ele mesmo. Era um processo interessante, antes de deixar a estrangeira o Maltês explicou-lhe como era produzido, a partir de uvas que eram colhidas tardiamente e cobertas de um fungo que lhes retirava a água, elevando o teor de açúcar. A estrangeira pediu desculpa pela noite, mas o Maltês no fim até estava satisfeito.




sexta-feira, 25 de julho de 2014

analepse

Há narradores de todos os géneros e feitios, os que pairam sobre a acção como almas penadas, os observadores que se contentam em contar a história a partir do que vêem, há o típico comentador desportivo que se emociona com os golos, e depois os intrusos que arranjam forma de entrar em cena. Uma coisa é certa, evitem imaginar-me a levitar por cima da mesa ou colado ao tecto enquanto atento às conversas. Não sou desses narradores com mania de suspensão, nasci com um dom e consigo ver e ouvir e até sentir o que palpita em cada um dos intervenientes desta história sem precisar de me debruçar demasiado. Se prestarem atenção, aquele sou eu sentado à distância a desfrutar do meu gin tónico. Voltemos então ao szimpla kert, ainda não falei da turca com nome estranho.
É precisamente quando o irmão do bochevista chega acompanhado pela moça turca, que a noite do Maltês começa a correr bem. Apresentações feitas, levanta-se o Maltês muito prestável e sempre cavalheiro para providenciar uma cadeira para a moça, ele e o proprietário húngaro são só sorrisos. Até eu lhe sorri, mas ela não viu ou se viu fez de conta. Trazia uma blusa curta a ver-se o piercing no umbigo e quase também se lhe via o peito daquele ângulo, lá foi o Maltês novamente cavalheiro e levou-lhe uma bebida, espreitou e dessa até lhe viu a tatuagem de uma serpente a trepar por ela acima. É fino este, quem diria! E o marido ou namorado ou lá o que ele é, sentado ao lado dela. Quem não achou muita piada foi a estrangeira, cansada de ouvir as teorias socialistas, bebia de todos os copos da mesa, no meu gin ela não tocou. A turca para além da blusa e da tatuagem, tinha um tique divertido de passar a língua sobre o lábio e uma pronúncia difícil de entender. O que pode ser grave quando se ambiciona ascender ao lugar de narrador, mas no caso dela parecia não ser prejudicial, eles ouviam-na atentos, curiosos e sempre expectantes que ela lambesse o lábio em busca da palavra certa. O namorado, irmão do bolchevista, não parecia incomodado pelos olhares que os outros homens lhe atiravam, mas cada vez que ela se enganava numa palavra ou expressão, ele apertava-lhe o braço para a corrigir. E ela obedecia com um sorriso. Ora bem, se até aqui não percebeu patavina do que estou a narrar é porque não leu o que está para trás, acho que apesar das minhas falhas me faço entender e preocupo-me por explicar todos os passos, por isso mais vale não continuar e dar uma vista de olhos ao anterior, o prolepse ou coisa assim, o moço ainda não atinou com os títulos.
Para além de mim, só a estrangeira da blusa das andorinhas reparou neste gesto controlador que lhe pareceu asqueroso. Levantou-se não sentindo o chão seguro, desaparecendo pela zona dos balneários. Foi mais ou menos nesta altura que uma das raparigas que trabalham no bar e normalmente só levanta copos vazios pelas mesas, se aproximou com um shot kamikaze que pousou em frente do Maltês, dizendo que era oferta da mesa em frente. Tem a certeza que não é para mim? perguntou o bolchevista, bastante confiante depois da atenção que a estrangeira lhe tinha dedicado. Ou para mim? Perguntava o proprietário húngaro, habituado a ofertas de ambos os sexos. Não havia engano, era mesmo para o Maltês e na outra mesa uma loira sorria, levantando um shot na sua direcção, fazendo a vodka mergulhar pelos seus lábios exageradamente vermelhos.
O kamikaze desceu pela garganta do Maltês aquecendo-o para a conversa que não precisaria de ter, quando a estrangeira regressou já ele estava na outra mesa, trocando brindes de vodka e triple sec. Entretanto eu perdi-me dos acontecimentos, demasiado electrizado com os calções curtos da loira, esqueci-me da tatuagem da turca e das andorinhas da estrangeira. Os bolsos saiam-lhe pelos rasgos, e até se conseguia ver-lhe a renda da calcinha, o Maltês não precisava de usar muito a imaginação, estava ali diante dele, e ela pavoneava-se deixando-se tocar, beijar, e entre mais um brinde, um recanto menos frequentado, roçava-se pelas pernas dele, quase tinha um ataque do coração.
Nunca se ouviu falar de narradores que têm ataques do coração, mas acontece, só que ninguém fala nisso. Preciso recuperar o fôlego para continuar, já volto…






