sexta-feira, 13 de novembro de 2015

uppercut

... ou a continuação de enfrear, agora que o efeito dos comprimidos passou.

Afinal não o conhecia assim tão bem, mas até que ponto conhecemos realmente as pessoas? Um individuo abre a boca e projecta uma dúzia de ideias, se estiver a discorrer sobre algo numa língua que não lhe deu de mamar, concedo-lhe o benefício da dúvida. Não era o caso, portanto nada lhe concedi. Quando começou com “É tudo muito bonito mas quando nos toca a nós, em nossa casa, a coisa muda de figura” emborquei logo dois comprimidos de refreio.
 Mas ele não tocou nos refugiados nem nos sem-abrigo, deixou de lado os desempregados, não fez sequer referência aos que recebem subsídios. As pastilhas atravessavam sem água o esófago, quando lamentei não ter tomado a embalagem inteira. Duas não seriam suficientes e a vontade de lhe oferecer um espaçamento entre os dentes foi progredindo, enquanto ele abria e fechava a matraca contando como era complicado ter os miúdos em escolas públicas e que uma criança de um centro de acolhimento tinha destabilizado a turma do filho.
Fechei o punho, senti a pele esticar até ao limite nas falanges, os molares quase estalaram de pressão. Na falda da nuca ericei-me como um lobo, se aquilo durasse mais tempo, espuma raivosa escorreria pelos cantos da boca.
Quando caíram no estômago, ele tentava explicar-me como os miúdos eram inocentes, e até tinham achado piada ao rebelde institucionalizado. Mas aquilo não podia continuar, comprometia a aprendizagem dos demais, aquela criança retirada aos pais ou órfã (desamparada) e a viver numa instituição não podia cair assim de repente numa turma de anjos. 
Quando a droga começou a fazer efeito, já não sabia de que lado ficava o fígado. Afastei os pés na largura dos ombros, podia acertar-lhe no queixo, queria vê-lo voar em câmara lenta e desbotado. Conseguia imaginar o som do nariz a partir quando o esmagasse com o calcanhar, a camisa engomada cheia de sangue, só complicava já não me lembrar de que lado ficava o fígado.
Aquilo seria gerido por um ou dois neurónios, um deles mandava que abrisse a boca e ele continuava, não podiam estas entidades que retiram as crianças aos pais, sei lá, dar aulas nesses sítios? Há tantos professores desempregados, podiam ir lá dar as aulas e assim não misturavam essas crianças. Ainda abri a boca no meu estado semi-comatoso e terei dito algo como: Mas como se pode esperar que essas crianças retiradas aos pais voltem um dia a integrar a sociedade se permanecerem enjauladas em instituições? Pois, disse ele, mas um dia se fores pai vais entender, os miúdos não estão preparados para lidarem com crianças problemáticas, são demasiado pequenos.
Infantis (ou imbecis, não me recordo bem), foi o que pensei, iguais aos pais, mas a droga já se tinha espalhado pelo sangue, ultrapassara a barreira hematoencefálica, não permitindo verbalizar a minha opinião, ou arremessar um bonito uppercut com a esquerda.

 There, there. You'll feel better after you take a nap

6 comentários:

  1. Cruzamo-nos com cada imbecil.
    A mim preocupa-me que existam crianças a ser educadas por pessoas assim...

    Ó

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    1. Ó menina, nunca imaginei que o imbecil fosse tão imbecil...

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  2. Há tanto imbecil à solta, era tão bom que os institucionalizassem, assim não se misturavam com os demais.

    Dá nojo

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    1. isso era institucionalizar a maior parte da população... digo eu... :)

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  3. Ah pois. Infelizmente esse tipo de imbecilidade é predominante. São os mesmos que depois criticam as instituições pelas falhas na socialização das crianças.

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