sexta-feira, 25 de julho de 2014

analepse

Há narradores de todos os géneros e feitios, os que pairam sobre a acção como almas penadas, os observadores que se contentam em contar a história a partir do que vêem, há o típico comentador desportivo que se emociona com os golos, e depois os intrusos que arranjam forma de entrar em cena. Uma coisa é certa, evitem imaginar-me a levitar por cima da mesa ou colado ao tecto enquanto atento às conversas. Não sou desses narradores com mania de suspensão, nasci com um dom e consigo ver e ouvir e até sentir o que palpita em cada um dos intervenientes desta história sem precisar de me debruçar demasiado. Se prestarem atenção, aquele sou eu sentado à distância a desfrutar do meu gin tónico. Voltemos então ao szimpla kert, ainda não falei da turca com nome estranho.
É precisamente quando o irmão do bochevista chega acompanhado pela moça turca, que a noite do Maltês começa a correr bem. Apresentações feitas, levanta-se o Maltês muito prestável e sempre cavalheiro para providenciar uma cadeira para a moça, ele e o proprietário húngaro são só sorrisos. Até eu lhe sorri, mas ela não viu ou se viu fez de conta. Trazia uma blusa curta a ver-se o piercing no umbigo e quase também se lhe via o peito daquele ângulo, lá foi o Maltês novamente cavalheiro e levou-lhe uma bebida, espreitou e dessa até lhe viu a tatuagem de uma serpente a trepar por ela acima. É fino este, quem diria! E o marido ou namorado ou lá o que ele é, sentado ao lado dela. Quem não achou muita piada foi a estrangeira, cansada de ouvir as teorias socialistas, bebia de todos os copos da mesa, no meu gin ela não tocou. A turca para além da blusa e da tatuagem, tinha um tique divertido de passar a língua sobre o lábio e uma pronúncia difícil de entender. O que pode ser grave quando se ambiciona ascender ao lugar de narrador, mas no caso dela parecia não ser prejudicial, eles ouviam-na atentos, curiosos e sempre expectantes que ela lambesse o lábio em busca da palavra certa. O namorado, irmão do bolchevista, não parecia incomodado pelos olhares que os outros homens lhe atiravam, mas cada vez que ela se enganava numa palavra ou expressão, ele apertava-lhe o braço para a corrigir. E ela obedecia com um sorriso. Ora bem, se até aqui não percebeu patavina do que estou a narrar é porque não leu o que está para trás, acho que apesar das minhas falhas me faço entender e preocupo-me por explicar todos os passos, por isso mais vale não continuar e dar uma vista de olhos ao anterior, o prolepse ou coisa assim, o moço ainda não atinou com os títulos.
Para além de mim, só a estrangeira da blusa das andorinhas reparou neste gesto controlador que lhe pareceu asqueroso. Levantou-se não sentindo o chão seguro, desaparecendo pela zona dos balneários. Foi mais ou menos nesta altura que uma das raparigas que trabalham no bar e normalmente só levanta copos vazios pelas mesas, se aproximou com um shot kamikaze que pousou em frente do Maltês, dizendo que era oferta da mesa em frente. Tem a certeza que não é para mim? perguntou o bolchevista, bastante confiante depois da atenção que a estrangeira lhe tinha dedicado. Ou para mim? Perguntava o proprietário húngaro, habituado a ofertas de ambos os sexos. Não havia engano, era mesmo para o Maltês e na outra mesa uma loira sorria, levantando um shot na sua direcção, fazendo a vodka mergulhar pelos seus lábios exageradamente vermelhos.
O kamikaze desceu pela garganta do Maltês aquecendo-o para a conversa que não precisaria de ter, quando a estrangeira regressou já ele estava na outra mesa, trocando brindes de vodka e triple sec. Entretanto eu perdi-me dos acontecimentos, demasiado electrizado com os calções curtos da loira, esqueci-me da tatuagem da turca e das andorinhas da estrangeira. Os bolsos saiam-lhe pelos rasgos, e até se conseguia ver-lhe a renda da calcinha, o Maltês não precisava de usar muito a imaginação, estava ali diante dele, e ela pavoneava-se deixando-se tocar, beijar, e entre mais um brinde, um recanto menos frequentado, roçava-se pelas pernas dele, quase tinha um ataque do coração.
Nunca se ouviu falar de narradores que têm ataques do coração, mas acontece, só que ninguém fala nisso. Preciso recuperar o fôlego para continuar, já volto…






2 comentários:

  1. Bebe lá o copo de água ;)
    E não te demores muito...

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    1. ehheheheh... já entendi, duas horas depois, funciona a carvão!

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