sábado, 24 de outubro de 2015

enfrear

A nossa conversa começou sem ele saber muito bem em que lado da barricada me ia encontrar. Talvez porque nunca lhe dei muito a saber das minhas coisas, usualmente o tema é trabalho, por vezes conta-me situações engraçadas dos miúdos, ou manipula energicamente o seu novo gadget para me mostrar as fotos das férias. Finjo interesse e esqueço rapidamente o nome dos pequenos.

Reparei como preparou o trecho, pisando cauteloso o assunto como se pretendesse surpreender um urso num bosque repleto de galhos. “É tudo muito bonito”, começou, “mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura”. Sem que ele notasse, tirei do bolso do casaco um blíster de compridos e tomei logo dois. Já estava a prever o que ai vinha, se não era sobre os refugiados, era sobre os sem-abrigo, ou os desempregados. Não fazia outra coisa para além de cavar trincheiras à pressa, estava exausto e então comecei a tomar refreio em pastilhas.

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