domingo, 16 de setembro de 2012

gov*

A mensagem é breve, não ocupa mais que umas três linhas no pergaminho, o primogénito violentamente assassinado, empalado na lança de Taniec, assim como toda a comitiva, nem um só sobrevivente entre homens e mulheres. O imperador emudece, descorado quase perde a postura. Uma legião de guardas imperiais cruza as enormes portas, apontam armas ao Tártaro. Este nem se mexe, tranquilo, feito de humidade fina, fria e penetrante que na estação abafada e com céu puro, cai de noite.

Como pudeste fazer-me isto? Lamenta o Khan, confiei em ti…
Quando os deixei, todos respiravam o leve perfume dos pessegueiros floridos. É uma cilada, sempre lhe fui fiel. Disse o soldado, apelando à sensatez do soberano.
Matem-no! Ordenou.

Mas ninguém obedeceu, as lanças tremeram sem ferir o Tártaro, os rostos dos guardas destilavam o medo, escorrendo pelas goelas, espremido em cada poro. A coragem abandonava os corpos, empestando com maus cheiros o palácio. Matem-no! Tornou a berrar, ninguém obedeceu.
Dai-me uma espada, eu mesmo o mato! E quase que matava, não fosse o clamor sombrio de Nur Jehan, profetizando a negro quem derramassem o sangue daquele pobre diabo. Respirando de alívio, os guardas levam Taniec agrilhoado, mal tratado, amarrado, desacreditado, sangrando sem ferida, preso num quadrado onde só cabe sentado. Em poucos dias torna-se uma sombra, ainda mais assustador, ninguém nas redondezas ousa feri-lo de morte, só resta a Kublai solta-lo no meio do deserto, os deuses que decidam.

Assim pensou, assim fez. Hara Nor não teve melhor destino, não se suicidou porque os mortos não voltam a morrer. Ao quinto dia no deserto, Taniec sentiu planar sobre si o imenso espectro de um Gypaetus barbatus. Há quem não acredite, mas dizem os antigos que o grande abutre dourado pousou mesmo em frente do Tártaro, e este já esgotado de forças, lábios amofinados de areia, lhe sussurrou o seguinte:
Os negros globos que tanta morte viram, alimenta-te primeiro deles, para que lá do alto eu possa seguir sempre a minha amada. Depois, serve-te das minhas entranhas, tendões e carne, dar-te-ão força e resistência contra os ventos que se formam a sul. Por fim, quebra-me os ossos, esvazia-me da massa que os preenche, e o meu espirito viverá em ti e nas asas que te elevam aos céus, para que eu possa amaldiçoar estes e os que hão-de nascer.
E assim foi.

Cerca de um ano mais tarde, a caravana que transportava Hara Nor reaparece em Cambaluc, forçada a regressar por tribos hostis que habitavam a Ásia central. Os emissários foram então conduzidos por mar, incluindo a futura esposa, navegaram para sul ao longo da costa da China, contornando o Vietname, descendo até Samatra, dirigindo-se a Ceilão e India, rumando depois para norte em direcção a Ormuz, sempre sob o olhar atento de um pássaro estranho. Conta-se que a viagem levou dois anos, morrendo metade da tripulação que os acompanhava, mas apesar de todos os perigos que atravessaram, a noiva foi entregue, sã e salva, não a Arghyn Khan que já tinha falecido entretanto, afogado na própria saliva.

*(gobi) deserto em mongol

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