quarta-feira, 23 de julho de 2014

prolepse

Apostar tudo enquanto a sorte está sentada do nosso lado, e podia ficar por aqui que já é tarde, quase meia-noite e estou cansado, pesam-me os olhos nas órbitas como se fossem de chumbo. Mas quando se é narrador a tempo inteiro, não nos permitimos arredar a atenção, dormir é para os fracos e mesmo que a cena pareça uma reprise, um déjà-vu contínuo, há pormenores que farão toda a diferença. Perdoem-me as eventuais falhas na prosa, as minhas limitações e um grão na asa serão culpas suficientes, mas fui bafejado pela sorte, estava ali quando aconteceu.
Ligou a chaleira para preparar um chá e lembrou-se da garrafa de tokaj que o húngaro lhe oferecera. O Maltês ainda estava na entrada, equilibrado numa perna descalçava o pé direito.
Já te estás a despir? Perguntou-lhe a estrangeira com um sorriso trocista e uma garrafa de vinho. Ganhara o hábito de se descalçar desde que chegará à Hungria, e quando entrou pareceu-lhe normal deixar os sapatos à porta e as meias suadas. Corou envergonhado com a observação, voltando a enfiar a meia e o sapato.
 Sentaram-se no sofá, ela mergulhou uma saqueta na chávena e deixou que ele se servisse do vinho. Só tinha copos rasos, mas ele não tinha vontade de ficar, bebeu meio copo em dois tragos e despediu-se.
Já vais? Disse coberta de desânimo, mas o Maltês estava irritado. A noite até começara bem no szimpla kert, previsão de aguaceiros a norte, com possibilidade de trovoadas e vento forte. Inesperadamente o grupo ganhara novas aquisições e na mesma mesa apertados sentava-se o bolchevista, o proprietário húngaro, o maltês que se descalçava, a estrangeira da blusa das andorinhas, e o irmão do bolchevista com a sua parceira turca.
Podia tentar usar os nomes com que foram baptizados, mas não consegui entender o nome da moça turca, e o “bolchevista” sempre o trataram por bolchevista, e a das andorinhas também tem um nome esquisito, maori ou coisa assim, e não sou muito bom com nomes, por isso vou referir-me às pessoas em questão baseando-me numa característica ou traço de personalidade.
Começo pela estrangeira da blusa das andorinhas, a que chegou há pouco tempo como um dia de chuva no verão, e vive agora no antigo apartamento de Alicja. A mesma que vai chegar a casa e ligar a chaleira, e procurar uma garrafa de tokaj que o proprietário húngaro lhe ofereceu juntamente com uma caixa de pastéis. Não levou o que queria em troca, o proprietário húngaro teria de se esforçar mais. A estrangeira era exigente, perder o chão era requisito e o proprietário húngaro apesar da sua marrafa e dos pastéis e do tokaj, faltava-lhe quelque chose! Depois foi a vez do Maltês. Este não precisa de apresentações nem que lhe some mais nomes, já todos o conhecem e Maltês será suficiente. Quando a chuva chegou, a estrangeira de olhos claros testou-o decretando que a tomasse ali mesmo, num recanto mal iluminado do terraço. Mas o Maltês raramente fazia o que lhe mandavam e muito menos fornicaria uma mulher sem que esta o desejasse. Dou por mim a pensar como mede ele essa intensidade. Ali estava ela a pedir-lhe que a fodesse, e ele a declinar porque não lhe parecia suficiente. Burro seria mais apropriado chamar-lhe.
A estrangeira passou então ao terceiro candidato, o “bolchevista”. Ora ai está uma alcunha apropriada que faz todo o sentido, mas será preciso acrescentar que o “bolchevista” apesar de bem-falante, não costumava ter muito sucesso com as mulheres. Talvez um banho, corte de cabelo e uma camisa de vez em quando, as mulheres apreciam essas subtilezas. E foi assim que encontrei a estrangeira da blusa das andorinhas no szimpla kert, babando atenção para cima do “bolchevista”.
Nesta altura as coisas ainda não estavam a correr bem para o Maltês. Ainda não cheguei a essa parte, talvez esteja a precisar de descansar um pouco, retomar a narrativa pela fresca.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

