terça-feira, 2 de outubro de 2012

raiz

Voltei a sonhar com ela, tornou-se um tormento, tantos anos de separação, mais do que aqueles que contamos juntos… e não há noite em que não regresse, tão real que nem suspeito que me encontro num sonho, pura ilusão, criação maligna da minha cabeça em busca da autodestruição.
Lembro-me da mesa, parece um anúncio, toalhas brancas esvoaçantes, pessoas perfeitas num ambiente idealizado, luminoso, diria que radioso, mal consigo ver para além do primeiro plano, mas há erva ou então é tinta verde em contraplacado. Um manjar está preparado no jardim, o meu pai junto ao churrasco que não existe, a minha mãe preocupada com os convidados que já chegaram, com jeitos de etiqueta que nunca lhe conheci.
Vai buscar a tua mulher, diz-me, os pais dela já cá estão.
E eu vou, nem cheguei a pousar a mochila, saio e em seguida estou numa casa que sei minha, mas que não reconheço. Questiono-me sobre o que se passa, o que me terá acontecido para não me lembrar do dia de ontem, terá sido álcool? Nem desconfio dos lapsos de tempo, do caminho que não precisei de percorrer para chegar até aqui, a máquina cose a consciência com um alinhavo.
Lá está ela, em frente ao espelho, vestida com os mesmos tons que a rodeiam, cabeça ligeiramente inclinada apertando uns brincos nas orelhas, não lhe vejo o rosto, não completamente, apenas uma parte, uma ínfima partícula, mas sei que é ela e que me diz sem eu dizer nada, porque não me ocorre dizer nada diante dela.
já estou quase pronta, leva a menina, hoje não sei que tem que não pára de chorar!
Há um berço, um bebé de braços estendidos, e eu pego nela, reconhece-me com um sorriso e eu pergunto-me como é que sei que é minha, aparentemente em voz alta, apesar de estar convencido que não proferi um único som, ao que ela me responde, ainda em frente ao espelho.
claro que é tua, é igualzinha a ti.

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