domingo, 12 de agosto de 2012

borrifo

Sete letras, quatro vertical, líquido que se expele da boca apertando os beiços ou que cai em gotas miudinhas...

Não sei se alguma vez sentiram a chuva berrar-lhes ao ouvido, talvez ela já o tenha feito e estavam tão distraídos com o mundo, que nem se deram conta disso… é uma sensação única, é quase como ter um oficial da guarda, vermelho de gritar, que pergunta sem respirar pelos nomes dos teus companheiros, e está tão próximo que sentimos a saliva salpicar-nos a cara, o bafo do tinto que regou o almoço, as aliterações numa pronuncia que nasceu bem a sul … eu corri, além das minhas capacidades, das dores e do peso que se tornavam quase insuportáveis. Quando os alcancei, já o semáforo tingia tudo de verde e o resto já foi dito, rolamos numa luta pelo chão, um bolego na mão errada, um respingo de sangue quente no sobrolho.

Gosto da palavra bolego, para quem só se sentou agora, é nada mais nada menos que uma pedra, um seixo.

Adiante… o certo é que não desmaiei, talvez até quisesse, era o caminho mais fácil, deixar-me por ali caído sob um aguaceiro, desistir de vez dela, já que nem sabe quem sou, para quê esta persistência. E é então que reparo nas gotas, de rosto contra o chão, são elas que me vão levantar da inércia, é que parecendo frágeis, fragmentadas em outras tantas quando embatem no pavimento, vão perfurando com extrema paciência o asfalto. Pois é, o provérbio é antigo, mas nem sempre temos a oportunidade de ver mesmo de olhos abertos…

Conjugo então as minhas forças, vindas sabe-se lá de onde, congelo o sangue à saída do lanho, não há fome, nem saliva ou dor que aflija, tudo em mim é areia que vitrifica. O carro dela já vai lá ao fundo, braceja, esperneia, não vai sem dar luta, fera sem espécie! Entro no outro carro deixado pelos dois homens, na ignição oscila um macaco de expressão suja preso à chave. Pedal ao fundo, deslizo ruidoso pela cidade, pista brilhante à luz amarela dos faróis.

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