fuçar



É possível ferir sem que o gume alguma vez toque a superfície frágil da pele e uma finíssima corrente delgada de sangue escorra pelo vértice do corpo.
É possível sim, não sentir o bafo das bebidas a mais que tomamos, nem seguir o olhar à procura das sombras no meio de tantos nomes, não roçar sequer ao de leve se não estamos no mesmo quarto, nem na mesma metade do dia.
É possível a dor. A soma obediente caída na cama de pernas entreabertas, esperando o peso morto fuçar.

Salientava à mesma hora nunca aqui chegar vindo de acolá como previu na cristaleira da família. Deixará de funcionar já no tempo do afonso quarto, mas ligava a tomada cada vez que aparecia para jantar, tirando nabos da púcara com muita destreza. Naquele tempo estranhava saber que pensava em mim e em gumes afiados, ambos citados na mesma página. Não lhe senti a falta quando a cortei, é possível esquecer que sentimos.
É possível sim, ferir sem grito ou uivo. Admitir a natureza áspera num recanto tão obscuro e remoto, mas gostava do controlo do leme, de segurar pelos braços numa amarra, curvada pelo colo tão servil e húmida, mas a pele era desfeita de vidro, fria à tona mesmo na intimidade.
Uma coisa é certa, nunca estivemos tão próximos... a não ser em sonhos impossíveis.


domingo, 6 de julho de 2014

fornício



... ou “Passos Coelho vai apresentar estudo para natalidade” 

Afinal parece que deu poucos resultados aquele "franchising" Governo/Agência de viagens, e depois de mandarem tantos portugueses lá para fora, melhorando um pouco os números do desemprego, agora querem que os portugueses tenham mais filhos. Diz assim o expresso ”blá, blá, blá… apresentação de um estudo encomendado por Passos Coelho para promover a natalidade (…) o Governo deverá tomar medidas para incentivar os nascimentos.” 

Já estou a ver que terão de colocar mais uma adenda à tabuleta Governo/Agência de viagens/Clínica de fertilidade… por mais voltas que dê, não sei como vai o governo descalçar esta bota. Para começar, talvez fosse boa ideia deixar de distribuir gratuitamente contraceptivos nos centros de saúde, substituir as aulas de educação sexual por festas de finalistas, descer a idade mínima permitida para a compra e consumo de bebidas alcoólicas assim para os 14 anos… começava por ai, para incentivar os mais novos! E depois uns subsídios, para quem tivesse muitos e assim os casais podiam ficar em casa em frente à tv todo o dia, bem todo o dia não… se calhar também era uma boa medida baixar um pouco o nível da qualidade da programação, repetir várias vezes ao longo do dia as mesmas novelas, muitos anúncios, ou então passar o discurso do cavaco no dia de Portugal por exemplo, para incentivar o acto de copular… 

Mas os gajos fizeram bem em encomendar um estudo, afinal pago impostos para alguma coisa, nunca me tinha ocorrido que isto seria um problema. Quem não tem filhos nem se apercebe, não lhes sinto falta… mas no futuro, quem vai garantir a minha reforma? Quem vai trabalhar e fazer descontos para que eu possa ter uns anos de descanso? E o que vamos fazer a tantos infantários, escolas e professores, e maternidades, e pediatras, parteiras… e a nestlé…? Quem vai comer as papinhas para bebés? E a dodot, o que vai ser da dodot quando não houver bebés em Portugal? E a super bock? E os festivais de verão quando não houver jovens em Portugal? Que será dos velhos quando não houver quem tome conta deles? 
Não posso estar mais de acordo com o Passos, encomenda-se um estudo e vamos lá resolver a coisa. Se calhar vão recomendar aos jovens que retornem ao país, ou pelo menos as mulheres em idade fértil, e manda-se para fora os velhos, os que já não estão em condições. Se calhar até os púnhamos em icebergues como fazem lá no norte… eles estão muito à frente! E se tudo isso não for suficiente, se calhar em vez de premiarem um audi, premiavam um berço, uma cadeirinha ou 100 unidades de fraldas, sei lá… só estou a ver isto assim de repente, por exemplo o desemprego e a precariedade do mercado de trabalho, o aumento do número de horas de trabalho, a diminuição dos ordenados, aumento de impostos, a instabilidade profissional… não vejo como isso possa ser problemático, nã sei… 

