segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

... ou a rapariga que não gosta de livros.

Na Hungria os livros eram absurdamente baratos, o problema residia no facto de estarem cheios de palavras em húngaro. Sabem que há quatro maneiras diferentes de ler a letra “o” e outras quatro para a letra “u”? Na Múzeum körút (avenida) havia umas quantas livrarias e alfarrabistas, de vez em quando desviava-me do meu caminho e ia até lá respirar o pó dos livros.
Cresci rodeado de livros, o cheiro leva-me às estantes da infância. Tive sorte. A minha família não era muito abastada, e com excepção de um ou outro membro, não possuem mais que a escolaridade mínima. Um doutor sabe tanto como um pastor, se nunca viajou nas páginas de um livro. É claro que nascer rodeado de livros não chega. Tenho primos que ficaram pelas aventuras da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada. Mas também tenho outros que devoram literatura, mais viciados que eu, não se contentam por snifar o pó amiúde e possuem verdadeiras bibliotecas privadas.
Crescer sem livros é como aquelas plantas que vingam no cimento, que crescem nas frontarias dos prédios, com o mínimo. Tenho uma amiga assim, uma raridade exótica que floresceu na rachadura do betão de uma auto-estrada. Declarou-me, já farta das minhas insistências, que não gostava de livros e que a leitura do jornal era mais do que suficiente. Não encontro explicação para a minha insistência, não sou de pregar aos peixes, nem aprecio o cansaço que este tipo de lutas origina. Talvez goste dela com demasiada determinação, como se gosta de um filho. Ela está ali, nasceu e é minha obrigação zelar que siga pela vida absorvendo o pó dourado, provando a vida em colheres cheias, cuidando que sofra o menos possível. Mas ela não é minha filha, poucos anos nos separam, eu não estava lá quando nasceu. Quando ensaiou os primeiros passos, eu mal corria. Nunca teria conseguido afastá-la dos dias maus, ou das más companhias, alimentar-lhe a alma com histórias de lobos e porcos, e gatos com botas.
Não sei bem porque o faço. Diz com amargura na voz que não gosta de livros, mesmo não tendo lido nenhum. Culpa a escola com a imposição dos textos, ganhou aversão, estimou um ódio muito particular. Aposto que abandonou os livros que lhe emprestei nalgum canto sossegado, ganham uma fina camada de pó enquanto esgrimo até à exaustão. É uma batalha perdida, digo para mim enquanto ato o arnês e coloco a gálea. Ajoelho-me numa última prece a Minerva e parto convicto, sem esmorecer, até à derrota.

Gustav Klimt, Pallas Athene (1898)


14 comentários:

  1. E que tal a banda desenhada, a boa banda desenhada, apreende-se muito. Pode ser que goste :)

    Quando li o teu início lembrei do bairro judeu em Budapeste, não sei mas algo me diz que ias gostar :) as noites são animadas :)

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    1. conheço o sétimo distrito como a palma da minha mão :) sabes, quando te li, lembraste-me alguém com quem nã falo faz tempo...
      a banda desenhada tem un petit problème: não empresto! que sugeres em particular? qual a tua bd de eleição?

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    2. Percebo, pois há coisas que não se devem emprestar. Confesso que já não pego num livro de BD faz imenso tempo, gosto do Corto, do Milo, do Àsterix (há em Bruxelas um museu da BD, giro, vale a pena).

      Tenta ler em voz alta à menina :)

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    3. ehehehehe, isso de ler em voz alta é uma coisa muito íntima...

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  2. há poemas maravilhosos nas letras das músicas de todo o mundo; talvez por aí. depois um livro de poesia, que se abre onde calha, e ler, é só preciso ser no dia certo.

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    1. nã considerei a poesia... acho-a sempre um patamar acima da prosa!

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  3. Manel, li o teu texto várias vezes por gostar muito dele e para poder pensar mais no assunto.
    Como já se devia ter percebido tenho dificuldade em imaginar o meu mundo sem livros, pois, leio muitos porque gosto. Costumo ultrapassar as três dezenas por ano.
    Contudo, cada vez acho mais que a nossa capacidade de tolerância deve ser suficientemente elástica para abarcar pessoas que têm gostos diferentes, tanto mais que neste caso, podemos estar perante uma pessoa que lê através de outros suportes. E hoje esta realidade não é de desvalorizar.
    O que pode suscitar mais estranheza é dizer que não gosta de ler livros sem ter lido nenhum. No entanto, nós sabemos que não temos que experimentar determinadas coisas para percebermos que não gostamos delas.

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    1. só lê jornais, em papel... estou determinado, já pensei escrever para ela, tipo contos, pode ser que resulte :)

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  4. Os meus pais nunca tiveram muito dinheiro para que eu pudesse comprar a quantidade de livros que eu gostava de devorar. Talvez seja por isso que passei uma grande parte da minha infância enfiada na biblioteca. Não sei dizer onde nasce o gosto pelas palavras, mas tenho a certeza que é impossível "obrigar" alguém a gostar de livros...
    Um beijo ciganito e um excelente 2016
    :)

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  5. Manelito;
    Há traumas e aversões que se erguem como pontões de aço sobre nós, decorrentes de situações e acontecimentos que acontecem na nossa vida. Percebi que a tua "mais que irmã" terá criado resistência à leitura por conta da escola, ou de um mau professor, ou algo que se te / nos transcende.
    Mas sem a conhecer, sei que ela é uma jovem especial. Gosta de ti e tu dela, para mim esse dado é suficiente e bastante. E se reparares, de certa forma és uma biblioteca ambulante. Ela sem ter que ler um livro, pode adquirir conhecimento através de ti, e de uma forma maravilhosa.
    Já viste Manelito. És um moço de sorte. Quanta gente ignorante há por aí, mas ela, a tua amiga, não é concerteza.
    Beijinho

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    1. gostava que ela pudesse escolher o que quer ler, que se maravilha-se nas suas escolhas, nas suas reflexões... não nas minhas.

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