quarta-feira, 16 de julho de 2014

fuçar



É possível ferir sem que o gume alguma vez toque a superfície frágil da pele e uma finíssima corrente delgada de sangue escorra pelo vértice do corpo.
É possível sim, não sentir o bafo das bebidas a mais que tomamos, nem seguir o olhar à procura das sombras no meio de tantos nomes, não roçar sequer ao de leve se não estamos no mesmo quarto, nem na mesma metade do dia.
É possível a dor. A soma obediente caída na cama de pernas entreabertas, esperando o peso morto fuçar.

Salientava à mesma hora nunca aqui chegar vindo de acolá como previu na cristaleira da família. Deixará de funcionar já no tempo do afonso quarto, mas ligava a tomada cada vez que aparecia para jantar, tirando nabos da púcara com muita destreza. Naquele tempo estranhava saber que pensava em mim e em gumes afiados, ambos citados na mesma página. Não lhe senti a falta quando a cortei, é possível esquecer que sentimos.
É possível sim, ferir sem grito ou uivo. Admitir a natureza áspera num recanto tão obscuro e remoto, mas gostava do controlo do leme, de segurar pelos braços numa amarra, curvada pelo colo tão servil e húmida, mas a pele era desfeita de vidro, fria à tona mesmo na intimidade.
Uma coisa é certa, nunca estivemos tão próximos... a não ser em sonhos impossíveis.


Sem comentários:

Enviar um comentário