... o que sei é que estamos sempre a ser fodidos, mas desta vez será sem preservativo!


sábado, 5 de julho de 2014

estômago

Subiu os três lances de escadas com a bicicleta ao ombro, o suor escorria-lhe pela fronte, pingando pelo tapete da entrada. Descalçou-se sem desatar os nós e depois descolou a roupa pegada à pele, refrescando-se rapidamente com um duche de água fria. Sentou-se exausto no fundo onde o esmalte ia sendo arrancado à superfície da banheira, pelo corpo corriam-lhe gotas apressadas que se uniam no precipício do ralo. Fechou os olhos, no andar de baixo discutiam, e se não fosse o rádio alto do vizinho maneta, quase que podia ouvir o mesmo de sempre.
O estômago roncou, tão alto que se calaram no segundo, de olhos postos no tecto faziam as pazes por respeito. No apartamento do lado, o velhote baixava o volume do rádio e vinha à janela ver o que se passava. Não tinha almoçado, aguentara o dia com uma carcaça branca barrada com manteiga e um café. Enrolou uma toalha ruça pela ilharga e abriu o frigorífico.
Desde março que a lâmpada estava fundida, mas como se atrasava sempre no pagamento da renda, e a senhoria era compreensiva, pensou ele mesmo comprar e trocar, mas só quando abria o frigorífico é que se lembrava. A ideia desaparecia assim que fechava a porta, porque durante o dia nem lhe fazia grande diferença, e mesmo à noite não era grave, às apalpadelas dava com a garrafa de água reenchida da torneira a refrescar no compartimento da porta.

Havia uma lata de cerveja, ainda presa ao anel de plástico da embalagem de seis. Meteu uma refeição congelada no forno, lavou um talher e ligou a tv. “…austeridade empurra por ano mais de 100 mil pessoas para fora do país em busca de melhores condições de vida.” O estômago voltou a roncar.

terça-feira, 1 de julho de 2014

ofídios



Ela chegara como um dia de chuva no verão, transtornando o marasmo fecundativo dos insectos com gotas obscenas, amotinando de supetão os olhares descomprometidos que se juntavam pelas ruínas de prédios ocupados, onde o mobiliário nunca se combinara e algo habita no forro de cada sofá. O ar então se enchia de ferorvalho, palavra inventada por Kika Castro, soando mais cheirosa que petricor, e ela caminhava rente ao chão no reflexo da iluminação nocturna, como se toda ela deslizasse de sandália aberta. 

Era a segunda noite consecutiva que sonhava com serpentes, enroladas em algas marinhas, oscilando num lento movimento, todas as cabeças me fitavam com as suas pupilas verticais. Não as temi e continuei a descer em direcção à enorme carapaça vazia, ignorando os aviso sobre a que chegava de nuvens cinzentas bordadas na esclavina, alvoraçando os répteis, julgando-me livre dos seus efeitos, não prevendo a tempestade nem o tamanho da vontade que a movia. 

Eu olho tudo e raramente vejo. 

Três ou vinte vezes tentou reproduzir o meu nome acima do ressoar eléctrico, deixando que a chuva a marcasse, chamou-me até acertar o tom. Desmaiavam-lhe pelo rosto partituras a negro caídas dos olhos, o copo vazio invertido na mesa, a blusa colada ao peito e na transparência senti-lhe a perfeição aureolar destacar-se no toque. A boca entreaberta exalava apenas desejo, confundindo a fome com a necessidade que sacudia por dentro, ardendo sem palavras, sem idioma para gritar ou corrigir. Apenas lábios, expectantes por sentir o sal lavado da pele na insipidez da chuva. 

