segunda-feira, 5 de novembro de 2012

impressão

Dona Filomena sempre vestira e falara como uma professora de província. Ali debaixo de cristo pendurado na cruz, despedaçava um pedaço de giz na ardósia, e no negro nasciam palavras odiosas. Naquele dia anunciou “expressão escrita”, um murmúrio insatisfeito atravessou a classe, e mesmo depois de revelar o tema com um sorriso irónico, o gaiato continuava a fintar o gesso branco, reduzido a palavras pelo deslizamento contra a superfície escura e brilhante do quadro. Engoliu em seco, e com as mãos unidas, não rogando aquele ou outro cristo por ai dependurado, pensou no doloroso encontro com a régua de madeira.

Se bem me lembro era uma régua maciça, nascida não sei de que árvore, sem marcações, cujo único propósito era o castigo. A mão estendida era segura pela ponta dos dedos, e na palma eram aplicados quantos golpes, em proporção directa com a quantidade de erros.

Ainda estava o gaiato de esferográfica a pairar incerta no ar, driblando sobre a linha vazia, e toda a turma já havia partido, enchendo pelo menos quatro ou cinco rectas, letras perfeitas, outras nem tanto, organizadas, provavelmente sem erros. O moço embirrava com as letras, desprovidas de cheiro, cor ou paladar, trocava-lhes a ordem e o som, abdicava da acentuação, não se entendia com a semântica, muito menos com a pontuação… o medo e a vergonha enchiam-lhe o rosto, no apoio da carteira, cruzava as pernas evitando que estas tremessem, e a mão assente junto ao caderno deixava um contorno ressoado, em tudo parecido a uma outra mão que tinha visto, pintada a vermelho no interior de uma caverna.

Os últimos grãos espremeram-se na âmbula superior e a professora deu por terminado o tempo, recolhendo um a um os cadernos. A classe estava frenética, partilhando com contenção e alguma unanimidade as ambições de serem astronautas e jogadores de futebol, ou bailarinas e professoras, cópias exactas daquela que lia, segurando os óculos no delíquio do nariz. O gaiato mantinha-se reservado, nem tentou explicar, cometera um erro gravíssimo, pior que qualquer erro ortográfico, sabia que seria a chacota de toda a turma, zombariam dele até ao fim da instrução primária… e tu, o que é que queres ser? Não respondeu, desligou os sentidos e viajou pelos sulcos do soalho muito velho.

Organizou simetricamente os pequenos cadernos pautados, e da gaveta superior retirou a régua. O silêncio instalou-se confortavelmente num dos lugares vazios para assistir ao rol de condenações e condecorações, que também as havia em forma de quadradinho de papel com um carimbo, quase sempre representaçõs da fauna e flora. Hesitante a professora levantou-se, e dirigiu-se para o quadro preto, deixando bem no centro a palavra “arqueólogo”. Ninguém sabia dizer o que era, ou o que fazia, nem mesmo o gaiato que escrevera “quando for grande quero ser um cientista que cava buracos e desenterra o passado. Vi num livro que o meu avô tem, cavernas com desenhos e ossos de animais grandes, que já não existem. Foram uns senhores que descobriram, estava tudo coberto de terra. Se calhar quando for grande já não há coisas dessas para descobrir, mas posso sempre desenterrar computadores e coisas que agora usamos.”

Nesse dia a professora não usou a régua, mas também não distribuiu prémios.
O gaiato para além de descobrir a vocação, descobriu que afinal gostava das palavras e as palavras gostavam dele, de tal forma que se tornariam próximos no futuro, como amantes.

3 comentários:

  1. Melhor do que a descoberta da vocação, que se calhar não vingou, foi o gaiato ter descoberto o recíproco amor pelas palavras...e o que eu gosto de as ler!! :)

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