terça-feira, 7 de agosto de 2012

uade

quatro letras, nove vertical, curso de água temporário num deserto.

Um aguaceiro atirou-se contra a grande vidraça da sala sem que nada o previsse. Cortava o silêncio como uma lâmina que rasga a carne, e no cenário mudo a preto e branco, um fio liquido, vermelho vivo, descontinuava a cena.

Como sabias que é assim que gosto do café?

É um corpo belo despido de memória, habitado por um vazio inexpressivo de sentimentos. Um vaso, recipiente de ar, mente assaltada pela constante sensação de déjà-vu. E por isso pergunta como sei que ela gosta do café amargo, simples, escuro e brilhante sem espuma, a escaldar numa chávena larga de rebordo fino.

As partidas da mente, lembra-se do café mas não se lembra que fomos íntimos, trinta e sete vezes casados no mesmo dia, adormecida mais de duas mil e quinhentas noites ao meu lado até perdermos o rumo.
É assim que o corpo entranha-se no café, e não o café no corpo e ordena que a boca pergunte. Não te lembras de mim, boca? Claro que não, a boca tem fraca memória, apenas cospe o que lhe mandam, sejam perguntas, saliva, escarro e por vezes até sangue, mas isso é mais lá para a frente. O sabor dela tão buliçoso permanece na minha boca.

E a chuva regressa, ainda mais forte, numa desigual disputa pela sua atenção, diverge-lhe o olhar mantendo-o cativo no horizonte sombrio. Olha mas não vê.

Central Park Statue in the Rain

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