Fode-me líquida, pediu.



glossário mínimo:
petricor: (do grego petros, "pedra" + icor, "fluido eterno" ) é o nome do aroma que a chuva provoca ao cair em solo seco.
ferorvalho: termo inventado por Kika Castro para petricor
http://kikacastro.com.br/2011/07/16/o-nome-das...
esclavina: opa de escravo ou de cativo resgatado
ofídios: Ordem de répteis colubriformes.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

apartamento

Demorei um pouco mais a arranjar lugar para estacionar, ela já estava à porta do prédio, cabelo apanhado num novelo no topo da nuca, pescoço sensualmente vulnerável, andorinhas estampadas na blusa que descia por um dos ombros. Apresentei-me, ela estendeu a mão um pouco fria que segurei na minha bastante quente sem apertar, afinal era da Nova Zelândia.

Sustive a porta em madeira recuperada cedendo-lhe passagem, o corredor sombrio ladeado de caixas do correio, desembocava no pátio comum para onde todas as varandas interiores convergiam. Encaixou os óculos de sol na cabeça para apreciar com a merecida atenção o trabalho em ferro forjado do gradil.
Pelas varandas pendiam diversas floreiras com ervas aromáticas, avencas, e outras plantas, algumas floridas outras quase secas. Tinha sido precisamente aquela disposição das casas e a elegância do ferro que me tinham cativado. O apartamento em si não conquistava, era desproporcionado, alto e mal dividido. Não dei com a chave à primeira, com excepção da mais comprida e estranha que abria a porta de entrada do prédio, todas as outras eram idênticas e algumas entravam na fechadura mas não rodavam.
Não tinhas futuro como assaltante! Disse, puxando a blusa até ao ombro. Se ela soubesse.

Apesar das janelas da frente estarem abertas, o apartamento ainda cheirava a tinta. Já não havia vestígios do perfume de Alicja, e sem mobília parecia que os tectos eram ainda mais altos e as paredes estreitas. Mostrei o óbvio, uma cozinha/sala espaçosa e um quarto com uma pequena casa de banho, em que o poliban encaixava na medida certa atrás da porta.
Se ela for gira podes baixar ao preço, disse-me o Péter.
Fechamos negócio.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

molares

A claridade já enchera o quarto dificultando a leitura da informação que corria nos painéis da estação. Pela hora só podia ser aquele, mas não tinha a certeza de estar na plataforma certa, podia perguntar, mas as pessoas caminhavam com pressa, sem olhos.
Um sinal sonoro entoou pelo recinto, aproximava-se um comboio na linha contrária, difundiam os altifalantes.
A plataforma oposta ficou momentaneamente tapada pela composição de 19 vagões, e assim que as portas se fecharam e o comboio seguiu viagem, instalou-se o silêncio.
Confirmei as horas no relógio, depois procurei novamente o bilhete no bolso da camisa. Alguma coisa estava fora de sítio, talvez o sol. O mesmo sinal sonoro voltou a tocar, desta vez não anunciaram nada. Então algo no interior da boca se soltou. Como um caroço de cereja sem a doçura do fruto carnudo. Cuspi para a mão, um dente molar, com saliências estranhas e raiz, depois mais cinco, grandes e largos, do fundo da boca, angustiado guardei-os na bolsa superior da mochila. lá vinha o comboio...


sábado, 14 de junho de 2014

pousio

Desde que Alicja voltou para Szczecinek, levando o scirocco e as festas divertidas, Jochen deixou de sair de casa. Passam o tempo a trocar mensagens pelo telefone e depois ao fim do dia instala-se em frente ao portátil e adormece online. Chega a dar vómitos quando lá vou acordá-lo.
Não foi difícil convencer o moço a deixar tudo para ir com ela, os pais têm uma residencial perto do lago e ela vai tomar conta do negócio, daqui mais ou menos um mês darão inicio a uma nova e idílica vida. Ele ainda não foi e já lhe sinto falta. É uma maçada este apego, prometi-lhes uma visita assim que conseguir uns dias de férias, mas o mais provável é não nos voltarmos a ver.

