quarta-feira, 15 de agosto de 2012

lodo

Quatro letras, dois horizontal, sedimento terroso no fundo das águas, [figurado] vergonha, ignomínia, aviltamento, degradação...

Não tinha completado cinco anos quando me apercebi que ao contrário da maioria das pessoas, eu não era capaz de sonhar. Os relatos aterradores de fantasmas, monstros, quedas em espiral, camas mijadas, luzes sempre acesas… eu não sabia o que isso era. Para me reconfortar a minha mãe dizia que toda a gente sonhava, mas que algumas pessoas simplesmente não se lembravam de nada na manhã seguinte. Seria esse o meu caso e ficou por ali. Uns anos mais tarde, o tio de Alcácer ficou lá a dormir em casa por ocasião de uma celebração qualquer, dizia-se que tinha noites violentas, um trauma de guerra, e eu na curiosidade dos onze fique acordado, como um soldado raso de sentinela. Quase que perdia a paciência nessa noite, mas compensou, próximo da madrugada um leve agitar teve início nos pés, subindo pelas mãos que retesavam o lençol, o luar iluminava-lhe o rosto de perfil e a uma expressão agonizante juntava algumas palavras imperceptíveis de aflição. Fiquei maravilhado, não conseguia sequer imaginar o que ele estaria a sentir, como era possível que ele estivesse ali e ao mesmo tempo num outro mundo. Acordou agitado mergulhado em suor. O que fazes aqui rapaz? Volta para a cama… Disse com pouca autoridade. Como era? Perguntei, desperto pela curiosidade. Era horrível, respondeu, com duas quebras em cada canto da boca. Mas é como um filme? Voltava eu à carga… Não, é como o Inferno… Mas sentias dores? Perguntei mais uma vez, não dando sinais de que fosse desistir. É pior que isso… é como ter vermes a comer-te a mioleira… agora vai dormir, se tiveres pesadelos ainda vão dizer que foi culpa minha… Eu não sonho! Disse com muita convicção. Sorte a tua! Terminou o meu tio. Mas para mim não era sorte nenhuma, eu queria sonhar…

Muitos anos depois em Lhasa, conheci um homem velho enquanto fumávamos ópio, contou-me o sonho que acabara de ter, com um sorriso sem dentes que trespassava todo o rosto. Uma mulher, chinesa da província de Gansu, nascida das gotas de orvalho, perfeita flor de lótus, sabor a mel que lhe permanecia na boca. Por cima das nossas cabeças, o fumo desenhava o contorno de corpos despidos, um homem e uma mulher. Eu não sonho, confessei-lhe. Ficou sério, levou demoradamente o narguilé à boca cerrando ligeiramente os olhos, exalou uma outra nuvem de fumo e depois disse. Os sonhos trazem à tona os nossos desejos mais íntimos, e mascaram com trajes festivos os nossos medos. Um homem que nada deseja e nada teme, não é um homem.

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