sábado, 26 de julho de 2014

solecismo


A paciência tem limites e escoa-se como areia em ampulheta, enquanto o gajo se diverte, deixa-me a obrigação de relatar os factos, mesmo que isso acabe comigo. No início achei que era sorte, agora começo a pensar que é um desperdício de talento, podia estar a escrever sobre algo mais interessante e com conteúdo, em vez de estar praqui a relatar as aventuras e desventuras deste Don Juan de trazer por casa. Mas já pagou adiantado, é esperto o Cigano, tem olho para o negócio, que sirva de lição a mim e a vós que caís na tentação de lhe achar graça, abram esses olhos. 
Mas adiante, já falta pouco para despachar a encomenda, agora que o leite está derramado, de nada vale chorar sobre o branco. Da última vez ficamos no mesmo sítio mas por pouco tempo, não vou entrar em pormenores a respeito da loira e do Maltês, só acrescentar que foram interrompidos pela estrangeira da blusa das andorinhas que não se estava a sentir bem e quando voltou da casa de banho, numa segunda volta, encontrou a mesa ocupada por outro grupo de gente. Não estava habituada a beber tanto, acontecia a quase todos os estrangeiros que aqui chegavam com muita garganta, muito paleio e pouco estômago! Eu isto… eu aquilo… e depois era o “ai deus me ajude!” neste caso sobrava para o Maltês, que não era deus mas sentia-se imortal agarrado pela loira, logo ia dar tudo ao mesmo. Ainda lhe passou pela ideia chamar um táxi, mas nem sabia pronunciar o nome da rua, não era longe, pelo seu pé o mais certo era cair numa valeta e só ser encontrada um mês depois. A cena até foi divertida, pelo menos para mim que já estava com o copo vazio e cheio de sono, não tenho pedalada para isto. O Maltês coberto pela loira e chegou-lhe a outra ao lado muito lívida a bater-lhe no braço, olha, preciso que me leves a casa! A dos calções curtos até pulou assustada com a assombração, mas pior foi quando um jacto de vómito saltou pela boca pálida, aljofrando tudo num raio de, vá lá, três metros. Compreendem agora a vantagem da distância. 
Aljofrar! Andava mesmo desejoso de usar esta palavra, talvez não se adeqúe ao contexto, salpicar de vómito não é bem o mesmo que “aljofrou de pranto a lápide sob a qual jazia o morto…” ou “as pétalas aljofravam-se de orvalho na manhã fria…” mas uma das poucas vantagens de narrador é ter o poder de escolher e por assim dizer, vomitar a torto e a direito palavras, mesmo que não sejam as mais usadas. Retomemos ao que nos trouxe aqui. Lá foi o Maltês levar a estrangeira a casa, a pé para dispersar o cheiro, por um caminho que já tinha feito imensas vezes. À estrangeira pareceu-lhe mais distante do que nunca, uma viagem lenta e interminável quase em silêncio, tomando o ar fresco. O que nos deixa no início da história, a chaleira e o tokaj quente e o Maltês equilibrado a tirar os sapatos. 
Agora fiquei a pensar que talvez seja possível começar por aqui e ir ao contrário, e mesmo assim o enredo fazer algum sentido. Compreendo como estes apartes possam ser irritantes, prometo solenemente que foi o último, e que logo logo termino. 
O Maltês só bebeu o tokaj por educação, era doce e normalmente servia-se frio. Não é um dos meus favoritos apesar da fama e este que o proprietário húngaro ofereceu nem era mau. Ao contrário da maioria dos vinhos, este alcançava o fim da fermentação por ele mesmo. Era um processo interessante, antes de deixar a estrangeira o Maltês explicou-lhe como era produzido, a partir de uvas que eram colhidas tardiamente e cobertas de um fungo que lhes retirava a água, elevando o teor de açúcar. A estrangeira pediu desculpa pela noite, mas o Maltês no fim até estava satisfeito.




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