Entretanto o “bolchevista” desapareceu e do grupo de quatro que costumava encontrar-se na explanada do Ankert, só resto eu e o bonitão do Péter. Um dia destes encontrei-o em Ecseri piac, a feira da ladra cá do sítio, estava a regatear o valor de um relógio de bolso, pelo menos era o que parecia. Acabamos por ir beber uns copos. Péter é um bom vivant, com trinta anos já feitos e uma grande marrafa, nunca precisou de trabalhar, vai vivendo do aluguer de uma mercearia no décimo quinto distrito e do apartamento onde Alicja já não mora. Também se dedica a uns quantos negócios pouco honestos, mas tudo o que ganha acaba por gastar com mulheres, ou a pagar copos aos amigos.  Como não tem muitos amigos, e os que tem ultimamente andam desaparecidos, decidiu assim do nada comprar um bilhete de avião e foi atrás de uma espanhola que seguia para Malta.

A meio da semana passada ligou-me, tinha uma inglesa interessada no apartamento, mas como não ia cá estar, pediu se eu no sábado podia mostrar. Regateámos as condições… na minha folga, sair do choco para descer até Peste em transportes públicos, parecia-me demasiado. Acabei por aceitar em troca do uso da “máquina” para as minhas deslocações. Já o tinha conduzido uma vez, na M7, quando o ponteiro passou os 200 o gajo quase tinha uma síncope e jurou que não voltava a acontecer. Um Mitsubishi Lancer Evolution X, em preto mate, 295 cavalinhos, suspensão independente e um acelerador que parece não ter fim. Um pouco quitado demais para o meu gosto, mas a cavalo emprestado…


segunda-feira, 9 de junho de 2014

atracção



Atraída pela luz do candeeiro, sobrevoou junto à janela, mirando-me como se estivesse exposto na vitrina de um restaurante. Como aqueles lavagantes nas marisqueiras, enfiados ao monte num tanque oxigenado à força, uma pessoa aponta e o empregado vai com uma rede e em menos de meia hora está no nosso prato… Como a janela estava fechada, a melga foi pregar para outra freguesia, e eu continuei na minha introspecção sobre humanos expostos em tanques.

Será que as melgas têm alguma predilecção pelo tipo de sangue? Há quem se dedique a isto, até já se fizeram estudos e chegaram à conclusão que melgas e mosquitos são mais atraídos por pessoas que bebem cerveja. Outros estudos revelaram que mosquitos tendem a escolher pessoas de sangue tipo O e são atraídos pela emissão de dióxido de carbono. 

Fica por explicar o motivo de tanta excitação do outro lado do vidro, o meu tipo de sangue é AB e hoje ainda não bebi cerveja, mas talvez eu seja simplesmente irresistível… 






fake xray ads like this piece with a hand skeleton seen inside a mosquito, by Ludo


domingo, 18 de maio de 2014

Bíró



Irritado, atirou com o caderno que embateu na parede mais distante, caindo aberto no chão, precisamente na página em que escrevera “Na comissura do lábio”… encostado à segunda linha esverdeada, no início do canto superior esquerdo, e nada mais que isso. O homem que vivia na sala das cavidades futuras aproximou-se, não reconhecia o caderno fendido, apenas a caligrafia ágil em azul. Rodou a cabeça para conseguir ler sem lhe pegar “Na comissura do lábio”… lembrava-se deste início desgastado, no poder alojado naquelas duas preposições com determinantes, e dois substantivos à solta, vazios de significado na sua solidão. Distraído, pegou no caderno e analisou a encadernação simples, com dois emes pequenos gravados no verso, provando que lhe pertencia mas não se lembrava de alguma vez o ter visto. 

O homem que escreve tinha saído, exasperado batera com a porta. Encostou o caderno ao nariz e aspirou o cheiro a couro. Era demasiado requintado, certamente tinha sido um presente, alguma admiradora, ou um furto bem-sucedido. Folheou o papel pautado coberto de vocábulos e deteve-se na página incompleta, havia ali uma continuação, aquela frase ligava-se pela boca a um corpo. Procurou a esferográfica azul na mesa e sentou-se no lugar do homem que escreve, inspirou fundo e quando se preparava para dar continuidade, a tinta secara. Carregou com força na segunda linha, após o “lábio”, mas a caneta não lhe respondia, deixando apenas uma marca na folha. Impaciente agitou com vigor a caneta para cima e para baixo, várias vezes, mas da esfera só conseguia riscos e mais riscos, sem vestígios de tinta. Até que os riscos comeram a superfície frágil e penetravam nas páginas seguintes, continuados, agredindo as linhas, sem indícios de azul formaram sulcos grotescos. Uma força destrutiva possuíra o homem que vivia na sala das cavidades futuras, irritado, lançou o caderno pelo ar que embateu na mesma parede, caindo aberto precisamente na mesma página onde dificilmente se podia ler “Na comissura do lábio”. 

