domingo, 6 de março de 2016

tâmara

…ou uma improvável história de amor cortada em postas.

A directora da escola esticava o mais que podia o seu minúsculo pescoço pela porta entreaberta. Em contraste, o encarregado da obra não tirava os olhos dos pés; primeiro os da directora da escola cuja voz estridente lembrava giz a arranhar ardósia, depois para os teus. É lamentável que não me lembre dos teus pés naquele dia. Seguravas a porta de costas para nós, mantendo-nos aos três seguros do resto do mundo naquele minúsculo gabinete: o polícia fardado que não sabia inglês, a quem denominarei  de: o teu "cão de fila"; Henri o electricista francês e tradutor pouco credível; e eu, o presumível culpado. Henri reconheceu-te, mesmo de costas, tinha um sorriso aparvalhado e gaguejava a letra de uma música:
"En oubliant ta cruelle froideur
Les mains pleines d'amour,..."
Fechaste a porta na cara da directora da escola abafando os seus agudos, e do encarregado da obra que terá ficado a olhar para o sítio onde antes estavam os teus pés, e cheia de determinação e o cabelo apanhado no topo da nuca, avançaste para nós. Henri levantou-se da cadeira como se um choque de 220 volts lhe tivesse percorrido o corpo e saudou-te com um mademoiselle, mas antes de conseguir dizer o teu nome, já lhe cortavas a garganta com um único golpe do teu olhar gélido.
Os teus olhos passariam rápidos por mim como pequenos bicos-de-lacre, e cairiam como uma maldição sobre o teu fiel "cão de fila" fardado que se aninhava o mais que podia na cadeira, e sem te encarar saiu da sala levando o tradutor não oficial e electricista de profissão com ele. Respiraste fundo, lembro-me, e ocupaste o lugar à minha frente, com uma pequena secretária de permeio, o teu perfume a dar-me tusa, o teu rosto oval perfeito a blindar-me o juízo. Por pouco não me entreguei. 
Estavas tão séria. Remexeste nos papéis que trazias, suponho que davas tempo para que o feitiço fizesse efeito, imaginava quantos não se teriam declarado culpados, só por estarem ali diante de ti, sem brilhos ou pinturas, um fato simples, cabelo apanhado, olhos imensos e tristes, avassaladores, como duas ondas gigantes prestes a engolirem-me. Mantive a boca fechada, o coração atravessado no esófago espirrava sangue pelas veias esticadas. Se falasse, diria que te amava, ou algo mais precipitado. Sentiste o cheiro, o sangue a encher-me a boca, o sabor adocicado e metálico, engoli e continuaste com a tortura, agora o teu nome, que ficou amarrado à minha língua, contorcida para o tentar no espaço contiguo e seco da boca, queria gritá-lo, repeti-lo até esgotar as forças. Mas calei-me, fiquei quieto, paralisado, seguindo os teus lábios desenharem palavras no ar, interrogações, declinações, pausas, uma pausa mais longa que as restantes e então bramiste, e o teu punho bateu com força sobre a secretária que saltou do sítio por ser ligeiramente manca, e despertei do estado semicomatoso e disse que te entendia, que estava apenas um pouco cansado. E repetiste o que já sabia, não me importava de te ouvir durante todas as horas que me restavam de vida, podias repetir infinitamente que duas malas tinham sido subtraídas de uma sala no edifício contíguo, foram por sua vez encontradas subtraídas de todo o dinheiro numa casa de banho do edifício onde estávamos. Havia quem afirmasse que me tinha visto na passagem que ligava os dois edifícios, a descrição era perfeita: pele com manchas, oito patas e um colete reflector. 
Era verdade, tinha estado no outro edifício, já dera ao teu “cão de fila” a mesma história, tinha ido à casa de banho e ao sair perdi-me e fui dar ao outro lado. Mas a expressão dos teus olhos não se aligeirava, estavas mais que acostumada à mentira, embora ela não fosse inteira. Mas como dizer-te que tinha estado a ver os pássaros, sem que o coração me saltasse da boca? 

ici

26 comentários:

  1. Respostas
    1. o texto, presumo :) obrigado e beijos, muitos.

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    2. O texto, sim, porque a foto de perfil é um cadito estranha!! :p

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  2. Além de polvo poeta, temos um polvo romântico :)

    Devias ter dito ... as mulheres impressionam-se por homens que reparam em pássaros :)

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    1. :) podia ter dito, sim, porque vou acabar por dizer coisas mais estranhas...

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  3. fizeste bem em não dizer. ver pássaros não é próprio de gente decente e séria.

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    1. estou a rir alto... nunca me chamaram indecente desse jeito :)

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    2. aqui estou eu a olhar para eles, trovisco...três pardais e duas pardalas :)

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    3. sua indecente e pouco séria pessoa :D

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    4. tshciiii... nunca tinha sido insultada por um polvo esbugalhado...

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  4. Belo, Manel!
    E ali o "estavas tão séria", ao mesmo tempo impõe um ponto de ordem e maior doçura à história.
    Um dia destes ainda escreves um romance. :)

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  5. Uma história doce como a tâmara :)

    Despeço-me com uma vénia :)

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    1. muito agradecido Miss Smile, a tâmara entra no próximo episódio... :)

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  6. Tâmaras... Se enroladas em tiras de toucinho fumado bem fininhas e levadas ao forno, perdem o nome para bem casados ehehehehh
    Polvo? Explica-me lá isso afilhado :)

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    1. que delícia :)
      polvo... polvo... sem espinhas! nã sei de onde veio, mas ficou, o polvo :)

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  7. Agridoce como a tâmara.Atenção à hipertensão que a dita pode provocar quando ingerida em excesso!:))

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  8. tâmara em inglês é encontro e em árabe dedos de luz, em que ficamos?

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    1. dedos de luz é perfeito :) já explico a tâmara... dentro de momentos... talvez amanhã...

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  9. Respostas
    1. é que sou um polvo, pelo menos até à primavera...

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    2. Ah! Claro!
      Tão óbvio e eu não vi. :)

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  10. És uma caixinha de surpresas :) gostei de saber. Manda lá outra posta, a tal onde entra a tâmara :)

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