O homem que escreve voltava, a chave rodava na iminência da fechadura, ele não o conseguiria ver porque pertenciam a diferentes dimensões, mas os estragos no caderno eram irreparáveis. Levantou-se da cadeira onde o homem que escreve se sentava e em quatro passadas alcançou o caderno, regressando à cavidade aberta no tecto em outras tantas passadas, largando no interior do cilindro negro o caderno de capa em couro que se esfumou num outro futuro. 

O homem que vivia na sala das cavidades futuras estava mais calmo, suspenso no tecto como um lustre, esperava que o homem que escreve entrasse na sala a qualquer momento. Ouviu-o arrumar dois sacos de compras, distribuindo enlatados e pequenos volumes entre o frigorífico e uma prateleira da despensa, depois entrou na sala, sentou-se à mesa onde costumava escrever e desatarraxou a esferográfica azul em duas partes, trocando a recarga vazia por uma nova que trazia consigo.
László József Bíró foi um inventor húngaro naturalizado argentino. Apresentou a sua primeira versão da caneta esferográfica na Feira Internacional de Budapeste em 1931 .




Juan Francisco Casas gasta cerca de 14 canetas Bic por quadro, com estilo realista e ângulos diferentes lembrando uma fotografia com dois metros quadrados.

terça-feira, 13 de maio de 2014

beco

Estava sentado num soalho claro de pernas cruzadas, as mãos distantes apoiadas de cada lado com a cabeça inclinada para trás. Quando abri os olhos já não chovia através da abertura que havia no tecto. Otsū entrou no dojo deslizando a porta atrás de si. Os contornos do seu kimono envolvido na claridade, foram tomando cor e forma à medida que se aproximava.
A quantidade de meias amotinadas que se acumulavam sem par à minha frente, rasgou-lhe um sorriso infantil nos lábios. Kawaii!(que fofo em japonês)  Estás a dormir em vez de dobrar as meias! Disse e sentou-se ajeitando o kimono de modo a que nada ficasse fora de sítio ou demasiado visível. Nesse momento reparei que estava a usar um kosode, sem hakama, que é o mesmo que dizer sem calças. O que explicava o constante desviar do seu olhar. (um kosode é um kimono de magas curtas que se pode usar tanto como roupa interior como por cima de outra roupa)
Estava a admirar a chuva! Resmunguei. Podias ajudar-me, era mais rápido.
Ganbatte kudasai! Gritou com uma mão no ar… (nos meus sonhos o tradutor é automático, o que ela quis dizer foi: Dá o teu melhor, força ai!)
Se não me ajudares vou passar aqui o dia fechado a dobrar meias. Choraminguei, atirando uns quantos pares ao ar para enfatizar a dureza da tarefa. Ela sorriu divertida.
Não me importo de ficar a olhar para ti o resto do dia, a resmungar com as meias. E não faças esses olhinhos que não te vou ajudar, farta de dobrar meias ando eu.
Bufei arreliado, escolhendo aleatoriamente meias do monte, tentando emparelha-las pelos fundos. Ela continuou o sermão: Se ainda me convidasses para irmos para um beco, agora dobrar meias…
Otsū! Um beco?! Exclamei incrédulo com o que acabara de ouvir.
Ela corou até à raiz dos cabelos. Estava a brincar! Vá, vou dar-te uma ajuda. Disse acendendo uma lamparina de esperança em mim, mas as mãos dela andavam perdidas pelos bolsos tecidos com frágeis flores de cerejeira. Levantou-se e veio ajoelhar-se atrás das minhas costas.  Que rica ajuda, pensei.
Cheirava a hortelã e jasmim, com uma delicadeza exagerada, de mãos suaves e leves como penas, apanhou as meadas de cabelo que me caiam pela cara, juntando-as num novelo atado no topo da nuca. Fechei os olhos, procurando sentir o contacto de pele com pele, o coração acelerara umas décimas, era impossível controlar a erecção que sacudia na liberdade do kosode.